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28/02/12

A Vida Inteligente no Universo


Em Memória de Carl Sagan, selecionei o livro, Carl Sagan e I.S. Chklovski, “A Vida Inteligente no Universo”, Publicações Europa-América, tradução da 1ª edição de 1966, porque me marcou para a vida.
O livro é uma viagem através do espaço e do tempo. Além de uma descrição exaustiva do Universo, das galáxias, das estrelas, da sua vida e morte, e, como tal, uma excelente introdução à Astronomia, à Astrofísica e à Cosmologia, este livro discute cientificamente a possibilidade da existência de vida inteligente extraterrestre. É uma procura séria, baseada em factos científicos e não dogmáticos. É uma abordagem verdadeiramente arrebatadora. É um livro que nos faz sentir muito pequenos. As distâncias cósmicas são enormíssimas e, por isso, para nos convencer, Sagan faz comparações usando escalas do nosso quotidiano. Diz Sagan: “representemos o sol como uma bola de bilhar com cerca de 7 cm de diâmetro. Nesta escala, Mercúrio, o planeta mais próximo do sol, ficaria a cerca de 280 cm, a Terra a uma distância de 760 cm, Júpiter, o planeta maior, a cerca de 40 m, e Plutão o planeta mais distante, ficaria a quase 300 m da bola de bilhar. O diâmetro da Terra seria um pouco maior que 0,5 mm (um grão de areia), o da Lua 0,1 mm, e a sua órbita à volta da Terra teria um diâmetro de cerca de 4 cm. Nesta escala minúscula, a estrela mais próxima do Sol, a Próxima de Centauro, a cerca de 4 anos-luz, ficaria a cerca de… 2000 km (!), tão longe que as enormes distâncias planetárias mostradas na nossa escala pareceriam insignificantes por comparação.” Arrebatador. Foi este tipo de deslumbramento que bebi neste livro, que me levou a interessar-me por obras sobre Cosmologia. Neste sentido, sem querer desmerecer outras editoras importantes, aproveito para dar os meus parabéns à Gradiva que a partir, salvo erro dos anos 80, criou uma coleção de livros absolutamente extraordinária chamada “Ciência Aberta”. Através dela conheci a obra de autores tão interessantes e cientistas tão ilustres como Steven Weinberg, Stephen Hawking, Paul Davies, Hubert Reeves, só para citar os que mais gosto. Obviamente que, certamente, um dia aqui estarei para falar de cada um deles. Deus me dê forças e engenho para tal. Hoje, aquela coleção conta já com centenas de livros, todos eles praticamente ligados às Ciências Físicas e à Cosmologia.

A Cosmologia é a área científica, multidisciplinar, que trata da História do Universo. Sobre a sua origem, a sua evolução. Eu diria mesmo que se trata da área científica que mais se aproxima de Deus. Hoje, como todos deveriam saber, a Ciência reduziu o papel de Deus na criação à própria origem do Universo. Pois a Cosmologia consegue explicar-nos tudo o que aconteceu desde que o Universo foi criado, nessa explosão primordial a que chamam de “BIG BANG” datando, inclusivamente, a sua origem há cerca de 15.000 milhões de anos. Tudo o que conhecemos começou nesse instante. Fez-se, literalmente, luz. Esta idade, que parece um número enorme e uma idade elevadíssima, afinal é banal. Com os números que todos dias por aí se publicam e ouvem, sobre o défices, os PIB e companhia, constatamos afinal que o Universo nem é assim tão velho. Afinal a nossa Economia é gerida por números bem maiores. 20% da venda da EDP (fomos bem muito bem lesados e, por isso, esperamos que um dia os responsáveis sejam responsabilizados), rendeu cerca de 3.000 milhões de euros, significando que a empresa vale em euros o mesmo número de anos que o universo tem. Isto é fantástico! Eis a importância das Finanças nos nossos dias. Vive-se para ela. Ponto. Mas esta grandiosidade dos números financeiros dos dias irracionais que, infelizmente, vivemos, atiram-nos, inapelavelmente, para o livro que hoje aqui vos trago: A Vida Inteligente no Universo. É um livro extraordinário por várias razões. Podia ter escolhido outros, porque outros existiram que me marcaram. Mas não há amor como o primeiro, segundo dizem. Mas se existiram razões para esta escolha, eis algumas:
Primeiro:
Faz todo o sentido falar de inteligência, em tempos em que ela, decisivamente, não abunda. Vivemos dias de quase demência coletiva, de pura irracionalidade. Talvez estejamos mesmo a viver o fim da chamada Civilização Ocidental que, como sabemos, é a sucessora da Greco-Romana. Neste sentido, há todo um simbolismo quando parece que o estrebuchar desta civilização comece precisamente na Grécia. Não deixa, curiosamente, de ser um sinal. Um triste sinal. Triste porque, se pensarmos bem, são os que se julgam superiores, porque tendo dinheiro se acham ricos, mesmo que de espírito pobre e, no passado, financeiramente miseráveis e moralmente e humanamente selvagens, que, hoje, vivendo no centro e norte da Europa, maioritariamente protestante (nos Estados Unidos quem hoje comanda o sistema financeiro são WASPs, que tranduzindo, significa, Branco, Anglo-Saxão e Protestante) usam, dizia, pejorativamente, a sigla PIGS (Portugal, Italy, Greece, Spain) ou PIIGS (Portugal, Italy, Irland, Greece, Spain), para caracterizar os países periféricos, que se encontram em dificuldades na zona Euro. Diga-se, por terem ido atrás dos embustes que eles próprios criaram para enriqueceram à custa dos PIIGS. Nada é por acaso. A crise das dívidas soberanas podiam ser resolvidas num ápice se fosse somente uma questão de bom-senso. Mas não o é. Não é por acaso, obviamente, que só incluíram os países católicos nesta sigla, se é que me percebem. Também não é por acaso que dão à luz excrescências desumanas, como o tal de Breivik. Nada é por acaso. O renascimento do Nazismo na Rússia também não é por acaso. Quem diria! Mal eles sabem, por pura soberba, racismo e estupidez, no entanto, que estão a dar um tiro nos pés. A soberba sair-lhes-à pela culatra, para não dizer uma asneira. Afinal, estão, sem o saberem, a enterrar a Civilização em que vivem, e que deviam preservar para as gerações futuras. Mas, mais do que o fim de uma Era, estaremos antes a assistir a um novo ciclo da história. Será a antecâmara da destruição da Humanidade? Seja como for, é também a Dialética a dizer presente, com certeza. Mas qual foi a contribuição destes países arrogantes para a Civilização Ocidental, tal como a conhecemos, estes que agora escorraçam a Grécia e os outros PIGS?

Pois a grega foi imensa. A Democracia, os Sistemas Políticos, a Filosofia, a Ciência, tiveram como berço a Grécia Antiga. Os Romanos deram-nos a Organização do Estado. Os Franceses a República e o Socialismo. Os Portugueses deram novos Mundos ao Mundo, nas Descobertas. Os Americanos a Conquista do Espaço, tal como os Russos. Afinal, nesta atual História, triste, o que é que os países do Norte da Europa e a Alemanha nos deram? Terá sido por acaso que durante muitos séculos foram considerados povos bárbaros? O racismo primário que se traduziu no Apartheid na África do Sul foi obra de quem? O apuramento da raça que se traduziu pelo maior Genocídio da História da humanidade foi perpetrado por quem? Essa excrescência política a que chamaram de Nazismo foi obra de quem? Quando vêm falar de PIIGS sabemos muito bem o que querem. Não nos iludamos com a direita que governa nestes países. É um autêntico cancro da humanidade. A Alemanha, sem dúvida, deu-nos imensos grandes pensadores, cientistas, músicos e escritores, mas também nos deu muitas desgraças. Eles que tanto foram ajudados. Eles a quem os restantes europeus já perdoaram tanta coisa. Eles que, pela pilhagem que fizeram na Grécia na 2ª Grande Guerra, devem hoje aos gregos mais de 80 biliões de euros. Eles que nos deram o Genocídio e o Nazismo, provavelmente, os momentos mais tristes da História da Civilização Ocidental, da própria Humanidade. Ao mesmo nível, só mesmo os tempos da Inquisição da Santa Sé. Mais a Norte, somente a implementação dos excelentes sistemas sociais-democratas são dignos de nota (o que na realidade não é pouco). Sistemas que, inacreditavelmente, hoje, em vez de serem acarinhados e aprofundados pela própria Europa, por eles próprios, por serem autênticos faróis para o desenvolvimento social e político, parece que todos querem destruir, numa orgia frenética de estupidez, numa espécie de rendição absoluta e louvor ao capitalismo primário, selvagem, pornográfico, que tanto mal nos fez no passado, na pós-revolução industrial. O comunismo não surgiu por acaso! Estúpidos! Querem insistir num caminho que já provou ser errado. Não aprendem com a História, porque a ignorância dos homens, como já dizia o nosso Marquês de Pombal, é a fonte de todos os males.
Segundo:
A lição que Sagan nos dá. Ou melhor, as lições. A primeira de todas. Mostra-nos que a Ciência está acima de todas as outras atividades humanas. Afinal, trata-se, de um livro escrito a duas mãos. Este livro foi iniciado por I.S. Chklovski, um Astrofísico Russo que iniciou o trabalho e o publicou na ex-União Soviética. O livro teve um grande impacto e Carl Sagan propôs-se a fazer a tradução do livro para inglês. Mas como se tratava de uma assunto que lhe era caro, propôs que ele anotasse o livro, sempre que o texto inicial lhe puxasse alguma nova ideia. E foi assim, em plena Guerra Fria, pois a primeira edição é de 1966, que os dois cientistas ultrapassaram barreiras físicas, aparentemente inultrapassáveis, para escrever este livro. Sagan dizia que a probabilidade de se encontrar pessoalmente com Chklovski naquele tempo era igual à probabilidade de cumprimentar um extraterrestre. É por isso prova que a Ciência está acima de qualquer questiúncula política. Repare-se que, nem Chklovski, deixou de apoiar o sistema comunista, em que acreditava, nem tão-pouco, Sagan, que obviamente discordava dele, deixou de acreditar no sistema capitalista, com regras, diga-se, que vigorava nos EU. É também por isso uma lição de civismo exemplar. Note-se que nos EU, não muitos anos antes, qualquer ligação à URSS, inclusivamente a colaboração num livro, poderia ser mal entendida e facilmente ser considerado “Um amigo dos comunistas”. Muitos americanos pagaram caro as arbitrariedades desse tempo de “caça às bruxas”, no tempo do Senador McCarthy, uma década antes. O caso mais famoso foi o da perseguição ao cineasta Charlie Chaplin, entre outros. 
Terceiro:
A terceira razão para a escolha deste livro é a lição direta que ele nos dá. Este livro faz-nos sentir pequeninos, muito pequeninos. Por isso, através dele, o nosso ego pode ser reduzido. Ou pelo menos, comprimido. Aconselho-o, também por isso, como leitura obrigatória a qualquer pessoa que ingresse na vida política. Principalmente aos governantes que temos tido. Mas, essencialmente, a todos aqueles que sejam curiosos e se perguntem o que fazemos aqui, para onde vamos. O que somos nós? Haverá vida noutros planetas? Onde acaba o Universo? Como surgiu a vida? Questões que estão por responder e para as quais a Ciência tem vindo a procurar e, nalguns casos, a dar respostas. Neste sentido, este livro foi onde, até hoje, encontrei mais informação. Apesar do livro ter sido escrito em 1966, e apesar de nalguns assuntos poder estar desatualizado, continua a ser uma referência inquestionável para todos os que procuram respostas para estas perguntas, diria, cosmológicas. Mesmo que escrito numa época pré-Modelo Padrão. No entanto, os anos 60 foram anos em que se fizeram algumas grandes descobertas. E importantes. Por exemplo, Penzias e Wilson descobriram aquilo a se chama radiação de fundo cósmica. Uma prova, se calhar a principal prova, da existência do BIG BANG. A explosão primordial que deu origem ao universo que conhecemos. E, de facto, se a Teoria do Big Bang já tinha sido proposta anteriormente, devido observações que apontavam para a sua existência, como a expansão das galáxias descoberta por Hubble que descobriu que as galáxias se estavam a afastar umas das outras e que a velocidade de afastamento era proporcional à distância a que se encontravam. Este modelo pode ser explicado com base num modelo muito simples. Se fizermos umas marcas na superfície de um balão vazio e depois o enchermos, repararemos que as marcas se afastam umas das outras, porque o meio entre elas aumenta. É isto, mais ou menos, que permite explicar o afastamento galáctico. E se as galáxias se afastam umas das outras então, raciocinando inversamente, podemos concluir que nalgum tempo atrás estiveram mais juntas. Recuando sucessivamente no tempo, vamos dar a um ponto inicial… onde tudo começou, numa mega explosão universal, chamada Big Bang. Uma curiosidade relacionada com este facto, que também descreve um pouco como as convicções religiosas podem modificar a proposição de novas teorias, foi a inclusão por Einstein de uma constante, chamada constante cosmológica, nas suas equação da teoria geral da relatividade. Efetivamente, embora não dogmático, Einstein era profundamente religioso. A teoria quântica sempre lhe fez muita confusão, chegando a este propósito a afirmar que “Deus não joga aos dados”! Mas, dizia, Einstein acreditava piamente num Universo estático e imutável. Dado que a expansão do Universo era uma conclusão direta da sua teoria, no caso de não considerar a tal constante, ele decidiu “aldrabar” introduzindo-a nas suas equações. Os Físicos teóricos, diga-se, também nunca se sentiram confortáveis com a sua presença (da constante, obviamente). Dependendo das evoluções que a Física tem vindo a sofrer ao longo dos anos, ela tem sido posta e retirada, consoante as necessidades. Mas esta atitude de Einstein, de introduzir a constante cosmológica para que as suas equações conduzissem a um Universo idealizado, levou-o anos mais tarde a reconhecer que tinha sido o erro mais estúpido que tinha cometido… ou talvez não! Efetivamente, ele teria descoberto a expansão das galáxias muitos anos antes (1915) de esta ter sido descoberta pelas observações do astrónomo americano Edwin Hubble (1929), que deu o seu nome ao telescópio orbital lançado pela Nasa nos anos 90. De notar que as descobertas de Hubble levaram a que George Gamow nos anos 40 propusesse a chamada teoria do Big Bang. Esta teoria, hoje comummente aceite, sempre teve ao longo dos anos alguns opositores, como o britânico Fred Hoyle, cujo termo se deve ironicamente a ele, pois surgiu-lhe quando ao tentar parodiar a tese do universo em expansão, lhe surgiu o termo Big Bang.
Quarto:
A quarta razão foi o facto de que a partir da leitura deste livro, a procura por outros semelhantes, seja de Astronomia, de Física e Cosmologia, nunca mais parou. Foi neste sentido um despertar para uma área extremamente interessante do saber. Que é precisamente o de saber o que somos e o que fazemos aqui! Podia ter escolhido Steven Weinberg, com o seu livro os “Três Primeiros Minutos do Universo"… Um dos laureados com o Prémio Nobel da Física em 1979 (em co-autoria com Abdus Salam e Sheldom Glashow) pela unificação de duas forças da natureza – a eletromagnética e a nuclear fraca. Posteriormente, Carlo Rubbia (que escreveu entre outros um livro excecional chamado o Dilema Energético(*)) também viria a descobrir duas partículas fundamentais (em co-autoria com Wan der Meer), chamadas de Bosões W e Z responsáveis pela força fraca, também ele laureado com o Nobel da Física. Este livro foi portanto escrito numa época em que se consolidava o chamado Modelo Padrão, base da Física das Partículas e da Teoria Quântica dos Campos, que unificava três das quatro forças da Natureza. A nuclear forte, fraca e a electromagnética, apenas ficando de fora gravidade. Ainda hoje não foi possível a unificação das 4 forças da Natureza numa teoria única. Espera-se que a Teoria das Cordas, mais recente, (na qual não acredito) venha a dar uma resposta a este problema. Uma teoria de tudo, cuja descoberta levou alguns autores a declararem que seria o fim da Física. Em sentido estrito, obviamente. Na altura em que o livro foi escrito, os físicos estudavam precisamente formas possíveis que levariam à génese do Modelo Padrão. Este modelo basicamente divide as partículas fundamentais em dois grandes grupos – os fermiões são as partículas que constituem a matéria e os bosões que são as partículas que transmitem as forças (e medeiam as partículas). Esta teoria, embora explicando as três forças da natureza, não consegue incluir a gravidade e uma força mediadora relacionada, o gravitão que, neste caso, só poderia ser atrativa e não repulsiva. Mas isto está em desacordo com a teoria da relatividade geral de Einstein, que considera que a gravidade é somente consequência da curvatura do espaço-tempo. Corpos de grande massa distorcem/encurvam o espaço-tempo em seu redor cuja consequência é medida pela força gravítica que geram.
Numa simples palavra. Este livro foi um GUIA para mim. Obrigado Carl Sagan!

(*) Livro que aconselho a quem tem tido o poder de decisão sobre o plano energético Nacional. Existem por aí muitos burros, preconceituosos, que falam do que não sabem e têm sabido impor a sua visão errada sobre este assunto, tão importante para o nosso futuro. Portugal tem uma dívida energética enorme, que podia ter começado a ser resolvida há trinta anos atrás. Hoje poderíamos ser um país mais rico e próspero se estes imbecis não se tivessem imposto. Até quando?

11/12/11

Madame Curie: no 100º aniversário do Prémio Nobel da Química

A propósito de neste Domingo, dia 11 de Dezembro, passarem 100 anos sobre o discurso de Madame Curie (Marie Sklodowska-Curie 1967-1934) perante a Academia Real das Ciências da Suécia, que lhe atribuiu o segundo Prémio Nobel da sua carreira de cientista, transcrevemos na íntegra um artigo escrito em 1938 no jornal "Notícias de Coimbra" do seu discípulo, o Físico português Mário Augusto da Silva. O Nobel da Química foi-lhe atribuído pelas descobertas do Rádio e do Polónio. Anteriormente, em 1903, tinha recebido o Nobel da Física, juntamente com o seu marido Pierre Curie e Antoine Henri Becquerel, pelos seus trabalhos de investigação sobre o fenómeno da radioactividade espontânea, descoberta por Becquerel. Morreu em 1934 vítima de uma leucemia provocada pelas radiações a que esteve sujeita durante a sua carreira de investigadora. As mesmas que também são usadas para tratar tumores malignos.

No 40º aniversário da descoberta do Rádio - Madame Curie

pelo Professor Doutor Mário Silva

A recente celebração oficial do 40º aniversário da descoberta do Rádio fez novamente correr mundo os dados biográficos mais interessantes dessa gentilíssima figura de mulher que foi Madame Curie. Já quando, em 1923, se celebrou o 25º aniversário, por jornais, revistas e livros de todo o mundo se registaram as características mais notáveis da vida e da obra da ilustre cientista. Na recente celebração, os autores de artigos de jornais e os conferentes encontraram uma excelente fonte de informação no livro que, no ano passado, Eve Curie escreveu e dedicou à memória de sua Mãe. São, pois, geralmente conhecidos os pormenores da descoberta do Rádio e as circunstâncias particulares da vida da sua autora; nestas condições, solicitado amavelmente pelo «Noticias de Coimbra» a escrever, para um número comemorativo da referida descoberta, duas palavras sobre Madame Curie, parece-me que não devo correr o risco de dizer o que por tantos tem sido descrito e contado; mais Interessante será registar algumas, pelo menos, das impressões pessoais que tive o feliz ensejo de colher durante os anos em que Madame Curie foi a orientadora dos meus trabalhos de doutoramento, e durante os quais tive a honra ele ser, em muitas das suas aulas teóricas, seu assistente na preparação das demonstrações experimentais.

O meu primeiro encontro com Madame Curie tenho-o ainda gravado na memória com toda a nitidez, tão funda impressão me causaram a simplicidade de maneiras com que me acolheu e a solicitude atenciosa com que prometeu resolver as dificuldades que se levantaram à minha admissão no seu Laboratório onde todos os lugares, nesse princípio de ano lectivo de 1925, tinham sido já tomados. Não me fez desanimar, antes, pelo contrário, pediu-me que esperasse uns dias por uma resposta definitiva, que seria provavelmente favorável, ao meu pedido de admissão. Registo aqui as palavras que me escreveu dias depois, pelo que elas representam de atenção para com a Universidade de Coimbra:

“Monsieur - Vous avez demandé à être admis à tl'availler au Laboratoire Curie de l’Institue du Radium pour apprendre la technique et pour faire une recherche personnelle. A fin de rendre service à la Université de Coimbra que vous a confié cette mission, je suis disposé à accorder votre admission, bien que vous avez fait votre demande trop tard, quand l’organisation de l’année scolaire était déjà, en príncipe, arrêtée. Veuillez agréer, Monsieur, mes salutations sincères – (a) M.Curie.”

Com o maior alvoroço respondi imediatamente:

“Madame - Tout en vous remerciant beaucoup de votre letre, j'ai le plaisir de vous communiquer que j'accepte tout ce que vous m'avez proposé. Je ferai mon inscription au Secrétariat e j'attendrai l'ollverture de votre cours et du Laboratoire. Je viens d'écrire à M. le Recteur de I' Université de Coimbra et à M. le Directeur du Laboratoire de Physique où j'ai travaillé, en leur rendant compte de ce que vous m'avez proposé et en leur faisa

nt remarquer que vaus accordiez mon admission au Laboratoire Curie pour rendre service à I'Université de Coimbra. Je vous prie d'agreér mes respectueux remerciements - (a) M. A. da Silva”

Carta do Secretário do Instituto do Rádio de Paris, M. Razel, convocando Mário Silva para uma reunião no Laboratório Curie. M. Laporte era assistente de Marie Curie no laboratório com quem Mário Silva ficou a trabalhar. Fréderic Joliot foi admitido no mesmo ano no laboratório, tendo ficado a trabalhar directamente com Iréne Curie com quem viria a casar.

Na falta de um lagar no Laboratório, foi na sua sala de aula que Madame Curie me instalou para a execução dos meus primeiros trabalhos. Assim se explica, em grande parte, a atenção com que os seguiu desde o início, e todo o interesse que por eles tomou. Assim se explica também que eu tivesse ficado em estreita ligação com a organização do seu curso teórico e que eu tivesse tido a honra de a auxiliar nas demonstrações experimentais das suas lições. Nunca mais me foi possível esquecer a emoção que senti quando, pela primeira vez, entrei a seu lado na sala de aula onde, nesse dia, ela ia falar sobre a Teoria das transformações radioactivas a um numeroso auditório que a recebeu de pé e, segundo o costume, com uma prolongada salva de palmas. A experiência que eu tinha previamente montado e verificado era das mais curiosas do curso: demonstração a todo o auditório do ritmo das transformações radioactivas, tornando, por assim dizer, audível as explosões dos átomos do Rádio; um amplificador ligado a um altifalante estava disposto para registar cada uma das explosões dos átomos do precioso metal. A experiência é curiosa porque revela bem o carácter de probabilidade das transformações radioactivas. O estudo teórico destas transformações encontra pois nesta experiência uma excelente confirmação. Madame Curie desenvolveu a sua lição metodicamente, magistralmente, durante os três quartos de hora habituais das suas aulas, e guardou para o final a execução da experiência. Quando acabou e anunciou que eu ia realizá-la, confesso que um peso enorme me oprimiu: a experiência podia falhar, uma das lâmpadas do amplificador, qualquer coisa da montagem podia ter-se desarranjado. Foi com enorme sacrifício que reprimi toda a minha emoção, e comecei com calma aparente a fazer as ligações. Ao pegar no pequeno tubo de Rádio com que eu ta fazer a demonstração, tive a sensação de que podia dar-se uma catástrofe, tal receio tinha de um insucesso. Felizmente, o pequeno tubo de rádio depressa mostrou a sua actividade. Começaram a soar altifalante as primeiras explosões radioactivas, e o auditório, entusiasmado, aplaudiu, misturando o barulho das suas palmas com o ruído das explosões atómicas. Respirei aliviado e quase tive a ilusão, nesse minuto para mim memorável, de que aquelas Palmas também se dirigiam ao ignorado português que ali estava, sentindo que acabara de viver um dos momentos mais emocionantes da sua vida de professor.

Por mais de uma vez, Madame Curie me fez sentir que era com o maior interesse que se empenhava em, como ela diz na carta que transcrevi, «rendre service à I' Université de Coimbra». Quando Doumergue, então Presidente da República, visitou oficialmente o Instituto do Rádio, Madame Curie teve particular interesse em me apresentar; recordo ainda que afirmou ao Presidente que tinha a maior satisfação em ter no seu Laboratório um assistente da mais antiga Universidade Portuguesa, a Universidade de Coimbra.

Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de provar-lhe que, reconhecida, a velha Universidade Portuguesa, a ia homenagear..., não com mais um doutoramento «honoris causa» ou com uma recepção oficial cheia de pompa. De há muito que eu sabia que Madame Curie fugia, sempre que podia, a exibições de grande aparato, que tinha mesmo horror às grandes manifestações oficiais, com discursos e condecorações. Tal como Pierre Curie, Madame Curie vivia exclusivamente para os seus trabalhos de investigação e para o seu Laboratório. A homenagem a prestar-lhe devia pois ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Instituto do Rádio feito à imagem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz. Foi com a alegria de uma criança que acaba de ter um brinquedo desejado, que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investigações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs vir assistir à sua inauguração. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à inauguração do novo Instituto. O professor Doutor Álvaro de Matos, director da secção médica, foi dos primeiros a receber a notícia. O seu entusiasmo não foi inferior ao meu, e desde logo pensou em abreviar a realização de tão importante acontecimento. Neste sentido trabalhei, mas todos os meus esforços foram inúteis. Nove anos depois o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fechadas e, o que é mais doloroso, a morte de Madame Curie irremediavelmente inutilizou o projecto em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À memória de Madame Curie devo esta declaração de consciência.

Para terminar, algumas palavras mais sobre o ambiente de trabalho no, Instituto do Rádio de Paris.

No meu tempo, O Instituto era um pequeno mundo onde se falavam quase todas as línguas; eu era o único português, mas havia, além de franceses, russos, polacos, sérvios, romenos, eslavos, suíços e japoneses.

A direcção científica de Madame Curie a todos se impunha, excepção feita - porque não dizê-lo? - de alguns franceses. Eu sei - toda a gente sabe que a França, pátria adoptiva de Madame Curie, várias vezes homenageou a ilustre Professora; mas pouca gente sabe que o sentido dessas homenagens muitas vezes se dirigiu com acentuada persistência ao nome de Curie. Mais ainda: quase ninguém sabe que, para muitos franceses, Madame Çurie foi sempre considerada a usurpadora de uma situação e de funções que eles teriam preferido ver em mãos de compatriotas. Certa imprensa chegou mesmo, há alguns anos, a fazer campanha contra Madame Curie Registe-se contudo também que ela teve em muitos dos mais eminentes, amigos sinceros, dedicados até à veneração. No Laboratório era por vezes bem sensível o ambiente de frieza feito por muitos à sua volta. Ela devia senti-lo, e daí o seu retraimento. Poucas vezes saía do seu laboratório privativo, e muitos trabalhos faziam-se sem que ela tomasse conhecimento. Isso não impedia, porém, que algumas vezes, esquecidas atitudes passadas, ela não fosse conversar, com o seu habitual sorriso com os que mais se afastavam, e tudo se passava então como se existisse, entre lodos, a mais cordial e amiga das convivências. No «savoir vivre», os franceses dão sempre lições...

A actividade em todo o laboratório mantinha-se durante o ano num ritmo constante com uma média de oito horas de trabalho diário intenso. Madame Curie dava o exemplo. Às 9 horas da manhã, quase sempre, era a primeira a entrar no Laboratório. Ás vezes, porém, havia feriado extraordinário, mais do que feriado, havia festa. Era a festa dos doutorados. No dia do exame de doutoramento de um trabalhador do laboratório, Madame Curie, à sua custa, dava uma festa em sua honra, durante a qual era da praxe que ela fizesse um discurso de elogio do novo doutor. Todos os trabalhadores do Laboratório se associavam à festa, e a aspiração de cada um era, mais do que o doutoramento, a festa e o elogio de Madame Curie. Foi também essa a minha aspiração durante os quatro anos do meu estágio, aspiração que eu tive a felicidade de ver realizada. Dessa festa conservo, contudo, uma recordação que me entristece hoje (1938)... É que Madame Curie, no final do seu discurso, ao formular alguns votos, não esqueceu a Universidade de Coimbra. Fecho os olhos e ainda a vejo, com a sua taça erguida, saudar o país distante que lhe tinha dado a alegria de fundar um Instituto do Rádio, lembrando mais uma vez que seria com alegria que viria visitar-nos para assistir à sua inauguração. Mal diria eu então, ao agradecer comovido a saudação, que os anos iriam passar uns após outros, vazios e inúteis, que o Instituto do Rádio de Coimbra acabaria por ficar esquecido da própria Universidade que o instalou, e que nós nunca teríamos o orgulho de a ver no velho burgo em que nascemos”.

Coimbra, 1 de Dezembro de 1938.

Mário Augusto da Silva.

Note-se que Mário Silva não podia dizer mais, pois estávamos em pleno Estado Novo, com o fascismo e o nazismo em verdadeira ascensão por toda a Europa. A realidade foi que o Instituto do Rádio de Coimbra foi boicotado directamente pelo próprio Salazar.



24/04/09

Primórdios da Rádio em Portugal (IV) - Uma pequena contribuição para a história da rádio e da ciência em Portugal

A primeira emissora de rádio universitária de Portugal...

Uma curiosidade foi o facto de, em 1933, o Professor Mário Augusto da Silva ter criado em Coimbra, juntamente com Teixeira Lopes seu assistente e o Professor Armando Lacerda, director do Laboratório de Fonética Experimental da Faculdade de Letras, uma das primeiras emissoras de rádio do país: a projectada «Emissora Universitá­ria de Coimbra». Apesar dos fins entre ambas serem distintos, é, sem dúvida, a precursora da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), após um interregno de décadas, devido à censura que caracterizou o Estado Novo. Pena que os actuais responsáveis não conheçam esta pequena história. Ela aqui fica para que não possam deturpar os factos do passado...

Ainda não existia a Emissora Nacional, somente o Rádio Clube Português, cujo projecto se iniciou em 1931 (CT1DY), quando, em 1933, a primeira emissora universitária de Portugal começou a operar. A ideia surgiu após a construção de um pequeno emissor [1] por João Teixeira Lopes (obrigado a afas­tar-se da Universidade quando Mário Silva foi expul­so, tal como todos os seus assistentes, em 1947). Escreveu Mário Silva em 1963 [2]: "... A ideia da sua constru­ção resultou, em parte, do aproveitamento de uma magnífica fonte de alta tensão, constituída por umas centenas de pequenos acumuladores, que eu havia adquirido no Instituto do Rádio de Paris para servir na Secção de Radio­actividade do Instituto do Rádio de Coimbra... o pequeno emissor, cuja potência, na antena, não ia além de 10 W, depressa conse­guiu impor-se, fa­zendo, durante largos períodos de tempo, emissões diárias com agrado geral para a grande maioria dos radiófilos da época...". O emissor chegou a ter 400 W de potência. Por este motivo escreveu: "... O que se pedia para pôr a funcionar a Emissora Universi­tária reduzia-se a umas escassas dezenas de contos. Pois nem assim foi possível vencer a má-vontade dos que, incompreensivelmente, se conluia­ram para impedir que à Universidade fosse dada a sua Emissora...".

Esquema do emissor de rádio integralmente construído no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra em 1933 [1]

Mário Silva, no prefácio do seu livro «Elogio da Ciência» escrevia: "... Que poderia ter sido facho aceso no cimo da Colina Sagrada e ter servido assim como centro, altamente simbólico, de irradiação da Ciência que à Universidade compete ensinar em todos os seus múltiplos aspectos e difundir sob todas as formas...". Após um ciclone em Fevereiro de 1941, em que ficaram cor­tadas todas as comunicações de Coimbra com o ex­terior, a administração dos C.T.T. pediu ao Laboratório de Física a cedência do Emissor Uni­versitário a fim de as poder manter. Mário Silva con­cordou, seu director concordou. Na altura, proibido de funcionar devido à oposição da Emissora Nacional, o emissor manti­nha-se contudo operacional. Lamentava-se Mário Silva, muitos anos depois: "... não só não consegui­ra fazer vingar a Emissora Universitária de Coim­bra como o emissor se voltou contra mim por a PIDE se querer aproveitar do caso, aquando da minha prisão..." [2] (em 1946). Ainda não existia a Emissora Naci­onal quando foi fundado por Mário Silva, à mar­gem da Universidade e em colaboração com Antó­nio Ne­ves, Abílio Alagoas e outros radioamadores, o Rádio Clube do Centro de Portugal [2], do qual Mário Silva foi presidente da direcção.

Mas a principal curiosidade, para além da originalidade da emissora de rádio propriamente dita, é que esta foi levada a cabo, exclusivamente, com engenho português. Pois, como escreve Teixeira Lopes, no início seu artigo [1]: "O pequeno emissor de T.S.F., do Laboratório de Física da Universidade de Coimbra, inteiramente construído no mesmo laboratório, é, nos seus órgãos essenciais, uma miniatura dos grandes emissores comerciais realizados pelas casas construtoras da especialidade". Provavelmente idênticos aos usados posteriormente pela Emissora Nacional e RCP. Aqui fica,portanto, a referência ao primeiro emissor de rádio construído inteiramente em Portugal. Pena que este engenho tenha sido igualmente esmagado pela estupidez e mesquinhez daqueles que idolatraram o regime salarazista. Não só a projectada emissora teve que fechar portas, como o precioso emissor desapareceu sem deixar rasto. Também o que escrevemos nestas linhas não consta, ao que sabemos, de nenhuma História da Rádio escrita em Portugal (oficial) ou em qualquer outra língua. O que é de lamentar profundamente. Mas não se estranha, quando toda a documentação relacionada com o Professor Mário Augusto da Silva e seus colaboradores desapareceram do Arquivo da Universidade. Só restam umas poucas páginas das reuniões do Senado que não foram apagadas por ser escandalosamente óbvio. Mas se os nossos historiadores têm dúvidas e pôem em causa o que dizemos, aconselhamos a leitura da referência [1], numa primeira abordagem ao problema. Depois consultem os jornais de Coimbra da altura. Pena que a investigação nunca se faça com deveria ser feita...

[1] J. Teixeira Lopes, O Emissor de T.S.F. do Laboratório de Física da Universidade de Coimbra, Revista da Faculdade de Ciências, Vol. III Nº 1, 1933.

[2] Mário A. da Silva, Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1963.

PS: Para mais pormenores sobre a história da rádio em Coimbra e Portugal ver aqui. Lembramos que o que está escrito nesse "site" sobre "A Emissora Universitária de Coimbra" foi retirado do meu texto publicado no site do Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra e que nós aqui publicamos novamente. Apesar de não sermos ali citados, só é pena que o autor deste "site" dê mais importância ao rádio amadorismo da altura do que à história da rádio propriamente dita.

01/05/08

Elementos para a História da Radioactividade em Portugal (III)

A Triste História do Instituto do Rádio de Coimbra...

Nota Introdutória
A história do Instituto do Rádio de Coimbra é talvez uma das principais provas da tese segundo a qual o Estado Novo é o principal responsável pelo atraso científico e técnico, e consequentemente social, de que Portugal padece, face aos seus parceiros europeus mais desenvolvidos. Este apontamento ficará aqui escrito para quem o quiser ler, na certeza, porém, de que contribuirá para a verdade histórica. Espero, deste modo, contribuir para que a deturpação e o branqueamento dos malefícios do Estado Novo, a que tantas vezes temos assistido, possam ser travados.

Fachada do Pavilhão Curie do Instituto do Rádio de Paris, vista da rua Pierre e Marie Curie


O Instituto do Rádio de Coimbra

Fachada do magnífico edifício pombalino onde funcionou o antigo Laboratório de Física da Universidade de Coimbra. As duas salas superiores da esquina albergam hoje o Museu Pombalino de Física. Neste edifício encontram-se igualmente os museus de Mineralogia e de Zoologia da UC. Pena que a Universidade não transforme todo o edifício em Museu. Ao lado, ainda se pode ver a Sé Nova. Em frente, encontra-se o antigo Laboratório Chimico, também pombalino, transformado hoje em Museu(zito) da Ciência. Ao lado dele, o Colégio das Artes alberga, hoje, a maior parte do espólio ABANDONADO do moribundo MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA. Descendo as escadinhas ao lado da Sé, deparamo-nos com o Museu Nacional Machado de Castro. Infelizmente, pouca parra para tanta uva. Aqui poderia ser criado um dos espaços museológicos mais belos do mundo. Aliás, todo este património é do Estado e ao Estado competeria transformar esta zona num magnífico espaço museológico. Mas, infelizmente, estamos em Portugal! Lá diz o ditado: dá Deus nozes a quem não tem dentes...

Como provámos num post precedente, Mário Augusto da Silva foi obrigado a regressar a Coimbra e à sua Universidade, após a conclusão do seu doutoramento em Paris, em 1929, sob a orientação da insigne cientista que foi Marie Curie. Teve a honra de ter defendido a sua tese sobre electroafinidade dos gases perante três eminentes cientistas, todos eles laureados com o Nobel: Madame Curie, Jean Perrin e Debierne. Impedido de prosseguir no Instituto do Rádio de Paris, apesar dos pedidos de Madame Curie dirigidos à Universidade de Coimbra, e ciente da inevitabilidade do seu regresso, muito cedo teve a ideia de criar em Coimbra um Instituto do Rádio semelhante ao de Paris. Naquele tempo ninguém poderia negar o interesse da investigação nesta área científica. As radiações emitidas por isótopos radioactivos continuam a ter um vasto campo de aplicação na Medicina e, por outro lado, a fusão nuclear constituirá a única alternativa energética viável para as gerações do futuro. É a fonte mais poderosa de energia que o Homem conhece. A energia resul­tante das reacções de fusão nuclear é, ao contrário da subjacente às actuais centrais de fissão, uma energia muitíssimo mais "limpa". Esses reactores alimentar-se-ão com a água dos Oceanos! Infeliz­mente, a tecnologia actual não nos permite, ainda, dominá-la [1]. De notar que, em 1929, a Física estava ainda numa época pré-nuclear, pois a estrutura do núcleo atómico só seria desvendada a partir da descoberta do neutrão, alguns anos mais tarde, em 1933, por Chadwick. Descoberta que poderia muito bem ter sido feita, muitos anos antes, em Portugal, como contaremos num futuro post.

Com vista à criação de um instituto dedicado ao estudo da radioactividade e às suas aplicações na Medicina, Mário Silva iniciou uma série de diligências que viriam a culminar na criação da comissão instaladora do futuro "Instituto do Rádio da Universidade de Coimbra". Essa comissão foi consti­tuída por Mário Silva e Ferraz de Carvalho, como representantes da Faculdade de Ciências, e por Álvaro de Matos e Feliciano Guimarães pela Fa­culdade de Medicina. No princípio de 1931 o Insti­tuto do Rádio de Coimbra estava completamente instalado e pronto a funcionar. Contudo, tinha che­gado a hora da vingança. Infelizmente para todos nós, os fanáticos religiosos que, cerca de oito anos antes, se opuseram veementemente a um seu ensaio, publicado num jornal de Coimbra, estavam agora no poder com a faca e o queijo na mão. Foi pois a intolerância religiosa que impossibilitou a realização de uma obra que poderia ter mudado o rumo do ensino e da investigação da Física em Portugal.

De facto, em 1923, Mário Silva publicou no jornal "A Cidade" um magnífico ensaio sobre a origem da vida, intitulado "Sobre o Problema da Génese da Vida... O problema da geração espontânea". Tinha 22 anos e era Assistente do Departamento de Física da Faculdade de Ciências. Nesses artigos discutia como cientificamente se poderia explicar a origem da vida na terra, sem necessidade da intervenção divina. As suas ideias base­avam-se em princípios científicos e não dogmáticos. A intolerância de alguns professores universitários, pertencentes ao C.A.D.C., Centro Académico de Democracia Cristã, nomeadamente, Oliveira Salazar, Manuel Cerejeira e Ferrand de Almeida, foi imediata. Primeiro surgiram as respostas de forma anónima no mesmo jornal, depois, para se ter uma ideia da polémica levantada, refira-se que num outro jornal (Correio de Coimbra) e durante cerca de três meses, duas vezes por semana, foram publicados artigos de resposta com direito a primeira página! Apesar de terem sido assinados por Ferrand de Almeida, Mário Silva sabia perfeitamente da influência de Salazar e Cerejeira. Começava aqui, na verdade, uma perseguição que se prolongaria até ao 25 de Abril. Obviamente que a não promulgação, anos mais tarde, do Decreto-Lei que criaria o Instituto do Rádio de Coimbra foi o corolário daquela polémica e o início de uma perseguição, pessoal, mesquinha e execrável. Posteriormente, sentido directamente na pele a intolerância e o ostracismo a que fora votado, Mário Silva viria a embrenhar-se arduamente na luta pela Liberdade e a Democracia em Portugal. De notar que o que acabámos de desvendar, fruto da investigação que fizemos, pode também explicar muitíssimo bem a razão porque Mário Silva encabeçou a lista dos docentes e investigadores afastados por Salazar, em 1947, das universidades portuguesas. Praticamente como todos os maiores cérebros portugueses, foi aposentado compulsivamente da Universidade de Coimbra, através do célebre e trágico Despacho do Conselho de Ministros (Diário de Governo, série 1, nº 138 de 18 de Junho de 1947). Isto, claro está, após ter estado preso pela PIDE, de forma arbitrária e sem culpa formada, durante mais de dois meses, no verão do ano anterior. Voltaria a estar detido posteriormente.

A geração espontânea... (imagem retirada daqui)

Em 1931, no entanto, Mário Silva preocupava-se somente em continuar os trabalhos de investiga­ção científica que tinha iniciado em Paris. Não deixou contudo de denunciar a perseguição. Fê-lo, no auge do Estado Novo, cerca de oito anos após a criação do Instituto do Rádio de Coimbra, num artigo publi­cado no jornal «Notícias de Coimbra», no dia 4 de Dezembro de 1938, intitulado «Madame Curie - No 40º aniversário da descoberta do Rádio»:
"... Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de pro­var-lhe que, reconhecida, a velha Universidade portugue­sa, a ia homenagear... A homenagem a prestar-lhe devia, pois, ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe, um dia, que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Insti­tuto do Rádio, feito à ima­gem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno mas agradecido país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz! Foi com a alegria de uma criança que aca­ba de ter um brinquedo desejado que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investi­gações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs deslocar-se a Coimbra para assistir à inauguração do Instituto. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à projectada inauguração do novo Instituto do Rádio de Coimbra para cuja cria­ção, eu e o Prof. Álvaro de Matos, da Faculdade de Medicina, tanto havíamos trabalhado. Na verdade, juntos, haví­amos conseguido obter, tempos antes, do Ministro das Finanças, General Sinel de Cordes, um subsídio de 600 contos com o qual imediata­mente se fizeram as primeiras enco­mendas de di­verso material para as Secções de Física e de Me­dicina que deveriam trabalhar em íntima co­labora­ção. No meu regresso a Coimbra, o material havia começado a ser instalado. Foi, pois, também com alvoroço que o Prof. Álvaro de Matos recebeu a boa notícia da vinda de Madame Curie. Redobrá­mos, por isso, os nossos esforços para abreviar a inaugu­ração. Neste sentido trabalhámos sem des­canso, mas todos esses esforços se quebraram perante uma inexplicável e odienta teimosia, invejo­samente desen­volvida na sombra contra nós, que impediu, sistema­ticamente, a publicação do di­ploma oficial que devia criar os quadros do pessoal técnico e auxiliar, bem como regulamentar o funci­onamento do Instituto. E é por isto e só por isto, sem outras razões que, nove anos depois, neste fim de ano de 1938, o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fe­chadas; o pior - e isso é que é profundamente mais doloroso - é que o falecimento de Madame Curie que entretanto sobre­veio, acabou por inutilizar o projecto da sua vinda a Coimbra em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À sagrada memória de Madame Curie devo esta declaração de consciên­cia...".

No fim dos anos trinta um terramoto algo intenso partiu as ampolas de rádio e as portas fecha­ram-se. Eduardo Caetano [2], grande especialista em engenharia hospitalar e que nunca esqueceu o seu Mestre, escreveu na sua biografia [2]: "Na altura o Prof. Mário Silva não podia dizer mais. Vivia-se então o apogeu do regime salazarista. A verdade é que o Prof. Salazar nunca permitiu a aprovação do Decreto-Lei criando o Instituto do Rádio de Coimbra... No en­tretanto, o Prof. Francisco Gentil veio a Coimbra ver as instalações e pouco tempo depois surgia o Instituto do Rádio de Lisboa! Porque é que Lisboa podia ter um Instituto do Rádio e Coimbra que co­meçara muito antes não? Não há dúvida nenhuma de que o Prof. Mário Silva era, e seria, maldosa­mente hostilizado em escalão muito elevado...".

Acerca do Instituto do Rádio de Coimbra escreveu, igualmente, Sant´Ana Dionísio, num artigo sobre o Físico Salomon Rosenblum "Um Cientista que de­saparece", em Janeiro de 1960: "... Pode-se imagi­nar o que teria sido esse Instituto se tivesse tido como colaborador desde a sua fundação um cien­tista tão ilustre e dinâmico como o Dr. S. Rosenblum...". Aliás, num artigo citado por Sant´Ana Dionísio, es­creveu com amargura Mário Silva: "... agora, 26 anos volvidos, no rodar dos tempos, sobre essa insta­lação, o Instituto continua com as suas portas fecha­das, abandonado e es­quecido pela Universidade que deveria ter feito dele o nosso primeiro Instituto de Física Nuclear e o nosso primeiro Instituto de Onco­logia. Mas não foi assim e, por isso, continuamos ainda hoje a aguar­dar a sua inauguração, não se sabe mesmo até quando...". Finalmente em 1963 escrevia com des­gosto [3]: "Porém, agora, em 1963, ... tudo acabou! As instalações de radiodiagnóstico e de ra­diotera­pia foram desmanteladas e as salas...foram adapta­das a outros serviços. Afastado do serviço docente há muitos anos, por motivos políticos que muito me honram, até mim ninguém chegou pedindo informa­ções ou qualquer sugestão quanto ao destino a dar ao material que constituía o recheio da secção mé­dica do Instituto (espólio que hoje pertence ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica – N.A.). Sei apenas que o material foi desmontado e distribuído pelo novo Laboratório de Radioisótopos, há anos criado na Faculdade de Medicina, e pelo Laboratório de Física da Facul­dade de Ciências, onde continua a existir todo o material, comprado, logo de início, para a sua Secção de Física (que será feito deste material?). E assim, por forma tão insólita, morreu um Instituto que - pode dizer-se - nunca chegou propriamente a viver."

A este respeito quero ainda lembrar as palavras de Eduardo Caetano na excelente biografia que, como discípulo de Mário Silva e conhecedor das injustiças que lhe tinham sido movidas por Oliveira Salazar, resolveu, num acto louvável, escrever: "Os portugueses não poderão deixar de lamentar que este projecto do então jovem físico e cientista Prof. Mário Silva iniciado em Portugal com a colaboração de alguns, como Álvaro de Matos, Carlos Santos e Moura Relvas na Medicina e Luís Carriço na Botânica, tivesse sido abortado devido aos «espíritos maléficos» (Designação atribuída por Mário Silva a todos aqueles que impediram, de alguma forma, a realização das suas obras). Nem se pedia que o ajudassem, a não ser materialmente, mas tão-só, que não o impedissem de trabalhar. Que obra notável se poderia ter desenvolvido para bem de portugueses doentes, para bem da Ciência e Tecnologia, para bem do Homem! Imagine-se só, por alguns momentos, este Instituto a trabalhar com Mário Silva, Salomon Rosenblum, A. Proca, S. deBenedetti e G. Beck e tantos outros nacionais e estrangeiros que viriam atraídos pelos trabalhos que certamente se realizariam e pelo alto nível científico que o Instituto não deixaria de ter. Que pena!".

O impacto que o referido Instituto teria tido no des­envolvimento científico português e no bem estar dos portugueses não é mensurável e a sua proibição constituiu um rude golpe no desenvolvimento da Ciência e Tecnologia em Portugal. Ainda mais porque, em 1940, Mário Silva pretendeu criar uma Escola de Física Nuclear. Acolheu em Coimbra, du­rante a 2ª Guerra Mundial, alguns físicos de renome que, fugidos ao regime totalitário nazi, ali procura­ram refúgio. Conheceu-os no Instituto do Rádio de Paris. Guido Beck (austríaco), Sergio deBenedetti (italiano) e Alphonse Proca (romeno) foram propos­tos por Mário Silva à Universidade, mas a proposta não teve seguimento..., foram perseguidos e acabaram por ser expulsos de Portugal, por serem antifascistas e de ascendência judaica (excepto A. Proca), não fossem infectar os chamados valores tradicionais portugueses. Estes cientistas foram ime­diatamente admitidos noutros centros de inves­tiga­ção. Beck - Universidad de Cordoba, deBenedetti - Carnegie Institut of Technology, Pittsburgh e Proca regressou ao Instituto do Rádio de Paris. Sobre deBenedetti refere Mário Silva [1]:"...Muito desejei fixar este notável investigador em Coimbra, mas, tal como noutros casos análogos, não consegui obter quaisquer facilidades neste sentido, por parte das autoridades oficiais responsáveis. Seguiu para os Estados Unidos da América onde fez uma notável carreira de professor e investigador. Como «Professor of Physics, Carnegie Institut of Technology» escreveu, em 1964, um notável livro «Nuclear Interactions»". Editado pela John Wiley & Sons. Sergio deBenedetti foi membro editorial de algumas importantes revistas, como a «Reviews of Modern Physics» e «Nuclear Instruments and Methods». Proferiu, num ciclo de conferências realizado em 1940 no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra, uma conferência intitulada «Raios cósmicos e núcleo atómico». De notar que Beck e Proca passaram pela Universidade do Porto, onde trabalharam com Ruy Luís Gomes. Mas foi pela mão de Mário Silva que vieram para Portugal. Veja-se o telegrama de Guido Beck dirigido a Mário Silva, pedindo-lhe que fosse rápido nas diligências que permitissem a sua vinda para Portugal. É perceptível o terror de Beck pela chegada dos nazis à França ocupada.

Telegrama, enviado de Lyon, pelo cientista austríaco Guido Beck a Mário Silva a 4 de Julho de 1941. Beck fugia ao regime nazi.

Aproveitando a estada destes cientistas em Coim­bra, Mário Silva dinamizou um curso intitulado "Introduction Physique et Philosophique à la Théo­rie des Quanta", que chamou a atenção da comuni­dade científica internacional e onde participaram outros nomes da Ciência Portuguesa deste século como Magalhães Vilhena, Pacheco de Amorim, Manuel dos Reis e Vicente Gonçalves, entre outros. Existe uma carta de Jean Thibaud solicitando à Universidade de Coimbra as lições aí proferidas, pois Guido Beck terminou em Coimbra um importante trabalho sobre teoria quântica dos campos. A propósito do curso, escreveu Mário Silva: "... Com a saída de Coimbra do Prof. Guido Beck, ficou inutilizada a obra que tencionávamos publicar, em colaboração, intitulada Le champ electromagnétique variable, da qual saíram apenas 48 páginas, em 1942. As lições dos Profs. Guido Beck e Vicente Gonçalves foram publicadas na Revista da Faculdade de Ciências, no vol. X... e são dois valiosos trabalhos".

Eduardo Caetano [2] relata bem a situação vivida no país naquele tempo: "A apatia intelectual que então se vivia era tão grande que, embora con­vidados, ninguém de Lisboa e do Porto se interessou por este notável curso... Infelizmente também aqui os «espíritos maléficos» voltaram a fazer sentir a sua acção obrigando a sair do país o Prof. Guido Beck [7] e interrompendo assim o curso... Para a época o curso era uma pedrada no charco! Era o dinamismo criador contra o marasmo estéril! Era a agitação intelectual insatisfeita contra o imobilismo acomodatício e rotineiro... E daí a oposição sistemática a todas as ideias criadoras do Mestre! Mas, apesar de tudo lu­tava, lutava sempre por um mundo melhor, à sua maneira e no seu campo de acção. Porque a têmpera excepcional de que era dotado o fazia reagir e vencer obstáculos que constantemente e sistematicamente lhe bloquea­vam o caminho. Por inveja e despeito dos pigmeus perante o saber, a inteligência e a força cria­dora do gigante. Eles pouco ou nada fizeram. Muito pouco ou nada produziram, de interesse, de real va­lia. E por isso sentiam-se pequeninos, complexados, infe­riorizados. E daí semear escolhos a barrar-lhe o caminho. E, como eram muitos, mesmo pigmeus, tinham a força do número... Todavia o Prof. Mário Silva venceu. Se lhe tivessem permitido teria feito mais, pela Ciência pura e aplicada, pelo ensino ci­en­tífico. Mas a sua obra existe. É indestrutível. E os gnomos passaram. Ninguém mais falará deles!" Será? Porque foi então votado ao abandono, ao esquecimento e à destruição a sua última obra, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica? Museu da Vergonha Nacional?

A hostilidade para com Mário Silva ficou bem ex­pressa noutro triste acontecimento. Mário Silva foi convidado oficialmente pelo governo francês para, em 1967, assistir ao primeiro centenário do nasci­mento de Madame Curie. Alguns meses antes do honroso convite, propôs ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa a realização de uma sessão comemorativa. Esta proposta não mereceu, lamen­ta­velmente, qualquer andamento. Todavia, em Paris, Mário Silva verificou que a Academia das Ciências de Lisboa, da qual era membro desde 1939, se havia feito representar por um francês em vez de ter enviado um dos seus membros, na qualidade de seu representante. O pior é que aquele representante não assistiu a nenhum dos actos ou sessões comemorativas, nem sequer deu nota que representaria a Academia das Ciências de Lisboa. Para vergonha dos portugueses foi a única Academia das Ciências do mundo que não enviou representante ou delegação nacional [2-3].

Em Coimbra, no início dos anos 30, efectuou os primeiros trabalhos sobre radioactividade em águas termais no nosso país [4]. Especialista em radioactividade, reconhecido mun­dialmente, pôde constatar o quão atrasado estava o nosso país. A investigação científica era quase inexistente. Tudo fez para aplicar os conhecimentos adquiridos em Paris... A sua revolta ficou bem ex­pressa na dedicatória que escreveu no seu livro «O Elogio da Ciência» em 1970 [3]: "... o autor saúda a generosa Juventude universitária de Coimbra que, hoje, como então, e como sempre desde os tempos de Antero, está empenhada em erguer, sobre os escombros de uma Universidade há muito envelhe­cida, as paredes mestras de uma Nova Universi­dade, que seja capaz de, efectivamente, promover o desenvolvimento moral, intelectual e social do país, e possa estar, sem peias nem entraves, ao serviço do desenvolvimento da própria Ciência."

Referências
[1] Carlo Rubbia, O Dilema Energético, Editorial Presença, 1987.
[2] Eduardo Caetano, Mário Silva: Professor e De¬mocrata, Coimbra Editora, 1977.
[3] Mário A. da Silva, Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1963.
[4] M. A da Silva, La radioactivité des gaz spontanés de la source de Luso, Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. I nº 2, 1930.
[5] Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol I-X (1930-1942).

03/03/08

Sobre a Polémica Acerca da Descoberta em Portugal da Lei das Acções Magnéticas...

Uma homenagem ao primeiro Professor de Física da Universidade de Coimbra, e de Portugal, Giovanni Antonio dalla Bella.
Um Contributo para a História da Ciência em Portugal.

A Polémica…

Há anos li no Diário de Coimbra o artigo de Fernando Rovira “Pedaços esquecidos pela História da Ciência” e a minha vontade imediata foi a de escrever algo para o complementar. Porém, resolvi esperar. Por várias razões. Porque sabia que uma resposta ao artigo surgiria. Apareceu com o nome de “Fragmentos da História da Ciência”. Nessa resposta, sob a forma de carta ao director, afirmava o seu autor “… a lei das acções magnéticas foi efectivamente descoberta por Coulomb três anos mais tarde”. No primeiro artigo, baseado num livro [1] do Professor de Física Mário Augusto da Silva [2], grande cientista e democrata português do século passado, o autor surpreende-se com a possibilidade daquela descoberta ter sido feita em Coimbra, três anos antes, pelo primeiro Professor de Física da Universidade de Coimbra, Giovanni Antonio dalla Bella, italiano, natural de Pádua, que chegou até nós pela mão desse insigne reformador que foi marquês de Pombal. A quem se deve realmente a descoberta? A Coulomb que a fez em 1785 ou a dalla Bella que a comunicou em 1782 à Academia Real das Ciências de Lisboa?
Podendo errar. Porque, não vendo qualquer contradição da lei física que rege o fenómeno nos trabalhos do Professor dalla Bella, tendo ele utilizado ímans colocados a várias distâncias e tendo concluído que: “Confrontando os números do cálculo com os da experiência, se conhece que as forças magnéticas dos dois imans que serviram para esta experiência, mostram seguir muito proximamente a razão inversa dos quadrados das distâncias, até à de duas polegadas” [3], traduzindo, portanto, o enunciado da lei, não vejo quaquer razão para a polémica, excepto pelo facto de dalla Bella ter utilizado ímans de maiores dimensões que os de Coulomb. Trata-se de um problema de medida? Mas a lei, que é uma lei fundamental da Física, é válida para ambos. Ou não é assim? Onde está a prova real que demonstra que dalla Bella forjou os seus resultados experimentais? [4]. É certo que o trabalho de dalla Bella tem limitações, mas não deixaria nunca de ser uma referência para a época. E isto, que nos parece tão óbvio, foi completamente esquecido.


Além destas dúvidas que, na minha opinião, são legítimas, surge-me uma outra que me parece relacionada de forma indirecta. Afinal, devemos ou não louvar o trabalho do Marquês de Pombal, nomeadamente na reforma educativa? A pergunta é pertinente porque tem sido ambíguo o tratamento histórico dado à Reforma Pombalina. Depois por uma série de tristes factos, como é exemplo o que aconteceu em 1911 quando o Laboratório de Física decidiu “leiloar num espalhafatoso leilão” [5], parte do espólio do antigo gabinete de física pombalino. Muita coisa se perdeu e só o esforço de Mário Silva permitiu que até nós chegassem autênticas preciosidades históricas sobre os primórdios da investigação e do ensino da Física em Portugal, reunidas num Museu de Física, único no mundo, que criou em finais dos anos trinta [5]. Depois pelo lamentável esquecimento e abandono a que foi votado o Museu após a expulsão de Mário Silva da Universidade, ocorrida em 1947. O Museu só foi reaberto em 1997, isto é, cerca de 60 anos após a sua criação! Coincidência ou não, nem as comemorações do bicentenário da Reforma Pombalina serviram para reabrir o Museu. Nada foi feito na Universidade de Coimbra, nem no resto do país, para celebrar condignamente o bicentenário da Reforma Pombalina, que se deveria ter comemorado em 1972. Que diferença com o que se passou com as celebrações do primeiro centenário!

Não sendo meu objectivo falar do marquês, não posso deixar de referir um excerto de um discurso comemorativo do centenário da Reforma Pombalina de 1772, proferido por um ex-presidente da Républica, orador eloquente, ilustre Mestre de Coimbra, que foi o Professor Bernardino Machado, onde o programa de governo de Pombal é resumido de forma magistral [6]. Nele o Professor Bernardino Machado lembrava também, e muito bem, que tinham já passado dois séculos após Bacon e Descartes, tinha nascido Hegel, e nós marcávamos o passo na doutrina aristotélica! Foi pois no âmbito da reforma do ensino, abrindo as portas à investigação científica em Portugal, que o Marquês criou o antigo Real Gabinete de Physica da Universidade de Coimbra, o qual, segundo uma descrição do próprio, em carta dirigida ao reitor D. Francisco de Lemos, bispo de Zenópolis, homem de sua confiança, seria “…o melhor da Europa, melhor do que o de Pádua (acentua bem o Marquês) que possui apenas 400 máquinas, quando o nosso possui mais de 500" [5]. Para instalar e dirigir o Gabinete, o Marquês de Pombal contratou o referido professor italiano, sobre o qual recai a actual polémica.


Como Tudo Começou…
Em meados dos anos trinta o então director do laboratório de física da Universidade de Coimbra, Professor Mário Augusto da Silva, recebeu uma carta da Direcção Geral da Fazenda Pública para que elaborasse um inventário do laboratório que dirigia. Foi, surpreendido, que se deparou com um património valioso, único no mundo. Embora pouco restasse, empreendeu um trabalho excepcional na sua recuperação Em Junho de 1938, na sequência do trabalho realizado, apresentou à Academia das Ciências de Lisboa, da qual era membro, uma comunicação a que deu o título de «Um novo Museu em Coimbra: O Museu Pomba­lino de Física da Faculdade de Ciências da Uni­versidade», posteriormente publicada na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra [5]. A importância do novo Museu era realçada. Com base no livro Index Instrumentorum de dalla Bella, Mário Silva conseguiu recuperar cerca de 100 máquinas, das cerca de 600 que existiram no laboratório. Grande parte tinha sido vendida no tal leilão [5] que ocorreu à porta do laboratório. Pelo trabalho realizado recebeu um louvor público em 1942. O Museu, para o qual não teve qualquer apoio oficial, não deixou de se fazer [1]. Ocupava duas salas do primeiro andar do edifício pombalino onde funcionou o antigo Laboratório de Física. À primeira, onde reconstituiu o Gabinete de Física do séc. XVIII, chamou Sala dalla Bella. À segunda, onde expôs os instrumentos do séc. XIX, chamou Sala Figueiredo Freire. O Museu foi mantido e melhorado por Mário Silva até 1947, ano da sua expulsão da Universidade pelo regime salazarista. Os seus sucessores mantiveram-no fechado e abandonado até à sua reabertura no dia 29 de Janeiro de 1997, isto é, mais de meio século depois da sua criação. Infelizmente, até aqui, muita coisa se perdeu como exemplificava a edição de «O Jornal» do dia 30 de Junho de 1987 ao noticiar o desaparecimento de uma das máquinas recuperadas por Mário Silva com o título: «É a única no mundo». Mário Silva já cá não estava para acudir ao Museu. Convém realçar que até à sua morte em 1977 tudo fez para preservar o Museu, apesar de afastado, injustamente, da Universidade de Coimbra.


Foi com a consciência de ter descoberto um autêntico tesouro que Mário Silva iniciou a sua investigação sobre a actividade científica dos primeiros directores do Gabinete de Física Pombalino [3]. Sobre a reforma e dalla Bella, eis o que Mário Silva descobriu: “… Há, na verdade, que reconhecer que o reformador soube produzir as condições materiais necessárias para a sua realização (investigação científica), e disto é prova suficiente o magnífico conjunto de trabalhos que, embora esquecidos ou ignorados, foram realizados pelos primeiros professores do Gabinete de Física da nossa Universidade… a valorizar, logo de princípio, esse magnífico conjunto de trabalhos, não faltou sequer a descoberta sensacional de uma lei fundamental da Física: a lei das acções magnéticas … Informado de que havia sido sócio (dalla Bella) da Academia das Ciências de Lisboa, e até o primeiro sócio efectivo da minha especialidade, tive interesse em folhear as Memórias publicadas por esta Academia, no intuito de estudar os trabalhos que ele não poderia ter deixado de ali apresentar. Tive logo a grande surpreza de encontrar, nas primeiras páginas do primeiro volume das Memórias, o trabalho importante da descoberta da lei das acções magnéticas. Trata-se de um trabalho consciencioso que revela as magníficas qualidades de investigador do seu autor. Tudo é descrito com a maior precisão: observações feitas, cuidados havidos e resultados obtidos… Este trabalho é de 1782; ora, só em 1785 é que Coulomb publicou o seu, com o enunciado da mesma lei. Mas como já referimos, ela foi, infelizmente, esquecida a favor de Coulomb que tem sido, até agora, considerado seu único autor”. Acrescentando “Sem querer, por agora, pormenorizar todas as causas deste lamentável esquecimento, devo referir uma que desde logo se me apresentou: foi a data da publicação do primeiro tomo das Memórias da Academia. Com efeito, esta publicação só se fez em 1797. Quer dizer: dalla Bella faz o seu trabalho em 1782, apresenta-o à Academia no mesmo ano, e os dirigentes desta agremiação científica cometem o lamentável desleixo de o conservar esquecido durante 15 anos nos seus arquivos!” [2-3].
O tempo passou… em 1947 Mário Silva, por ser um democrata convicto, foi preso e expulso da Universidade… o Museu Pombalino encerrou as portas… e sucederam-se as tentativas para limpar o rasto do Professor Mário Silva!


Como Tudo Acabou…
Entretanto, logo após a expulsão do Professor Mário Augusto da Silva, o distinto professor do ensino secundário e erudito investigador da História da Ciência, Rómulo de Carvalho, ilustre poeta e pedagogo, vem a Coimbra e, pouco tempo depois, publica um estudo sobre a “Pretensa descoberta da lei das acções magnéticas por dalla Bella” [4], iniciando um extenso trabalho de investigação sobre o gabinete de física pombalino.

Acerca de dalla Bella escreveu Rómulo de Carvalho [7]:
Passaram-se os anos, morreu D. José, Pombal foi desterrado, e é somente em 1786 que D. Maria I chama a atenção dos professores de Coimbra para a falta de cumprimento da obrigatoriedade da redacção dos compêndios, a qual não foi respeitada por nenhum dos mestres das seis Faculdades, catorze anos decorridos sobre a publicação dos Estatutos. Dalla Bella só se desempenhou do encargo em 1789-90, anos da publicação do seu Physices Elementa usui Academiae Conimbricensis Accommodata, em três grossos volumes (1168 pp., 37 folhas desdobráveis com 262 gravuras). Bem instalado em Coimbra, tendo à sua disposição um excelente e completo Gabinete de Física… seria de esperar que dalla Bella,… organizasse o seu plano de trabalho como investigador… A situação obrigava-o a isso (!)… ”. Ver figura 1.


Estas afirmações de Rómulo de Carvalho são injustas e lamentáveis. Podemos esquecer que o próprio Gabinete de Física Pombalino foi obra do Professor dalla Bella? Isto não pode ser esquecido e muito menos negado. Muitas das máquinas nele existentes, para o ensino da Física Experimental, tinham sido projectadas pelo próprio dalla Bellla, sendo verdadeiras preciosidades do engenho português. Algumas podem ver-se na Figura 2, que nos mostra também o aspecto da Sala de dalla Bella do Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra, que nos foi deixado pelo Professor Mário Silva. Pois bem, algumas delas já não existem. Devido ao abandono a que este magnífico museu foi votado, após 1947, e contra o qual Rómulo de Carvalho também nada fez, algumas das máquinas, que também se podem ver na foto, desapareceram!


Fig. 1 – Capa e algumas figuras do Tratado de Física, Physices Elementa usui Academiae Conimbricensis Accommodata, escrito pelo Professor dalla Bella. De notar que vários especialistas internacionais que visitaram o Museu Pombalino de Física, já na época de Mário Silva, alertaram para a elevadíssima qualidade do espólio do Museu relativamente à Mecânica.


Fig. 2 – Aspecto da magnífica sala de dalla Bella do Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra (antigo Real Gabinete de Física da UC) em 1939 – foto retirada da referência [5]. A mesa e a maquineta que se vêem em primeiro plano foram roubadas nos anos 80...

Quanto à repetição das experiências, duzentos anos após as que foram efectuadas por dalla Bella, afirmou Rómulo de Carvalho [7]:
Serviu-se dalla Bella, para o estudo que se propunha efectuar, de uma pedra magnética, de grande porte, …, bloco de magnetite de 12 kg… Com este enorme pedaço de magnetite e com outros corpos magnetizados, de menores dimensões, colocados próximos a diversas distâncias daquele, pretendeu dalla Bella descobrir a lei das acções magnéticas. Note-se que essa lei já era dada como conhecida teoricamente por analogia com acções de efeitos semelhantes (gravíticas e eléctricas), e que restava apenas confirmá-la pela experiência. Foi, como se sabe, o investigador françês Coulomb quem a confirmou, e é com o seu nome que essa lei permanece nos anais da História da Ciência. Coulomb utilizou corpos magnetizados de pequenas dimensões… e é evidente ser impossível chegar a conclusões análogas às do físico françês recorrendo a um pedaço de magnetite de 12 kg… Nós próprios o utilizámos, em Coimbra, por curiosidade (!?), para o mesmo fim de dalla Bella, e de imediato reconhecemos a impossibilidade de se chegar ao enunciado da lei… temos razões para supor que o acolhimento dado, pela Academia, às duas Memórias não tenha sido muito dignificante para o seu autor”. Pensamos que o Professor dalla Bella deveria ter direito de resposta. Na figura 3 pode ver-se o magnífico conjunto do qual faz parte o magnete referido.


Fig. 3 – Conjunto magnífico existente no Museu de Física da Universidade de Coimbra, composto por um bloco de magnetite, ferro, madeira e marfim. A origem do magnete não é conhecida, tendo sido oferta do imperador chinês ao Rei D. João V.

Convém lembrar que, antes de Rómulho de Carvalho, dois professores italianos, Mário Gliozzi [8] e Giovanni Constanzo [9], por esta ordem, e quase em simultâneo com o Professor Mário Silva, já tinham escrito sobre este tema, todos enaltecendo o trabalho de dalla Bella, considerando-o um grande contributo para a Física da época.


Penso que Rómulo de Carvalho [4] limita-se a descrever as dificuldades que o Professor dalla Bella enfrentou para provar, experimentalmente, que as forças magnéticas variam com o quadrado da distância. Baseando-se na bibliografia usada na época pelo próprio Professor dalla Bella, demonstrando à saciedade que o Professor dalla Bella estava a par de todos os trabalhos relevantes publicados até à sua descoberta, o que só demonstra o seu elevado nível de conhecimentos científicos, Rómulo de Carvalho concluiu “que à data (1781) em que dalla Bella vai iniciar as suas observações, relativamente ao estabelecimento da lei das acções magnéticas, já está assente: 1º) que as acções magnéticas variam na razão inversa dos quadrados das distâncias dos magnetes … e 2º) que a medida das referidas distâncias se deve efectuar entre certos pontos (centros de atracção) dos magnetes… Restava portanto a confirmação experimental da lei estabelecida através da teoria” [4]. No entanto, que fique bem claro, a lei só acabou por ser formulada e demonstrada em 1785 por Coulomb. O certo é que dalla Bella o tenta fazer 4 anos antes e pelos vistos com algum sucesso. O seu “crime” foi o de unir aqueles dois “pressupostos” na verificação dos seus resultados experimentais. Mais ninguém o tinha feito antes. Existe alguma originalidade e genialidade no trabalho de dalla Bella. A ciência só avança por associação de ideias e foi precisamente isso que dalla Bella fez. Desprezando o trabalho de dalla Bella, porque este teve o “desplante” de escrever nas suas Memórias que aqueles “pressupostos” eram descobertas suas, Rómulo de Carvalho afirma: “Julgamos ter sido John Michell o primeiro que enunciou a lei fundamental das acções magnéticas, em 1750, nos termos em que Coulomb a veio a enunciar mais de trinta anos depois.” [4]. Pensamos que esta atitude é inadmissível, porque historicamente, entre eles, existe o trabalho de dalla Bella, que Rómulo de Carvalho omite propositadamente, pois considera que o Professor dalla Bella agiu de má fé. Partindo de uma ideia que à partida o contradiz, que é o facto indesmentível, que o Professor dalla Bella era uma pessoa competente e a par da Física do seu tempo, deduz que o seu trabalho foi forjado por estar sob “a exigente pressão das suas obrigações de sócio de uma Academia das Ciências” [4]. Porque, hipoteticamente, o Professor dalla Bella, segundo Rómulo de Carvalho, ter começado os seus estudos sobre magnetismo depois de ter sido convidado a apresentar uma Memória à Academia das Ciências, pois “Dalla Bella fez parte do primeiro grupo de 24 académicos, sócios efectivos, e a sua escolha dever-se-ia ter fundamentado não no valor da actividade que manifestara como cientista (?) mas na crença de que possuísse certas capacidades que a função universitária exigia.” [4]. Inacreditável! No entanto, ao afirmar que “…este excepcional encargo (de vir ensinar Física Experimental e participar na reforma) obriga-nos a crer que o professor italiano seria pessoa de indescutível competência … ” e que a bibliografia usada por dalla Bella “de excelente escolha…. depõe, muito favoravelmente, em abono da cultura científica de dalla Bella” [4], prova-se que existe uma contradição na argumentação de Rómulo de Carvalho.


Cremos que, em certa medida, o trabalho de Rómulo de Carvalho [4] pretende redimir o erro da Academia das Ciências ao denegrir o trabalho de dalla Bella. Porque, segundo este autor, “Parece-nos que os estudiosos portugueses que se agrupavam na Academia das Ciências não eram os beócios que dalla Bella suporia…”, vindo em defesa da Academia das Ciências, pelo grave erro cometido ao esquecer, lamentavelmente, o trabalho de dalla Bella, afirmar “cremos que as Memórias foram mal recebidas”. O certo é que nada prova acerca desta sua dedução, afirmando, surpreendentemente, o seguinte. “Parece-nos lícito supor que a demora resultasse da má impressão causada nos consócios que dela teriam tido conhecimento prévio. O interesse suscitado, à sua chegada a Lisboa, por uma Memória enviada de Coimbra (!?), pelo lente da cadeira de Física Experimental criada pela reforma pombalina, ter-se-ia desfeito com a notícia da «descoberta» de dalla Bella (!!!). A «nova ideia» do professor italiano deveria ser velha para alguns dos Académicos portugueses” (?!). Não é isto uma nova contradição? Se era uma «descoberta», não teria que ter sido maior ainda a responsabilidade da Academia? E onde está contra argumentação da Academia, que provaria que as Memórias foram mal recebidas? É certo que naquela época existiam académicos notáveis, como por exemplo o Professor de Astronomia Monteiro da Rocha, mas que se saiba não existe nenhum escrito reprovando as Memórias. E se assim foi, como se explica que a douta Academia “se resolveu a incluir as duas Memórias de dalla Bella nas suas publicações”? Não só a incluiram como tiveram a honra de serem das primeiras do Tomo I das Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa?… Não será isto nova contradição? Segundo Rómulo de Carvalho isto só se deveu pela “ligação de compadrio entre o professor italiano e o Visconde de Barbacena…”. Será possível? Não será outra contradição? Afinal, os consócios da Academia, homens esclarecidos e informados, poderiam aceitar uma situação destas? E Rómulo de Carvalho conclui: “O Tomo I das Memórias da Academia Real das Sciências de Lisboa só foi publicado em 1797… dalla Bella, lente jubilado da Universidade de Coimbra, já deixara Portugal e regressara à sua pátria, sem ter chegado a ver a sua «descoberta» em letra impressa. Entre as recordações que de nós levou talvez avultasse a convicção de que este país que o acolhera, e a ele, sem necessidade, recorrera para a execução de uma reforma do ensino, ainda possuia um grupo de homens suficientemente esclarecidos e informados da ciência do seu tempo para não aplaudirem, ingènuamente, a primeira «descoberta» que se lhes apresentasse.”. Sem palavras! O negrito acima é meu. Será que não podemos mudar a capital para outra cidade portuguesa? Não há pachorra...
A mim parece-me que Rómulo de Carvalho desconhecia a história do ovo de Colombo. Parece-me também que, pelos vistos, o Professor dalla Bella, ele sim, era de facto um homem informado, pois estava a par dos grandes desenvolvimentos da Física da sua época. Rómulo de Carvalho esqueceu-se que o Gabinete de Física (o melhor da Europa nas palavras do marquês) foi criado pelo Professor dalla Bella (embora sendo a continuação do seu trabalho no Colégio dos Nobres). Não foi obra do acaso. Esqueceu-se de referenciar o trabalho demonstrado no portentoso Index Instromentorum, um índice de instrumentos ainda existente no Museu de Física da Universidade de Coimbra (foi graças a ele que Mário Silva conseguiu reconstruir o Gabinete). Nele são minuciosamente identificadas e descritas as cerca de 600 máquinas do Gabinete. Esqueceu-se que algumas eram inventos de dalla Bella e de fabrico português. Esqueceu-se que o Professor dalla Bella, afinal, sempre publicou um tratado de Física. Esqueceu-se que o Professor dalla Bella foi contratado como professor, tarefa que assegurou com mestria, pois deixou escola. Que infelizmente foi esmorecendo. O que levou, de facto, Rómulo de Carvalho a escrever sobre o Gabinete de Física pombalino?


Cremos que além da defesa da Academia das Ciências, ressalta dos seus escritos uma posição dúbia relativamente à reforma pombalina do ensino. Tem, neste contexto, uma posição diferente face à contudência das palavras de Bernardino Machado. Se por um lado a elogia, afirmando [7] “Qualquer que seja o juízo que se faça relativamente à acção do marquês de Pombal, sempre se acentua, com sinal positivo, o projecto e a execução da sua reforma do ensino…”, continuando “Na verdade, fora da Companhia de Jesus (na altura quase monopolizavam o ensino, proibindo a entrada de tudo o que não fosse aristotélico), a sociedade tinha-se transformado radicalmente, e o ambiente tornava-se cada vez menos receptivo à doutrinação dos jesuítas. A vitória do combate secular entre Antigos e Modernos, entre Aristóteles e S. Tomás de Aquino por um lado, e Descartes, Gassendi e Newton por outro, pendia irremediavelmente para estes últimos, e nada a faria deter… Os inimigos mais perigosos da doutrinação filosófica da Companhia de Jesus, em Portugal, eram os elementos de uma outra ordem religiosa, a Congregação do Oratório de S. Filipe Néri, que desde cedo abraçaram a Física Moderna expondo-a nas suas escolas e defendendo-a nos seus escritos…”. Por outro critica-a, afirmando [7] “Quando em 1759 Pombal decretou a expulsão dos jesuítas de todo o território português, … a situação escolar do país sofreu um colapso quase total… para a elaboração da sua reforma do ensino universitário, que é indubitavelmente uma obra notável, instituiu Pombal uma Junta, que designou “Junta de Providência Literária”… As reuniões da Junta efectuavam-se, semanalmente, em casa do próprio marquês ou então do Cardeal João Cosme da Cunha… os resultados imediatos da Reforma Pombalina, no que respeita à Faculdade de Filosofia (e também à de Matemática), foram muito deficientes… precipitação com que se procedeu à reforma dos estudos e à má preparação pedagógica dos seus intervenientes…”. Terá havido na nossa história alguma reforma educativa que se possa comparar à de Pombal? Tomáramos nós.

Ao realizarem-se trabalhos de investigação histórica, não deveriam os investigadores colocarem-se um pouco na perspectiva de quem fazia Ciência na época, de imaginar as dificuldades de quem fazia Ciência no século XVIII? Em particular em Portugal? Nesta perspectiva, não restam dúvidas do excelente trabalho realizado pelo Professor dalla Bella e que as suas Memórias são indiscutivelmente, na época em que foram feitas, obras notáveis. Poderão ser consideradas, no meu modesto parecer, marcos históricos do desenvolvimento da Ciência e da Técnica em Portugal.

Ecos…
Curiosamente, apesar do trabalho do Professor Mário Silva na recuperação do Gabinete e na criação do Museu Pombalino, do qual publicou dois excelentes trabalhos: em 1938 a comunicação à Academia das Ciências acima referida [5] e em 1940 a comunicação apresentada ao Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa sobre os primeiros directores do Gabinete de Física [3], ambos publicados na Revista da Faculdade de Ciências da UC, nem um nem outro fazem parte da longa lista de referências citadas no artigo “A Física na Reforma Pombalina”, publicado por Rómulo de Carvalho na História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, I volume das Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa em 1986 e incluído no Catálogo do Museu de Física da Universidade de Coimbra [7]. Estranho! Muito estranho! Sem Mário Silva, não existiria magnete completo (o peso que o mesmo suportava foi comprado por 350$00 a um sucateiro de Coimbra), nem existiria, sequer, Gabinete de Física. Além disso, no referido catálogo “O Engenho e a Arte”, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, aquando da reabertura do Museu Pombalino de Física, aqueles dois pioneiros trabalhos de Mário Silva não constam (!?). Limitam-se a excertos de publicações menores escritos por Mário Silva na comunicação social portuguesa. Mais. No site do Museu de Física, só Rómulo de Carvalho era inicialmente referido. Incompreensivelmente, no site do Museu de Física não era dita uma palavra sobre o Professor Mário Augusto da Silva, seu criador (!?). Fui eu próprio que alertei para aquela situação injusta. Refira-se, no entanto, que a Universidade de Coimbra, no ano da reabertura do Museu, embora posteriormente, homenageou Mário Silva, celebrando os 50 anos do seu afastamento da Universidade.
Sobre a presente polémica, de realçar ainda o excelente trabalho de Ricardo Monteiro, que foi o vencedor do Prémio “Mário Silva”*, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Física, em colaboração com o jornal Público e a Gradiva, em 2000 [10], ao melhor trabalho sobre Física para alunos do 12º ano. Embora admirando o trabalho, mantém na íntegra as conclusões de Rómulo de Carvalho que aqui contestamos. Mas o Ricardo não tem culpa...
Por considerar que o Professor dalla Bella foi injustiçado e, inadmissivelmente, humilhado, é necessário que quem de direito reabilite a sua memória. Tendo sido o primeiro Professor de Física da Universidade de Coimbra, e como tal de Portugal, dalla Bella mereceria, não só um pouco mais de respeito, mas, uma homenagem justa. Pois, como Mário Silva reafirmou, no seu livro “O Elogio da Ciência” [1], em 1971, “Seja porém como for, quer seja possível encontrar ainda alguma referência ao trabalho do Professor dalla Bella, quer não, é incontestável que foi no Gabinete de Física pombalino, e com o seu material científico, que foi descoberta, em 1782, a lei das accções magnéticas (2).”. A referência (2) diz respeito ao trabalho publicado em 1954 por Rómulo de Carvalho [4].
Admiro o trabalho de Rómulo de Carvalho na área da pedagogia, a sua poesia e não esqueço que os primeiros livros de Física que li foram da sua autoria. Mas não posso concordar com a forma como Rómulo de Carvalho tratou o Professor dalla Bella. Considero-a inadmissível dada a injustiça que encerra. Penso que nesta área errou. Por isso, a razão de ser deste trabalho.


Têm a palavra
(*) - A designação deste prémio, atribuído pela SPF, gradiva e Público, deveu-se ao empenho do Professor Carlos Fiolhais.


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Referências
[1] M. A. da Silva, O Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1971.
[2] Nobre, J.P., Ruivo, D. e Fiolhais, C., Mário Silva, o Professor, o Cientista e o Político, Gazeta de Física, vol. 24 (1) 2001, 25-27.
[3] M. A. da Silva, A Actividade Científica dos Primeiros Directores do Gabinete de Física que a Reforma Pombalina criou em Coimbra em 1772, Proc. I Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa, Coimbra, Novembro de 1940.
[4] R. de Carvalho, A pretensa descoberta da lei das acções magnéticas, por dalla Bella, em 1781, na Universidade de Coimbra, Revista Filosófica, nº 11 ano IV, 1954.
[5] M. A. da Silva, Um Novo Museu em Coimbra: O Museu Pombalino de Física da Faculdade de Ciências de Coimbra, Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol. VIII 1939.
[6] B. Machado, A Universidade de Coimbra, tip. França Amado, 1905.
[7] Catálogo do Museu de Física da Universidade de Coimbra, O Engenho e a Arte, F. C. Gulbenkian, 1997.
[8] M. Gliozzi, L´elettrologia fino al Volta, vol. II, Nápoles, 1937.
[9] G. Constanzo, Sobre a descoberta das acções magnéticas, Revista de Chimica pura e applicada, II serie, ano XIV, Porto, 1938.
[10] R. Monteiro, Mário Silva, Dalla Bella e a Lei das Acções Magnéticas, Gazeta de Física, vol. 24 (4) 2001, 7 p.
Nota 1: já depois deste artigo ter sido aqui colocado, descobri um interessante trabalho do Professor Vaz Guedes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, sobre um trabalho de dalla Bella acerca de pára-raios em edifícios, que vem reforçar a razão de ser deste meu trabalho.
Nota 2: Ao título deste trabalho deveria ser acrescentado ... A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (V). Não o fiz dada a importância do assunto tratado.