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01/05/08

Elementos para a História da Radioactividade em Portugal (III)

A Triste História do Instituto do Rádio de Coimbra...

Nota Introdutória
A história do Instituto do Rádio de Coimbra é talvez uma das principais provas da tese segundo a qual o Estado Novo é o principal responsável pelo atraso científico e técnico, e consequentemente social, de que Portugal padece, face aos seus parceiros europeus mais desenvolvidos. Este apontamento ficará aqui escrito para quem o quiser ler, na certeza, porém, de que contribuirá para a verdade histórica. Espero, deste modo, contribuir para que a deturpação e o branqueamento dos malefícios do Estado Novo, a que tantas vezes temos assistido, possam ser travados.

Fachada do Pavilhão Curie do Instituto do Rádio de Paris, vista da rua Pierre e Marie Curie


O Instituto do Rádio de Coimbra

Fachada do magnífico edifício pombalino onde funcionou o antigo Laboratório de Física da Universidade de Coimbra. As duas salas superiores da esquina albergam hoje o Museu Pombalino de Física. Neste edifício encontram-se igualmente os museus de Mineralogia e de Zoologia da UC. Pena que a Universidade não transforme todo o edifício em Museu. Ao lado, ainda se pode ver a Sé Nova. Em frente, encontra-se o antigo Laboratório Chimico, também pombalino, transformado hoje em Museu(zito) da Ciência. Ao lado dele, o Colégio das Artes alberga, hoje, a maior parte do espólio ABANDONADO do moribundo MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA. Descendo as escadinhas ao lado da Sé, deparamo-nos com o Museu Nacional Machado de Castro. Infelizmente, pouca parra para tanta uva. Aqui poderia ser criado um dos espaços museológicos mais belos do mundo. Aliás, todo este património é do Estado e ao Estado competeria transformar esta zona num magnífico espaço museológico. Mas, infelizmente, estamos em Portugal! Lá diz o ditado: dá Deus nozes a quem não tem dentes...

Como provámos num post precedente, Mário Augusto da Silva foi obrigado a regressar a Coimbra e à sua Universidade, após a conclusão do seu doutoramento em Paris, em 1929, sob a orientação da insigne cientista que foi Marie Curie. Teve a honra de ter defendido a sua tese sobre electroafinidade dos gases perante três eminentes cientistas, todos eles laureados com o Nobel: Madame Curie, Jean Perrin e Debierne. Impedido de prosseguir no Instituto do Rádio de Paris, apesar dos pedidos de Madame Curie dirigidos à Universidade de Coimbra, e ciente da inevitabilidade do seu regresso, muito cedo teve a ideia de criar em Coimbra um Instituto do Rádio semelhante ao de Paris. Naquele tempo ninguém poderia negar o interesse da investigação nesta área científica. As radiações emitidas por isótopos radioactivos continuam a ter um vasto campo de aplicação na Medicina e, por outro lado, a fusão nuclear constituirá a única alternativa energética viável para as gerações do futuro. É a fonte mais poderosa de energia que o Homem conhece. A energia resul­tante das reacções de fusão nuclear é, ao contrário da subjacente às actuais centrais de fissão, uma energia muitíssimo mais "limpa". Esses reactores alimentar-se-ão com a água dos Oceanos! Infeliz­mente, a tecnologia actual não nos permite, ainda, dominá-la [1]. De notar que, em 1929, a Física estava ainda numa época pré-nuclear, pois a estrutura do núcleo atómico só seria desvendada a partir da descoberta do neutrão, alguns anos mais tarde, em 1933, por Chadwick. Descoberta que poderia muito bem ter sido feita, muitos anos antes, em Portugal, como contaremos num futuro post.

Com vista à criação de um instituto dedicado ao estudo da radioactividade e às suas aplicações na Medicina, Mário Silva iniciou uma série de diligências que viriam a culminar na criação da comissão instaladora do futuro "Instituto do Rádio da Universidade de Coimbra". Essa comissão foi consti­tuída por Mário Silva e Ferraz de Carvalho, como representantes da Faculdade de Ciências, e por Álvaro de Matos e Feliciano Guimarães pela Fa­culdade de Medicina. No princípio de 1931 o Insti­tuto do Rádio de Coimbra estava completamente instalado e pronto a funcionar. Contudo, tinha che­gado a hora da vingança. Infelizmente para todos nós, os fanáticos religiosos que, cerca de oito anos antes, se opuseram veementemente a um seu ensaio, publicado num jornal de Coimbra, estavam agora no poder com a faca e o queijo na mão. Foi pois a intolerância religiosa que impossibilitou a realização de uma obra que poderia ter mudado o rumo do ensino e da investigação da Física em Portugal.

De facto, em 1923, Mário Silva publicou no jornal "A Cidade" um magnífico ensaio sobre a origem da vida, intitulado "Sobre o Problema da Génese da Vida... O problema da geração espontânea". Tinha 22 anos e era Assistente do Departamento de Física da Faculdade de Ciências. Nesses artigos discutia como cientificamente se poderia explicar a origem da vida na terra, sem necessidade da intervenção divina. As suas ideias base­avam-se em princípios científicos e não dogmáticos. A intolerância de alguns professores universitários, pertencentes ao C.A.D.C., Centro Académico de Democracia Cristã, nomeadamente, Oliveira Salazar, Manuel Cerejeira e Ferrand de Almeida, foi imediata. Primeiro surgiram as respostas de forma anónima no mesmo jornal, depois, para se ter uma ideia da polémica levantada, refira-se que num outro jornal (Correio de Coimbra) e durante cerca de três meses, duas vezes por semana, foram publicados artigos de resposta com direito a primeira página! Apesar de terem sido assinados por Ferrand de Almeida, Mário Silva sabia perfeitamente da influência de Salazar e Cerejeira. Começava aqui, na verdade, uma perseguição que se prolongaria até ao 25 de Abril. Obviamente que a não promulgação, anos mais tarde, do Decreto-Lei que criaria o Instituto do Rádio de Coimbra foi o corolário daquela polémica e o início de uma perseguição, pessoal, mesquinha e execrável. Posteriormente, sentido directamente na pele a intolerância e o ostracismo a que fora votado, Mário Silva viria a embrenhar-se arduamente na luta pela Liberdade e a Democracia em Portugal. De notar que o que acabámos de desvendar, fruto da investigação que fizemos, pode também explicar muitíssimo bem a razão porque Mário Silva encabeçou a lista dos docentes e investigadores afastados por Salazar, em 1947, das universidades portuguesas. Praticamente como todos os maiores cérebros portugueses, foi aposentado compulsivamente da Universidade de Coimbra, através do célebre e trágico Despacho do Conselho de Ministros (Diário de Governo, série 1, nº 138 de 18 de Junho de 1947). Isto, claro está, após ter estado preso pela PIDE, de forma arbitrária e sem culpa formada, durante mais de dois meses, no verão do ano anterior. Voltaria a estar detido posteriormente.

A geração espontânea... (imagem retirada daqui)

Em 1931, no entanto, Mário Silva preocupava-se somente em continuar os trabalhos de investiga­ção científica que tinha iniciado em Paris. Não deixou contudo de denunciar a perseguição. Fê-lo, no auge do Estado Novo, cerca de oito anos após a criação do Instituto do Rádio de Coimbra, num artigo publi­cado no jornal «Notícias de Coimbra», no dia 4 de Dezembro de 1938, intitulado «Madame Curie - No 40º aniversário da descoberta do Rádio»:
"... Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de pro­var-lhe que, reconhecida, a velha Universidade portugue­sa, a ia homenagear... A homenagem a prestar-lhe devia, pois, ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe, um dia, que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Insti­tuto do Rádio, feito à ima­gem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno mas agradecido país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz! Foi com a alegria de uma criança que aca­ba de ter um brinquedo desejado que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investi­gações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs deslocar-se a Coimbra para assistir à inauguração do Instituto. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à projectada inauguração do novo Instituto do Rádio de Coimbra para cuja cria­ção, eu e o Prof. Álvaro de Matos, da Faculdade de Medicina, tanto havíamos trabalhado. Na verdade, juntos, haví­amos conseguido obter, tempos antes, do Ministro das Finanças, General Sinel de Cordes, um subsídio de 600 contos com o qual imediata­mente se fizeram as primeiras enco­mendas de di­verso material para as Secções de Física e de Me­dicina que deveriam trabalhar em íntima co­labora­ção. No meu regresso a Coimbra, o material havia começado a ser instalado. Foi, pois, também com alvoroço que o Prof. Álvaro de Matos recebeu a boa notícia da vinda de Madame Curie. Redobrá­mos, por isso, os nossos esforços para abreviar a inaugu­ração. Neste sentido trabalhámos sem des­canso, mas todos esses esforços se quebraram perante uma inexplicável e odienta teimosia, invejo­samente desen­volvida na sombra contra nós, que impediu, sistema­ticamente, a publicação do di­ploma oficial que devia criar os quadros do pessoal técnico e auxiliar, bem como regulamentar o funci­onamento do Instituto. E é por isto e só por isto, sem outras razões que, nove anos depois, neste fim de ano de 1938, o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fe­chadas; o pior - e isso é que é profundamente mais doloroso - é que o falecimento de Madame Curie que entretanto sobre­veio, acabou por inutilizar o projecto da sua vinda a Coimbra em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À sagrada memória de Madame Curie devo esta declaração de consciên­cia...".

No fim dos anos trinta um terramoto algo intenso partiu as ampolas de rádio e as portas fecha­ram-se. Eduardo Caetano [2], grande especialista em engenharia hospitalar e que nunca esqueceu o seu Mestre, escreveu na sua biografia [2]: "Na altura o Prof. Mário Silva não podia dizer mais. Vivia-se então o apogeu do regime salazarista. A verdade é que o Prof. Salazar nunca permitiu a aprovação do Decreto-Lei criando o Instituto do Rádio de Coimbra... No en­tretanto, o Prof. Francisco Gentil veio a Coimbra ver as instalações e pouco tempo depois surgia o Instituto do Rádio de Lisboa! Porque é que Lisboa podia ter um Instituto do Rádio e Coimbra que co­meçara muito antes não? Não há dúvida nenhuma de que o Prof. Mário Silva era, e seria, maldosa­mente hostilizado em escalão muito elevado...".

Acerca do Instituto do Rádio de Coimbra escreveu, igualmente, Sant´Ana Dionísio, num artigo sobre o Físico Salomon Rosenblum "Um Cientista que de­saparece", em Janeiro de 1960: "... Pode-se imagi­nar o que teria sido esse Instituto se tivesse tido como colaborador desde a sua fundação um cien­tista tão ilustre e dinâmico como o Dr. S. Rosenblum...". Aliás, num artigo citado por Sant´Ana Dionísio, es­creveu com amargura Mário Silva: "... agora, 26 anos volvidos, no rodar dos tempos, sobre essa insta­lação, o Instituto continua com as suas portas fecha­das, abandonado e es­quecido pela Universidade que deveria ter feito dele o nosso primeiro Instituto de Física Nuclear e o nosso primeiro Instituto de Onco­logia. Mas não foi assim e, por isso, continuamos ainda hoje a aguar­dar a sua inauguração, não se sabe mesmo até quando...". Finalmente em 1963 escrevia com des­gosto [3]: "Porém, agora, em 1963, ... tudo acabou! As instalações de radiodiagnóstico e de ra­diotera­pia foram desmanteladas e as salas...foram adapta­das a outros serviços. Afastado do serviço docente há muitos anos, por motivos políticos que muito me honram, até mim ninguém chegou pedindo informa­ções ou qualquer sugestão quanto ao destino a dar ao material que constituía o recheio da secção mé­dica do Instituto (espólio que hoje pertence ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica – N.A.). Sei apenas que o material foi desmontado e distribuído pelo novo Laboratório de Radioisótopos, há anos criado na Faculdade de Medicina, e pelo Laboratório de Física da Facul­dade de Ciências, onde continua a existir todo o material, comprado, logo de início, para a sua Secção de Física (que será feito deste material?). E assim, por forma tão insólita, morreu um Instituto que - pode dizer-se - nunca chegou propriamente a viver."

A este respeito quero ainda lembrar as palavras de Eduardo Caetano na excelente biografia que, como discípulo de Mário Silva e conhecedor das injustiças que lhe tinham sido movidas por Oliveira Salazar, resolveu, num acto louvável, escrever: "Os portugueses não poderão deixar de lamentar que este projecto do então jovem físico e cientista Prof. Mário Silva iniciado em Portugal com a colaboração de alguns, como Álvaro de Matos, Carlos Santos e Moura Relvas na Medicina e Luís Carriço na Botânica, tivesse sido abortado devido aos «espíritos maléficos» (Designação atribuída por Mário Silva a todos aqueles que impediram, de alguma forma, a realização das suas obras). Nem se pedia que o ajudassem, a não ser materialmente, mas tão-só, que não o impedissem de trabalhar. Que obra notável se poderia ter desenvolvido para bem de portugueses doentes, para bem da Ciência e Tecnologia, para bem do Homem! Imagine-se só, por alguns momentos, este Instituto a trabalhar com Mário Silva, Salomon Rosenblum, A. Proca, S. deBenedetti e G. Beck e tantos outros nacionais e estrangeiros que viriam atraídos pelos trabalhos que certamente se realizariam e pelo alto nível científico que o Instituto não deixaria de ter. Que pena!".

O impacto que o referido Instituto teria tido no des­envolvimento científico português e no bem estar dos portugueses não é mensurável e a sua proibição constituiu um rude golpe no desenvolvimento da Ciência e Tecnologia em Portugal. Ainda mais porque, em 1940, Mário Silva pretendeu criar uma Escola de Física Nuclear. Acolheu em Coimbra, du­rante a 2ª Guerra Mundial, alguns físicos de renome que, fugidos ao regime totalitário nazi, ali procura­ram refúgio. Conheceu-os no Instituto do Rádio de Paris. Guido Beck (austríaco), Sergio deBenedetti (italiano) e Alphonse Proca (romeno) foram propos­tos por Mário Silva à Universidade, mas a proposta não teve seguimento..., foram perseguidos e acabaram por ser expulsos de Portugal, por serem antifascistas e de ascendência judaica (excepto A. Proca), não fossem infectar os chamados valores tradicionais portugueses. Estes cientistas foram ime­diatamente admitidos noutros centros de inves­tiga­ção. Beck - Universidad de Cordoba, deBenedetti - Carnegie Institut of Technology, Pittsburgh e Proca regressou ao Instituto do Rádio de Paris. Sobre deBenedetti refere Mário Silva [1]:"...Muito desejei fixar este notável investigador em Coimbra, mas, tal como noutros casos análogos, não consegui obter quaisquer facilidades neste sentido, por parte das autoridades oficiais responsáveis. Seguiu para os Estados Unidos da América onde fez uma notável carreira de professor e investigador. Como «Professor of Physics, Carnegie Institut of Technology» escreveu, em 1964, um notável livro «Nuclear Interactions»". Editado pela John Wiley & Sons. Sergio deBenedetti foi membro editorial de algumas importantes revistas, como a «Reviews of Modern Physics» e «Nuclear Instruments and Methods». Proferiu, num ciclo de conferências realizado em 1940 no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra, uma conferência intitulada «Raios cósmicos e núcleo atómico». De notar que Beck e Proca passaram pela Universidade do Porto, onde trabalharam com Ruy Luís Gomes. Mas foi pela mão de Mário Silva que vieram para Portugal. Veja-se o telegrama de Guido Beck dirigido a Mário Silva, pedindo-lhe que fosse rápido nas diligências que permitissem a sua vinda para Portugal. É perceptível o terror de Beck pela chegada dos nazis à França ocupada.

Telegrama, enviado de Lyon, pelo cientista austríaco Guido Beck a Mário Silva a 4 de Julho de 1941. Beck fugia ao regime nazi.

Aproveitando a estada destes cientistas em Coim­bra, Mário Silva dinamizou um curso intitulado "Introduction Physique et Philosophique à la Théo­rie des Quanta", que chamou a atenção da comuni­dade científica internacional e onde participaram outros nomes da Ciência Portuguesa deste século como Magalhães Vilhena, Pacheco de Amorim, Manuel dos Reis e Vicente Gonçalves, entre outros. Existe uma carta de Jean Thibaud solicitando à Universidade de Coimbra as lições aí proferidas, pois Guido Beck terminou em Coimbra um importante trabalho sobre teoria quântica dos campos. A propósito do curso, escreveu Mário Silva: "... Com a saída de Coimbra do Prof. Guido Beck, ficou inutilizada a obra que tencionávamos publicar, em colaboração, intitulada Le champ electromagnétique variable, da qual saíram apenas 48 páginas, em 1942. As lições dos Profs. Guido Beck e Vicente Gonçalves foram publicadas na Revista da Faculdade de Ciências, no vol. X... e são dois valiosos trabalhos".

Eduardo Caetano [2] relata bem a situação vivida no país naquele tempo: "A apatia intelectual que então se vivia era tão grande que, embora con­vidados, ninguém de Lisboa e do Porto se interessou por este notável curso... Infelizmente também aqui os «espíritos maléficos» voltaram a fazer sentir a sua acção obrigando a sair do país o Prof. Guido Beck [7] e interrompendo assim o curso... Para a época o curso era uma pedrada no charco! Era o dinamismo criador contra o marasmo estéril! Era a agitação intelectual insatisfeita contra o imobilismo acomodatício e rotineiro... E daí a oposição sistemática a todas as ideias criadoras do Mestre! Mas, apesar de tudo lu­tava, lutava sempre por um mundo melhor, à sua maneira e no seu campo de acção. Porque a têmpera excepcional de que era dotado o fazia reagir e vencer obstáculos que constantemente e sistematicamente lhe bloquea­vam o caminho. Por inveja e despeito dos pigmeus perante o saber, a inteligência e a força cria­dora do gigante. Eles pouco ou nada fizeram. Muito pouco ou nada produziram, de interesse, de real va­lia. E por isso sentiam-se pequeninos, complexados, infe­riorizados. E daí semear escolhos a barrar-lhe o caminho. E, como eram muitos, mesmo pigmeus, tinham a força do número... Todavia o Prof. Mário Silva venceu. Se lhe tivessem permitido teria feito mais, pela Ciência pura e aplicada, pelo ensino ci­en­tífico. Mas a sua obra existe. É indestrutível. E os gnomos passaram. Ninguém mais falará deles!" Será? Porque foi então votado ao abandono, ao esquecimento e à destruição a sua última obra, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica? Museu da Vergonha Nacional?

A hostilidade para com Mário Silva ficou bem ex­pressa noutro triste acontecimento. Mário Silva foi convidado oficialmente pelo governo francês para, em 1967, assistir ao primeiro centenário do nasci­mento de Madame Curie. Alguns meses antes do honroso convite, propôs ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa a realização de uma sessão comemorativa. Esta proposta não mereceu, lamen­ta­velmente, qualquer andamento. Todavia, em Paris, Mário Silva verificou que a Academia das Ciências de Lisboa, da qual era membro desde 1939, se havia feito representar por um francês em vez de ter enviado um dos seus membros, na qualidade de seu representante. O pior é que aquele representante não assistiu a nenhum dos actos ou sessões comemorativas, nem sequer deu nota que representaria a Academia das Ciências de Lisboa. Para vergonha dos portugueses foi a única Academia das Ciências do mundo que não enviou representante ou delegação nacional [2-3].

Em Coimbra, no início dos anos 30, efectuou os primeiros trabalhos sobre radioactividade em águas termais no nosso país [4]. Especialista em radioactividade, reconhecido mun­dialmente, pôde constatar o quão atrasado estava o nosso país. A investigação científica era quase inexistente. Tudo fez para aplicar os conhecimentos adquiridos em Paris... A sua revolta ficou bem ex­pressa na dedicatória que escreveu no seu livro «O Elogio da Ciência» em 1970 [3]: "... o autor saúda a generosa Juventude universitária de Coimbra que, hoje, como então, e como sempre desde os tempos de Antero, está empenhada em erguer, sobre os escombros de uma Universidade há muito envelhe­cida, as paredes mestras de uma Nova Universi­dade, que seja capaz de, efectivamente, promover o desenvolvimento moral, intelectual e social do país, e possa estar, sem peias nem entraves, ao serviço do desenvolvimento da própria Ciência."

Referências
[1] Carlo Rubbia, O Dilema Energético, Editorial Presença, 1987.
[2] Eduardo Caetano, Mário Silva: Professor e De¬mocrata, Coimbra Editora, 1977.
[3] Mário A. da Silva, Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1963.
[4] M. A da Silva, La radioactivité des gaz spontanés de la source de Luso, Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. I nº 2, 1930.
[5] Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol I-X (1930-1942).

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