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24/01/08

Carta Aberta aos Amigos da Cultura: A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (II)

Carta aberta aos Amigos da Cultura,

Congratulo-me com a vossa iniciativa e desejo solidarizar-me com o vosso manifesto, dando o meu próprio testemunho sobre o estado da cultura em geral e em Coimbra em particular. É de facto urgente que se diga: BASTA!

A curta vida do Museu Nacional da Ciência e da Técnica, que tem uma história longa e conturbada, é um exemplo paradigmático do estado da cultura portuguesa. De Coimbra em particular. Como familiar do Professor Mário Augusto da Silva, seu fundador, tenho o dever moral de dar público conhecimento da sua história, tentando evitar, o mais possível, o seu possível branqueamento, como aliás temos assistido, relativamente a tantos outros assuntos, no passado.

A história, em meu entender, deve ser feita, para que as gerações futuras não cometam os erros do passado. Sem passado, o presente, não pode fazer o futuro de um povo. Por isso quero aqui deixar o meu testemunho relativamente ao MNCT. A minha consciência a isso me obriga. Porque o MNCT que chegou até aos nossos dias nada tem a ver com o que ele nos deixou.

A criação do MNCT foi uma excelente ideia, que poucos ao longo dos anos acarinharam, remando sempre contra a maré. Este Museu Nacional, frise-se bem, Nacional, como o deveria ser, nasceu em 1971 por iniciativa do então Ministro da Educação Nacional, Professor Veiga Simão e pelo seu fundador, o Professor Mário Augusto da Silva. A ideia surgiu, em finais dos anos 60, um pouco como recompensa do então Ministro, que tendo tentado reintegrar o seu antigo Professor na Universidade de Coimbra, e não o tendo conseguido, devido à influência negativa dos “espíritos maléficos”, como Mário Silva apelidava os que na altura nos governavam, lhe perguntou o que desejava efectivamente fazer. Ao que Mário Silva respondeu: criar um Museu da Ciência e da Técnica. Foi de facto uma iniciativa inédita para a época. O marasmo cultural era na altura um pouquinho pior ao que assistimos hoje. Foi então criada uma comissão instaladora, à qual Mário Silva ficou a presidir.

Quis o destino que Mário Silva decidisse localizar o Museu Nacional na cidade de Coimbra. Acto de amor nunca correspondido, ao qual se sobrepuseram os ciúmes doentios de algumas elites alfacinhas, onde pontificaram nomes de alguns pseudo-cientistas muito conhecidos e muito em voga. É a tal guerra de capelinhas que no nosso país parece nunca ter fim. Adiante! Ainda me lembro de em miúdo, pela mão do meu avô, entrar num gabinete do Departamento de Matemática, onde quase não se podia entrar por estar pejado de maquinetas antigas. Andava numa labuta imensa, fazendo quase tudo sozinho, na juventude dos seus setenta anos. Uns anos depois do desafio lançado por Veiga Simão, em 1971, o Museu abria as portas. Em dois/três anos criou, do nada, um autêntico Museu. Lembro-me muito bem da obra que ali foi feita. Não a podem negar. E por isso o meu testemunho, pois dela quase nada resta. Somente o rico espólio, ou parte dele, espalhado, esquecido e abandonado, pelo rés-do-chão do antigo edifício do Colégio das Artes, há já longos anos, pelos responsáveis sucessivos do Museu, incluindo o actual director, pela Universidade, pela Câmara e pela Tutela . Isto é lamentável!

Claustros do fabuloso edifício do Colégio das Artes, nos antigos HUC. O que resta do MNCT encontra-se espalhado pelas salas infindáveis do seu rés-do-chão. Que museu magnífico poderia aqui ser criado!

Em 1977, o Museu era constituído por diversos edifícios espalhados pela Alta de Coimbra, pelo Museu dos Transportes, no Carquejo, e pela Casa-Museu Egas Moniz. A sede, no Palacete Sacadura Bote, à Rua dos Coutinhos, albergava várias exposições permanentes. Nos jardins do Museu, uma estátua magnífica de Luís de Camões, da autoria do escultor Fernandes de Sá, olha uma mini linha férrea, que uma pequena locomotiva a vapor percorria, fazendo as delícias dos miúdos que, como eu, adoravam brincar naquele espaço. Que maravilha, para miúdos e graúdos, aprender de forma tão clara os princípios da Termodinâmica. Lembro que se tratou de uma oferta ao Príncipe D. Luís. Foi reconstruída nas oficinas do Museu. Aonde parará agora? Ao entrar no Museu, os visitantes podiam admirar a conquista do Homem do fundo dos oceanos e conhecer a história do batiscafo Trieste dos irmãos Auguste e Jacques Piccard. No corredor de acesso à escadaria, éramos surpreendidos com um enorme pêndulo de Foucault pendurado no tecto da escadaria de acesso aos 3 andares do edifício. Nas paredes, forradas com grandes e bem iluminados “posters”, era possível percorrer, por ordem cronológica, os passos do homem na conquista do espaço, desde a Sputnik até às missões Apolo, que tiveram o seu apogeu na ida do Homem à Lua, em 1969. As missões Apolo ainda decorriam quando o Museu abriu as portas. Ali estava também todo o génio de von Braun. À esquerda, na grande sala, podíamos observar velhos telescópios e espectrógrafos que nos mostravam um pouco os primórdios da Astronomia, bem como outros instrumentos ópticos antigos, tal como uma riquíssima colecção de microscópios. No centro, salvo erro, pontuava um interferômetro, do género daquele que foi utilizado por Michelson e Morley para demonstrar a constância da velocidade da luz. Depois, duas enormes salas dedicadas ao génio que foi Leonardo da Vinci. Além de importantes documentos e livros, as salas expunham diversas maquetas de engenhos criados por da Vinci. Todas podiam ser vistas a funcionar. Foi uma importante colecção oferecida pela IBM ao Museu, à qual se juntaram outras construídas nas oficinas do Museu, que funcionavam na cave do edifício, sob a direcção de Mário Silva. Aí foram recuperados e restaurados muitos equipamentos e máquinas que ao longo dos anos foi conseguindo obter para o Museu. Aquele velhinho de 70 anos fez questão de pôr uma oficina de metalomecânica a funcionar na cave do edifício Sacadura Bote!


Entrada do lindo palacete Sacadura Bote, na Rua dos Coutinhos, onde deveria ser criada a Casa-Museu Mário Silva (sonho, claro!)


Subindo ao primeiro andar, rodeados de rostos que marcaram a História da Ciência, desde Bruno e Galileu até Einstein, deparávamo-nos com uma sala dedicada à radioactividade. Esta sala era também uma homenagem sentida à família Curie, em especial a Madame Curie, com quem Mário Silva teve o privilégio de trabalhar, durante os anos 20. Havia correspondência trocada entre ambos. Havia as memórias passadas no Instituto do Rádio de Paris. Havia também um projector de slides, que Mário Silva utilizava e se deliciava a explicar a estrutura da matéria, a constituição dos átomos e os benefícios da radioactividade. Eram autênticas lições de Fisico-Química abertas ao mais comum dos leigos. Miúdos e graúdos ouviam matérias ditas difíceis serem expostas de forma clara, simples e entendível  Para muitos, como eu, provavelmente foi aí que ouviram pela primeira vez falar de átomos, electrões, protões e neutrões. Havia sempre visitas de alunos das escolas secundárias.

Subindo mais um lance de escadas, sempre acompanhados por um pouco de História da Ciência, chegávamos ao segundo piso. A primeira sala, à esquerda, era dedicada à vida e obra de Egas Moniz. Egas Moniz ganhou o Prémio Nobel da Medicina pelo seu contributo para a compreensão do funcionamento do cérebro humano. Nunca o estado português o homenageou condignamente. Pelo contrário, também ele perseguido pelo Estado Novo, a Egas Moniz foi atribuído o epíteto de “senhor meio prémio”, por ter recebido o prémio "ex aequo" com outro cientista. A melhor homenagem, foi-lhe prestada por Mário Silva, ao conseguir fazer da casa em Avanca, onde viveu, uma verdadeira Casa-Museu, oficialmente integrada no MNCT. Na altura do centenário do nascimento, uma das publicações do Museu foi-lhe inteiramente dedicada. Aliás, nessa publicação, podemo-nos aperceber da sua frustração ao não conseguir que uma homenagem nacional justa lhe fosse concedida. Se fosse fadista ou futebolista... Passando à sala da frente, baptizada como sala dos inventos, podíamos admirar a evolução de muitos instrumentos. Do fonógrafo de Edison aos equipamentos hi-fi modernos, passando pela evolução das lâmpadas, da máquina de escrever, etc. Lá poderíamos conhecer os principais inventores da época moderna, como Edison, Bell, Marconi, etc. Neste andar, podíamos ainda encontrar a biblioteca do Museu contendo somente obras relacionadas com ciência e tecnologia, e onde se podiam encontrar algumas publicações raras. Faço também um apelo para que, com a máxima urgência, se faça um levantamento da biblioteca do Museu. Há uns anos, quando lá fui, vi que os seus livros andavam pelo meio do chão, completamente abandonados. Um autêntico crime! Aliás um pouco a par do abandono a que o próprio espólio do museu tem sido votado.

Finalmente, o último piso, no sótão, era dedicado aos têxteis  cuja indústria sempre foi importante no nosso país. Havia dois teares de Almalaguês, onde se podiam ver as tecedeiras a trabalhar. Todas as tapeçarias do Museu foram ali feitas. Eram magníficas as colchas e tapeçarias que estavam expostas e lembro-me também que toda a escadaria era coberta com um tapete vermelho, onde pontuava aqui e ali o símbolo do Museu. Tudo ali feito. Existia ali também uma sala de som, completamente equipada e isolada. Aonde está isto tudo?

O Museu tinha um espólio vastíssimo, que ia desde os primeiros equipamentos de raios-X de diagnóstico e de radioterapia que vieram dos HUC (haveria também que saber aonde pára o equipamento que, na mesma altura da criação do Instituto do Rádio de Coimbra (1930), veio para servir na secção de radioactividade do Instituto. Pelo escritos de Mário Silva, sei que ficou na FCTUC), passando por antigas locomotivas a vapor, antigos carros de bombeiros, antigas alfaias agrícolas, etc. Mário Silva recolhia tudo o que achava pertinente, de todas as áreas da actividade humana. Tinha especial atenção quando se tratava de coisas relacionadas com o engenho português. O problema foi, desde a primeira hora, encontrar um espaço com dimensões suficientes para albergar todo o espólio recolhido. Foi conseguindo edifícios aqui e acolá onde foi albergando o espólio. À Sé Velha, no lindíssimo edifício medieval da Rua da Ilha, com as suas belas arcadas em pedra, albergou uma importante colecção de armas. Havia uma réplica da espada de D. Nuno Álvares Pereira, que impressionava pelo tamanho e peso, e pela força necessária para a manejar. Havia armas antigas para todos os gostos e feitios. Onde está esta colecção? E porque perdeu o Museu este espaço? Mas havia mais, à Rua Fernandes Tomás, todo o edifício que pertenceu à Legião Portuguesa. Aí começou a organizar um espaço dedicado à agricultura portuguesa e aos problemas ambientais e ecológicos. Estávamos nos anos setenta e os problemas relacionados com a poluição ambiental, o efeito de estufa e o buraco de ozono eram já ali discutidos e debatidos. A secção de Ecologia e Meio Ambiente era de facto uma ideia inédita naquele tempo! Estávamos em 1977! Existia ainda o antigo edifício da Mala Posta, no Carquejo, onde Mário Silva queria instalar um Museu dos Transportes. Conseguiu adquirir para o Museu duas locomotivas a vapor do Pejão, que estavam para embarcar para Inglaterra nessa altura. Onde estão? Havia ainda um espaço na Alameda Afonso Henriques onde eram impressas as publicações do Museu.

Que foi feito de tudo isto? Porque foi mais ou menos isto, de forma muito resumida, que o Professor Mário Augusto da Silva nos deixou, em 1977, aquando da sua morte. Não haja dúvida que realizou um trabalho extraordinário em pouco mais de meia dúzia de anos. Apesar de todo o trabalho desenvolvido o Museu não foi oficializado. As dificuldades financeiras foram imensas. Bem maiores do que aquelas que poderão existir hoje em dia. No entanto a obra foi feita. Quando ocorreu o 25 de Abril, o Professor Mário Silva tinha uma dívida acumulada, em seu nome, no valor de cinco mil contos. Felizmente, após o 25 de Abril, surgiram homens como o Dr. António de Almeida Santos (a quem a Universidade de Coimbra, e muito bem, atribuiu recentemente o título de doutor "honoris causa") e o Major Victor Alves que, em boa-hora, vieram em auxílio do Professor Mário Silva e oficializaram o Museu Nacional em 1976, um ano antes da sua morte, através do Decreto-Lei nº347/76. Foram também necessários dois anos para que tivesse sido reintegrado e, ao mesmo tempo aposentado, como Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra. Morreu com a ilusão de que a sua obra estava abrigada. A este respeito escreveu o Engenheiro Eduardo Caetano, na nota final da biografia sobre Mário Silva: “… ao leme desta barca ainda frágil desejavam os seus amigos vê-lo mais alguns anos, para a conduzir a um porto onde ficasse em segurança, abrigada das traiçoeiras rochas invisíveis e dos perigosos golpes de vento intempestivos. Mas a morte veio buscá-lo a 13 de Julho de 1977, quando o Museu tanto precisava do seu amparo. Oxalá que a barca não se afunde…”. Profético! Afundou-se mesmo!

Ficou o efeito em mim. Porque em muito lhe devo a decisão pelo curso de Engenharia Mecânica. Quantos mais futuros engenheiros, físicos, matemáticos, etc, em suma, cientistas, esta obra poderia ter ajudado a criar se tivesse sido devidamente acarinhada?

Logo após a morte de Mário Silva, em 1977, foi criado o
Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, omitindo-se descaradamente a existência do Museu Nacional em Coimbra, numa atitude dos seus responsáveis a todos os títulos lamentável. A criação deste Museu foi de louvar e obras como estas são fundamentais. Mas a forma como o fizeram foi, pura e simplesmente, vergonhosa. O próprio texto do Decreto-Lei que criou o Museu Nacional foi claramente desrespeitado. Foi o canto do cisne do Museu Nacional, numa agonia de quase trinta anos. Neste período, somente a criação em 1999, junto do Museu, através do Decreto-Lei nº 379/99 de 21 de Setembro, do Instituto para a História da Ciência e da Técnica, tendo como director o Professor Dr. Paulo Trincão, pareceu ser a salvação do Museu. Aliás, esta área constitui uma verdadeira lacuna em Portugal, como bem reconheceu na altura, o então Ministro da tutela, Professor Mariano Gago. O IHCT deixa-nos, contudo, uma excelente foto-biografia do Professor Mário Silva e algumas teses concluídas em História da Ciência. O problema foi que, com os governos seguintes do PSD, muitos dos Institutos criados no tempo de Guterres foram desmantelados. Bons e maus. Neste caso, estando já o Museu a recuperar de forma apreciável, embora sendo uma pálida imagem daquele que nos foi deixado por Mário Silva, o Museu, pelo Decreto-Lei nº 205 de 2002 de 7 de Outubro, passa a designar-se por Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva (sic). Ao contrário do que se possa pensar, que aquela designação poderia ser uma homenagem ao Professor Doutor Mário Augusto da Silva, achamos que aquela designação só teve como intenção diminuir a importância do Museu, para posteriormente ser mais fácil acabar com ele. Assim foi. Em 2005, três anos volvidos, pelo Decreto-Lei nº 10/2005 de 6 de Janeiro, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva é integrado no Museu do Conhecimento. Alguém sabe dizer que Museu era este, intitulado do Conhecimento? Deus nos valha! Se calhar queriam integrar o Pavilhão do Conhecimento no MNCT! Seria isso? Era bom demais para ser verdade! O que queriam na realidade era acabar com o MNCT, não sabendo, contudo, como fazê-lo. Mas de lamentar é que o Presidente Jorge Sampaio promulgou esta Lei, já com o governo de Santana Lopes demissionário. Caricato! Entretanto, neste limbo, chega novamente ao governo o Professor Mariano Gago que, em vez de impor a sua visão anterior, que era excelente, decide, literalmente, atirar o Museu MNCT, agora apelidado de Doutor Mário Silva, pela porta fora, de acordo com o Decreto-Lei nº 39/2006 de 21 de Abril. O MNCT é expulso, por este Decreto Lei, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, não se sabendo sequer onde foi integrado. Ouvimos agora dizer que vai ser extinto, herdando a Universidade de Coimbra o seu espólio. Ao fazer-se o funeral de um Museu Nacional, ainda por cima, dedicado à Ciência e à Técnica, é a Cultura Portuguesa que está de luto. A Universidade de Coimbra ficará a ganhar, mas Coimbra e Portugal ficam, com certeza, mais pobres. O Professor Mário Silva defendia precisamente o contrário. Um Museu Nacional para a coordenação e gestão integrada do património científico e técnico português! Incluindo os Museus das Universidades! É preciso dizer NÃO a mais capelinhas! Por exemplo, o espólio pertencente à Universidade de Coimbra é riquíssimo! Veja-se o caso do Museu Pombalino de Física. Único no mundo. Também ele obra de Mário Silva. Obra que lhe valeu do Estado Novo, em 1942, um louvor público, apesar de ser considerado inimigo público número um de Salazar. A Universidade manteve-o fechado e abandonado durante cerca de cinquenta anos (desde a sua expulsão em 1947 até 1997, provavelmente para apagarem a sua memória e, também, a da reforma pombalina!)! Onde estão os mecanismos do génio desaparecidos entretanto? Como pôde isto acontecer? Quem nos diz que não acontecerá no futuro? É certo que foi criado mais um Museu de Ciência na Universidade de Coimbra, com um cariz diferente do MNCT, complementando-o. Mas dada a riqueza existente, a Universidade, Coimbra e o país tinham obrigação de ter feito muitíssimo mais. Tenho que o dizer: trinta anos após Mário Silva, regredimos! É certo que o novo Espaço de Ciência está engraçado, é divertido, mas não se compara à obra que tinha sido deixada por Mário Silva, que era um verdadeiro Museu de Ciência. Porque pode ser muito educativo ter museus interactivos, onde as pessoas possam aprender ciência, brincando, experimentando. Sem dúvida! Mas estes nunca poderão tirar espaço aos verdadeiros Museus. Espaços que nos deixam boquiabertos com a capacidade criativa do homem. Se dizem o contrário, não sabem o que dizem. Nem nunca entraram num verdadeiro museu de ciência. Experimentem entrar, por exemplo, no Museu de Ciência de Londres (*) e de ter o prazer de, logo ali no seu "hall" de entrada, admirar o trem de aterragem de um Airbus A 340. E o que dizer do salão da energia, das grandes máquinas a vapor? O impacto que este tipo de objectos cria no nosso espirito, é único. Imaginem no das crianças. De facto, os ingleses conseguiram juntar estas duas vertentes num espaço imperdível.

O MNCT constitui um património de excelência que sempre foi desprezado por Coimbra. Por todos. Nunca souberam dar valor ao seu extenso e valioso espólio. Nunca souberam avaliar o MNCT porque, culturalmente, nunca tiveram capacidade para isso. Porque se tivessem, teriam querido continuar a excelente obra deixada por um velhinho de 76 anos, que ele próprio ergueu, com poucos recursos, em tempo recorde. É precisamente aqui que reside o problema português. O problema da mentalidade portuguesa. De quem nos governa e decide, ao nível local e nacional. Incapazes de ver além, de perceber o interesse e a importância deste tipo de bens para o ensino, para a educação e a cultura dos povos. Que visão bem diferente têm os decisores dos países nossos vizinhos. Ainda se dissessem que não havia de todo recursos para o fazer. Mas há! O problema é que por pura incompetência nunca souberam utilizá-los. Com tantos projectos europeus, com tantos recursos disponíveis! Ao não saber fazer, junta-se o não querer fazer. Veja-se o caso da França, por exemplo, que além do excelente Museu de Ciência em Paris, criaram ao norte uma verdadeira Cidade das Ciências, um hino à Ciência e à Industria. E o que dizer do Museu de Ciência de Londres? Porque não pode existir um Museu assim em Portugal, com sede na cidade de Coimbra? Se foi Coimbra a sede da primeira Universidade portuguesa? Estamos de facto nos antípodas. Somos de facto um povo atrasado e mesquinho que, a continuar a trilhar este caminho, jamais atingirá o nível dos países do centro e norte da Europa.
Bem-Hajam.

Com os meus melhores cumprimentos,
JP
_______________________________
NOTA FINAL: Este texto, tal como o anterior, são apenas um testemunho pessoal sobre uma instituição que, se tivesse sido acarinhada como merecia, poderia ter feito muito pela cultura científica em Portugal que, como sabemos, é muito pobre. É também a expressão de um sentimento de revolta pela incoerência das politicas. Não há um planeamento sério. Não há estratégia que ultrapasse uma legislatura. Para estudos mais aprofundados sobre este tema, nomeadamente sobre a história dos museus de ciência em Portugal, aconselho, por exemplo, o excelente trabalho de Ana Delicado intitulado "OS MUSEUS E A PROMOÇÃO DA CULTURA CIENTÍFICA EM PORTUGAL" in SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 51, 2006, pp. 53-72.
PS: Ambas as fotos foram retiradas do blogue centelha. Aqui ficam os nossos agradecimentos ao autor do blogue, Sérgio Namorado.

2 comentários:

Joana Lopes disse...

Através do Prosas Vadias. localizei o seu texto... Obrigada

JP disse...

Testemunho do Professor Dr. Paulo Trincão, antigo director do MNCT/IHCT

... Não tenho publicamente falado do MNCT porque a leitura que faça da realidade de Coimbra é clara: a cidade, Universidade e Câmara não querem o MNCT. Compreendi que não posso mudar a cidade nem a mentalidade dos que lá vivem e que o voto das populações colocou no poder. Portanto quem está mal não é a cidade só eu, e como tantos outros, para ser coerente comigo próprio resolvi sair de Coimbra. Só com as relações sanguíneas que o JP têm se pode lutar pela MNCT em Coimbra. Eu julgo que o que me faz lutar são causas e não pessoas. Continuo a procurar contribuir para a criação de uma cultura científica que seja útil a cidadania. Agora a democracia não se faz à força. Se as instituições que representam as cidades não querem este museu, mal seria que qualquer ministro a partir de Lisboa obrigasse Coimbra a ter um museu que não quer ter. Não foi o Mariano Gago que mudou de opinião, foi a cidade ! Quando foi criado o IHCT o Reitor apoiou a iniciativa. O Manuel Machado e a Teresa Portugal empenharam-se pessoalmente nesta causa.

Quando o IHCT foi extinto era o MNCT que estava a ser extinto. Nessa altura fruto da luta de muita gente o governo teve de recuar e criar à pressa outro Museu o MNCT Doutor Mário Silva (até se esqueceram que MS foi Prof.) procurando cativar a vossa família. A sua mãe nunca se deixou enganar por este embuste, mas não foi assim com muita gente.

… Eu partilho a sua opinião “…É que eu, acima de tudo, gostaria que em Portugal, e em Coimbra em particular, existisse um verdadeiro Museu de Ciência que nos orgulhasse”, só que não posso obrigar Coimbra a ser a sua sede. Nem eu, nem qualquer ministro. Não quero acreditar que tenha engolido aquilo que a direita retrógrada lhe impingiu, pois foi ela quem cometeu o pecado”. Procura sim respeitar a vontade da cidade expressa pelos seus mais altos representantes: a Universidade e a Câmara. Para que não fiquem dúvidas aqui fica um resumo do entendimento:

“… A decisão do novo enquadramento dado ao Museu Nacional da Ciência e Técnica Doutor Mário Silva foi tomada no seguimento do Memorando de Entendimento sobre o Projecto “Museu das Ciências” assinado durante o XV Governo Constitucional em Coimbra a 6 de Abril de 2004. Neste Memorando, assinado pelo Reitor da Universidade de Coimbra, pelo Presidente da Câmara Municipal, pelo Secretário de Estado Adjunto da Ciência e do Ensino Superior e pelo Ministro da Cultura, ficou estabelecido a conjugação de esforços no sentido de viabilizar a criação e instalação em Coimbra de uma estrutura que permita tirar o máximo partido do enorme potencial museológico da cidade nos domínios científicos… através da criação do designado Museu da Ciências.”
(1) Portal do Governo 27/04/05.

Quanto ao futuro de um MNCT muita gente se anda a mexer, sempre é claro, fora de Coimbra. Desta cidade não conheço uma única proposta para uma solução digna para este caso. Vou enviar-lhe a minha posição que enviei ao Governo em 30 de Dezembro de 2005.
Quanto ao trabalho para a criação de um museu nacional da ciência da técnica e da inovação pode contar com a minha participação. Quanto a ter que ser preferencialmente em Coimbra, eu acho exactamente o contrário: não deve ser feito numa terra que não o quer. Acho que o novo museu, se for digno deverá ter o nome de Mário Silva (apesar desta tentativa de utilizar o seu nome para calar a opinião pública ter provocado danos graves).
Em relação à Coimbra como pode ver no documento anexo julgo que o há a fazer é transformar o Palácio de Sacadura Botte numa casa museu para pelo menos manter vivo o sonho de Mário Silva no local em que ele o sonhou.

Quanto à desistência ou desinteresse sobre este assunto do Ministro e do Secretário de Estado eu continuo a acreditar que mais cedo ou mais tarde este assunto renasce.

Seja como for eu continuo a utilizar o que aprendi com Mário Silva e a promover a sua obra sobretudo junto dos mais novos.

Paulo Trincão