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03/03/08

Sobre a Polémica Acerca da Descoberta em Portugal da Lei das Acções Magnéticas...

Uma homenagem ao primeiro Professor de Física da Universidade de Coimbra, e de Portugal, Giovanni Antonio dalla Bella.
Um Contributo para a História da Ciência em Portugal.

A Polémica…

Há anos li no Diário de Coimbra o artigo de Fernando Rovira “Pedaços esquecidos pela História da Ciência” e a minha vontade imediata foi a de escrever algo para o complementar. Porém, resolvi esperar. Por várias razões. Porque sabia que uma resposta ao artigo surgiria. Apareceu com o nome de “Fragmentos da História da Ciência”. Nessa resposta, sob a forma de carta ao director, afirmava o seu autor “… a lei das acções magnéticas foi efectivamente descoberta por Coulomb três anos mais tarde”. No primeiro artigo, baseado num livro [1] do Professor de Física Mário Augusto da Silva [2], grande cientista e democrata português do século passado, o autor surpreende-se com a possibilidade daquela descoberta ter sido feita em Coimbra, três anos antes, pelo primeiro Professor de Física da Universidade de Coimbra, Giovanni Antonio dalla Bella, italiano, natural de Pádua, que chegou até nós pela mão desse insigne reformador que foi marquês de Pombal. A quem se deve realmente a descoberta? A Coulomb que a fez em 1785 ou a dalla Bella que a comunicou em 1782 à Academia Real das Ciências de Lisboa?
Podendo errar. Porque, não vendo qualquer contradição da lei física que rege o fenómeno nos trabalhos do Professor dalla Bella, tendo ele utilizado ímans colocados a várias distâncias e tendo concluído que: “Confrontando os números do cálculo com os da experiência, se conhece que as forças magnéticas dos dois imans que serviram para esta experiência, mostram seguir muito proximamente a razão inversa dos quadrados das distâncias, até à de duas polegadas” [3], traduzindo, portanto, o enunciado da lei, não vejo quaquer razão para a polémica, excepto pelo facto de dalla Bella ter utilizado ímans de maiores dimensões que os de Coulomb. Trata-se de um problema de medida? Mas a lei, que é uma lei fundamental da Física, é válida para ambos. Ou não é assim? Onde está a prova real que demonstra que dalla Bella forjou os seus resultados experimentais? [4]. É certo que o trabalho de dalla Bella tem limitações, mas não deixaria nunca de ser uma referência para a época. E isto, que nos parece tão óbvio, foi completamente esquecido.


Além destas dúvidas que, na minha opinião, são legítimas, surge-me uma outra que me parece relacionada de forma indirecta. Afinal, devemos ou não louvar o trabalho do Marquês de Pombal, nomeadamente na reforma educativa? A pergunta é pertinente porque tem sido ambíguo o tratamento histórico dado à Reforma Pombalina. Depois por uma série de tristes factos, como é exemplo o que aconteceu em 1911 quando o Laboratório de Física decidiu “leiloar num espalhafatoso leilão” [5], parte do espólio do antigo gabinete de física pombalino. Muita coisa se perdeu e só o esforço de Mário Silva permitiu que até nós chegassem autênticas preciosidades históricas sobre os primórdios da investigação e do ensino da Física em Portugal, reunidas num Museu de Física, único no mundo, que criou em finais dos anos trinta [5]. Depois pelo lamentável esquecimento e abandono a que foi votado o Museu após a expulsão de Mário Silva da Universidade, ocorrida em 1947. O Museu só foi reaberto em 1997, isto é, cerca de 60 anos após a sua criação! Coincidência ou não, nem as comemorações do bicentenário da Reforma Pombalina serviram para reabrir o Museu. Nada foi feito na Universidade de Coimbra, nem no resto do país, para celebrar condignamente o bicentenário da Reforma Pombalina, que se deveria ter comemorado em 1972. Que diferença com o que se passou com as celebrações do primeiro centenário!

Não sendo meu objectivo falar do marquês, não posso deixar de referir um excerto de um discurso comemorativo do centenário da Reforma Pombalina de 1772, proferido por um ex-presidente da Républica, orador eloquente, ilustre Mestre de Coimbra, que foi o Professor Bernardino Machado, onde o programa de governo de Pombal é resumido de forma magistral [6]. Nele o Professor Bernardino Machado lembrava também, e muito bem, que tinham já passado dois séculos após Bacon e Descartes, tinha nascido Hegel, e nós marcávamos o passo na doutrina aristotélica! Foi pois no âmbito da reforma do ensino, abrindo as portas à investigação científica em Portugal, que o Marquês criou o antigo Real Gabinete de Physica da Universidade de Coimbra, o qual, segundo uma descrição do próprio, em carta dirigida ao reitor D. Francisco de Lemos, bispo de Zenópolis, homem de sua confiança, seria “…o melhor da Europa, melhor do que o de Pádua (acentua bem o Marquês) que possui apenas 400 máquinas, quando o nosso possui mais de 500" [5]. Para instalar e dirigir o Gabinete, o Marquês de Pombal contratou o referido professor italiano, sobre o qual recai a actual polémica.


Como Tudo Começou…
Em meados dos anos trinta o então director do laboratório de física da Universidade de Coimbra, Professor Mário Augusto da Silva, recebeu uma carta da Direcção Geral da Fazenda Pública para que elaborasse um inventário do laboratório que dirigia. Foi, surpreendido, que se deparou com um património valioso, único no mundo. Embora pouco restasse, empreendeu um trabalho excepcional na sua recuperação Em Junho de 1938, na sequência do trabalho realizado, apresentou à Academia das Ciências de Lisboa, da qual era membro, uma comunicação a que deu o título de «Um novo Museu em Coimbra: O Museu Pomba­lino de Física da Faculdade de Ciências da Uni­versidade», posteriormente publicada na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra [5]. A importância do novo Museu era realçada. Com base no livro Index Instrumentorum de dalla Bella, Mário Silva conseguiu recuperar cerca de 100 máquinas, das cerca de 600 que existiram no laboratório. Grande parte tinha sido vendida no tal leilão [5] que ocorreu à porta do laboratório. Pelo trabalho realizado recebeu um louvor público em 1942. O Museu, para o qual não teve qualquer apoio oficial, não deixou de se fazer [1]. Ocupava duas salas do primeiro andar do edifício pombalino onde funcionou o antigo Laboratório de Física. À primeira, onde reconstituiu o Gabinete de Física do séc. XVIII, chamou Sala dalla Bella. À segunda, onde expôs os instrumentos do séc. XIX, chamou Sala Figueiredo Freire. O Museu foi mantido e melhorado por Mário Silva até 1947, ano da sua expulsão da Universidade pelo regime salazarista. Os seus sucessores mantiveram-no fechado e abandonado até à sua reabertura no dia 29 de Janeiro de 1997, isto é, mais de meio século depois da sua criação. Infelizmente, até aqui, muita coisa se perdeu como exemplificava a edição de «O Jornal» do dia 30 de Junho de 1987 ao noticiar o desaparecimento de uma das máquinas recuperadas por Mário Silva com o título: «É a única no mundo». Mário Silva já cá não estava para acudir ao Museu. Convém realçar que até à sua morte em 1977 tudo fez para preservar o Museu, apesar de afastado, injustamente, da Universidade de Coimbra.


Foi com a consciência de ter descoberto um autêntico tesouro que Mário Silva iniciou a sua investigação sobre a actividade científica dos primeiros directores do Gabinete de Física Pombalino [3]. Sobre a reforma e dalla Bella, eis o que Mário Silva descobriu: “… Há, na verdade, que reconhecer que o reformador soube produzir as condições materiais necessárias para a sua realização (investigação científica), e disto é prova suficiente o magnífico conjunto de trabalhos que, embora esquecidos ou ignorados, foram realizados pelos primeiros professores do Gabinete de Física da nossa Universidade… a valorizar, logo de princípio, esse magnífico conjunto de trabalhos, não faltou sequer a descoberta sensacional de uma lei fundamental da Física: a lei das acções magnéticas … Informado de que havia sido sócio (dalla Bella) da Academia das Ciências de Lisboa, e até o primeiro sócio efectivo da minha especialidade, tive interesse em folhear as Memórias publicadas por esta Academia, no intuito de estudar os trabalhos que ele não poderia ter deixado de ali apresentar. Tive logo a grande surpreza de encontrar, nas primeiras páginas do primeiro volume das Memórias, o trabalho importante da descoberta da lei das acções magnéticas. Trata-se de um trabalho consciencioso que revela as magníficas qualidades de investigador do seu autor. Tudo é descrito com a maior precisão: observações feitas, cuidados havidos e resultados obtidos… Este trabalho é de 1782; ora, só em 1785 é que Coulomb publicou o seu, com o enunciado da mesma lei. Mas como já referimos, ela foi, infelizmente, esquecida a favor de Coulomb que tem sido, até agora, considerado seu único autor”. Acrescentando “Sem querer, por agora, pormenorizar todas as causas deste lamentável esquecimento, devo referir uma que desde logo se me apresentou: foi a data da publicação do primeiro tomo das Memórias da Academia. Com efeito, esta publicação só se fez em 1797. Quer dizer: dalla Bella faz o seu trabalho em 1782, apresenta-o à Academia no mesmo ano, e os dirigentes desta agremiação científica cometem o lamentável desleixo de o conservar esquecido durante 15 anos nos seus arquivos!” [2-3].
O tempo passou… em 1947 Mário Silva, por ser um democrata convicto, foi preso e expulso da Universidade… o Museu Pombalino encerrou as portas… e sucederam-se as tentativas para limpar o rasto do Professor Mário Silva!


Como Tudo Acabou…
Entretanto, logo após a expulsão do Professor Mário Augusto da Silva, o distinto professor do ensino secundário e erudito investigador da História da Ciência, Rómulo de Carvalho, ilustre poeta e pedagogo, vem a Coimbra e, pouco tempo depois, publica um estudo sobre a “Pretensa descoberta da lei das acções magnéticas por dalla Bella” [4], iniciando um extenso trabalho de investigação sobre o gabinete de física pombalino.

Acerca de dalla Bella escreveu Rómulo de Carvalho [7]:
Passaram-se os anos, morreu D. José, Pombal foi desterrado, e é somente em 1786 que D. Maria I chama a atenção dos professores de Coimbra para a falta de cumprimento da obrigatoriedade da redacção dos compêndios, a qual não foi respeitada por nenhum dos mestres das seis Faculdades, catorze anos decorridos sobre a publicação dos Estatutos. Dalla Bella só se desempenhou do encargo em 1789-90, anos da publicação do seu Physices Elementa usui Academiae Conimbricensis Accommodata, em três grossos volumes (1168 pp., 37 folhas desdobráveis com 262 gravuras). Bem instalado em Coimbra, tendo à sua disposição um excelente e completo Gabinete de Física… seria de esperar que dalla Bella,… organizasse o seu plano de trabalho como investigador… A situação obrigava-o a isso (!)… ”. Ver figura 1.


Estas afirmações de Rómulo de Carvalho são injustas e lamentáveis. Podemos esquecer que o próprio Gabinete de Física Pombalino foi obra do Professor dalla Bella? Isto não pode ser esquecido e muito menos negado. Muitas das máquinas nele existentes, para o ensino da Física Experimental, tinham sido projectadas pelo próprio dalla Bellla, sendo verdadeiras preciosidades do engenho português. Algumas podem ver-se na Figura 2, que nos mostra também o aspecto da Sala de dalla Bella do Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra, que nos foi deixado pelo Professor Mário Silva. Pois bem, algumas delas já não existem. Devido ao abandono a que este magnífico museu foi votado, após 1947, e contra o qual Rómulo de Carvalho também nada fez, algumas das máquinas, que também se podem ver na foto, desapareceram!


Fig. 1 – Capa e algumas figuras do Tratado de Física, Physices Elementa usui Academiae Conimbricensis Accommodata, escrito pelo Professor dalla Bella. De notar que vários especialistas internacionais que visitaram o Museu Pombalino de Física, já na época de Mário Silva, alertaram para a elevadíssima qualidade do espólio do Museu relativamente à Mecânica.


Fig. 2 – Aspecto da magnífica sala de dalla Bella do Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra (antigo Real Gabinete de Física da UC) em 1939 – foto retirada da referência [5]. A mesa e a maquineta que se vêem em primeiro plano foram roubadas nos anos 80...

Quanto à repetição das experiências, duzentos anos após as que foram efectuadas por dalla Bella, afirmou Rómulo de Carvalho [7]:
Serviu-se dalla Bella, para o estudo que se propunha efectuar, de uma pedra magnética, de grande porte, …, bloco de magnetite de 12 kg… Com este enorme pedaço de magnetite e com outros corpos magnetizados, de menores dimensões, colocados próximos a diversas distâncias daquele, pretendeu dalla Bella descobrir a lei das acções magnéticas. Note-se que essa lei já era dada como conhecida teoricamente por analogia com acções de efeitos semelhantes (gravíticas e eléctricas), e que restava apenas confirmá-la pela experiência. Foi, como se sabe, o investigador françês Coulomb quem a confirmou, e é com o seu nome que essa lei permanece nos anais da História da Ciência. Coulomb utilizou corpos magnetizados de pequenas dimensões… e é evidente ser impossível chegar a conclusões análogas às do físico françês recorrendo a um pedaço de magnetite de 12 kg… Nós próprios o utilizámos, em Coimbra, por curiosidade (!?), para o mesmo fim de dalla Bella, e de imediato reconhecemos a impossibilidade de se chegar ao enunciado da lei… temos razões para supor que o acolhimento dado, pela Academia, às duas Memórias não tenha sido muito dignificante para o seu autor”. Pensamos que o Professor dalla Bella deveria ter direito de resposta. Na figura 3 pode ver-se o magnífico conjunto do qual faz parte o magnete referido.


Fig. 3 – Conjunto magnífico existente no Museu de Física da Universidade de Coimbra, composto por um bloco de magnetite, ferro, madeira e marfim. A origem do magnete não é conhecida, tendo sido oferta do imperador chinês ao Rei D. João V.

Convém lembrar que, antes de Rómulho de Carvalho, dois professores italianos, Mário Gliozzi [8] e Giovanni Constanzo [9], por esta ordem, e quase em simultâneo com o Professor Mário Silva, já tinham escrito sobre este tema, todos enaltecendo o trabalho de dalla Bella, considerando-o um grande contributo para a Física da época.


Penso que Rómulo de Carvalho [4] limita-se a descrever as dificuldades que o Professor dalla Bella enfrentou para provar, experimentalmente, que as forças magnéticas variam com o quadrado da distância. Baseando-se na bibliografia usada na época pelo próprio Professor dalla Bella, demonstrando à saciedade que o Professor dalla Bella estava a par de todos os trabalhos relevantes publicados até à sua descoberta, o que só demonstra o seu elevado nível de conhecimentos científicos, Rómulo de Carvalho concluiu “que à data (1781) em que dalla Bella vai iniciar as suas observações, relativamente ao estabelecimento da lei das acções magnéticas, já está assente: 1º) que as acções magnéticas variam na razão inversa dos quadrados das distâncias dos magnetes … e 2º) que a medida das referidas distâncias se deve efectuar entre certos pontos (centros de atracção) dos magnetes… Restava portanto a confirmação experimental da lei estabelecida através da teoria” [4]. No entanto, que fique bem claro, a lei só acabou por ser formulada e demonstrada em 1785 por Coulomb. O certo é que dalla Bella o tenta fazer 4 anos antes e pelos vistos com algum sucesso. O seu “crime” foi o de unir aqueles dois “pressupostos” na verificação dos seus resultados experimentais. Mais ninguém o tinha feito antes. Existe alguma originalidade e genialidade no trabalho de dalla Bella. A ciência só avança por associação de ideias e foi precisamente isso que dalla Bella fez. Desprezando o trabalho de dalla Bella, porque este teve o “desplante” de escrever nas suas Memórias que aqueles “pressupostos” eram descobertas suas, Rómulo de Carvalho afirma: “Julgamos ter sido John Michell o primeiro que enunciou a lei fundamental das acções magnéticas, em 1750, nos termos em que Coulomb a veio a enunciar mais de trinta anos depois.” [4]. Pensamos que esta atitude é inadmissível, porque historicamente, entre eles, existe o trabalho de dalla Bella, que Rómulo de Carvalho omite propositadamente, pois considera que o Professor dalla Bella agiu de má fé. Partindo de uma ideia que à partida o contradiz, que é o facto indesmentível, que o Professor dalla Bella era uma pessoa competente e a par da Física do seu tempo, deduz que o seu trabalho foi forjado por estar sob “a exigente pressão das suas obrigações de sócio de uma Academia das Ciências” [4]. Porque, hipoteticamente, o Professor dalla Bella, segundo Rómulo de Carvalho, ter começado os seus estudos sobre magnetismo depois de ter sido convidado a apresentar uma Memória à Academia das Ciências, pois “Dalla Bella fez parte do primeiro grupo de 24 académicos, sócios efectivos, e a sua escolha dever-se-ia ter fundamentado não no valor da actividade que manifestara como cientista (?) mas na crença de que possuísse certas capacidades que a função universitária exigia.” [4]. Inacreditável! No entanto, ao afirmar que “…este excepcional encargo (de vir ensinar Física Experimental e participar na reforma) obriga-nos a crer que o professor italiano seria pessoa de indescutível competência … ” e que a bibliografia usada por dalla Bella “de excelente escolha…. depõe, muito favoravelmente, em abono da cultura científica de dalla Bella” [4], prova-se que existe uma contradição na argumentação de Rómulo de Carvalho.


Cremos que, em certa medida, o trabalho de Rómulo de Carvalho [4] pretende redimir o erro da Academia das Ciências ao denegrir o trabalho de dalla Bella. Porque, segundo este autor, “Parece-nos que os estudiosos portugueses que se agrupavam na Academia das Ciências não eram os beócios que dalla Bella suporia…”, vindo em defesa da Academia das Ciências, pelo grave erro cometido ao esquecer, lamentavelmente, o trabalho de dalla Bella, afirmar “cremos que as Memórias foram mal recebidas”. O certo é que nada prova acerca desta sua dedução, afirmando, surpreendentemente, o seguinte. “Parece-nos lícito supor que a demora resultasse da má impressão causada nos consócios que dela teriam tido conhecimento prévio. O interesse suscitado, à sua chegada a Lisboa, por uma Memória enviada de Coimbra (!?), pelo lente da cadeira de Física Experimental criada pela reforma pombalina, ter-se-ia desfeito com a notícia da «descoberta» de dalla Bella (!!!). A «nova ideia» do professor italiano deveria ser velha para alguns dos Académicos portugueses” (?!). Não é isto uma nova contradição? Se era uma «descoberta», não teria que ter sido maior ainda a responsabilidade da Academia? E onde está contra argumentação da Academia, que provaria que as Memórias foram mal recebidas? É certo que naquela época existiam académicos notáveis, como por exemplo o Professor de Astronomia Monteiro da Rocha, mas que se saiba não existe nenhum escrito reprovando as Memórias. E se assim foi, como se explica que a douta Academia “se resolveu a incluir as duas Memórias de dalla Bella nas suas publicações”? Não só a incluiram como tiveram a honra de serem das primeiras do Tomo I das Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa?… Não será isto nova contradição? Segundo Rómulo de Carvalho isto só se deveu pela “ligação de compadrio entre o professor italiano e o Visconde de Barbacena…”. Será possível? Não será outra contradição? Afinal, os consócios da Academia, homens esclarecidos e informados, poderiam aceitar uma situação destas? E Rómulo de Carvalho conclui: “O Tomo I das Memórias da Academia Real das Sciências de Lisboa só foi publicado em 1797… dalla Bella, lente jubilado da Universidade de Coimbra, já deixara Portugal e regressara à sua pátria, sem ter chegado a ver a sua «descoberta» em letra impressa. Entre as recordações que de nós levou talvez avultasse a convicção de que este país que o acolhera, e a ele, sem necessidade, recorrera para a execução de uma reforma do ensino, ainda possuia um grupo de homens suficientemente esclarecidos e informados da ciência do seu tempo para não aplaudirem, ingènuamente, a primeira «descoberta» que se lhes apresentasse.”. Sem palavras! O negrito acima é meu. Será que não podemos mudar a capital para outra cidade portuguesa? Não há pachorra...
A mim parece-me que Rómulo de Carvalho desconhecia a história do ovo de Colombo. Parece-me também que, pelos vistos, o Professor dalla Bella, ele sim, era de facto um homem informado, pois estava a par dos grandes desenvolvimentos da Física da sua época. Rómulo de Carvalho esqueceu-se que o Gabinete de Física (o melhor da Europa nas palavras do marquês) foi criado pelo Professor dalla Bella (embora sendo a continuação do seu trabalho no Colégio dos Nobres). Não foi obra do acaso. Esqueceu-se de referenciar o trabalho demonstrado no portentoso Index Instromentorum, um índice de instrumentos ainda existente no Museu de Física da Universidade de Coimbra (foi graças a ele que Mário Silva conseguiu reconstruir o Gabinete). Nele são minuciosamente identificadas e descritas as cerca de 600 máquinas do Gabinete. Esqueceu-se que algumas eram inventos de dalla Bella e de fabrico português. Esqueceu-se que o Professor dalla Bella, afinal, sempre publicou um tratado de Física. Esqueceu-se que o Professor dalla Bella foi contratado como professor, tarefa que assegurou com mestria, pois deixou escola. Que infelizmente foi esmorecendo. O que levou, de facto, Rómulo de Carvalho a escrever sobre o Gabinete de Física pombalino?


Cremos que além da defesa da Academia das Ciências, ressalta dos seus escritos uma posição dúbia relativamente à reforma pombalina do ensino. Tem, neste contexto, uma posição diferente face à contudência das palavras de Bernardino Machado. Se por um lado a elogia, afirmando [7] “Qualquer que seja o juízo que se faça relativamente à acção do marquês de Pombal, sempre se acentua, com sinal positivo, o projecto e a execução da sua reforma do ensino…”, continuando “Na verdade, fora da Companhia de Jesus (na altura quase monopolizavam o ensino, proibindo a entrada de tudo o que não fosse aristotélico), a sociedade tinha-se transformado radicalmente, e o ambiente tornava-se cada vez menos receptivo à doutrinação dos jesuítas. A vitória do combate secular entre Antigos e Modernos, entre Aristóteles e S. Tomás de Aquino por um lado, e Descartes, Gassendi e Newton por outro, pendia irremediavelmente para estes últimos, e nada a faria deter… Os inimigos mais perigosos da doutrinação filosófica da Companhia de Jesus, em Portugal, eram os elementos de uma outra ordem religiosa, a Congregação do Oratório de S. Filipe Néri, que desde cedo abraçaram a Física Moderna expondo-a nas suas escolas e defendendo-a nos seus escritos…”. Por outro critica-a, afirmando [7] “Quando em 1759 Pombal decretou a expulsão dos jesuítas de todo o território português, … a situação escolar do país sofreu um colapso quase total… para a elaboração da sua reforma do ensino universitário, que é indubitavelmente uma obra notável, instituiu Pombal uma Junta, que designou “Junta de Providência Literária”… As reuniões da Junta efectuavam-se, semanalmente, em casa do próprio marquês ou então do Cardeal João Cosme da Cunha… os resultados imediatos da Reforma Pombalina, no que respeita à Faculdade de Filosofia (e também à de Matemática), foram muito deficientes… precipitação com que se procedeu à reforma dos estudos e à má preparação pedagógica dos seus intervenientes…”. Terá havido na nossa história alguma reforma educativa que se possa comparar à de Pombal? Tomáramos nós.

Ao realizarem-se trabalhos de investigação histórica, não deveriam os investigadores colocarem-se um pouco na perspectiva de quem fazia Ciência na época, de imaginar as dificuldades de quem fazia Ciência no século XVIII? Em particular em Portugal? Nesta perspectiva, não restam dúvidas do excelente trabalho realizado pelo Professor dalla Bella e que as suas Memórias são indiscutivelmente, na época em que foram feitas, obras notáveis. Poderão ser consideradas, no meu modesto parecer, marcos históricos do desenvolvimento da Ciência e da Técnica em Portugal.

Ecos…
Curiosamente, apesar do trabalho do Professor Mário Silva na recuperação do Gabinete e na criação do Museu Pombalino, do qual publicou dois excelentes trabalhos: em 1938 a comunicação à Academia das Ciências acima referida [5] e em 1940 a comunicação apresentada ao Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa sobre os primeiros directores do Gabinete de Física [3], ambos publicados na Revista da Faculdade de Ciências da UC, nem um nem outro fazem parte da longa lista de referências citadas no artigo “A Física na Reforma Pombalina”, publicado por Rómulo de Carvalho na História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, I volume das Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa em 1986 e incluído no Catálogo do Museu de Física da Universidade de Coimbra [7]. Estranho! Muito estranho! Sem Mário Silva, não existiria magnete completo (o peso que o mesmo suportava foi comprado por 350$00 a um sucateiro de Coimbra), nem existiria, sequer, Gabinete de Física. Além disso, no referido catálogo “O Engenho e a Arte”, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, aquando da reabertura do Museu Pombalino de Física, aqueles dois pioneiros trabalhos de Mário Silva não constam (!?). Limitam-se a excertos de publicações menores escritos por Mário Silva na comunicação social portuguesa. Mais. No site do Museu de Física, só Rómulo de Carvalho era inicialmente referido. Incompreensivelmente, no site do Museu de Física não era dita uma palavra sobre o Professor Mário Augusto da Silva, seu criador (!?). Fui eu próprio que alertei para aquela situação injusta. Refira-se, no entanto, que a Universidade de Coimbra, no ano da reabertura do Museu, embora posteriormente, homenageou Mário Silva, celebrando os 50 anos do seu afastamento da Universidade.
Sobre a presente polémica, de realçar ainda o excelente trabalho de Ricardo Monteiro, que foi o vencedor do Prémio “Mário Silva”*, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Física, em colaboração com o jornal Público e a Gradiva, em 2000 [10], ao melhor trabalho sobre Física para alunos do 12º ano. Embora admirando o trabalho, mantém na íntegra as conclusões de Rómulo de Carvalho que aqui contestamos. Mas o Ricardo não tem culpa...
Por considerar que o Professor dalla Bella foi injustiçado e, inadmissivelmente, humilhado, é necessário que quem de direito reabilite a sua memória. Tendo sido o primeiro Professor de Física da Universidade de Coimbra, e como tal de Portugal, dalla Bella mereceria, não só um pouco mais de respeito, mas, uma homenagem justa. Pois, como Mário Silva reafirmou, no seu livro “O Elogio da Ciência” [1], em 1971, “Seja porém como for, quer seja possível encontrar ainda alguma referência ao trabalho do Professor dalla Bella, quer não, é incontestável que foi no Gabinete de Física pombalino, e com o seu material científico, que foi descoberta, em 1782, a lei das accções magnéticas (2).”. A referência (2) diz respeito ao trabalho publicado em 1954 por Rómulo de Carvalho [4].
Admiro o trabalho de Rómulo de Carvalho na área da pedagogia, a sua poesia e não esqueço que os primeiros livros de Física que li foram da sua autoria. Mas não posso concordar com a forma como Rómulo de Carvalho tratou o Professor dalla Bella. Considero-a inadmissível dada a injustiça que encerra. Penso que nesta área errou. Por isso, a razão de ser deste trabalho.


Têm a palavra
(*) - A designação deste prémio, atribuído pela SPF, gradiva e Público, deveu-se ao empenho do Professor Carlos Fiolhais.


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Referências
[1] M. A. da Silva, O Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1971.
[2] Nobre, J.P., Ruivo, D. e Fiolhais, C., Mário Silva, o Professor, o Cientista e o Político, Gazeta de Física, vol. 24 (1) 2001, 25-27.
[3] M. A. da Silva, A Actividade Científica dos Primeiros Directores do Gabinete de Física que a Reforma Pombalina criou em Coimbra em 1772, Proc. I Congresso da História da Actividade Científica Portuguesa, Coimbra, Novembro de 1940.
[4] R. de Carvalho, A pretensa descoberta da lei das acções magnéticas, por dalla Bella, em 1781, na Universidade de Coimbra, Revista Filosófica, nº 11 ano IV, 1954.
[5] M. A. da Silva, Um Novo Museu em Coimbra: O Museu Pombalino de Física da Faculdade de Ciências de Coimbra, Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol. VIII 1939.
[6] B. Machado, A Universidade de Coimbra, tip. França Amado, 1905.
[7] Catálogo do Museu de Física da Universidade de Coimbra, O Engenho e a Arte, F. C. Gulbenkian, 1997.
[8] M. Gliozzi, L´elettrologia fino al Volta, vol. II, Nápoles, 1937.
[9] G. Constanzo, Sobre a descoberta das acções magnéticas, Revista de Chimica pura e applicada, II serie, ano XIV, Porto, 1938.
[10] R. Monteiro, Mário Silva, Dalla Bella e a Lei das Acções Magnéticas, Gazeta de Física, vol. 24 (4) 2001, 7 p.
Nota 1: já depois deste artigo ter sido aqui colocado, descobri um interessante trabalho do Professor Vaz Guedes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, sobre um trabalho de dalla Bella acerca de pára-raios em edifícios, que vem reforçar a razão de ser deste meu trabalho.
Nota 2: Ao título deste trabalho deveria ser acrescentado ... A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (V). Não o fiz dada a importância do assunto tratado.

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