Razao

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11/03/08

Gavroche e o Último Garoto...

Um conto do meu pai. Em memória do pai mais sábio do mundo.

Gavroche na pintura de Delacroix “A Liberdade guiando o povo”


PORQUÊ ÚLTIMO GAROTO? (do título do volume II do Memorial de Vide)

Chamo para me ajudar a esclarecer e justificar este porquê, o Gavroche, o garoto revolucionário, que nas barricadas da Revolução Francesa ajudava, na luta pela liberdade do povo francês, a impor a toda a humanidade os mais belos princípios humanos: igualdade, liberdade e fraternidade. Foi um garoto revolucionário pelos melhores ideais. Este garoto, Gavroche, teve os maiores elogios do grande escritor francês Victor Hugo, que o imortalizou na sua obra “Os Miseráveis”, considerando-o uma pérola. No livro “Rã no Pântano” do Dr. António de Almeida Santos, de Vide, é maravilhosamente tratado. Escreveu:

“Meu Gavroche… Vá Gavroche, rouba uma estrela do Céu, quando o Sol fechar os olhos. Tu, rouba a mais bela”.

Citando também Victor Hugo:
“O Gavroche é que tem na alma uma pérola e as pérolas não se dissolvem na lama”.

Por isso, as estrelas roubadas quando o Sol dormia e as pérolas agarradas ao coração dos garotos gavroches, sinto-me culpado dos roubos, desde a idade do Gavroche, eternizado pelo grande Delacroix, até hoje. À espera que a morte me diga, já basta, esperando que me diga também, leva a tua estrela e a tua pérola. Quantos garotos gavroches, que foram meus amigos e companheiros, levaram as suas estrelas e as suas pérolas? Gavroches revolucionários, nas barricadas da vida, revolucionários com os ideais presos às mãos, para as suas estrelas iluminarem a sua defesa pela liberatura, da poesia, da arte, na sua diversidade e dos melhores valores humanos.
Recordá-los? A "A Comarca de Arganil" não mos recusa, por que também os tem, com as idades que já os seus gavroches não têm tempo para os contar. Recordar tantos. Vasco de Campos, Carminé Nobre, Agostinho Antunes, João Castanheira, Mário Silva (cientista), Joaquim Mascarenhas, Nunes Pereira, Silvestre e Alberto (Barril de Alva)...
E os gavroches que canonizaram o Alvarinho Taveira na sua residência na aldeia de Casal de Balaus (Condeixa)? Numa Tertúlia banhada pelo «vinho bispa», o Vasco de Campos, Carminé Nobre, Miguel Torga e Vitorino Nemésio, exclamaram convictos: «Ó Alvarinho tu és amado pelo teu povo. És um santo!!». De imediato o artista plástico e escultor Álvaro de Matos fez-lhe uma estatueta de corpo inteiro, em terracota. E todos em procissão colocaram o Alvarinho num nicho junto ao altar da igreja, com autorização do padre Luciano, que paroquiava na altura a aldeia. Estes gavroches, iluminados pelas suas estrelas, beatificaram o Alvarinho sem prestarem contas, e á revelia das normas canónicas do papado, em Roma. Há santos só com estrelas na alma. O povo aceitou-o como santo e nas procissões das festas religiosas lá ia o Alvarinho num andor rodeado de flores...
E quem foi o Gavroche que lançou as estrelas para o céu, de propósito, para serem apanhadas pelos seus eleitos e companheiros garotos sem idades? Sabem, quem? O Gavroche revolucionário divino Jesus Cristo, que na gravura que se junta está com a sua Mãe na carpintaria do seu Pai José.

Mas nem todos os garotos gavroches foram felizes. Milhares de garotos e raparigas, agruparam-se numa cruzada, conhecida pela Cruzada das Crianças, comandadas por dois garotos com as idades de 10 anos, um francês, Eugénio, e o outro alemão, o Estêvão, para libertarem a Terra Santa dos muçulmanos, em 1212. Transcrevo esta Cruzada da História da Igreja, do autor August Franzen: «Por que Deus exigia que só as virgens e crianças poderiam libertar a Terra Santa. E porque todas as cruzadas tinham sido derrotadas, apesar de cavaleiros sanguinários». E transcrevo o fim desta Cruzada, do mesmo livro da História da Igreja «O empreendimento em nome de Deus, terminou numa terrível tragédia. As raparigas foram vítimas de terríveis abusos no norte de Itália (apesar das bênçãos do papa, em Roma), em Marselha vendidos para escravos e em Alexandria, uma imagem arrepiante». E quantos inocentes gavroches, têm sido aproveitados em nome de Deus, de Cristo e de sua Mãe? Inocentes, só acompanhados pelas luzes das estrelas que lhes ofereceu o seu companheiro gavroche Jesus, têm sido aproveitados, mesmo pelos que se afirmam cristãos-católicos portugueses. E aproveitamento por todo o mundo, que resulta em milhões de crianças massacradas com guerras e mortes com fome. Satisfazem os seus interesses. Mas quando chegar o fim de tantos deles, sem as luzes das estrelas dos gavroches, um negrume eterno os espera. Eu, ainda aqui estou, com a minha estrela roubada. A pérola está com a minha mulher.
E só no patim da igreja de Vide.

Oh pai!... Não estás só... estás nos nossos corações e rodeado de todos os teus Gavroches!

1 comentário:

carlos freitas disse...

Grande texto confrade blogueiro. Essas suas memórias mereciam mais expansão. Se me compreende. Obrigado por este "naco" de enriquecimento.