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10/01/10

Memórias do Melhor Rally do Mundo...

Existem algumas coincidências intrigantes relacionadas com o fim do melhor rally do mundo, o rally de Portugal, o fim do Grupo B nos rallies, o apogeu do WRC e a tragédia que se abateu sobre duas das suas lendas. Uma portuguesa e outra finlandesa. Falamos do "Villeneuve dos Rallies", Henri Toivonen, e do "Villeneuve Português dos rallies", Joaquim Santos. Mas comecemos pelo princípio.

O ínicio do fim da era de ouro dos rallies deu-se na edição do rally de Portugal de 1986. A última década tinha tornado este desporto num dos preferidos dos portugueses. E não só. Desde o velhinho rally TAP, passando pelos célebres Vinhos do Porto, com as disputas renhidas e inesquecíveis, ao metro, diria mesmo, entre os Fiat 131 Abarth e os Ford Escort RS 1800, protogonizadas por lendas como Markku Álen, Walter Röhrl, Hannu Mikkola e Björn Waldegård. Quem não se lembra dos troços de Vide ou de Arganil, este com mais de 40 km, com início na Aldeia das Dez, ladeados por ribanceiras e precipícios a perder de vista, onde invariavelmente os rallies eram decididos? Troços de terra, com vistas estonteantes, onde era comum ver-se bocados de rocha xistososa a cobrir todo o piso. Mas também pelas lições de condução de finlandeses voadores, como Ari Vatanen, Timo Salonen, Kankkunen e, o mais espectacular de todos, o "Villeneuve dos rallies", Henri Toivonen. Toivonen que tive o prazer de ver em acção várias vezes, desde os tempos do espectacular Talbot-Lotus. Foi também piloto da Opel, ao volante do Ascona 400, da célebre equipa Rothmans. Lutou muito contra a entrada dos 4WD nas provas do WRC. Um dia, na Lousã (quem não se lembra das 5 curvas?), por pouco não fui atingido na cabeça por um pedragulho disparado quando, após o accionamento do travão de mão, à saída de um gancho à esquerda, os 400 CV nas rodas traseiras de um Opel varreram literalmente, o chão. Com o surgimento de autênticas "bombas voadoras" de tracção integral, como os Audi Sport Quattro S1 (no início com a incrível Michelle Muton), os Lancia Delta S4, os Ford RS 200, e as potências dos motores a chegarem aos 700 CV, integrados no famoso Grupo B, o espectáculo ficou, literalmente, ao rubro. Domar estes monstros era tarefa quase sobre-humana, embora a espectacularidade da condução em slide, na qual Toivonen e Santos eram mestres, tivesse sofrido um grande revés.

Desde a década de 70 que se viam, de ano para ano, ao sabor também do avanço tecnológico e da competição saudável e renhida, cada vez mais pessoas entusiastas e fans deste desporto. O público português, infelizmente, comportava-se muitas vezes como se estivesse numa arena, desafiando touros, como o primeiro vídeo bem documenta. Está-lhe no sangue, provavelmente. A falta de civismo era, talvez, a única crítica que nos era apontada. Porque, se devidamente controlado (o que raramente acontecia), o rally de Portugal era único no mundo. Pela organização, pelo traçado e classificativas, pelo entusiasmo do seu público, pela exuberância das paisaigens, pela hospitalidade do seu povo. Os rallies chegavam a durar 6 dias! Convivia-se ao relento, à luz das fogueiras acesas para calar o frio das noites de Março, à beira dos troços das florestas, à espera do espectáculo. Foram tempos magníficos que provavelmente não voltarão.

Foi pois com uma expectativa enorme que se iniciou no dia 5 de Março de 1986 mais um rally de Portugal, com o primeiro troço cronometrado na Lagoa Azul, em Sintra. Com uma lista de inscritos extraordinária, antevia-se um espectáculo imperdível. Nesta primeira classificativa por Sintra, os 8 primeiros classificados estavam separados por apenas 2 segundos: Henri Toivonen e Markku Alen (ambos em Lancia Delta S4) e Walter Rohrl (Audi Sport Quattro), 2m15, Timo Salonen (Peugeot 205 T16) e Kalle Grundel (Ford RS 200 ), 2m16, Massimo Biasion (Lancia Delta S4), Juha Kankkunen (Peugeot 205 T16) e Malcolm Wilson (MG Metro), 2m17. Estes tempos foram obtidos numa classificativa aonde se acotovelavam mais de meio milhão de pessoas! Pessoas que formavam autênticos "rails" humanos, entre os quais os pilotos tentavam passar no limite. E, assim, sentia-se que a tragédia iria acontecer. Ainda na 1ª classificativa (Lagoa Azul), Joaquim Santos, o "Villeneuve português dos rallies", ao volante de um Ford RS 200, sofria um despiste e "varria" uma multidão de espectadores, provocando 33 feridos e 2 mortos (mãe e filho, de 9 anos). Foi a primeira coincidência! Podia ter acontecido com qualquer outro, mas aconteceu com o melhor piloto português...

Foi antes da 2ª ronda por Sintra – no reagrupamento no Autódromo do Estoril – que todos seriam informados do acidente. O nervosismo pairava no ar, com os pilotos exaltados a recusarem-se repetir as passagens por Sintra. No início da tarde, os pilotos das equipas oficiais reunem-se no Hotel Estoril-Sol e acabam por decidir abandonar a prova, num gesto de protesto perante a impotência da organização. Elaboraram um comunicado que foi lido por Henri Toivonen. Segunda coincidência. Havia pilotos mais velhos... mas teve que ser o piloto mais espectacular de todos os tempos a fazê-lo. Eis o que Toivonen transmitiu:
- «As razões pelas quais os pilotos abaixo assinados não desejam prosseguir o Rali de Portugal são as seguintes:
1 – Como uma forma de respeito pelas famílias dos mortos e dos feridos;
2 – Trata-se de uma situação muito especial aqui em Portugal: sentimos que é impossível para nós garantir a segurança dos espectadores;
3 – O acidente no 1º troço cronometrado foi causado por um piloto que tentou evitar espectadores que estavam na estrada. Não se ficou a dever ao tipo de carro nem à sua velocidade;
4 – Esperamos que o nosso desporto possa beneficiar futuramente com esta decisão.»


Foi, literalmente, o fim do rally, apesar de ter continuado a partir da 2ª etapa, por vontade do grande César Torres, o director da prova e do ACP. A vitória desse outro rally viria a sorrir a Joaquim Moutinho, passando este a ser o primeiro português a ganhar uma prova do WRC. Mas as florestas esvaziavam-se, o espectáculo terminava e o luto ensombrava o “melhor rally do mundo". Era o princípio do fim. Fim que teve como corolário o espectacular e trágico acidente que vitimou Henri Toivonen no rally da Córsega, dois meses depois, no dia 2 de Maio. Mais uma coincidência...



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