25/12/11
16/12/11
11/12/11
Madame Curie: no 100º aniversário do Prémio Nobel da Química
No 40º aniversário da descoberta do Rádio - Madame Curie
pelo Professor Doutor Mário Silva
A recente celebração oficial do 40º aniversário da descoberta do Rádio fez novamente correr mundo os dados biográficos mais interessantes dessa gentilíssima figura de mulher que foi Madame Curie. Já quando, em 1923, se celebrou o 25º aniversário, por jornais, revistas e livros de todo o mundo se registaram as características mais notáveis da vida e da obra da ilustre cientista. Na recente celebração, os autores de artigos de jornais e os conferentes encontraram uma excelente fonte de informação no livro que, no ano passado, Eve Curie escreveu e dedicou à memória de sua Mãe. São, pois, geralmente conhecidos os pormenores da descoberta do Rádio e as circunstâncias particulares da vida da sua autora; nestas condições, solicitado amavelmente pelo «Noticias de Coimbra» a escrever, para um número comemorativo da referida descoberta, duas palavras sobre Madame Curie, parece-me que não devo correr o risco de dizer o que por tantos tem sido descrito e contado; mais Interessante será registar algumas, pelo menos, das impressões pessoais que tive o feliz ensejo de colher durante os anos em que Madame Curie foi a orientadora dos meus trabalhos de doutoramento, e durante os quais tive a honra ele ser, em muitas das suas aulas teóricas, seu assistente na preparação das demonstrações experimentais.
O meu primeiro encontro com Madame Curie tenho-o ainda gravado na memória com toda a nitidez, tão funda impressão me causaram a simplicidade de maneiras com que me acolheu e a solicitude atenciosa com que prometeu resolver as dificuldades que se levantaram à minha admissão no seu Laboratório onde todos os lugares, nesse princípio de ano lectivo de 1925, tinham sido já tomados. Não me fez desanimar, antes, pelo contrário, pediu-me que esperasse uns dias por uma resposta definitiva, que seria provavelmente favorável, ao meu pedido de admissão. Registo aqui as palavras que me escreveu dias depois, pelo que elas representam de atenção para com a Universidade de Coimbra:
“Monsieur - Vous avez demandé à être admis à tl'availler au Laboratoire Curie de l’Institue du Radium pour apprendre la technique et pour faire une recherche personnelle. A fin de rendre service à la Université de Coimbra que vous a confié cette mission, je suis disposé à accorder votre admission, bien que vous avez fait votre demande trop tard, quand l’organisation de l’année scolaire était déjà, en príncipe, arrêtée. Veuillez agréer, Monsieur, mes salutations sincères – (a) M.Curie.”
Com o maior alvoroço respondi imediatamente:
“Madame - Tout en vous remerciant beaucoup de votre letre, j'ai le plaisir de vous communiquer que j'accepte tout ce que vous m'avez proposé. Je ferai mon inscription au Secrétariat e j'attendrai l'ollverture de votre cours et du Laboratoire. Je viens d'écrire à M. le Recteur de I' Université de Coimbra et à M. le Directeur du Laboratoire de Physique où j'ai travaillé, en leur rendant compte de ce que vous m'avez proposé et en leur faisa
nt remarquer que vaus accordiez mon admission au Laboratoire Curie pour rendre service à I'Université de Coimbra. Je vous prie d'agreér mes respectueux remerciements - (a) M. A. da Silva”
Carta do Secretário do Instituto do Rádio de Paris, M. Razel, convocando Mário Silva para uma reunião no Laboratório Curie. M. Laporte era assistente de Marie Curie no laboratório com quem Mário Silva ficou a trabalhar. Fréderic Joliot foi admitido no mesmo ano no laboratório, tendo ficado a trabalhar directamente com Iréne Curie com quem viria a casar.
Na falta de um lagar no Laboratório, foi na sua sala de aula que Madame Curie me instalou para a execução dos meus primeiros trabalhos. Assim se explica, em grande parte, a atenção com que os seguiu desde o início, e todo o interesse que por eles tomou. Assim se explica também que eu tivesse ficado em estreita ligação com a organização do seu curso teórico e que eu tivesse tido a honra de a auxiliar nas demonstrações experimentais das suas lições. Nunca mais me foi possível esquecer a emoção que senti quando, pela primeira vez, entrei a seu lado na sala de aula onde, nesse dia, ela ia falar sobre a Teoria das transformações radioactivas a um numeroso auditório que a recebeu de pé e, segundo o costume, com uma prolongada salva de palmas. A experiência que eu tinha previamente montado e verificado era das mais curiosas do curso: demonstração a todo o auditório do ritmo das transformações radioactivas, tornando, por assim dizer, audível as explosões dos átomos do Rádio; um amplificador ligado a um altifalante estava disposto para registar cada uma das explosões dos átomos do precioso metal. A experiência é curiosa porque revela bem o carácter de probabilidade das transformações radioactivas. O estudo teórico destas transformações encontra pois nesta experiência uma excelente confirmação. Madame Curie desenvolveu a sua lição metodicamente, magistralmente, durante os três quartos de hora habituais das suas aulas, e guardou para o final a execução da experiência. Quando acabou e anunciou que eu ia realizá-la, confesso que um peso enorme me oprimiu: a experiência podia falhar, uma das lâmpadas do amplificador, qualquer coisa da montagem podia ter-se desarranjado. Foi com enorme sacrifício que reprimi toda a minha emoção, e comecei com calma aparente a fazer as ligações. Ao pegar no pequeno tubo de Rádio com que eu ta fazer a demonstração, tive a sensação de que podia dar-se uma catástrofe, tal receio tinha de um insucesso. Felizmente, o pequeno tubo de rádio depressa mostrou a sua actividade. Começaram a soar altifalante as primeiras explosões radioactivas, e o auditório, entusiasmado, aplaudiu, misturando o barulho das suas palmas com o ruído das explosões atómicas. Respirei aliviado e quase tive a ilusão, nesse minuto para mim memorável, de que aquelas Palmas também se dirigiam ao ignorado português que ali estava, sentindo que acabara de viver um dos momentos mais emocionantes da sua vida de professor.
Por mais de uma vez, Madame Curie me fez sentir que era com o maior interesse que se empenhava em, como ela diz na carta que transcrevi, «rendre service à I' Université de Coimbra». Quando Doumergue, então Presidente da República, visitou oficialmente o Instituto do Rádio, Madame Curie teve particular interesse em me apresentar; recordo ainda que afirmou ao Presidente que tinha a maior satisfação em ter no seu Laboratório um assistente da mais antiga Universidade Portuguesa, a Universidade de Coimbra.
Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de provar-lhe que, reconhecida, a velha Universidade Portuguesa, a ia homenagear..., não com mais um doutoramento «honoris causa» ou com uma recepção oficial cheia de pompa. De há muito que eu sabia que Madame Curie fugia, sempre que podia, a exibições de grande aparato, que tinha mesmo horror às grandes manifestações oficiais, com discursos e condecorações. Tal como Pierre Curie, Madame Curie vivia exclusivamente para os seus trabalhos de investigação e para o seu Laboratório. A homenagem a prestar-lhe devia pois ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Instituto do Rádio feito à imagem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz. Foi com a alegria de uma criança que acaba de ter um brinquedo desejado, que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investigações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs vir assistir à sua inauguração. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à inauguração do novo Instituto. O professor Doutor Álvaro de Matos, director da secção médica, foi dos primeiros a receber a notícia. O seu entusiasmo não foi inferior ao meu, e desde logo pensou em abreviar a realização de tão importante acontecimento. Neste sentido trabalhei, mas todos os meus esforços foram inúteis. Nove anos depois o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fechadas e, o que é mais doloroso, a morte de Madame Curie irremediavelmente inutilizou o projecto em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À memória de Madame Curie devo esta declaração de consciência.
Para terminar, algumas palavras mais sobre o ambiente de trabalho no, Instituto do Rádio de Paris.
No meu tempo, O Instituto era um pequeno mundo onde se falavam quase todas as línguas; eu era o único português, mas havia, além de franceses, russos, polacos, sérvios, romenos, eslavos, suíços e japoneses.
A direcção científica de Madame Curie a todos se impunha, excepção feita - porque não dizê-lo? - de alguns franceses. Eu sei - toda a gente sabe que a França, pátria adoptiva de Madame Curie, várias vezes homenageou a ilustre Professora; mas pouca gente sabe que o sentido dessas homenagens muitas vezes se dirigiu com acentuada persistência ao nome de Curie. Mais ainda: quase ninguém sabe que, para muitos franceses, Madame Çurie foi sempre considerada a usurpadora de uma situação e de funções que eles teriam preferido ver em mãos de compatriotas. Certa imprensa chegou mesmo, há alguns anos, a fazer campanha contra Madame Curie Registe-se contudo também que ela teve em muitos dos mais eminentes, amigos sinceros, dedicados até à veneração. No Laboratório era por vezes bem sensível o ambiente de frieza feito por muitos à sua volta. Ela devia senti-lo, e daí o seu retraimento. Poucas vezes saía do seu laboratório privativo, e muitos trabalhos faziam-se sem que ela tomasse conhecimento. Isso não impedia, porém, que algumas vezes, esquecidas atitudes passadas, ela não fosse conversar, com o seu habitual sorriso com os que mais se afastavam, e tudo se passava então como se existisse, entre lodos, a mais cordial e amiga das convivências. No «savoir vivre», os franceses dão sempre lições...
A actividade em todo o laboratório mantinha-se durante o ano num ritmo constante com uma média de oito horas de trabalho diário intenso. Madame Curie dava o exemplo. Às 9 horas da manhã, quase sempre, era a primeira a entrar no Laboratório. Ás vezes, porém, havia feriado extraordinário, mais do que feriado, havia festa. Era a festa dos doutorados. No dia do exame de doutoramento de um trabalhador do laboratório, Madame Curie, à sua custa, dava uma festa em sua honra, durante a qual era da praxe que ela fizesse um discurso de elogio do novo doutor. Todos os trabalhadores do Laboratório se associavam à festa, e a aspiração de cada um era, mais do que o doutoramento, a festa e o elogio de Madame Curie. Foi também essa a minha aspiração durante os quatro anos do meu estágio, aspiração que eu tive a felicidade de ver realizada. Dessa festa conservo, contudo, uma recordação que me entristece hoje (1938)... É que Madame Curie, no final do seu discurso, ao formular alguns votos, não esqueceu a Universidade de Coimbra. Fecho os olhos e ainda a vejo, com a sua taça erguida, saudar o país distante que lhe tinha dado a alegria de fundar um Instituto do Rádio, lembrando mais uma vez que seria com alegria que viria visitar-nos para assistir à sua inauguração. Mal diria eu então, ao agradecer comovido a saudação, que os anos iriam passar uns após outros, vazios e inúteis, que o Instituto do Rádio de Coimbra acabaria por ficar esquecido da própria Universidade que o instalou, e que nós nunca teríamos o orgulho de a ver no velho burgo em que nascemos”.
Coimbra, 1 de Dezembro de 1938.
Mário Augusto da Silva.
Note-se que Mário Silva não podia dizer mais, pois estávamos em pleno Estado Novo, com o fascismo e o nazismo em verdadeira ascensão por toda a Europa. A realidade foi que o Instituto do Rádio de Coimbra foi boicotado directamente pelo próprio Salazar.
06/12/11
29/11/11
Merkozy
A União Europeia está a ser governada por um ser híbrido a que chamam "Merkozy"... E nem sequer são duas pessoas com votos iguais... é um voto e meio, porque o miúdo vai sempre atrás...
in Expresso - 28/11/2011
Sem papas na língua, só pecando por ser benevolente para com o governo português, que se tem comportado como um verdadeiro miúdo obediente que vai, sempre, na... bagageira!
28/11/11
O Projecto Goldman Sachs e a Eminência Parda do Governo Português
Publicado por Stephen Foley no The Independent, com o título "What price the new democracy? Goldman Sachs conquers Europe".Não sabia, mas fiquei a saber, que o banco de investimento Goldman Sachs tem a alcunha de Lula Vampiro. Eu diria que, pela situação a que chegámos, se trata mais de um polvo vampiro, cujos tentáculos invadem os corredores da política europeia. Em tempos falei da hidra de três cabeças para classificar as agências de notação financeira, elas próprias dominadas por estes polvos. Hoje, e passa a ser do domínio público, temos os interesses de um banco de investimento americano que de forma tentacular se imiscui em tudo o que diz respeito à economia, à política e às finanças dos estados soberanos europeus. Esta gentalha pretende, a todo o custo, sugar até ao tutano o sangue do trabalho dos europeus para recuperar as perdas da primeira crise financeira, que eles próprios criaram em 2008. E livrarem-se, a todo o custo também, das consequências das crises das dívidas soberanas, castigando-nos com a austeridade que todos estamos a sentir, ganhando muito dinheiro ao mesmo tempo. São os povos a ser sacrificados à sede insaciável destes grupos financeiros sem escrúpulos.
Já se falava em oligarquia americana. Os acontecimentos recentes na Itália mostram que a rede tentacular acaba de colocar à frente da 3ª nação europeia um dos seus assessores de topo. A deposição do “indescritível” Sílvio Berlusconi e a imposição de um governo de tecnocratas, não eleitos, põe em causa o próprio sistema democrático italiano. Mário Monti, que é um quadro superior da Goldman Sachs, está agora à frente de uma das maiores potências europeias. Assim, é lícito afirmar que a Goldman Sachs, como banco de investimento, vê o seu poder político crescer para níveis nunca vistos. Analisando a situação com maior detalhe, vemos que o polvo cresce como nunca, também noutros países europeus em dificuldades. A austeridade brutal imposta nestes países parece ter uma causa comum: os interesses inalienáveis da Goldman Sachs. Ao que nós chegámos. Mas, se na Itália colocaram Mário Monti, na Grécia colocaram Lucas Papademos. Não podemos esquecer o esquema financeiro que a Lula ajudou a criar para que os gregos camuflassem o seu real défice e, desse modo, entrassem para a zona euro. A Goldman canalizou cerca de $1bn de financiamento para o governo grego em 2002 numa transacção chamada “cross-currency swap”. Do outro lado do negócio, a trabalhar no Banco Nacional da Grécia, estava Petros Christodoulou, que iniciou a sua carreira na Goldman e que foi agora promovido a chefe de gabinete de gestão da dívida do governo grego. Lucas Papademos, agora colocado na posição de Primeiro-Ministro grego, também ele não eleito democraticamente, era um tecnocrata do Banco Central da Grécia naquele tempo. Mas a rede tentacular não fica por aqui.
Escolher políticos bem relacionados na porta de saída dos governos é apenas metade do Projecto Goldman Sachs, colocar gente da Goldman nos governos é a outra metade. Por exemplo, Mario Draghi, que assumiu a Presidência do Banco Central Europeu, entrou e saiu de governos e entrou e saiu da Goldman Sachs. Trabalhou no Banco Mundial e foi director executivo do Tesouro italiano antes de passar três anos como director executivo da Goldman Sachs Internacional, entre 2002 e 2005 — para retornar ao governo como Presidente do Banco Central de Itália. Note-se que o sr. Draghi foi acusado numa controvérsia ligada a truques de contabilidade que usou em Itália e em outras nações da periferia da zona do euro para que se adequassem à moeda única.
Mas os portugueses também marcam presença nesta trama. António Borges, que o “The Independent” relaciona com Paris, é um português muito próximo do actual governo. Foi até quarta-feira passada responsável pela a divisão europeia do Fundo Monetário Internacional, ele que também é um importante quadro da Goldman. Nada parece escapar aos tentáculos da Lula.
Mas não só. A Goldman Sachs está muito bem representada na cúpula do governo português. Carlos Moedas, actual Secretário-Adjunto do Primeiro-Ministro, trabalhou para a Goldman Sachs na área das fusões e aquisições. É a verdadeira Eminência parda deste governo. Provavelmente o principal mentor das medidas de austeridade que constam do OE para 2012. O mesmo que levará Portugal à ruína, num cruel sacrifício em nome da Lula Vampiro e da sua insaciável sede de dinheiro e de poder. Moedas deve ter soprado umas coisitas ao ouvido dos outros três: Coelho, Relvas e Gaspar. Percebemos agora, bem melhor, a adoração desmedida, o “ai Jesus” e os “suspiros” constantes do nosso Primeiro-Ministro na subserviência cega que mostra aos ditames dos “mercados”, diga-se, da Lula. Os portugueses que comam terra, se preciso for, porque a dívida escabrosa, grande parte ODIOSA, e os juros escandalosos serão pagos até ao último tostão, nem que chovam picaretas. Presumimos que o nosso empobrecimento ser-lhe-à muito bem recompensado... Pode ser que o tiro lhes saia pela culatra.
Aconselho vivamente a leitura da crónica de Stephen Foley no The Independent, com o título "What price the new democracy? Goldman Sachs conquers Europe" para perceberem melhor o chamado Projecto Goldman Sachs e de todos os seus contornos. Nele só não consta a referência a Carlos Moedas, verdadeiramente à frente dos destinos de Portugal.
Mas como lutar contra isto? Vamos assistir a tudo de braços cruzados? caídos? cabisbaixos?
INDIGNEM-SE!
24/11/11
Os Motivos desta Greve Geral nos Escritos dos Antigos Mayakovsky e Brecht
Eu não era negro.
Mas não me importei com isso,
Eu também não era operário.
Mas não me importei com isso,
Porque eu não sou miserável.
Mas como tenho o meu emprego,
Também não me importei.
Mas já é tarde.
23/11/11
O Capataz da Siemens
Mas neste programa em particular, ouvi, arrepiado, o capataz da Siemens em Portugal. Vem este Senhor comparar as greves, ou a falta delas, na Alemanha, com o que se passa em Portugal?! Se os alemães tivessem que levar com os governos e os políticos que temos tido nos últimos anos, já tinham feito uma REVOLUÇÃO! Nesse aspecto, o povo português é mesmo de muitos brandos costumes, pois lá, ao contrário de cá, não existe a corrupção generalizada que nos esmaga. Pelo menos é este o sentimento dos muitos alemães com quem tenho falado. Obviamente que o Senhor e os seus empregados são bem pagos, vivem de barriga cheia, e, por isso, não farão greve. Estão no seu direito de pessoas egoístas, nada solidárias. Agora, vir arrotar postas de pescada, desfazendo nos outros, nomeadamente nos funcionários públicos portugueses, nos Professores Universitários, mais especificamente, naqueles que têm formado muitos dos engenheiros que a sua empresa emprega, formados à custa do Estado Português, é que nós não podemos admitir e só nos podemos sentir indignados. Acha, este Senhor, que os Professores devem ganhar menos do que os engenheiros que emprega?! Professores/Investigadores que colocam as Universidades Públicas Portuguesas, SUBLINHE-SE MUITO BEM, com níveis de qualidade a par das melhores do mundo? Este Senhor acha que estes funcionários públicos SÓ TÊM DIREITOS e, como tal, não têm que reclamar o CONFISCO dos seus salários! É muito bem feito! Podem, por isso, ser tratados da forma vil como têm sido tratados! Como pode este indivíduo vir falar contra quem não tolera o atropelo aos mais elementares direitos de quem trabalha, contra quem abomina toda a iniquidade e abuso de um governo estúpido, dizendo que a sua luta não é legítima? Se a Siemens tem uma boa relação com os seus trabalhadores e os paga condignamente, o que é de aplaudir, devemos dizer a este mesmo Senhor que o mesmo não se passa com o Estado Português e com as directivas do seu governo estúpido, por exemplo, relativamente aos Professores Universitários, para só falar daqueles que formam muitos dos engenheiros que a sua empresa precisa. Eu não lhe reconheço qualquer autoridade para vir desfazer no trabalho e nos direitos de outros, quando vem para as televisões defender o governo estúpido, repito, que temos. Enche a boca com slogans dizendo que os portugueses só têm direitos e habituaram-se mal a eles?! Quais direitos? O de serem os mais mal pagos da Europa? Vir comparar os Direitos dos alemães, que são um povo civilizado onde a riqueza é bem distribuída, com os portugueses e os seus direitos, onde a riqueza fica na mão de meia dúzia? Isto é de uma desonestidade intelectual de todo o tamanho.
Mário Soares, Um Exemplo de Cidadania
19/11/11
Os Mitos dos Mitos da Crise
Diz O Insurgente:




Na minha opinião, o problema não é o fim do Euro, mas sim o fim da própria União Europeia. E as consequências do seu fim serão catastróficas a todos os níveis. Talvez o mais importante seja o fim da paz na Europa e o retorno dos nacionalismos e das guerras. Se tal acontecer, a direita europeia terá que ser responsabilizada por essa tragédia. E explico porquê.
A construção europeia foi, em grande medida, fruto do labor dos partidos sociais-democratas e socialistas europeus que estão, desde há alguns anos a esta parte, em franco declínio em toda a Europa. As razões para este facto são muito misteriosas, por que foram os valores da solidariedade e da justiça social, tão caros às suas políticas, que permitiram que os europeus alcançassem o nível de bem-estar que felizmente ainda conhecemos. Foram estes valores que deram origem à construção do chamado Estado Social por toda a Europa. Contudo, foram construções isoladas, pois, como todos sabemos, a União Europeia nunca passou de uma união económica e monetária alicerçada nos interesses dos países mais ricos do centro da Europa. Mas a tal declínio, não são alheios o nascimento do próprio Euro e da Globalização, e a consequente desregulação do Comércio mundial. Esta última conquista, tão cara ao neoliberalismo vigente, foi a principal responsável pelo declínio das economias europeias, em especial das periféricas. A economia da zona Euro sempre foi anémica. O Euro, que nasceu com paridade face ao dólar, está hoje sobrevalorizado de forma excessiva. Os interesses dos mais ricos da Europa estiveram sempre à frente de tudo e de todos. No início de forma escondida, assumem hoje contornos de autêntico escândalo, numa espécie de governo oculto que já caricaturam de “Merkozy”. Em Portugal, lamente-se, só a esquerda do PS parece continuar a defender aqueles valores. Neste contexto, Sócrates e as suas políticas hipócritas arrasaram-nos. Ao insistir na defesa do Estado Social, permitindo ao mesmo tempo o afundamento da economia portuguesa, criou no espírito dos portugueses a ideia errada que o Estado Social é, no fundo, o responsável pela actual situação. Nada de mais errado! E isto tem sido muito bem aproveitado pela actual direita neoliberal que, mascarada de social-democrata, está hoje no poder. Para essa ideia muito têm contribuído também os “fazedores de opinião” ou os “comentadores” ao serviço deste “novo sistema político”. E são claras as políticas do actual governo visando a destruição do sector público português, escudadas, igualmente, numa outra grande desculpa chamada Troika. É preciso dizê-lo, foi a corrupção generalizada, a todos os níveis, que nos trouxe até à actual situação. E isso, infelizmente, parece não ir mudar nos próximos anos. Por exemplo, o OE para 2012 é um orçamento fora-da-lei, com normas completamente inconstitucionais aos olhos de qualquer leigo e pessoa de boa-fé, construído essencialmente para atacar o sector público português e o seu POBRE Estado Social. Aonde pára o Direito? Este orçamento é a prova que os interesses económicos e financeiros estão acima das leis, dos povos e das suas Nações. Vivemos, por isso, num sistema oligárquico suicidário. E o que se passa em Portugal é somente o reflexo das políticas europeias actuais. O discurso parece ser o mesmo em todo o lado. Assim, o fim do Euro não espanta ninguém. No fundo, no fundo, podemos resumir dizendo que a União Europeia não foi feita para egoístas e oportunistas. Foi a sua ganância desmedida que nos trouxe até aqui.
A construção europeia foi sempre baseada nos valores da social-democracia e da democracia cristã que, hoje, todos combatem sem o assumirem frontalmente. Quando decretam a morte do Estado Social não é isso que estão a fazer, sem, no fundo, o assumirem? A direita, que agora assume o poder em toda a linha, sempre foi anti-europeísta, apesar de hoje ser politicamente incorrecto assumi-lo também. Lembrem-se, por exemplo, das razões que levaram à saída de pessoas como Freitas do Amaral do CDS, seu fundador. Os partidos conservadores sempre preferiram os nacionalismos bacocos, à construção de uma verdadeira união política e social. A Europa, como uma federação de Estados, com um verdadeiro Banco Central responsável pela política monetária da União, jamais será possível à luz das ideologias conservadoras de direita. E esta seria, sem dúvida, a saída para actual crise europeia. A par da regulação dos mercados, obviamente, onde os interesses económicos e financeiros fossem secundarizados face à defesa do bem comum e das pessoas, em vez da actual política, ao serviço do capitalismo selvagem e do dinheiro que hoje a move, em Portugal e na Europa. Mas, para isso, seriam necessárias políticas mais consentâneas com os valores da solidariedade e da justiça social em todo o espaço europeu, das quais os actuais políticos europeus nem sequer querem ouvir falar.