A propósito de neste Domingo, dia 11 de Dezembro, passarem 100 anos sobre o discurso de Madame Curie (Marie Sklodowska-Curie 1967-1934) perante a Academia Real das Ciências da Suécia, que lhe atribuiu o segundo Prémio Nobel da sua carreira de cientista, transcrevemos na íntegra um artigo escrito em 1938 no jornal "Notícias de Coimbra" do seu discípulo, o Físico português Mário Augusto da Silva. O Nobel da Química foi-lhe atribuído pelas descobertas do Rádio e do Polónio. Anteriormente, em 1903, tinha recebido o Nobel da Física, juntamente com o seu marido Pierre Curie e Antoine Henri Becquerel, pelos seus trabalhos de investigação sobre o fenómeno da radioactividade espontânea, descoberta por Becquerel. Morreu em 1934 vítima de uma leucemia provocada pelas radiações a que esteve sujeita durante a sua carreira de investigadora. As mesmas que também são usadas para tratar tumores malignos.
No 40º aniversário da descoberta do Rádio - Madame Curie
pelo Professor Doutor Mário Silva
A recente celebração oficial do 40º aniversário da descoberta do Rádio fez novamente correr mundo os dados biográficos mais interessantes dessa gentilíssima figura de mulher que foi Madame Curie. Já quando, em 1923, se celebrou o 25º aniversário, por jornais, revistas e livros de todo o mundo se registaram as características mais notáveis da vida e da obra da ilustre cientista. Na recente celebração, os autores de artigos de jornais e os conferentes encontraram uma excelente fonte de informação no livro que, no ano passado, Eve Curie escreveu e dedicou à memória de sua Mãe. São, pois, geralmente conhecidos os pormenores da descoberta do Rádio e as circunstâncias particulares da vida da sua autora; nestas condições, solicitado amavelmente pelo «Noticias de Coimbra» a escrever, para um número comemorativo da referida descoberta, duas palavras sobre Madame Curie, parece-me que não devo correr o risco de dizer o que por tantos tem sido descrito e contado; mais Interessante será registar algumas, pelo menos, das impressões pessoais que tive o feliz ensejo de colher durante os anos em que Madame Curie foi a orientadora dos meus trabalhos de doutoramento, e durante os quais tive a honra ele ser, em muitas das suas aulas teóricas, seu assistente na preparação das demonstrações experimentais.
O meu primeiro encontro com Madame Curie tenho-o ainda gravado na memória com toda a nitidez, tão funda impressão me causaram a simplicidade de maneiras com que me acolheu e a solicitude atenciosa com que prometeu resolver as dificuldades que se levantaram à minha admissão no seu Laboratório onde todos os lugares, nesse princípio de ano lectivo de 1925, tinham sido já tomados. Não me fez desanimar, antes, pelo contrário, pediu-me que esperasse uns dias por uma resposta definitiva, que seria provavelmente favorável, ao meu pedido de admissão. Registo aqui as palavras que me escreveu dias depois, pelo que elas representam de atenção para com a Universidade de Coimbra:
“Monsieur - Vous avez demandé à être admis à tl'availler au Laboratoire Curie de l’Institue du Radium pour apprendre la technique et pour faire une recherche personnelle. A fin de rendre service à la Université de Coimbra que vous a confié cette mission, je suis disposé à accorder votre admission, bien que vous avez fait votre demande trop tard, quand l’organisation de l’année scolaire était déjà, en príncipe, arrêtée. Veuillez agréer, Monsieur, mes salutations sincères – (a) M.Curie.”
Com o maior alvoroço respondi imediatamente:
“Madame - Tout en vous remerciant beaucoup de votre letre, j'ai le plaisir de vous communiquer que j'accepte tout ce que vous m'avez proposé. Je ferai mon inscription au Secrétariat e j'attendrai l'ollverture de votre cours et du Laboratoire. Je viens d'écrire à M. le Recteur de I' Université de Coimbra et à M. le Directeur du Laboratoire de Physique où j'ai travaillé, en leur rendant compte de ce que vous m'avez proposé et en leur faisa
nt remarquer que vaus accordiez mon admission au Laboratoire Curie pour rendre service à I'Université de Coimbra. Je vous prie d'agreér mes respectueux remerciements - (a) M. A. da Silva”
Carta do Secretário do Instituto do Rádio de Paris, M. Razel, convocando Mário Silva para uma reunião no Laboratório Curie. M. Laporte era assistente de Marie Curie no laboratório com quem Mário Silva ficou a trabalhar. Fréderic Joliot foi admitido no mesmo ano no laboratório, tendo ficado a trabalhar directamente com Iréne Curie com quem viria a casar.
Na falta de um lagar no Laboratório, foi na sua sala de aula que Madame Curie me instalou para a execução dos meus primeiros trabalhos. Assim se explica, em grande parte, a atenção com que os seguiu desde o início, e todo o interesse que por eles tomou. Assim se explica também que eu tivesse ficado em estreita ligação com a organização do seu curso teórico e que eu tivesse tido a honra de a auxiliar nas demonstrações experimentais das suas lições. Nunca mais me foi possível esquecer a emoção que senti quando, pela primeira vez, entrei a seu lado na sala de aula onde, nesse dia, ela ia falar sobre a Teoria das transformações radioactivas a um numeroso auditório que a recebeu de pé e, segundo o costume, com uma prolongada salva de palmas. A experiência que eu tinha previamente montado e verificado era das mais curiosas do curso: demonstração a todo o auditório do ritmo das transformações radioactivas, tornando, por assim dizer, audível as explosões dos átomos do Rádio; um amplificador ligado a um altifalante estava disposto para registar cada uma das explosões dos átomos do precioso metal. A experiência é curiosa porque revela bem o carácter de probabilidade das transformações radioactivas. O estudo teórico destas transformações encontra pois nesta experiência uma excelente confirmação. Madame Curie desenvolveu a sua lição metodicamente, magistralmente, durante os três quartos de hora habituais das suas aulas, e guardou para o final a execução da experiência. Quando acabou e anunciou que eu ia realizá-la, confesso que um peso enorme me oprimiu: a experiência podia falhar, uma das lâmpadas do amplificador, qualquer coisa da montagem podia ter-se desarranjado. Foi com enorme sacrifício que reprimi toda a minha emoção, e comecei com calma aparente a fazer as ligações. Ao pegar no pequeno tubo de Rádio com que eu ta fazer a demonstração, tive a sensação de que podia dar-se uma catástrofe, tal receio tinha de um insucesso. Felizmente, o pequeno tubo de rádio depressa mostrou a sua actividade. Começaram a soar altifalante as primeiras explosões radioactivas, e o auditório, entusiasmado, aplaudiu, misturando o barulho das suas palmas com o ruído das explosões atómicas. Respirei aliviado e quase tive a ilusão, nesse minuto para mim memorável, de que aquelas Palmas também se dirigiam ao ignorado português que ali estava, sentindo que acabara de viver um dos momentos mais emocionantes da sua vida de professor.
Por mais de uma vez, Madame Curie me fez sentir que era com o maior interesse que se empenhava em, como ela diz na carta que transcrevi, «rendre service à I' Université de Coimbra». Quando Doumergue, então Presidente da República, visitou oficialmente o Instituto do Rádio, Madame Curie teve particular interesse em me apresentar; recordo ainda que afirmou ao Presidente que tinha a maior satisfação em ter no seu Laboratório um assistente da mais antiga Universidade Portuguesa, a Universidade de Coimbra.
Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de provar-lhe que, reconhecida, a velha Universidade Portuguesa, a ia homenagear..., não com mais um doutoramento «honoris causa» ou com uma recepção oficial cheia de pompa. De há muito que eu sabia que Madame Curie fugia, sempre que podia, a exibições de grande aparato, que tinha mesmo horror às grandes manifestações oficiais, com discursos e condecorações. Tal como Pierre Curie, Madame Curie vivia exclusivamente para os seus trabalhos de investigação e para o seu Laboratório. A homenagem a prestar-lhe devia pois ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Instituto do Rádio feito à imagem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz. Foi com a alegria de uma criança que acaba de ter um brinquedo desejado, que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investigações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs vir assistir à sua inauguração. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à inauguração do novo Instituto. O professor Doutor Álvaro de Matos, director da secção médica, foi dos primeiros a receber a notícia. O seu entusiasmo não foi inferior ao meu, e desde logo pensou em abreviar a realização de tão importante acontecimento. Neste sentido trabalhei, mas todos os meus esforços foram inúteis. Nove anos depois o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fechadas e, o que é mais doloroso, a morte de Madame Curie irremediavelmente inutilizou o projecto em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À memória de Madame Curie devo esta declaração de consciência.
Para terminar, algumas palavras mais sobre o ambiente de trabalho no, Instituto do Rádio de Paris.
No meu tempo, O Instituto era um pequeno mundo onde se falavam quase todas as línguas; eu era o único português, mas havia, além de franceses, russos, polacos, sérvios, romenos, eslavos, suíços e japoneses.
A direcção científica de Madame Curie a todos se impunha, excepção feita - porque não dizê-lo? - de alguns franceses. Eu sei - toda a gente sabe que a França, pátria adoptiva de Madame Curie, várias vezes homenageou a ilustre Professora; mas pouca gente sabe que o sentido dessas homenagens muitas vezes se dirigiu com acentuada persistência ao nome de Curie. Mais ainda: quase ninguém sabe que, para muitos franceses, Madame Çurie foi sempre considerada a usurpadora de uma situação e de funções que eles teriam preferido ver em mãos de compatriotas. Certa imprensa chegou mesmo, há alguns anos, a fazer campanha contra Madame Curie Registe-se contudo também que ela teve em muitos dos mais eminentes, amigos sinceros, dedicados até à veneração. No Laboratório era por vezes bem sensível o ambiente de frieza feito por muitos à sua volta. Ela devia senti-lo, e daí o seu retraimento. Poucas vezes saía do seu laboratório privativo, e muitos trabalhos faziam-se sem que ela tomasse conhecimento. Isso não impedia, porém, que algumas vezes, esquecidas atitudes passadas, ela não fosse conversar, com o seu habitual sorriso com os que mais se afastavam, e tudo se passava então como se existisse, entre lodos, a mais cordial e amiga das convivências. No «savoir vivre», os franceses dão sempre lições...
A actividade em todo o laboratório mantinha-se durante o ano num ritmo constante com uma média de oito horas de trabalho diário intenso. Madame Curie dava o exemplo. Às 9 horas da manhã, quase sempre, era a primeira a entrar no Laboratório. Ás vezes, porém, havia feriado extraordinário, mais do que feriado, havia festa. Era a festa dos doutorados. No dia do exame de doutoramento de um trabalhador do laboratório, Madame Curie, à sua custa, dava uma festa em sua honra, durante a qual era da praxe que ela fizesse um discurso de elogio do novo doutor. Todos os trabalhadores do Laboratório se associavam à festa, e a aspiração de cada um era, mais do que o doutoramento, a festa e o elogio de Madame Curie. Foi também essa a minha aspiração durante os quatro anos do meu estágio, aspiração que eu tive a felicidade de ver realizada. Dessa festa conservo, contudo, uma recordação que me entristece hoje (1938)... É que Madame Curie, no final do seu discurso, ao formular alguns votos, não esqueceu a Universidade de Coimbra. Fecho os olhos e ainda a vejo, com a sua taça erguida, saudar o país distante que lhe tinha dado a alegria de fundar um Instituto do Rádio, lembrando mais uma vez que seria com alegria que viria visitar-nos para assistir à sua inauguração. Mal diria eu então, ao agradecer comovido a saudação, que os anos iriam passar uns após outros, vazios e inúteis, que o Instituto do Rádio de Coimbra acabaria por ficar esquecido da própria Universidade que o instalou, e que nós nunca teríamos o orgulho de a ver no velho burgo em que nascemos”.
Coimbra, 1 de Dezembro de 1938.
Mário Augusto da Silva.
Note-se que Mário Silva não podia dizer mais, pois estávamos em pleno Estado Novo, com o fascismo e o nazismo em verdadeira ascensão por toda a Europa. A realidade foi que o Instituto do Rádio de Coimbra foi boicotado directamente pelo próprio Salazar.
Na minha opinião, o problema não é o fim do Euro, mas sim o fim da própria União Europeia. E as consequências do seu fim serão catastróficas a todos os níveis. Talvez o mais importante seja o fim da paz na Europa e o retorno dos nacionalismos e das guerras. Se tal acontecer, a direita europeia terá que ser responsabilizada por essa tragédia. E explico porquê.
A construção europeia foi, em grande medida, fruto do labor dos partidos sociais-democratas e socialistas europeus que estão, desde há alguns anos a esta parte, em franco declínio em toda a Europa. As razões para este facto são muito misteriosas, por que foram os valores da solidariedade e da justiça social, tão caros às suas políticas, que permitiram que os europeus alcançassem o nível de bem-estar que felizmente ainda conhecemos. Foram estes valores que deram origem à construção do chamado Estado Social por toda a Europa. Contudo, foram construções isoladas, pois, como todos sabemos, a União Europeia nunca passou de uma união económica e monetária alicerçada nos interesses dos países mais ricos do centro da Europa. Mas a tal declínio, não são alheios o nascimento do próprio Euro e da Globalização, e a consequente desregulação do Comércio mundial. Esta última conquista, tão cara ao neoliberalismo vigente, foi a principal responsável pelo declínio das economias europeias, em especial das periféricas. A economia da zona Euro sempre foi anémica. O Euro, que nasceu com paridade face ao dólar, está hoje sobrevalorizado de forma excessiva. Os interesses dos mais ricos da Europa estiveram sempre à frente de tudo e de todos. No início de forma escondida, assumem hoje contornos de autêntico escândalo, numa espécie de governo oculto que já caricaturam de “Merkozy”. Em Portugal, lamente-se, só a esquerda do PS parece continuar a defender aqueles valores. Neste contexto, Sócrates e as suas políticas hipócritas arrasaram-nos. Ao insistir na defesa do Estado Social, permitindo ao mesmo tempo o afundamento da economia portuguesa, criou no espírito dos portugueses a ideia errada que o Estado Social é, no fundo, o responsável pela actual situação. Nada de mais errado! E isto tem sido muito bem aproveitado pela actual direita neoliberal que, mascarada de social-democrata, está hoje no poder. Para essa ideia muito têm contribuído também os “fazedores de opinião” ou os “comentadores” ao serviço deste “novo sistema político”. E são claras as políticas do actual governo visando a destruição do sector público português, escudadas, igualmente, numa outra grande desculpa chamada Troika. É preciso dizê-lo, foi a corrupção generalizada, a todos os níveis, que nos trouxe até à actual situação. E isso, infelizmente, parece não ir mudar nos próximos anos. Por exemplo, o OE para 2012 é um orçamento fora-da-lei, com normas completamente inconstitucionais aos olhos de qualquer leigo e pessoa de boa-fé, construído essencialmente para atacar o sector público português e o seu POBRE Estado Social. Aonde pára o Direito? Este orçamento é a prova que os interesses económicos e financeiros estão acima das leis, dos povos e das suas Nações. Vivemos, por isso, num sistema oligárquico suicidário. E o que se passa em Portugal é somente o reflexo das políticas europeias actuais. O discurso parece ser o mesmo em todo o lado. Assim, o fim do Euro não espanta ninguém. No fundo, no fundo, podemos resumir dizendo que a União Europeia não foi feita para egoístas e oportunistas. Foi a sua ganância desmedida que nos trouxe até aqui.
A construção europeia foi sempre baseada nos valores da social-democracia e da democracia cristã que, hoje, todos combatem sem o assumirem frontalmente. Quando decretam a morte do Estado Social não é isso que estão a fazer, sem, no fundo, o assumirem? A direita, que agora assume o poder em toda a linha, sempre foi anti-europeísta, apesar de hoje ser politicamente incorrecto assumi-lo também. Lembrem-se, por exemplo, das razões que levaram à saída de pessoas como Freitas do Amaral do CDS, seu fundador. Os partidos conservadores sempre preferiram os nacionalismos bacocos, à construção de uma verdadeira união política e social. A Europa, como uma federação de Estados, com um verdadeiro Banco Central responsável pela política monetária da União, jamais será possível à luz das ideologias conservadoras de direita. E esta seria, sem dúvida, a saída para actual crise europeia. A par da regulação dos mercados, obviamente, onde os interesses económicos e financeiros fossem secundarizados face à defesa do bem comum e das pessoas, em vez da actual política, ao serviço do capitalismo selvagem e do dinheiro que hoje a move, em Portugal e na Europa. Mas, para isso, seriam necessárias políticas mais consentâneas com os valores da solidariedade e da justiça social em todo o espaço europeu, das quais os actuais políticos europeus nem sequer querem ouvir falar.
A União Europeia está a ser governada por um ser híbrido a que chamam "Merkozy"... E nem sequer são duas pessoas com votos iguais... é um voto e meio, porque o miúdo vai sempre atrás...
Sem papas na língua, só pecando por ser benevolente para com o governo português, que se tem comportado como um verdadeiro miúdo obediente que vai, sempre, na... bagageira!
Os tentáculos da Lula Vampiro, ou melhor, do banco de investimentos Goldman Sachs estende-se pelos corredores do poder da Zona Euro, sem que nada seja feito. É a oligarquia a mostrar-se sem-vergonha, pornográfica, marcando o fim das democracias ocidentais. Quem lhe fará frente? A crise das dívidas soberanas e as austeridades impostas aos povos europeus têm aqui um verdadeiro responsável. Embora não seja o único, assume-se como a face do mesmo. Publicado por Stephen Foley no The Independent, com o título "What price the new democracy? Goldman Sachs conquers Europe". Não sabia, mas fiquei a saber, que o banco de investimento Goldman Sachs tem a alcunha de Lula Vampiro. Eu diria que, pela situação a que chegámos, se trata mais de um polvo vampiro, cujos tentáculos invadem os corredores da política europeia. Em tempos falei da hidra de três cabeças para classificar as agências de notação financeira, elas próprias dominadas por estes polvos. Hoje, e passa a ser do domínio público, temos os interesses de um banco de investimento americano que de forma tentacular se imiscui em tudo o que diz respeito à economia, à política e às finanças dos estados soberanos europeus. Esta gentalha pretende, a todo o custo, sugar até ao tutano o sangue do trabalho dos europeus para recuperar as perdas da primeira crise financeira, que eles próprios criaram em 2008. E livrarem-se, a todo o custo também, das consequências das crises das dívidas soberanas, castigando-nos com a austeridade que todos estamos a sentir, ganhando muito dinheiro ao mesmo tempo. São os povos a ser sacrificados à sede insaciável destes grupos financeiros sem escrúpulos.
Já se falava em oligarquia americana. Os acontecimentos recentes na Itália mostram que a rede tentacular acaba de colocar à frente da 3ª nação europeia um dos seus assessores de topo. A deposição do “indescritível” Sílvio Berlusconi e a imposição de um governo de tecnocratas, não eleitos, põe em causa o próprio sistema democrático italiano. Mário Monti, que é um quadro superior da Goldman Sachs, está agora à frente de uma das maiores potências europeias. Assim, é lícito afirmar que a Goldman Sachs, como banco de investimento, vê o seu poder político crescer para níveis nunca vistos. Analisando a situação com maior detalhe, vemos que o polvo cresce como nunca, também noutros países europeus em dificuldades. A austeridade brutal imposta nestes países parece ter uma causa comum: os interesses inalienáveis da Goldman Sachs. Ao que nós chegámos. Mas, se na Itália colocaram Mário Monti, na Grécia colocaram Lucas Papademos. Não podemos esquecer o esquema financeiro que a Lula ajudou a criar para que os gregos camuflassem o seu real défice e, desse modo, entrassem para a zona euro. A Goldman canalizou cerca de $1bn de financiamento para o governo grego em 2002 numa transacção chamada “cross-currency swap”. Do outro lado do negócio, a trabalhar no Banco Nacional da Grécia, estava Petros Christodoulou, que iniciou a sua carreira na Goldman e que foi agora promovido a chefe de gabinete de gestão da dívida do governo grego. Lucas Papademos, agora colocado na posição de Primeiro-Ministro grego, também ele não eleito democraticamente, era um tecnocrata do Banco Central da Grécia naquele tempo. Mas a rede tentacular não fica por aqui.
Escolher políticos bem relacionados na porta de saída dos governos é apenas metade do Projecto Goldman Sachs, colocar gente da Goldman nos governos é a outra metade. Por exemplo, Mario Draghi, que assumiu a Presidência do Banco Central Europeu, entrou e saiu de governos e entrou e saiu da Goldman Sachs. Trabalhou no Banco Mundial e foi director executivo do Tesouro italiano antes de passar três anos como director executivo da Goldman Sachs Internacional, entre 2002 e 2005 — para retornar ao governo como Presidente do Banco Central de Itália. Note-se que o sr. Draghi foi acusado numa controvérsia ligada a truques de contabilidade que usou em Itália e em outras nações da periferia da zona do euro para que se adequassem à moeda única.
Mas os portugueses também marcam presença nesta trama. António Borges, que o “The Independent” relaciona com Paris, é um português muito próximo do actual governo. Foi até quarta-feira passada responsável pela a divisão europeia do Fundo Monetário Internacional, ele que também é um importante quadro da Goldman. Nada parece escapar aos tentáculos da Lula.
Mas não só. A Goldman Sachs está muito bem representada na cúpula do governo português. Carlos Moedas, actual Secretário-Adjunto do Primeiro-Ministro, trabalhou para a Goldman Sachs na área das fusões e aquisições. É a verdadeira Eminência parda deste governo. Provavelmente o principal mentor das medidas de austeridade que constam do OE para 2012. O mesmo que levará Portugal à ruína, num cruel sacrifício em nome da Lula Vampiro e da sua insaciável sede de dinheiro e de poder. Moedas deve ter soprado umas coisitas ao ouvido dos outros três: Coelho, Relvas e Gaspar. Percebemos agora, bem melhor, a adoração desmedida, o “ai Jesus” e os “suspiros” constantes do nosso Primeiro-Ministro na subserviência cega que mostra aos ditames dos “mercados”, diga-se, da Lula. Os portugueses que comam terra, se preciso for, porque a dívida escabrosa, grande parte ODIOSA, e os juros escandalosos serão pagos até ao último tostão, nem que chovam picaretas. Presumimos que o nosso empobrecimento ser-lhe-à muito bem recompensado... Pode ser que o tiro lhes saia pela culatra.
O Negócios da Semana de hoje, na SIC notícias, foi deprimente. A glória vã e balofa de portugueses tecnocratas engravatados que chegam à direcção de multinacionais, como a Siemens neste caso e, por isso, se julgam o máximo, superiores, com um ego do tamanho do mundo, detentores da verdade absoluta, irritam-me e enervam-me. Não que não tenham valor, porque com certeza terão, mas a soberba, a arrogância, a mania da superioridade, são características que abomino. Mas, no fundo, eles são uma espécie de capatazes dos tempos modernos. Escolhidos a dedo. Sabemos muito bem qual o papel das multinacionais no mercado global, pornográfico, em que vivemos, depois de terem explorado até ao tutano tudo e todos. São as senhoras do mundo capitalista selvagem em que vivemos. Por causa delas, temos desemprego e perda de direitos sociais na Europa, enquanto lucram BILIÕES com a deslocalização das fábricas para os países emergentes onde exploram a sua mão-de-obra barata. Não digo que seja o caso específico da Siemens, mas todas têm lucrado imenso neste mercado globalizado dos interesses, ao qual os Estados Sociais Europeus se têm que sacrificar.
Mas neste programa em particular, ouvi, arrepiado, o capataz da Siemens em Portugal. Vem este Senhor comparar as greves, ou a falta delas, na Alemanha, com o que se passa em Portugal?! Se os alemães tivessem que levar com os governos e os políticos que temos tido nos últimos anos, já tinham feito uma REVOLUÇÃO! Nesse aspecto, o povo português é mesmo de muitos brandos costumes, pois lá, ao contrário de cá, não existe a corrupção generalizada que nos esmaga. Pelo menos é este o sentimento dos muitos alemães com quem tenho falado. Obviamente que o Senhor e os seus empregados são bem pagos, vivem de barriga cheia, e, por isso, não farão greve. Estão no seu direito de pessoas egoístas, nada solidárias. Agora, vir arrotar postas de pescada, desfazendo nos outros, nomeadamente nos funcionários públicos portugueses, nos Professores Universitários, mais especificamente, naqueles que têm formado muitos dos engenheiros que a sua empresa emprega, formados à custa do Estado Português, é que nós não podemos admitir e só nos podemos sentir indignados. Acha, este Senhor, que os Professores devem ganhar menos do que os engenheiros que emprega?! Professores/Investigadores que colocam as Universidades Públicas Portuguesas, SUBLINHE-SE MUITO BEM, com níveis de qualidade a par das melhores do mundo? Este Senhor acha que estes funcionários públicos SÓ TÊM DIREITOS e, como tal, não têm que reclamar o CONFISCO dos seus salários! É muito bem feito! Podem, por isso, ser tratados da forma vil como têm sido tratados! Como pode este indivíduo vir falar contra quem não tolera o atropelo aos mais elementares direitos de quem trabalha, contra quem abomina toda a iniquidade e abuso de um governo estúpido, dizendo que a sua luta não é legítima? Se a Siemens tem uma boa relação com os seus trabalhadores e os paga condignamente, o que é de aplaudir, devemos dizer a este mesmo Senhor que o mesmo não se passa com o Estado Português e com as directivas do seu governo estúpido, por exemplo, relativamente aos Professores Universitários, para só falar daqueles que formam muitos dos engenheiros que a sua empresa precisa. Eu não lhe reconheço qualquer autoridade para vir desfazer no trabalho e nos direitos de outros, quando vem para as televisões defender o governo estúpido, repito, que temos. Enche a boca com slogans dizendo que os portugueses só têm direitos e habituaram-se mal a eles?! Quais direitos? O de serem os mais mal pagos da Europa? Vir comparar os Direitos dos alemães, que são um povo civilizado onde a riqueza é bem distribuída, com os portugueses e os seus direitos, onde a riqueza fica na mão de meia dúzia? Isto é de uma desonestidade intelectual de todo o tamanho.
O que este Senhor não disse, mas que devia dizer, pois eu também conheço muito bem a Alemanha, onde já trabalhei por convite, é que lá, ao contrário de cá, existe uma diferença salarial pequena entre os altos e os baixos salários. É um país onde existe JUSTIÇA E ESTADO SOCIAL. É um país onde o TRABALHO COMPENSA! Este Senhor chegou mesmo a afirmar que os políticos portugueses deviam ganhar CINCO VEZES MAIS, PASME-SE, em vez de dizer, para que Portugal se pudesse comparar à Alemanha, que o salário mínimo devia, ele sim, ser cinco vezes mais elevado. Talvez assim os níveis de produtividade fossem comparáveis. Não sabe que os políticos portugueses ganham tanto ou mais que os alemães, se tivermos em conta a panóplia de alcavalas aos seu dispor? Uma hipocrisia pegada. Na minha opinião,claro, apesar dos elogios e da bajulice bacoca do jornalista José Gomes Ferreira, um acérrimo defensor da economia neoliberal vigente, em Portugal e no mundo.
São exemplos como o de Mário Soares, e dos signatários do manifesto "Um Novo Rumo", que fazem falta à política portuguesa. Parece, infelizmente, que os velhos lobos sociais-democratas portugueses não deixaram Escola. Nem os actuais dirigentes socialistas seguem o exemplo de Soares, nem os do PSD seguem os ideais da social-democracia defendida por Sá Carneiro. Infelizmente, os partidos cristalizaram em torno de interesses económico-financeiros egoístas, partidários e pessoais, onde os ideais não existem e as pessoas não passam de números. Uma tristeza confrangedora que porá em causa a própria Democracia e o Estado de Direito em que vivemos. Bem-haja pela sua lucidez, Dr. Mário Soares!
O blogue O Insurgente elaborou uma listagem curiosa sobre os mitos e as realidades da crise que vivemos. No ponto de vista do seu autor, obviamente. Realmente, nunca tinha lido tanto disparate junto. Inacreditável, como ainda se pode acreditar no Pai Natal nos dias que correm. Na minha opinião, os mitos d'O Insurgente são mesmo realidades e as realidades do mesmo são mesmo mitos.
Analisemos somente o último mito. Argumentação contraditória poderia ser feita para qualquer outro dos "mitos" d'O Insurgente...
Há aqui mitos a mais e realidades a menos. As agências de rating que
comandam as finanças do mundo são todas americanas e são propriedade de
fundos de investimento que têm interesses diretos nos próprios mercados
(propriedade de WASPs, com certeza). São juízes em causa própria. Por
isso, não são credíveis! Uma palavra que a direita tanto gosta. Como
explica que o Lehman Brothers tivesse a classificação de AAA em vésperas
da sua falência? Ou a da AIG que foi salva? Vivemos num sistema
oligárquico travestido de democracia, onde impera o capitalismo de
casino que brinca com a vida das nações. E o que diz sobre os EUA só
demonstra uma pura ingenuidade. Não sabe que a moeda do mundo continua a
ser o dólar e são os EUA que têm a máquina para a fazer? Ora, ora,
vivemos o fim da Civilização Ocidental que vai implodir devido à sua
própria ganância. Curioso é que tivessem escolhido precisamente a
Grécia, país aonde nasceu, para desencadear o seu fim. Coincidências…
Mas a propósito da Grécia e como vi que falou por aí em Platão, a
propósito de um caso de plágio, aconselho-o a ler a sua República com
mais atenção, porque lhe deve ter escapado muita coisa...
Num país com uma competitividade baixíssima? Num país já com os salários mais miseráveis da Europa, só comparáveis aos que se verificam na Europa de Leste pós-comunista? Com a rede de auto-estradas mais cara da Europa, onde os cidadãos e as empresas são ROUBADOS descaradamente? Quando essas mesmas estradas foram feitas com dinheiro emprestado em nome dos contribuintes portugueses e do Fundo Social Europeu? Que por causa destes e de outros gastos o país está à beira da insolvência? Quando esta empresa apresentou um aumento de lucros na ordem dos 300% o ano passado? Ladrões!
Quando tantos perdem, independentemente da inflação, mais de 30% dos seus salários, estes aumentos são intoleráveis e provocatórios. Demonstram bem a ganância de quem manda nestas empresas PARASITAS do Estado. Já nem temos que ter tento nas palavras e na língua para descrever estes filhos da mãe. Estes senhores, bem como quem permite estes abusos, são uns ladrões sem-vergonha. O povo português deve levantar a sua voz e a sua indignação bem alto e começar a destruir todas as portagens que por aí houver. Porque é que o Estado não confisca pelo menos 50% do dinheiro cobrado pelas portagens durante o período de ajustamento acordado com a Troika, depois de descer os preços em 4%? Pode fazê-lo em relação às pessoas, que dão o melhor de si e do seu trabalho ao serviço público, e não o pode fazer com estes PARASITAS SEM-NOME? Hipócritas!
Mas a mesma escumalha permite que a EDP AUMENTE o preço da energia no mesmo valor percentual. Então aonde pára a Troika que tanto reclama que o país não é competitivo? Claro! Pois isso engorda a EDP, que para o ano estará nas mãos de quem investiu na "ajuda" financeira a Portugal! Um regalo para os racistas WASPs que mandam na finança mundial! Qual ajuda qual carapuça, com os juros usurários que impuseram! E ainda vêm para as televisões dizer aos portugueses o que eles devem ou não devem fazer, passando um atestado de imbecilidade ao governo político da nação, ainda por cima, provavelmente, a pedido do próprio. Não deve ter sido por acaso que a entrevista de Paul Thomson foi dada à RTP. Num país pouco competitivo, onde se paga a electricidade mais cara da Europa, vir reduzir os salários e aumentar as horas de trabalho em nome da competitividade das empresasportuguesas, aumentando ao mesmo tempo o preço da energia e dos transportes, é de uma hipocrisia sem limites! Parasitas $%£@&*%#!
Uma explicação para a crise que atravessamos, com base na situação portuguesa.
Parece-me que o diagnóstico, feito por Medina Carreira relativamente ao Estado Social, não só em Portugal, mas em toda a Europa, é correcto. É verdade que o actual modelo nascido no pós-guerra, alicerçado nos valores da social-democracia e no apogeu da Revolução Industrial, tinha como sustentáculo os três critérios enunciados, ou seja, o pleno emprego, o crescimento económico e o equilíbrio demográfico. Neste momento, como todos constatamos, a Civilização Ocidental assiste ao desmoronamento daquele sistema económico e daqueles critérios, o que põe em causa a sustentabilidade do modelo social europeu que chegou, felizmente, até aos nossos dias. No entanto, antes de anunciarmos a morte do Estado Social, como profetiza Medina Carreira, há outros factores que devem ser equacionados e que adiante precisarei. Note-se que a Europa Social nunca se fez na plenitude com que os “velhos” defensores da EU desejariam. Pena que Mário Soares seja hoje uma voz isolada no contexto europeu. Efectivamente, a Europa Social foi sempre a parente pobre da Europa Económica e Financeira, na qual a actual política monetária do Euro se desenvolveu. Neste contexto, podemos até dizer que o povo português “apenas vislumbrou” o Estado Social, pois só após o 25 de Abril, e com a instauração da Democracia em Portugal, foi possível efectuar as reformas necessárias que levaram à sua implementação, enquanto os povos europeus já viviam o seu apogeu. O que ninguém pode negar, a não ser se estiver de profunda má fé, foi o altíssimo nível de desenvolvimento económico-social que estas reformas trouxeram a Portugal que, no 25 de Abril, era um país agrícola e analfabeto, com um atraso secular face aos seus parceiros europeus. É preciso não esquecer. Encurtámos a distância, é certo, mas nunca alcançámos o nível dos países do norte da Europa. Países que num passado não muito longínquo foram muito mais pobres que Portugal, como a Suécia e a Finlândia no início do século passado. Assim, se eles conseguiram atingir os padrões sociais que hoje invejamos, também nós poderemos alcançá-los. Só depende de nós. Não podemos deitar tudo a perder.
Lamentável é esta corrente de opinião que tem invadido os media e os governos europeus, que pessoalmente me enoja e revolta, e que tem vindo a destruir lentamente este objectivo de bem-estar comum a que chamamos de Estado Social. Há também, felizmente, muitas vozes contra esta visão, aqui, ali . Outros culpam o Estado Social da falta de poupança dos portugueses, quando na realidade estes nunca tiveram salários que os permitissem dar-se a esse luxo. Forma exagerada, mas sempre que algum bem-estar foi adquirido, nomeadamente em termos salariais, logo o vinham roubar. Esta tem sido a dura realidade do português que se sente em crise desde sempre. E sempre a piorar. Mas hoje chegámos ao fim da linha e, ao contrário do que se pensa, temos motivos ideológicos muito fortes pelos quais temos novamente que combater. Pelo bem-estar que nos proporcionou e proporciona, podemos dizer que o Estado Social é uma coisa boa e, portanto, deve ser defendido. Só assim, efectivamente, poderemos ter cidadãos livres e solidários. Só assim poderemos ter Educação de qualidade para todos, sem excepção, sem discriminar credo, raça ou condição social. O mesmo relativamente à Saúde e à Justiça. No mundo Ocidental este Estado Social pode muito bem conviver com as instituições privadas para quem as possa pagar. Nada o impede. É assim que tem sido, é assim que deve continuar. Não sejam egoístas trauliteiros, mentirosos e manipuladores. Muitos de vós parasitaram o Estado, sugando o dinheiro dos contribuintes que deveria ter ido para pagar os serviços nobres prestados pelo Estado. Não mintam. Não foi o Estado Social que nos colocou à beira da insolvência. Foi a corrupção, a utilização indevida dos recursos públicos e a má gestão da coisa pública que nos conduziram a esta situação. E não assobiem para o lado. A culpa foi vossa! Neste contexto, também são intoleráveis as análises deturpadas dos actuais governantes. Hoje, lamentavelmente, vemos uma imensa corrente de opinião, ao serviço do neoliberalismo vigente, muita juventude sem cultura e memória histórica, que confunde má governação, de governos auto-intitulados de socialistas democráticos, com os malefícios do Estado Social, atribuindo a culpa a este dos erros dos primeiros. Infelizmente, o anterior governo de José Sócrates deu azo a que esta confusão se instalasse. Hoje, ouvimos slogans do género, “temos vivido acima das nossas possibilidades (e a culpa é do Estado Social)”, “ temos de empobrecer (por causa do Estado Social)”, “o actual Estado Social é insustentável”, “isto marca o fim de um modelo de desenvolvimento (leia-se do Estado Social)”, etc. Slogans de quem tem um ódio visceral à social-democracia e ao bem comum. Inconfessado, é certo. Como pode o assalariado português viver acima das suas possibilidades, com base nos salários miseráveis que recebe?! Gente egoísta que só pensa em si e nos seus. Gente que está disposta a fazer recuar a civilização. Gente que não é solidária, que não quer partilhar, que só pensa no seu bem-estar e dos seus, pisando o próximo para o conseguir se preciso for. Isto aconteceu no passado e foram precisos séculos de lutas sociais para desmontar estes tradicionais egoísmos e ganâncias pessoais. Foi este tipo de gente que deu origem ao fascismo primeiro, e ao nazismo depois. Duas criações europeias pré-união. Não podemos deixar que ideologias semelhantes se repitam no futuro, regredindo-se civilizacionalmente. Não podemos caminhar novamente para uma nova época pós-moderna neo-medieval, em última estância. Porque é para aí que caminharemos se o neoliberalismo actual, que aplaude o capitalismo selvagem e a desregulação dos mercados vividos nos nossos dias, prevalecer como ideologia política. Aqueles cenários catastróficos para a humanidade, estão, infelizmente, à nossa frente e mais próximos do que se possa pensar. Não nos esqueçamos que a actual crise teve o seu epicentro precisamente na desregulação dos mercados que aquela defende. Como explicar aos trabalhadores honestos da União Europeia, que pagam os seus impostos e vêem os seus rendimentos drasticamente reduzidos, que os grandes interesses económico-financeiros, as grandes fortunas, podem usar e abusar dos offshores no estrangeiro, para onde transferem valores incalculáveis, superiores às dívidas dos estados, única e exclusivamente para fugirem aos impostos. Pior. Existem produtos financeiros legais (CDS - Credit Default Swap) nos mercados actuais em que o especulador, seja ele quem for, pode investir (jogar) (no mínimo em pacotes de 10 MILHÕES de $) na probabilidade da falência de empresas e, pasme-se, dos próprios Estados. Isto é absolutamente insuportável e intolerável. Mas pior ainda. Quando esse dinheiro, nesses offshores, se mistura com o proveniente do tráfico de influências, de droga, de armas, de seres humanos, numa palavra, com o proveniente da canalhice e da imundice humanas, ou seja, com o mal. Como pode o cidadão comum entender que este estratagema é LEGAL aos olhos das instituições nacionais e europeias? Como aceitar que os funcionários públicos e pensionistas portugueses, e não só, percam cerca de 30% do seu salário em dois anos quando o governo que o decreta, contra a lei e o Estado de Direito, diga-se, se limita a aumentar a taxação destas transferências LEGAIS, desta pouca-vergonha, de 21% para 30%? E o estratagema é usado por privados e empresas! Muitas delas, por exemplo a maioria das cotadas no PSI 20, têm as próprias sedes FORA do território nacional para fugir ao fisco. No ano passado, os quatro maiores bancos privados tiveram 4,1 milhões de lucros por dia! A PT teve um aumento do lucro de 1407% e, como também é sabido, distribuiu 1.500 milhões aos seus accionistas, não pagando impostos, por ter antecipado esta distribuição. A Brisa aumentou os seus lucros em 282% (usura!), a Galp em 50% (usura!), a Portucel em 112%, a Jerónimo Martins em 40%. Fantástico! As maiores empresas cotadas no PSI 20, excluindo a Mota-Engil e a Sonae SGPS, atingiram lucros de quase 3.500 milhões de euros, reflectindo um aumento de quase 40%. Estas empresas lucraram em média 13 milhões de euros por dia. O problema é que isto não se reflectiu no IRC cobrado pelo Estado. UMA POUCA-VERGONHA! Perante este cenário, como justificar o corte absurdo, usurário, mentiroso e ilegal dos salários e das pensões? Ainda por cima num país aonde os salários são dignos dos países do terceiro mundo? Subsídios que resultaram de uma ampla concertação social e que, indirectamente, era um estímulo ao comércio na época do Natal e ao turismo na época de férias. São sectores que irão sofrer com as estúpidas medidas deste governo. Que irá criar uma recessão enorme, falta de receitas fiscais para o Estado, mais austeridade, e assim sucessivamente. Como entender então toda esta hipocrisia e toda esta corrupção, esta promiscuidade entre política e interesses financeiros? Estamos efectivamente a chegar ao fim da linha. Mas, ao contrário do que os actuais governantes gostam de dizer, não é só o fim do Estado Social, cujo fim tanto desejam mas não confessam, que está em causa. Estão muito enganados. E as tropelias, as malabarices e os estratagemas cair-lhes-ão em cima. É muito provável que o Estado de Direito caia primeiro. Estado de Direito que o actual governo “democrático” já nem sequer quer saber se lhe passa ou não por cima. O povo tem um limite para suportar toda esta iniquidade e injustiça. Por isso, corremos riscos elevadíssimos de tumultos e convulsões sociais nunca vistas. A consequência, previsível, é assistirmos ao retorno de governos totalitários, que tanto mal fizeram à humanidade no passado. Os nossos actuais políticos, de visão estreita, estão a levar-nos nessa direcção. Esperemos que arrepiem caminho, que sejam postos na rua a tempo, ou o nosso futuro colectivo será negro. Se nas razões apontadas encontramos explicações para o problema financeiro, generalizado, o problema económico, com ele relacionado, tem uma causa diferente, que adiante tentaremos explicar. Mas antes, só mais duas palavras sobre a mediocridade da democracia e da política portuguesa actual.
Efectivamente, são os mercados que hoje ditam as regras, que nomeiam e saneiam os políticos e os governantes. Vivemos, insisto, numa oligarquia travestida de democracia. O actual governo PPD-PP português é, neste contexto, paradigmático. Chamar estes partidos de sociais-democratas ou democratas cristãos é ultrajar a memória de pessoas como Sá Carneiro ou Adelino Amaro da Costa, seus fundadores. Os actuais políticos são completamente subservientes aos ditames dos mercados. E isto é intolerável. As oligarquias são formas de governo primárias e injustas que já os antigos gregos repudiavam. Hoje vivemos numa democracia corrompida. Os partidos são entidades fechadas e antidemocráticas ao serviço dos interesses económicos. Assim, vivemos, na realidade, numa oligarquia travestida de democracia. Esta tem sido muito bem manipulada, esgotando-se nas urnas de 4 em 4 anos, durando, quanto muito, o segundo da deposição do voto na urna. Os parlamentos e os governos formam-se hoje com base numa opinião pública desinformada, completamente manietada pelos media ao serviço dos interesses instalados. Repare-se que são eleitos com taxas de abstenção absurdas, devido à desistência, à impotência que os cidadãos sentem para mudar a classe política que se lhes apresenta. A muitos é-lhes mesmo incutida a ausência de alternativas, promovendo-se o voto nos mesmos de sempre com o argumento, estúpido, mas que conseguem fazer vingar, que só eles são credíveis. Todos os outros não têm credibilidade, pelo simples facto de não partilharem da sua “lixeira”. Não podemos deixar que esta nova classe política “eleita”, que dizendo-se social-democrata, defende e presta vassalagem ao actual movimento neoliberal mundial que, na realidade, foi o principal causador do colapso das economias ocidentais, venha de mansinho destruir agora o pequeno Estado Social português. Neste sentido, prestando vassalagem aos santificados mercados, os malefícios que causarem a Portugal no futuro, onde se destaca o já anunciado empobrecimento à força dos portugueses e a destruição do seu Estado Social, deverão ser devidamente castigados. E o castigo deverá ser aplicado exemplarmente, pois estes decisores políticos foram devidamente avisados das consequências das suas políticas. São governantes que olham para a economia e para as finanças como um fim em si mesmo, quando o verdadeiro sentido de estado de qualquer político que se preze seria pô-las ao serviço do bem-estar da população, diga-se Estado Social, lutando contra as imposições de ditaduras económico-financeiras, venham elas de onde vierem. O nosso primeiro-ministro, para além de um autêntico embaixador do eixo franco-alemão, é ainda pior do que este no que se refere à defesa dos que o elegeram. É o que se pode chamar de um “troikano” dos quatro costados, que adora tirar aos pobres para dar aos ricos. Hoje, os “troikanos” nem se coíbem de vir para as televisões públicas portuguesas dar entrevistas, dizendo-nos o que nós portugueses temos ou não que fazer. Provavelmente incentivados pelo governo que, inchado com a nota positiva da troika (pudera), deve ter insistido para que estes senhores dessem uma “ajudinha” para calar a contestação, justíssima, da opinião pública portuguesa. Note-se que relativamente à dívida soberana, que está no cerne da crise portuguesa e dos países periféricos da Europa, nem sequer a maior parte dela foi feita em nome dos povos. Porque não fazem, nem querem fazer, uma auditoria à dívida portuguesa? Qualquer pessoa informada percebe que a maior parte dela é odiosa e, como tal, não é da responsabilidade do povo português o seu pagamento. Mas, na defesa dos valores que defendem, os actuais governantes começam a evidenciar um autoritarismo deveras preocupante. Esperemos, também, que não estejamos a vislumbrar um novo Salazar. Os tiques e as semelhanças começam a ser irritantemente evidentes!
Mas, o mais importante, acima de tudo, é não deixarmos que todo o trabalho das gerações anteriores, que nos legou o actual nível de bem-estar e prosperidade, nos seja roubado com base argumentos estúpidos e mentirosos. O nível de impostos que pagamos chega e sobra para pagar um Estado Social bem melhor do que aquele a que temos tido direito. Parece mentira, mas esta é a pura das verdades. Este deve ser melhorado, nunca destruído. Não se deixem enganar pelos profetas da desgraça que dizem o contrário. O principal problema, é que o Estado tem andado a desbaratar o dinheiro dos contribuintes na satisfação de interesses privados obscuros, em vez de o aplicar na Educação, na Saúde, na Justiça e na Segurança e Defesa dos cidadãos. Muitos dos arautos da desgraça, que têm bradado aos quatro ventos contra o Estado Social, têm sido os principais beneficiários do Estado, que nos últimos anos tem sido, infelizmente, gerido por pessoas que só tiveram como preocupação principal o seu próprio enriquecimento. Muitos casos são casos de polícia, que a justiça deve julgar e condenar. Não confundamos, portanto, a árvore com a floresta.
Como aceitar agora, tão pouco tempo volvido, que afinal o povo português não tem direito ao nível de bem-estar económico e social que alcançou com o seu Estado Social? “Pois tem vivido acima das suas possibilidades”… Que temos, inexoravelmente, de perder quase tudo o que alcançámos, de regredir, não diria para antes do 25 de Abril, mas, a deduzir pelas palavras de Medina Carreira, para o Século XIX ou mesmo antes? (vd. programa Olhos nos Olhos da TVI24 da semana passada (7/11/2012)) Será isto possível, à luz do nível de desenvolvimento tecnológico e científico alcançado? Não haverá aqui um paradoxo terrível? Afinal, perguntamos nós, não temos também que olhar à riqueza que é hoje produzida e como ela é distribuída? Em vez de comparamos “tout court” os números sobre a demografia nos anos 60 com os de hoje, sem mais, para justificarmos o caminho, sem saída, para o fim das reformas no dia de amanhã, depois de termos descontado toda uma vida? Isto é completamente incompreensível e inaceitável. Absurdo! Neste sentido, Medina Carreira, que acertou nas consequências do desnorte governativo do anterior governo de Sócrates, arroga-se agora, por esse motivo, no direito de encher a boca de baboseiras e de nos deprimir com a falta de soluções para o Estado Social. Desculpe-me, Dr. Medina Carreira, mas o senhor na linguagem camoniana é um autêntico “Velho do Restelo”! E ao serviço dos mesmos interesses que movem os que hoje estão à frente dos destinos da nação. Este senhor caricaturou a Constituição Portuguesa ao dizer que a jornalista, Judite de Sousa, com certeza iria ficar muito entediada se fosse jantar fora com ela (sic). Sem palavras!
No entanto, são estas ideias pacóvias que querem inculcar no povo português. Tradicionalmente passivo, o povo português dá mostras de entrar num estado de apatia generalizado, a caminho da idiotice que conduz ao fim das democracias. Porquê? Se toda esta conversa é tendenciosa e falaciosa? Não porque Medina Carreira não esteja certo no diagnóstico, não. Inclusivamente, que vivemos mesmo o fim de uma Era. Não o fim da Era Industrial, como defende Medina Carreira, que está cristalizado no tempo. De acordo com um dos maiores sociólogos do nosso tempo, Alvin Toffler, a Era Industrial (2ª vaga) terminou nos anos 70! Hoje assistimos ao fim da sua sucedânea, à qual Toffler chamou de Revolução da Informação (3ª vaga), que se iniciou nos anos 80. A primeira foi a Revolução Agrícola (1ª vaga), há milhares de anos. Parece que o ritmo da evolução humana acelerou para níveis jamais vistos. Segundo Toffler, estamos a entrar numa 4ª Era civilizacional (4ª vaga), de toda a história da humanidade, à qual Toffler designa por Bioeconomia e que se caracterizará por “mudanças caóticas no mundo”. A ser verdade, assistimos na nossa vida ao nascimento e à morte de uma Era. Isto era impensável há muito pouco tempo, tendo em conta a duração das Eras anteriores. Na realidade estamos perante novos paradigmas e desafios que necessitam de respostas diferentes das que têm sido dadas. O que não podemos deixar que aconteça são as profecias negras de Medina Carreira e, como base nelas, permitirmos que meninos armados em políticos nos queiram meter pelos olhos adentro as políticas medíocres defendidas pelos neoliberais que, como disse e repito, têm levado Portugal e a Europa no caminho da desgraça. Por alguma razão já Platão defendia que os somente os anciãos mais sábios poderiam ter o direito de governar a polis. Esta é a verdade que temos que divulgar e estas são as políticas que temos que combater. Jamais apoiar! A não ser que procuremos mesmo o caos social e político.
Mas o que é lamentável no discurso de Medina Carreira, e da fraca argumentação de quem o entrevistava e acompanhava, é a sua desonestidade intelectual. Fala de fim de modelos económicos, dos critérios que os suportam, mas não fala das verdadeiras causas que estão por detrás desta crise nem, tão-pouco, dada a gravidade da situação, aponte qualquer solução plausível para a sua resolução. Ou melhor, as medidas que aponta, que são as mesmas que o actual governo insiste em prosseguir, são de uma simplicidade confrangedora. Se o Estado Social acarreta muita despesa, a solução é muito simples. Destrói-se o Estado Social. Ponto final. Isto é de uma estupidez insuportável. Isto é de uma leviandade indescritível. O que infelizmente esta gente não percebe, lamentavelmente, é que o segredo para evitar o caos e o desnorte induzidos pelos novos desafios económico-financeiros decorrentes do dealbar da nova “Era Bioeconómica”, mantendo a coesão social e o bem-estar de todos, é precisamente o Estado Social. Querem matar precisamente o que deveriam defender. A ganância é o valor que, no fundo, está por detrás dos seus intentos.
Infelizmente, o modelo social europeu nunca viu a luz do dia. A Europa Social nunca foi uma realidade, pois foi sempre uma vítima de decisões políticas erradas e terroristas preconizadas pelo directório europeu. Na realidade, o Estado Social sempre foi uma bandeira da social-democracia europeia que, infelizmente, foi sendo banida das decisões europeias. As causas do definhar da social-democracia europeia provêm da queda do muro de Berlim. Muitos políticos europeus tiraram dividendos políticos acenando com o “fim do socialismo”, nunca dizendo “fim do comunismo”. Cavaco Silva foi exemplar em Portugal. Por esse motivo, o socialismo democrático europeu ou a social-democracia europeia que diziam, hipocritamente, defender, foi sendo estigmatizada aos olhos do eleitorado europeu. A partir daqui, a direita europeia foi crescendo e tomando o espaço dos partidos de centro-esquerda, desenvolvendo-se, sempre na direcção dos valores mais conservadores que entroncam no ideal liberal do passado. Não esqueçamos que, há poucos anos, ser democrata cristão era ser de centro-direita. Hoje, como se constata em Portugal, muitos desses políticos refugiam-se no PS. É o caso, por exemplo, de Freitas do Amaral ou Basílio Horta. Os políticos responsáveis pelo PPD e PP deveriam ter vergonha quando falam em social-democracia ou democracia cristã. Eu acho que eles nem nisso falam. Limitam-se a usar o partido. Nem o episcopado português, tradicionalmente próximo das ideias da direita, parece hoje apoiar as políticas defendidas por estes partidos. É a extrema direita travestida que aí está. Esperemos que os cidadãos portugueses abram bem os olhos.
O Estado Social é, por assim dizer, o que resta do bom legado da social-democracia. É um último bastião que a direita quer a todo o custo derrubar. As desculpas para o fazer apareceram aí embrulhadas num auto-proclamado memorando da troika que o povo português nunca legitimou. Sendo uma construção da esquerda europeia, nunca foi compreendido, nem aceite, pela direita que hoje manda em Portugal, na Europa e no mundo. Por esse motivo é um alvo a abater. Ao contrário do que apregoam, justificando as suas medidas mesquinhas e execráveis, não é por causa do Estado Social que estamos nesta situação. Ele tem sido, no fundo, uma vítima do sistema capitalista selvagem que os partidos, que estão hoje no poder em Portugal, e na Europa, defendem até exaustão, sem, contudo, terem a coragem de o assumir publicamente. A não ser os seus escroques. E explico porquê.
Afinal, quais são as verdadeiras causas do problema e da actual crise em que vivemos? No programa Olhos nos Olhos de Judite de Sousa da semana passada, que já referimos, a sua convidada, uma conceituada demógrafa e Medina Carreira, falaram delas sem mostrarem tê-las compreendido perfeitamente. Porque se forem bem compreendidas, poderemos adoptar as medidas necessárias para a sua resolução. Haja vontade política para as tomar. E é aqui que reside o verdadeiro problema. Não existe vontade política para o fazer, porque essas medidas passariam por afrontar os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, europeus e mundiais. E, em última análise, são estes que controlam as decisões políticas. O sistema político está subvertido. Noutros programas televisivos, como os Prós e Contras da mesma semana, aquelas causas nem sequer foram referidas. E falavam sobre a crise grega e do euro. Vejamos aonde estão as verdadeiras causas do problema, para além da já bem conhecida desregulação dos mercados, que conduziu à crise do “subprime” americano e despoletou a crise financeira mundial. Depois de nacionalizarem os prejuízos, que todos estamos a pagar, os bancos, as seguradoras e os grupos financeiros foram recapitalizados. Os ditos mercados foram salvos para, pouco tempo depois, começarem a morder na mão de quem os salvou. Mas a crise não se explica só por este motivo. A crise é bem mais profunda, por ser política.
“A crise económica actual, provocada pela crise financeira que nasceu a partir do chamado “subprime” nos Estados Unidos da América (EUA), uma espécie de crédito imobiliário de alto risco generalizado que se descontrolou, alimentada igualmente pela crise energética especulativa, é somente um sinal de algo muito mais perturbador e inquietante: o beco sem saída em que caiu a política ocidental, principalmente a europeia. O problema não seria tão grave se a União Europeia (UE) tivesse cumprido o seu papel de regulação dos mercados, na chamada economia global, como lhe competia e como os povos europeus exigiam. No entanto, indo sucessivamente a reboque dos interesses americanos e dos grandes interesses económicos, os seus actuais responsáveis, traindo os valores da social-democracia e da democracia cristã, defendidos pelos homens que a pensaram, subjugaram o poder político ao poder económico. A chamada Europa Social foi sucessivamente adiada, dando o seu lugar à Europa do Capital.
A crise económica actual é a prova que os mercados têm que ser regulados, e intervencionados sempre que for necessário, pois o seu funcionamento não pode ser deixado ao livre arbítrio dos mesmos, ou seja, ao sabor dos caprichos e ganância dos homens. Pior. Da ganância de entidades, de organizações de grupos de homens a quem chamamos de multinacionais. O capitalismo desregulado, na chamada globalização actual, deu origem a instituições supranacionais que estão acima de qualquer política nacional, ou supranacional. Ao poder destas organizações prestam hoje vassalagem todos os governos do mundo, principalmente os dos chamados países NATO. Excepto alguns, poucos, que ousam afrontar os interesses instalados ou a deles beneficiar de forma escandalosa. Como estereótipo do primeiro grupo podemos falar do venezuelano e do segundo do chinês.
Neste panorama, à crise económica que aí está, sucederá uma catástrofe social, e política, que afectará principalmente os estados membros da União Europeia, há muito vendidos aos interesses das multinacionais. A não ser que a UE arrepie caminho rapidamente. Não se percebe como os partidos sociais-democratas europeus, com responsabilidades governativas em tantos estados membros, sendo mesmo o partido socialista maioritário no parlamento europeu (penso que já não é assim), que a política europeia actual alinhe pelo neo-liberalismo vigente, que a pôs à beira do abismo. Nada que já não tivesse acontecido no passado. Engels sempre teve razão e as teorias de Karl Marx sobre o capitalismo, a procura a todo o custo do lucro e das mais-valias, nunca fizeram tanto sentido como no mundo actual. Independentemente do rotundo fracasso das sociedades pseudo-comunistas do antigo império da ex-União Soviética (URSS). Ao comunismo desumano sucedeu o capitalismo selvagem, comandado pelas máfias das armas, da droga, da prostituição e da escravatura humana. Milagre de Fátima? Jamais, à luz dos valores que a Igreja diz defender.
Os actuais políticos europeus, politicamente analfabetos, venderam o bem-estar social da UE à globalização dos interesses das multinacionais ocidentais. Em suma: abertura dos mercados ocidentais a produtos manufacturados por empresas ocidentais com mão-de-obra escrava do oriente. Quem comanda politicamente os destinos da UE (e dos EUA) são os interesses económicos. O pior é que os políticos escrevem-no e dizem-no alto, para quem os queira ler e ouvir. Sem um pingo de vergonha sequer. Infelizmente, com alguns benefícios, é certo, como uma maior disseminação da informação, aproximando os povos e as suas culturas, a chamada globalização não é mais do que uma manobra, sem escrúpulos, das multinacionais para aumentarem os seus astronómicos lucros. Insaciáveis, estes jamais serão suficientes, a não ser que alguém faça frente aos seus interesses. Do que se trata afinal? É muito simples. Em troca do derrube das barreiras alfandegárias aos produtos produzidos nos países do oriente, principalmente na China e na Índia, podem as multinacionais europeias deslocalizarem as suas fábricas para aqueles países, onde pagam salários dez vezes inferiores aos que teriam que pagar nos países europeus de origem. Não bastando o facto de fomentarem directamente o desemprego, acarretam a imoralidade de obrigarem as pequenas e médias empresas a diminuir os salários, os benefícios sociais dos trabalhadores europeus e, em última análise, a falir, aumentando também o desemprego de forma indirecta. Para sobreviverem actualmente, as pequenas e médias empresas ocidentais são obrigadas a ter níveis de inovação absurdos. Tudo o que é de manufactura clássica não pode, sequer, ser produzido na Europa. Os seus custos tornaram-se proibitivos no Ocidente. Como podem as empresas europeias competir com as chinesas ou indianas de forma aberta, que fazem uso de mão-de-obra a roçar a escravidão? E que dizem os políticos europeus? Que é necessário flexibilizar (despedir), que é necessário inovar, que os salários têm que diminuir, que os trabalhadores têm que trabalhar mais e durante mais tempo… Ou seja, para que as multinacionais tenham os seus interesses salvaguardados, tão-só a maximização do seu lucro através do uso de mão-de-obra barata, retiram-se direitos sociais aos europeus, adquiridos durante décadas de lutas sociais árduas, infelizmente esquecidas. Não se exige aos chineses, por exemplo, que imponham lá os direitos sociais daqui, como condição primeira para o comércio livre com a UE. Não! Exige-se, isso sim, porque os mercados o exigem, que se retirem aos europeus os direitos que os chineses não têm e deveriam ter. É esta a filosofia imoral da actual direita europeia, seguida de perto pela esquerda, dita democrática. Se podemos desculpar os primeiros, pois a estupidez e a injustiça está-lhes no sangue, aos segundos teremos que os apelidar de traidores corrompidos. Uma vergonha que urge desmascarar e combater...”.
Assim, perante a teimosia de políticos e governantes, ou os povos da Europa se unem em torno de projectos de verdadeira união económica e social, numa verdadeira federação de estados com um banco central que controle a política monetária, ou o Euro e a União Europeia implodirão. Nesta nova Europa, as barreiras alfandegárias têm que ser repostas enquanto não existir uma verdadeira globalização dos direitos sociais e económicos em todo o mundo.
--------------------------------------------------------------------------------------------------- Eis o programa Olhos nos Olhos que despoletou a escrita deste artigo, que é uma resposta aos pontos de vista limitados e tendenciosos expostos neste programa que foi exibido na TVI.
Na minha opinião, o problema não é o fim do Euro, mas sim o fim da própria União Europeia. E as consequências do seu fim serão catastróficas a todos os níveis. Talvez o mais importante seja o fim da paz na Europa e o retorno dos nacionalismos e das guerras. Se tal acontecer, a direita europeia terá que ser responsabilizada por essa tragédia. E explico porquê.
A construção europeia foi, em grande medida, fruto do labor dos partidos sociais-democratas e socialistas europeus que estão, desde há alguns anos a esta parte, em franco declínio em toda a Europa. As razões para este facto são muito misteriosas, por que foram os valores da solidariedade e da justiça social, tão caros às suas políticas, que permitiram que os europeus alcançassem o nível de bem-estar que felizmente ainda conhecemos. Foram estes valores que deram origem à construção do chamado Estado Social por toda a Europa. Contudo, foram construções isoladas, pois, como todos sabemos, a União Europeia nunca passou de uma união económica e monetária alicerçada nos interesses dos países mais ricos do centro da Europa. Mas a tal declínio, não são alheios o nascimento do próprio Euro e da Globalização, e a consequente desregulação do Comércio mundial. Esta última conquista, tão cara ao neoliberalismo vigente, foi a principal responsável pelo declínio das economias europeias, em especial das periféricas. A economia da zona Euro sempre foi anémica. O Euro, que nasceu com paridade face ao dólar, está hoje sobrevalorizado de forma excessiva. Os interesses dos mais ricos da Europa estiveram sempre à frente de tudo e de todos. No início de forma escondida, assumem hoje contornos de autêntico escândalo, numa espécie de governo oculto que já caricaturam de “Merkozy”. Em Portugal, lamente-se, só a esquerda do PS parece continuar a defender aqueles valores. Neste contexto, Sócrates e as suas políticas hipócritas arrasaram-nos. Ao insistir na defesa do Estado Social, permitindo ao mesmo tempo o afundamento da economia portuguesa, criou no espírito dos portugueses a ideia errada que o Estado Social é, no fundo, o responsável pela actual situação. Nada de mais errado! E isto tem sido muito bem aproveitado pela actual direita neoliberal que, mascarada de social-democrata, está hoje no poder. Para essa ideia muito têm contribuído também os “fazedores de opinião” ou os “comentadores” ao serviço deste “novo sistema político”. E são claras as políticas do actual governo visando a destruição do sector público português, escudadas, igualmente, numa outra grande desculpa chamada Troika. É preciso dizê-lo, foi a corrupção generalizada, a todos os níveis, que nos trouxe até à actual situação. E isso, infelizmente, parece não ir mudar nos próximos anos. Por exemplo, o OE para 2012 é um orçamento fora-da-lei, com normas completamente inconstitucionais aos olhos de qualquer leigo e pessoa de boa-fé, construído essencialmente para atacar o sector público português e o seu POBRE Estado Social. Aonde pára o Direito? Este orçamento é a prova que os interesses económicos e financeiros estão acima das leis, dos povos e das suas Nações. Vivemos, por isso, num sistema oligárquico suicidário. E o que se passa em Portugal é somente o reflexo das políticas europeias actuais. O discurso parece ser o mesmo em todo o lado. Assim, o fim do Euro não espanta ninguém. No fundo, no fundo, podemos resumir dizendo que a União Europeia não foi feita para egoístas e oportunistas. Foi a sua ganância desmedida que nos trouxe até aqui.
A construção europeia foi sempre baseada nos valores da social-democracia e da democracia cristã que, hoje, todos combatem sem o assumirem frontalmente. Quando decretam a morte do Estado Social não é isso que estão a fazer, sem, no fundo, o assumirem? A direita, que agora assume o poder em toda a linha, sempre foi anti-europeísta, apesar de hoje ser politicamente incorrecto assumi-lo também. Lembrem-se, por exemplo, das razões que levaram à saída de pessoas como Freitas do Amaral do CDS, seu fundador. Os partidos conservadores sempre preferiram os nacionalismos bacocos, à construção de uma verdadeira união política e social. A Europa, como uma federação de Estados, com um verdadeiro Banco Central responsável pela política monetária da União, jamais será possível à luz das ideologias conservadoras de direita. E esta seria, sem dúvida, a saída para actual crise europeia. A par da regulação dos mercados, obviamente, onde os interesses económicos e financeiros fossem secundarizados face à defesa do bem comum e das pessoas, em vez da actual política, ao serviço do capitalismo selvagem e do dinheiro que hoje a move, em Portugal e na Europa. Mas, para isso, seriam necessárias políticas mais consentâneas com os valores da solidariedade e da justiça social em todo o espaço europeu, das quais os actuais políticos europeus nem sequer querem ouvir falar.