Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

24/01/11

O Povo Nunca Se Engana e Raramente Tem Dúvidas...

Há quem tenha mau perder e há quem tenha mau ganhar. Cavaco Silva tem mau ganhar. Comprova-o o discurso da vitória presidencial. Vociferando contra todos os vencidos, acusando-os a todos de infames, inclusivamente contra Fernando Nobre, vem o reeleito falar de dignidade. Dignidade? Afinal, os bons exemplos devem vir de cima. Inclusivamente nos discursos que se fazem. E o discurso de vitória não se ficou por considerar os vencidos de infames e indignos. Quase hereges até. Não! Cavaco apontou o dedo à comunicação social para que esta denunciasse as suas fontes. Não saberá que as fontes jornalísticas podem ser sigilosas e, como tal, não podem ser reveladas se estas assim o entenderem? Afinal, para que quer Cavaco saber quem são? Não nos esquecemos que Cavaco Silva, já como primeiro-ministro, nos brindou com um discurso na Assembleia da República que evocou o Deus, Pátria e Família da época salazarista. O seu discurso de agora fez-nos recordar o de então.

Basear a sua reeleição na evocação da sabedoria popular, afirmando que o povo não se deixou enganar, e, com base nela, considerar que é digno e os outros são indignos, também não é intelectualmente honesto. Afinal podemos evocar o mesmo, fazendo o discurso ao contrário. Na realidade, a escolha popular nem sempre é a mais correcta, nem a mais sábia. Como democratas temos que a aceitar, pressupondo que o reeleito será, para o bem e para o mal, Presidente de todos os portugueses e não somente, como disse Cavaco, "de todo o Portugal." Porque terá omitido a frase “de todos os portugueses”, como tem sido tradição nos discursos dos presidentes eleitos? Há os indignos, encabeçados pelos ex-adversários políticos? Também Salazar foi eleito pelos portugueses para encabeçar a lista dos 100 Grandes Portugueses de todos os tempos, com 41% dos votos. Este ditador, que tanto mal fez a Portugal, pois ainda estamos a pagar pelo atraso secular a que nos votou, ficou à frente de homens como D. Afonso Henriques, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Marquês de Pombal, D. João II, Luís de Camões, Fernando Pessoa e tantos outros. Tantos homens que tanto deram a Portugal. Muitos deles nem sequer aparecem na lista, em detrimento de outros que nunca lá deveriam estar. Cavaco Silva ganhou com cerca de 53% dos votos, numa eleição onde mais de metade da população portuguesa, para mal dos nossos pecados, não votou.

A reeleição de Cavaco Silva, na minha opinião, só comprova que nem sempre o voto popular é sábio. Tal como tantas vezes aconteceu no passado. Por isso a necessidade de educar, educar e educar. Ao contrário do que defendia Salazar. Portugal ainda tem que percorrer um longo caminho para que a democracia possa dar bons frutos. Infelizmente, um povo inculto é facilmente manipulado. E isso Salazar bem o sabia. Por este motivo, Sócrates (o verdadeiro) e Platão, por exemplo, eram contra a democracia grega de Péricles. Eram-no porque defendiam que o melhor governo deveria emanar dos mais sábios. Na velha democracia ateniense, o povo era muitas vezes chamado a tomar decisões para as quais não estava minimamente preparado. As leis votadas na Eclésia eram preparadas no Bulé, uma assembleia constituída por 500 cidadãos seleccionados ao acaso da pólis. Assim, o governo não era exercido com sabedoria e, segundo aqueles sábios, eram tomadas muitas decisões erradas. Tal como a reeleição de Cavaco Silva o foi. Na minha opinião, claro.

Esperemos, no entanto, que o discurso, que foi proferido no calor da vitória, não seja para levar à letra. Fazemos igualmente votos para que, na medida do possível, Cavaco Silva desempenhe bem o papel de Presidente de todos os portugueses. A bem de Portugal e dos portugueses!

23/01/11

O Testemunho do Professor Arnaldo

Hoje, dia de eleições presidenciais, por coincidência ou talvez não, recebi por email este testemunho que me comoveu. Por isso decidi transcreve-lo. É um testemunho dramático dos dias conturbados que se vivem em Portugal, em particular, e na Europa em geral. Fruto da incompetência generalizada daqueles que nos governam. Ao contrário de alguns políticos, que resolveram eleger a Escola e os Professores como bodes expiatórios dos males de que a nossa sociedade padece, transferindo o ónus da sua irresponsabilidade política e da sua incompetência para cima daqueles que menos mereciam, recordo aqui, bem alto, as palavras sábias do professor Ilídio Sardoeira:

A ESCOLA É O ESPELHO DA SOCIEDADE; ESTA NÃO TRANSFORMA AQUELA, REPRODU-LA

Do Diário do Professor Arnaldo (transcrito do blogue aventar)

Ontem, uma mãe lavada em lágrimas veio ter comigo à porta da escola. Que não tinha um tostão em casa, ela e o marido estão desempregados e, até ao fim do mês, tem 2 litros de leite e meia dúzia de batatas para dar aos dois filhos. Acontece que o mais velho é meu aluno. Anda no 7.º ano, tem 12 anos mas, pela estrutura física, dir-se-ia que não tem mais de 10. Como é óbvio, fiquei chocado. Ainda lhe disse que não sou o Director de Turma do miúdo e que não podia fazer nada, a não ser alertar quem de direito, mas ela também não queria nada a não ser desabafar. De vez em quando, dão-lhe dois ou três pães na padaria lá da beira, que ela distribui conforme pode para que os miúdos não vão de estômago vazio para a escola. Quando está completamente desesperada, como nos últimos dias, ganha coragem e recorre à instituição daqui da vila – oferecem refeições quentes aos mais necessitados. De resto, não conta a ninguém a situação em que vive, nem mesmo aos vizinhos, porque tem vergonha. Se existe pobreza envergonhada, aqui está ela em toda a sua plenitude. Sabe que pode contar com a escola. Os miúdos têm ambos Escalão A, porque o desemprego já se prolonga há mais de um ano (quem quer duas pessoas com 45 anos de idade e habilitações ao nível da 4ª classe?). Dão-lhes o pequeno-almoço na escola e dão-lhes o almoço e o lanche. O pior é à noite e sobretudo ao fim-de-semana. Quantas vezes aquelas duas crianças foram para a cama com meio copo de leite no estômago, misturado com o sal das suas lágrimas…Sem saber o que dizer, segureia-a pela mão e meti-lhe 10 euros no bolso. Começou por recusar, mas aceitou emocionada. Despediu-se a chorar, dizendo que tinha vindo ter comigo apenas por causa da mensagem que eu enviara na caderneta. Onde eu dizia, de forma dura, que «o seu educando não está minimamente concentrado nas aulas e, não raras vezes, deita a cabeça no tampo da mesma como se estivesse a dormir».

Aí, já não respondi. Senti-me culpado. Muito culpado por nunca ter reparado nesta situação dramática. Mas com 8 turmas e quase 200 alunos, como podia ter reparado?

É este o Portugal de sucesso dos nossos governantes. É este o Portugal dos nossos filhos.

Die Ramp



Die Ramp

Ankunft und Ende

von E.R. Nele

Kunstwerk und Mahnmal

1985 errichtet
1992 nach einen Brandanschlag wieder hergestellt
2001 restauriert

Wir erinnern an die Ausgrenzung und
Ermordung von Menschen in der Zeit
nationalsozialistischer Herrschaft.
Ihr Leiden und Sterben soll unvergessen bleiben.

Universitat Gesamthochschule Kassel

22/01/11

Max, Artista de Circo

Uma Homenagem à Independência Jornalística

A referência a este conto surgiu na edição de ontem do jornal Diário de Coimbra, que comemora os 60 anos de Adriano Lucas à frente do jornal que o seu pai fundou em 1930. Adriano Lucas, decano dos dirigentes da imprensa portuguesa, e um exemplo vivo de independência jornalística, que tem dado voz aos cidadãos das beiras, foi sempre um paladino da liberdade de imprensa em Portugal. Parabéns Eng. Adriano Lucas.

O conto que aqui trazemos ao vosso conhecimento, curiosíssimo, surgiu no jornal Diário de Coimbra no dia 29 de Junho de 1945, dia de S. Pedro. No mesmo ano que marcou o fim da Segunda Grande Guerra Mundial. A responsabilidade da sua publicação, na coluna "A Cidade", foi de Carminé Nobre, escritor e jornalista, na altura chefe da redacção do jornal e seu co-fundador (autor da obra incontornável "Coimbra de Capa e Batina"). A curiosidade é que o conto não passou de uma metáfora, por forma a escapar aos crivos da censura, acerca da notícia publicada na primeira página do jornal, intitulada "Foram ontem entregues ao sr. Dr. Maximino Correia as insígnias da Grã-Cruz da Instrução Pública". Era do conhecimento público que o então Reitor da Universidade de Coimbra era um homem do regime... por isso também era conhecido no meio estudantil por "cata-vento", devido, igualmente, ao cata-vento que tinha no cimo do telhado da sua casa, sita no Penedo da Saudade, e que ainda existe. Aliás, naquela notícia, podem-se ler excertos hilariantes, como o seguinte excerto de um dos discursos "«o prelado universitário, disse, é o informador e o executor das ordens recebidas. É ele que disciplina o impulso generoso da mocidade, mas também é ele que a sabe preservar de influências malévolas, de intuitos inconfessados, manobras ocultas. É essa uma das funções do Reitor...»".

Max, Artista de Circo - O Conto

O circo chegou à cidade, numa noite de imenso calor… Na Companhia destacava-se o astro brilhante do homem do trapézio voador - Max, artista de circo.

De pequenino mostrou logo habilidade para trabalhar em barra fixa e mais tarde foi um grande ás nos trabalhos de pêsos e alteres. Mas o seu vigor inicial foi-se perdendo aos poucos, com as deficiências da alimentação e o excesso dos pêsos que tinha de suportar.

O público era cada vez mais exigente e Max, artista de circo, não viu outro remédio para manter o seu alto prestigio de astro, de primeira grandeza: continuou artista de circo, mas mudou o género dos seus trabalhos. Agora divertia o público que tôdas as noites acorria a admirá-lo, com habilidades de prestidigitação e jogos malabares que tinha aprendido nos intervalos da sua preparação de atleta.

O seu querido público que o acarinhava e distinguia com ovações e especiais, recordava o grande artista que tinha sido um verdadeiro mestre, em barra fixa, e nos pêsos e alteres e lamentava que a falta de vigor físico o empurrasse para êste género fácil da habilidade normal das sortes de prestidigitação.

Havia ainda quem o aplaudisse, mas muitos dos que o faziam era por piedade ou por escárneo. Mas o seu declinio continuava e Max, artista de circo, lembrou-se mais uma vez de mudar de género e vêmo-lo agora contorcionista, a meter-se inteirinho numa caixa de chapéus, a trocar os pés pelas mãos e a fazer semelhantes habilidades, só possíveis a um homem a quem tivesse sido extraida a coluna vertebral.

Porém, Max, tinha nascido para artista de barra fixa e forçosamente que não poderia conseguir o mesmo êxito, neste novo género de trabalho.

O seu empresário também se desgostava com o declínio de um dos melhores Números da companhia e sugeriu-lhe que mais uma vez mudasse de género de trabalho.

E certa noite, numa grande festa preparada para o efeito, o digno empresário presta uma solene homenagém ao insigne artista e, perante o respeitável público, que delirantemente o aplaudiu, o empresário fez a apresentação de Max, o homem do trapézio voador.

Começava agora os seus trabalhos mais arriscados, a 20 metros de altura e trabalhando sem rêde. Mas já tinha perdido a agilidade da juventude e os seus trabalhos no trapézio eram poucos, fracos e ridículos…

E uma triste noite, com o circo quási vazio, Max estatela-se no chão perante risos e gritos da assistência. No dia seguinte, nem o empresário o foi ver à Morgue...

A Força da Censura

Como é referido no jornal na sua edição de ontem "Esta era uma história na qual o regime colocou sabor político. Considerou que Max era então o Reitor Maximino Correia e que o mestre do circo (empresário) não podia deixar de ser Salazar, devido ao comportamento que assumia com quem deixava de o servir...". Assim, por decisão governamental, o jornal foi suspenso a partir do dia 7 de Julho de 1945, só voltando às bancas cerca de um ano depois, a 4 de Julho de 1946. O Diário de Coimbra pode, por isso, orgulhar-se de ter sido o jornal português que sofreu a mais grave penalização imposta pelo antigo regime. E resistiu devido ao empenho de Adriano Lucas e dos seus colaboradores.

Há coisas que o tempo não muda...

20/01/11

Pensamentos e Citações

A Internet é a primeira coisa que a Humanidade construiu e que a Humanidade não entende. É a maior experiência de anarquia que já tivemos!
Eric Schmidt (CEO Google)

Palavras Chave das Presidenciais de 2011

Coelho, Coelha, carneiros, SLN, BPN, crise, Cabo Verde, paraísos fiscais, sermões na missa, bombas atómicas, dívida pública, baixa de salários na função pública, PECs, aumentos brutais dos custos de quase tudo, reduções brutais de comparticipações em quase tudo, desemprego, Orçamento de Estado, Cavaco sucede a Cavaco?!?, Alegre que já não é Alegre, Defensor que só ataca, Coelho que só desmascara, Lopes, verdades e cassetes...

Frase do dia

"Os políticos são como as fraldas, se não se mudarem cheiram mal..."
José Manuel Coelho, candidato às presidenciais 2011

13/01/11

Soneto Quase Inédito

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

José Régio, 1969

E esta hem?

PS: Este soneto foi retirado daqui

Um Facto Histórico

A propósito de "papas na língua" e do comentário do cozinheiro solitário, comentei que os cozinhados "perdidos" da Maria, criada do meu tio-avô, que vivia entre o Açor e a Estrela, ficaram imortalizados na escrita de Miguel Torga. Por coincidência hoje recebi uma colecção de diapositivos da autoria de Luís Aguilar e Vitália Rodrigues, concebidos a partir de uma Fotobiografia de Clara Rocha, nas comemorações do centenário do nascimento do médico escritor.

A coincidência tornou-se enorme porque, nesta colecção, para grande espanto meu, deparei-me com uma fotografia de 1958, tirada durante o comício do General Humberto Delgado no teatro Avenida em Coimbra, mostrando uma ovação do público presente ao Dr. Adolfo Rocha.

Fotografia de 1958 tirada no teatro avenida em Coimbra durante uma ovação ao Dr. Adolfo Rocha (à esquerda). Mário Silva está na mesma zona, do lado direito (retirada dos diapositivos).

É que, em Novembro passado, eu tinha publicado aqui mesmo, a propósito das actividades políticas do Professor Mário Augusto da Silva, uma fotografia tirada exactamente no mesmo local, mas de um ângulo ligeiramente diferente!!!...

Fotografia de 1958 tirada no teatro avenida em Coimbra durante uma ovação ao Professor Mário Silva (à direita). Adolfo Rocha está na mesma zona, mas do lado esquerdo (Foto Gaspar).

Esta coincidência, aqui documentada, é também prova inequívoca de que, durante este surpreendente comício, assistiu-se a ovações sucessivas do público presente, sob a batuta do General sem Medo, com certeza, aos intelectuais portugueses presentes, que sempre tiveram coragem de enfrentar o antigo regime. Pagaram caro, com a perseguição, prisão e demissão, a sua coragem e determinação na luta pelos ideais da liberdade, contra a mordaça, a mesquinhez e a ignorância. Conclui-se, portanto, que este comício foi também uma homenagem a estes portugueses geniais e, por isso mesmo, uma afronta clara a Salazar e aos seus correlegionários. Em suma, uma baforada de liberdade, no meio de infindáveis anos de mordaça na boca, para júbilo de todos os presentes. Foi com certeza um dia inesquecível para todos.

Se Mário Silva se destacou na Ciência, parente pobre da nossa cultura, Miguel Torga destacou-se nas Letras. Pena que não tivesse ganho o Nobel da Literatura quando foi nomeado em 1960. Os diapositivos de Luís Aguilar e Vitália Rodrigues são um um olhar, sobre a vida e obra deste génio das Letras Portuguesas, que queria aqui deixar. Aos autores agradeço poder, neste espaço, partilhar convosco este seu olhar.