Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

10/01/11

Esta gente aqui....

Há coisas na vida que não se explicam. Sentem-se. Ponto. Esta performance é bela. Ponto. Hoje, ao ouvi-la, lembrei-me de nós. Nós Portugueses. Nós aqui, Senhor, nós aqui...

09/01/11

Obrigado Major Vítor Alves


Faleceu hoje um dos mentores do 25 de Abril. O Coronel Vítor Alves, 1935-2011, reconhecido pelos seus pares, Otelo e Vasco Lourenço, como um dos principais estrategas do MFA, deixou-nos mais pobres. Mais pobres porque fazem falta a Portugal homens do seu calibre. Vítor Alves foi um exemplo que os nossos políticos não souberam seguir. Ajudou a derrubar o antigo regime, que governara Portugal durante 48 infindáveis anos, restituindo-nos a liberdade. E não só. Lutou por mantê-la, tendo feito parte do chamado "Grupo dos Nove" que saiu vencedor no 25 de Novembro. Vítor Alves foi o porta-voz do Conselho da Revolução. Recebeu várias condecorações, nacionais e estrangeiras. Para além de outros importantes cargos, Vítor Alves foi ministro de vários governos provisórios. Foi nomeado para o cargo de ministro sem pasta em 1974, tendo exercido essas funções até 1975. Foi responsável pelas pastas da Defesa Nacional e da Comunicação Social, tendo visto aprovada, por sua iniciativa, a primeira lei de imprensa pós-25 de Abril, que vigorou até 1999. O militar desempenhou exemplarmente os seus cargos ministeriais, tendo chegado a ser ministro da Educação e Investigação Científica entre 1975 e 1976, no 6º governo provisório. Foi, assumindo estas funções, que o militar oficializou o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, em 1976. Este acto demonstra bem a sua visão e a sua inteligência, dando o exemplo a outros que, como cientistas de carreira, deixarão para sempre o seu nome ligado ao encerramento deste Museu Nacional tão importante para Portugal. Para vergonha de todos!

Bem-haja e descanse em paz.

08/01/11

Henrique Neto Sem Papas na Língua!


Recebi por email alguns excertos da entrevista de Henrique Neto, empresário e antigo deputado do PS, ao Jornal de Negócios da última sexta-feira. É um histórico que muito fez pelo PS. É uma entrevista absolutamente demolidora. Henrique Neto surpreende-nos com a sua confissão e testemunho. Será verdade? Sinceramente, tenho que admitir que somente uma grande revolta pode levar alguém a falar assim dos responsáveis máximos do seu país, ainda por cima sendo estes da mesma família política. Aparentemente. Eu sempre fui simpatizante do PS. Só não votei no PS nas últimas eleições. Pelos vistos, não sou só eu que não se revê neste PS da era "socrática". Enfim... ai Portugal, Portugal!

"Uma vez, fui a um debate em Peniche, conhecia o Sócrates de vista. Isto antes do Governo Guterres. Não sabia muito de ambiente, mas tinha lido umas coisas, tinha formado a minha opinião. O Sócrates começou a falar e pensei: “Este gajo não percebe nada disto”. Mas ele falava com aquela propriedade com que ainda hoje fala, sobre aquilo de que não sabe. Eu, que nunca tinha ouvido o homem falar, pensei: “Este gajo é um aldrabão, é um vendedor de automóveis. Ainda hoje lhe chamo vendedor de automóveis"Ainda hoje lhe chamo vendedor de automóveis".

"Quando se pôs a hipótese de ele vir a ser secretário-geral do PS, achei uma coisa indescritível. Era a selecção pela falta de qualidade. O PS tem muita gente de qualidade. Sempre achei que o PS entregue a um tipo como o Sócrates só podia dar asneira". "Gosto muito de Portugal – se tiver uma paixão é Portugal – e não gosto de ninguém que dê cabo dele. O Sócrates está no topo da pirâmide dos que dão cabo disto. Entre o mal que faz e o bem que faz, com o Sócrates, a relação é desastrada".

“Há caras de que gostamos mais e outras menos, mas não me pesa assim tanto. Além do facto de que estou convencido de que ele não é sério, também noutros campos. Conheci a vida privada do Sócrates, ele casou com uma moça de Leiria, de quem conheço a família. Sou amigo do pai dela, que foi o meu arquitecto para a casa de São Pedro de Moel. Esta pequena decoração que vê aqui [em casa] foi feita pela cunhada do Sócrates. Às vezes compro umas pinturas que a mãe delas faz. Nunca fui próximo da família, mas tenho boas relações. Não mereciam o Sócrates. Portanto, sei quem é o Sócrates num ambiente familiar. Sei que é um indivíduo que teve uma infância complicada, que é inseguro por força disso, que cobre a sua insegurança com a arrogância e com aquelas crispações. Mas um País não pode sofrer de coisas dessas".

"Escrevi uma carta ao Guterres, que foi publicada, em que lhe disse coisas que digo do Sócrates. Era deputado quando escrevi a carta, era da comissão política do Partido Socialista. Foi na fase de Pina Moura e daqueles descalabros todos. Na comissão política, estão publicadas algumas dessas coisas, [sobre] os negócios do Jorge Coelho e do Pina Moura. Depois de ter falado disso tudo em duas ou três reuniões e não ter acontecido nada, escrevi uma carta e mandei ao Guterres. Ele distribuiu a carta. No outro dia veio nos jornais. Era uma carta duríssima. Os problemas eram os mesmos, estávamos a caminhar mal, estávamos a enganar os portugueses, a dizer que a economia estava na maior, quando não era verdade. Na altura já falava com o Medina Carreira e ele já falava comigo".

"Quando o Pina Moura foi ministro das Finanças, uma senhora das Finanças instalou-se lá na empresa. Nunca contei isto. Encontrava-a no elevador, nunca falei com ela, “bom dia Sra. Dr.ª.”. Mas os meus homens contavam-me. Andou à procura, à procura, à procura como uma doida. Esteve lá alguns dois anos. As coisas não são impunes, a gente paga-as neste mundo. Disse o que quis do Pina Moura, da maioria desses gajos; era natural que se defendessem. Os seus colegas jornalistas muitas vezes foram ao Pina Moura com o que eu disse; e ele: “Não comento”. O Guterres também não comentava, e o Sócrates também não comenta. Aliás, quando faço uma intervenção ao pé dele fica histérico, não me pergunte porquê".

"Estudei um pouco da história portuguesa, nomeadamente dos Descobrimentos; fizemos erros absurdos. Um dos erros é deixarmo-nos enganar, ou pelos interesses, ou pela burrice. O poder, os interesses e a burrice é explosivo. Descambámos no Sócrates, que tem exactamente estas três qualidades, ou defeitos: autoridade, poder, ignorância. E fala mentira. Somos um País que devia usar a inteligência e o debate para resolver os problemas, e temos dirigentes que utilizam a mentira e evitam o debate".

"A última comissão política do PS foi feita no dia em que o Sócrates anunciou estas medidas todas. Convocou a comissão política depois de sair da conferência de imprensa, para o mesmo dia, à última da hora, para ninguém ir preparado – primeira questão. Segunda questão, organizou o grupo dos seus fiéis para fazer intervenções umas a seguir às outras, a apoiar, para que não houvesse vozes discordantes. A ideia dele era que o Partido Socialista apoiasse as medidas. Fez medidas tramadas, toda a gente sabe. O mínimo era que o partido as apoiasse. Mas não falou antes. Depois o Almeida Santos fez aquilo que faz sempre: uma pessoa pode inscrever-se primeiro, mas o Almeida Santos só dá a palavra a quem acha. Os que acha que vão dizer o que não quer que digam, só vêm no fim. E no fim: “Isto está tarde, está na hora de jantar”. Isto é uma máfia que ganhou experiência na maçonaria. O Arq. Fava é maçónico, o Sócrates entrou por essa via, e os outros todos. Até o Procurador-Geral da República. Utiliza-se depois as técnicas da maçonaria – não é a maçonaria – para controlar a sua verdade. Os sucessivos governos, este em particular, pintam uma imagem cor-de-rosa da economia portuguesa. Isto é enganar as pessoas sistematicamente.

“Depois aparecem críticos como o Medina Carreira ou eu a chamar a atenção para a realidade do País – chamam-nos miserabilistas! E quando podem exercem pressão nos lugares onde estão esses críticos e se puderem impedir a sua promoção ou acesso aos meios de informação, não hesitam. Isto era o que se passava antes do 25 de Abril, agora passa-se em liberdade, condicionando as pessoas, e usando o medo que têm de perder o emprego. José Sócrates, na última Comissão Política do PS, defendeu a necessidade das severas medidas assumidas pelo Governo, mas também disse que era muito difícil cortar na despesa do Estado porque a base de apoio do PS está na Administração Pública. Disse-o lá, e pediu para isso a compreensão dos presentes. Não tenho nada contra José Sócrates. Se ele se limitasse a ser um vendedor de automóveis, ser-me-ia indiferente. Mas ele é o primeiro-ministro e está a dar cabo do meu País. Não é o único, mas é o mais importante de todos".

Sem palavras...

30/12/10

Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Votos de um próspero Ano Novo e que as "sanguessugas de duas pernas" destes país sejam esmagadas!

24/11/10

Hoje, Dia de Greve Geral em Portugal

A greve é a linguagem dos que não são ouvidos...

Martin Luther King
Nunca, como hoje, uma greve fez tanto sentido!

14/11/10

Agora Aqui!

Olhos doces brilham...
Chora o suspiro!
Imagens que voam,
É tudo tão giro!

Entro em ti,
Saio de ti,
Fico em ti!
Vou para ti...
Aqui?
Aí?
Amanhã?
Agora?
Ontem?!
Será agora um amanhã,
E já agora Eternidade?
Foi há um século que foi ontem?!
Será isto Relatividade?

Curvo como o espaço em ti,
Estremece macia em mim!
Sinto-me vivo por estar em ti,
Para o tempo...
Fica assim!

João do Lodeiro

11/11/10

O Político Mário Augusto da Silva (V)

Um exemplo de intervenção cívica e política do Professor Mário Augusto da Silva, fundador do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (que os "espíritos maléficos" parecem estar a conseguir destruir, novamente!), pela sua coragem, frontalidade e ideias claras, ao serviço dos ideais da liberdade e da democracia, contra a usura, o despotismo, a ignorância e a estupidez que governou Portugal durante décadas, de 1926 a 1974. Infelizmente, na última década também!

Fotos da campanha do General Humberto Delgado em Coimbra (1958). As duas fotos de cima referem-se ao comício no antigo Teatro Avenida e ambas ilustram o momento da ovação do público presente à entrada do Professor Mário Silva na sala (no camarote central). Em baixo, Mário Silva à direita do General.

Foto de Mário Silva, em 1928, do documento de identificação durante a sua estada no Instituto do Rádio de Paris, onde foi assistente de Madame Curie

A Mário Silva foi-lhe negada a possibilidade de fazer investigação científica, quando tinha apenas trinta anos e era já Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra e director do Laboratório de Física. Nos anos trinta, Mário Silva viveu totalmente absorvido com os seus trabalhos, mais voltados à docência e menos à investigação por força das circunstâncias. "Como professor, Mário Silva elevou o nível das suas aulas a par do que havia então de melhor em qualquer universidade europeia ou americana. Não há qualquer exagero nesta afirmação. Quando o Prof. Rodrigo Sarmento de Beires veio leccionar «Correntes Fortes» no último ano de Electrotecnia da Faculdade de Engenharia do Porto dispensava das primeiras aulas os antigos alunos do Prof. Mário Silva da cadeira de «Electricidade», no terceiro ano da Faculdade de Ciências de Coimbra. Esta atitude única dum professor tão competente e exigente como Sarmento Beires demonstra bem o alto conceito em que situava as lições do Mestre de Coimbra...", como referiu o Professor Eduardo Caetano, seu antigo aluno, recentemente falecido [2].

Publicou todas as suas lições. Traduziu alguns livros, entre os quais «O Significado da Relatividade» de A. Einstein e «Pensamento Científico Moderno» de Jean Ulmo. Este último em 1963 [1]. Verificou, com apreço, que a sua tese filosófica, contida na oração de sapiência intitulada «Elogio da Ciência» que proferiu na abertura solene do ano lectivo de 1942, seria justificada com o maior relevo naquele livro. Escreveu, entre outras, uma obra de Física Teórica de grande valor que, infelizmente, ficou incompleta devido ao tremendo efeito que lhe causaram a prisão em Agosto de 1946 e a sua aposentação compulsiva da Universidade no ano seguinte. Aliás, o primeiro livro sobre as equações de Maxwell foi brochado quando estava preso pela PIDE no Porto. Para ali lhe foram enviados os primeiros cem volumes, para rubricar, em virtude de ter reservado os direitos de autor. É interessante notar que foram vendidos em Coimbra pela Coimbra Editora, da qual Salazar era sócio , não obstante o Professor ter escrito, à mão, em todos os exemplares: "Nas prisões da PIDE do Porto, em Outubro de 1946. Mário Silva". Foram seus companheiros de prisão, entre outros, Ruy Luís Gomes, Cal Brandão, Azeredo Antas, Hélder Ribeiro e Domingos Pereira, antigo Presidente do Conselho de Ministros.

Uma curiosidade é que para além de ter sido preso , sem sobre ele existir qualquer acusação, a sua libertação foi obra de um mero acaso. Aqui fica um pequeno relato que Rangel de Lima contou a Mário Silva [2]. Um dos seus filhos, também engenheiro, havia casado com uma filha do capitão Catela, director da PIDE. Tinha sido aluno de Mário Silva. Assim que soube que o Professor estava preso na polícia política do Porto insistiu com o sogro para saber os motivos que levaram a PIDE a prender o seu antigo professor. E daí a análise do processo e a liberdade. Foi, afinal, uma circunstância marginal ao processo que restituiria a liberdade a Mário Silva. E se não existisse? Contou ainda Rangel de Lima que, dias depois do Professor ser posto em liberdade, Salazar soube por outrem da decisão do director Catela. Chamou-o ao seu gabinete para o invectivar nos seguintes termos: "Então o senhor pôs em liberdade o Dr. Mário Silva, aquele agitador de Coimbra que estava preso no Porto?" O Capitão Catela respondeu-lhe que não havia razões nem provas que justificassem a sua prisão e, portanto, ele e o director da PIDE do Porto haviam decidido pô-lo em liberdade. Alguns meses depois o capitão Catela morreu sentindo sempre, segundo o relato de Rangel de Lima, a hostilidade de Salazar contra ele, a partir daquele encontro. Algum tempo após a sua morte, um ministro apresentou em Conselho de Ministros uma proposta com a finalidade de ser concedida uma pensão à viúva do capitão Catela. Salazar recusou-a.

Perdeu-se o Cientista, ganhou-se o Democrata. O célebre despacho da Presidência do Conselho, de 1947, trágico para Portugal e que Mário Silva encabeçou, privou-o da carreira para a qual tinha nascido. Único membro português da American Physical Society, chegou a ser vendedor de vinho espumante das Caves Vice-Rei. Foi um excelente vendedor, pois todos compravam muitas garrafas de espumante como prova da sua solidariedade. Apesar de diversos convites de instituições estrangeiras, Mário Silva foi obrigado a recusá-los porque nem o direito ao exílio lhe foi concedido. Posteriormente, e nesse ano de 1947, a Philips Portuguesa nomeou-o seu conselheiro científico, cargo que ocupou até se reformar em 1965. Após a sua reforma e como explicador de Física, chegou a ter cerca de 200 alunos (!). Na cave de sua casa na Quinta do Espinheiro, na Rua Bissaia Barreto em Coimbra, existia uma autêntica sala de aulas.

Nos anos trinta não esteve envolvido em nenhuma actividade política, não deixando de ter largas discussões sobre Filosofia e Ciências Políticas numa tertúlia de que faziam parte, entre outros, Teixeira Ribeiro, Manuel dos Reis, José Oliveira Neves e Anselmo de Castro. A sacudidela no marasmo político português verificou-se devido à guerra civil espanhola. Todos os democratas de então uniram esforços. Os oposicionistas ao regime vigente uniram-se. A democracia no mundo estava em perigo. O fascismo e o nazismo, em escalada verdadeiramente imparável, atingiam o seu apogeu no início da 2ª Guerra Mundial. Só em plena 2ª Guerra Mundial se envolveu, juntamente com outros ilustres democratas, em actividades políticas activas em favor da democracia [2].

Foi membro, como representante por Coimbra, do Comité Nacional do MUNAF, Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, do qual era presidente o General Norton de Matos. Foi membro da sua Comissão Executiva, órgão máximo do movimento, a convite de Bento de Jesus Caraça. Participou na campanha eleitoral do General Norton de Matos para a Presidência da República, em 1949. Com a estruturação do MUD, Movimento de Unidade Democrática, Mário Silva foi vice-presidente da sua Comissão Distrital por Coimbra, tendo convidado para a presidência Anselmo Ferraz de Carvalho. Em 1961, Mário Silva foi candidato a deputado à Assembleia Nacional, pelo distrito de Coimbra, pelas listas afectas à Oposição Democrática. Como se sabe, a Oposição Democrática apresentou listas em diversos círculos mas desistiu por considerar que não existiam condições mínimas para a realização de eleições. Antes, em 1958, tinha participado activamente na campanha do General Humberto Delgado para a Presidência da República, como bem ilustram as fotografias acima. Como todos devem saber, em 1965, o General "Sem-Medo" for barbaramente assassinado pela PIDE.

A este propósito recordem-se as palavras do médico de Coimbra, Louzã Henriques, que na cerimónia comemorativa do cinquentenário destes acontecimentos "passou em revista as movimentações da "estudantada" que rompeu os cordões policiais e "limpou a área" para que o comício de Humberto Delgado se pudesse realizar, bem como a importância dos intelectuais da época de que "ninguém fala"", de acordo com o relato da jornalista Diana Andringa. Pois bem, Mário Augusto da Silva é um dos que ninguém fala, mas que este blogue tudo fará para que a história não o esqueça, omita, branqueie ou, pior, humilhe. Contra tudo e contra todos. Porque tem sido assim mesmo. As fotos, se bem analisadas, são bem elucidativas da importância que Mário Silva teve naqueles tempos em que era necessário ter muita coragem. Todos o conheciam por isso mesmo. Hoje, todos os esqueceram ou querem esquecer. Não se compreende que obras sobre a nossa história contemporânea, como a extensa obra "Portugal Contemporâneo", da responsabilidade do Dr. António Reis, confunda o nome do Professor Mário Augusto da Silva com o do brigadeiro salazarista Mário Silva. Ou seja, confunde a vítima com o carrasco. Imperdoável, considerando a dimensão da personalidade de Mário Silva que foi, indubitavelmente, um dos mais prestigiados cientistas portugueses de todos os tempos, reconhecido mundialmente, e um democrata republicano que enfrentou, sem qualquer temor, o regime do Estado Novo. Em frente...

Quando a oposição democrática se reorganizou a seguir ao acto eleitoral de Humberto Delgado, reunindo todas as facções antifascistas, com a excepção dos comunistas a fim de não ser considerada clandestina, tomou o nome de ADS, Acção Democrática Social, a qual era liderada por Cunha Leal. Embora com certa relutância, por considerar Cunha Leal parcialmente responsável pelo aparecimento do regime salazarista, aceitou o convite para participar nesta organização. Para Mário Silva, Cunha Leal teve o mérito de aglutinar à sua volta a oposição não comunista, unindo-a, com a excepção dos que, após a cisão provocada por Mário Soares, se afastaram da ADS. Do distrito de Coimbra acompanharam Mário Soares, entre outros, Paulo Quintela, Adolfo Rocha (Miguel Torga) e Fernando Vale [2].

Alguns professores da velha Universidade de Coimbra, como Ferraz de Carvalho, Teixeira Ribeiro e Paulo Quintela, pertenciam à oposição. Mas, naquela época de fascismo triunfalista, só Mário Silva foi membro activo de organizações clandestinas antifascistas. Mais tarde, levou Ferraz de Carvalho e Lúcio de Almeida a pertencerem a algumas dessas organizações. É pois com inteira justiça que se poderá considerar Mário Silva o universitário coimbrão mais acérrimo, perseverante e actuante opositor do regime salazarista. Pelo menos esta ideia ele a tinha e nisso sentia muito orgulho [2]. Considerou o dia 25 de Abril de 1974 como o dia mais feliz da sua vida. Acabava nesse dia um regime que longamente o hostilizou, obstruiu, prendeu e o expulsou da Universidade. Contudo, sobressaltou-se quando se apercebeu que a luta contra o totalitarismo, agora de sinal oposto, ainda não tinha terminado. Viu, com desgosto, repetirem-se as lamentáveis cenas por que tinha passado muitos anos antes e contra as quais tinha lutado toda a sua vida. Mancharam os ideais da Revolução. Felizmente a Democracia venceu. Hoje, depois de anos a conspirar contra Portugal e os portugueses, a oligarquia parece ter vencido , esgotando a democracia na ida às urnas, mas, enfim, até ver temos liberdade de expressão. Finalmente, e só no dia 11 de Fevereiro de 1976 (!), foi reintegrado. No jornal «A Luta», Raul Rego assinava um artigo de fundo que intitulou «Reintegração» e escrevia: "Não se pode dizer que tenha sido pronta a justiça feita a Mário Silva agora reintegrado como Professor Catedrático da Faculdade de Ciência da Universidade de Coimbra. Vinte e dois meses depois da revolução chegou a sua hora..." (!).

Nota final:

Em 2005 comemorou-se o Ano Internacional da Física. O Professor Mário Augusto da Silva, um dos maiores Físicos portugueses do Século XX, foi "homenageado" de forma exemplar. Por decisão do Conselho de Ministros de Setembro de 2004, então presidido por Santana Lopes, foi lavrado um Decreto-Lei que "ENTERROU" o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, erguido e fundado precisamente por Mário Silva. Em 2005, o dito Decreto foi promulgado por Sua Exa. o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, já com o Governo demissionário. Disse "enterrou" porque o Museu, hoje, está no limbo, tipo morto-vivo, sem que haja coragem para o fechar de vez. Seremos, provavelmente, o primeiro país do mundo a mandar fechar um Museu Nacional dedicado à Ciência. Que podemos nós dizer a não ser "estamos em Portugal!"?

Referências

[1] Mário A. da Silva, Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1963.

[2] Eduardo Caetano, Mário Silva: Professor e De­mocrata, Coimbra Editora, 1977.

Save Darfur | Voices for Darfur: 5 Years of Advocacy



Save Darfur | Voices for Darfur: 5 Years of Advocacy

A Magia do Espírito

Contos e lendas de um Portugal profundo... e perdido...

O tio Francisco Habilidades

O tio Francisco Habilidades deu o seu testamento espiritual aos seus castanheiros. Os soitos, que encheram as leiras nas encostas, na povoação de Baloquinhas, foram considerados, no passado, os maiores do Concelho de Seia.

Estes soitos pertenciam ao proprietário Francisco dos Santos Nobre, irmão do meu avô, sendo conhecido por Francisco Habilidades. Viveu solteiro.

A sua alcunha “Habilidades”, deve-se ao facto de materializar os seus sonhos construindo obras, as mais diversas, como pedreiro, carpinteiro e ferreiro. Nas suas forjas construía as suas ferramentas agrícolas.

Na sua casa grande, à entrada de Baloquinhas, vivia com as suas longas barbas, como um patriarca bíblico. Dava conselhos sobre os trabalhos agrícolas e, pela sua personalidade de bondade, as suas palavras éticas e de conduta humana eram bem ouvidas e aceites.

Mas esta sua vivência foi interrompida pela praga da “tinta”, que matou todos os seus castanheiros e os seus soitos transformaram-se em troncos mortos, como fantasmas.

Num certo dia outonal, o “Ti” Francisco Habilidades, já no fim da vida e doente, espreitando pela janela da sua casa, olhando o último castanheiro a morrer, disse-lhe com uma voz ouvida por todas as encostadas, em Baloquinhas:

“Quando eu morrer, tu não morrerás, porque o meu espírito vai para dentro do teu corpo e, quem usar a tua madeira, terá uma vida feliz e livre de todos os maus espíritos”. (Memórias no tempo do calor das lareiras).

Esta mensagem espiritual, dirigida ao moribundo castanheiro, tem origem herdada nos rituais celtas, povos que habitaram na freguesia de Vide.

Os seus druidas, sacerdotes, acreditavam que os espíritos dos mortos se refugiavam nas árvores, consideradas os seus templos.

Deste modo, ainda hoje, o costume muito usual de bater com os nós dos dedos sobre a madeira, especificamente, sobre a tampa de madeira de uma mesa para espantar azares dos espíritos.

A antropologia cultural dos povos primitivos deixou-nos, como herança, muitos ou milhares de exemplos, expressos em costumes de conduta humana. Por isso, as comunidades humanas actuais vivem ainda agarradas, por vezes, num âmbito divino, a esses costumes dos povos das primeiras civilizações pré-históricas.

Alguns exemplos desta vida primitiva, aparentemente simples, mas com um significado profundo: o vestuário preto ou branco, usado como luto, pela morte de familiares ou pessoas queridas, a colocação de flores (mas naturais), sobre a campa dos mortos, a coroação dos heróicos atletas, vencedores nos Jogos Olímpicos, em homenagem ao deus pagão grego, Zeus. Os rituais religiosos de hoje são heranças dos tempos pagãos.

01/11/10

Pensamentos e Citações (1)

O primeiro homem que cercou uma porção de terra e disse: isto é meu, e encontrou gente suficientemente tonta para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador do estado.

J.J. Rousseau
"Collection complete des oeuvres", Geneve, 1782, Discours sur l'Inegalité, Part II