Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

20/01/10

Agora Tenho a Certeza...

Deus escreve mesmo direito por linhas tortas... descontínuas, emaranhadas e confusas! Que recompensa para o povo haitiano perante tamanha injustiça?

Após anos de ditaduras, guerras e de tudo o que de mau se possa imaginar, este povo, o mais pobre da América, teve agora que sofrer mais de 100.000 mortos, num terrível terramoto, e um número indeterminado de feridos, desalojados, desaparecidos... Parece que 1/3 da população foi devastada. E todos os haitianos estão a sofrer...

Se Deus castiga assim quem já sofre tanto na Terra, imagino o castigo que os sacanas que detêm o poder na Terra (seja ele qual for) sofrerão quando tiverem que prestar contas no Juízo Final. Não?

10/01/10

Memórias do Melhor Rally do Mundo...

Existem algumas coincidências intrigantes relacionadas com o fim do melhor rally do mundo, o rally de Portugal, o fim do Grupo B nos rallies, o apogeu do WRC e a tragédia que se abateu sobre duas das suas lendas. Uma portuguesa e outra finlandesa. Falamos do "Villeneuve dos Rallies", Henri Toivonen, e do "Villeneuve Português dos rallies", Joaquim Santos. Mas comecemos pelo princípio.

O ínicio do fim da era de ouro dos rallies deu-se na edição do rally de Portugal de 1986. A última década tinha tornado este desporto num dos preferidos dos portugueses. E não só. Desde o velhinho rally TAP, passando pelos célebres Vinhos do Porto, com as disputas renhidas e inesquecíveis, ao metro, diria mesmo, entre os Fiat 131 Abarth e os Ford Escort RS 1800, protogonizadas por lendas como Markku Álen, Walter Röhrl, Hannu Mikkola e Björn Waldegård. Quem não se lembra dos troços de Vide ou de Arganil, este com mais de 40 km, com início na Aldeia das Dez, ladeados por ribanceiras e precipícios a perder de vista, onde invariavelmente os rallies eram decididos? Troços de terra, com vistas estonteantes, onde era comum ver-se bocados de rocha xistososa a cobrir todo o piso. Mas também pelas lições de condução de finlandeses voadores, como Ari Vatanen, Timo Salonen, Kankkunen e, o mais espectacular de todos, o "Villeneuve dos rallies", Henri Toivonen. Toivonen que tive o prazer de ver em acção várias vezes, desde os tempos do espectacular Talbot-Lotus. Foi também piloto da Opel, ao volante do Ascona 400, da célebre equipa Rothmans. Lutou muito contra a entrada dos 4WD nas provas do WRC. Um dia, na Lousã (quem não se lembra das 5 curvas?), por pouco não fui atingido na cabeça por um pedragulho disparado quando, após o accionamento do travão de mão, à saída de um gancho à esquerda, os 400 CV nas rodas traseiras de um Opel varreram literalmente, o chão. Com o surgimento de autênticas "bombas voadoras" de tracção integral, como os Audi Sport Quattro S1 (no início com a incrível Michelle Muton), os Lancia Delta S4, os Ford RS 200, e as potências dos motores a chegarem aos 700 CV, integrados no famoso Grupo B, o espectáculo ficou, literalmente, ao rubro. Domar estes monstros era tarefa quase sobre-humana, embora a espectacularidade da condução em slide, na qual Toivonen e Santos eram mestres, tivesse sofrido um grande revés.

Desde a década de 70 que se viam, de ano para ano, ao sabor também do avanço tecnológico e da competição saudável e renhida, cada vez mais pessoas entusiastas e fans deste desporto. O público português, infelizmente, comportava-se muitas vezes como se estivesse numa arena, desafiando touros, como o primeiro vídeo bem documenta. Está-lhe no sangue, provavelmente. A falta de civismo era, talvez, a única crítica que nos era apontada. Porque, se devidamente controlado (o que raramente acontecia), o rally de Portugal era único no mundo. Pela organização, pelo traçado e classificativas, pelo entusiasmo do seu público, pela exuberância das paisaigens, pela hospitalidade do seu povo. Os rallies chegavam a durar 6 dias! Convivia-se ao relento, à luz das fogueiras acesas para calar o frio das noites de Março, à beira dos troços das florestas, à espera do espectáculo. Foram tempos magníficos que provavelmente não voltarão.

Foi pois com uma expectativa enorme que se iniciou no dia 5 de Março de 1986 mais um rally de Portugal, com o primeiro troço cronometrado na Lagoa Azul, em Sintra. Com uma lista de inscritos extraordinária, antevia-se um espectáculo imperdível. Nesta primeira classificativa por Sintra, os 8 primeiros classificados estavam separados por apenas 2 segundos: Henri Toivonen e Markku Alen (ambos em Lancia Delta S4) e Walter Rohrl (Audi Sport Quattro), 2m15, Timo Salonen (Peugeot 205 T16) e Kalle Grundel (Ford RS 200 ), 2m16, Massimo Biasion (Lancia Delta S4), Juha Kankkunen (Peugeot 205 T16) e Malcolm Wilson (MG Metro), 2m17. Estes tempos foram obtidos numa classificativa aonde se acotovelavam mais de meio milhão de pessoas! Pessoas que formavam autênticos "rails" humanos, entre os quais os pilotos tentavam passar no limite. E, assim, sentia-se que a tragédia iria acontecer. Ainda na 1ª classificativa (Lagoa Azul), Joaquim Santos, o "Villeneuve português dos rallies", ao volante de um Ford RS 200, sofria um despiste e "varria" uma multidão de espectadores, provocando 33 feridos e 2 mortos (mãe e filho, de 9 anos). Foi a primeira coincidência! Podia ter acontecido com qualquer outro, mas aconteceu com o melhor piloto português...

Foi antes da 2ª ronda por Sintra – no reagrupamento no Autódromo do Estoril – que todos seriam informados do acidente. O nervosismo pairava no ar, com os pilotos exaltados a recusarem-se repetir as passagens por Sintra. No início da tarde, os pilotos das equipas oficiais reunem-se no Hotel Estoril-Sol e acabam por decidir abandonar a prova, num gesto de protesto perante a impotência da organização. Elaboraram um comunicado que foi lido por Henri Toivonen. Segunda coincidência. Havia pilotos mais velhos... mas teve que ser o piloto mais espectacular de todos os tempos a fazê-lo. Eis o que Toivonen transmitiu:
- «As razões pelas quais os pilotos abaixo assinados não desejam prosseguir o Rali de Portugal são as seguintes:
1 – Como uma forma de respeito pelas famílias dos mortos e dos feridos;
2 – Trata-se de uma situação muito especial aqui em Portugal: sentimos que é impossível para nós garantir a segurança dos espectadores;
3 – O acidente no 1º troço cronometrado foi causado por um piloto que tentou evitar espectadores que estavam na estrada. Não se ficou a dever ao tipo de carro nem à sua velocidade;
4 – Esperamos que o nosso desporto possa beneficiar futuramente com esta decisão.»


Foi, literalmente, o fim do rally, apesar de ter continuado a partir da 2ª etapa, por vontade do grande César Torres, o director da prova e do ACP. A vitória desse outro rally viria a sorrir a Joaquim Moutinho, passando este a ser o primeiro português a ganhar uma prova do WRC. Mas as florestas esvaziavam-se, o espectáculo terminava e o luto ensombrava o “melhor rally do mundo". Era o princípio do fim. Fim que teve como corolário o espectacular e trágico acidente que vitimou Henri Toivonen no rally da Córsega, dois meses depois, no dia 2 de Maio. Mais uma coincidência...



03/01/10

Os Professores no Universo da Lusofonia...

Nos nossos dias, pelos vistos, os professores estão, decisivamente, na berlinda. Parece que foram escolhidos para servirem de bodes expiatórios da sociedade imoral em que vivemos. Sociedade que é fruto de políticas erradas, impostas por corjas de gestores políticos incompetentes, medíocres e corruptos, que nos têm governado. Sim, porque a ideologia, os valores, a sabedoria, há muito que andam arredadas da política. Infelizmente, hoje, para a política não vão os melhores, os mais sábios, como deveríamos esperar, mas sim os chicos-espertos, os oportunistas e os cábulas revoltados, salvo raras excepções, evidentemente. Lá como cá.

Eis o que parece ser uma excepção. Um político brasileiro esclarecido e no qual os nossos políticos deveriam pôr os olhos, ou melhor, escutar. O problema, sinceramente, é que a maioria deles jamais aprenderá. Hoje, como no passado, na Escola.

24/12/09

O Paraíso Existe!

BASARUTO - MOÇAMBIQUE

Que saudades eu tenho da minha terra natal. Vivo-a em sonhos, porque a minha infância foi uma espécie de sonho, vivido no paraíso, que depois me roubaram... que costa magnífica... com aquelas águas azuis turquesa... aqueles areais a perder de vista, de areia branca e fina... a contrastar com a savana do interior, com os seus pássaros multicores, as impalas dormindo nas picadas, as gazelas pulando no meio do capim, as avestruzes correndo ao lado do jipe, os elefantes impondo respeito... ao longo do rio Limpopo ou do rio dos elefantes. As praias do Xai-Xai, do Bilene, do Chongoene e as ilhas de Santa Carolina e Basaruto, autênticas pérolas do Índico. Fiquei muito contente por saber que no Basaruto começam a existir unidades hoteleiras de grande qualidade, como as fotos bem documentam. Maravilhem-se e visitem! Vão ver que vale a pena!


A Claque e as Claques

Nunca gostei de claques. O apoio incondicional de um grupo organizado a uma determinada equipa (a um homem, a uma organização, etc.), obriga a que esse grupo ou claque seja disciplinado e obediente. Uma claque é sempre castradora da liberdade individual, mesmo que o indivíduo aceite livremente a ela pertencer. Percebo a razão de ser de uma claque espontânea, quando um grupo de indivíduos apoia e dá ânimo à sua equipa num jogo. Não posso, ou melhor, não podemos é aceitar as claques organizadas. Elas são anti-democráticas e castradoras das liberdades individuais por natureza. Por isso mesmo, no mundo do futebol, as claques são coutada de grupos de extrema direita. Basta ver os símbolos que utilizam. Elas estão também na génese do hooliganismo, que não passa de um bando de selvagens urbanos enraivecidos com a miséria da vida, que destroiem o que de melhor pode ter o jogo: o desportivismo. A culpa não é deles, mas sim da sociedade em que vivemos. Talvez por isso, as claques fazem lembrar-me um turbilhão de coisas relacionadas com tirania.

Fazem lembrar-me as paradas nazis. Fazem lembrar-me o Big Brother e os seus correligionários. Fazem lembrar-me os bufos, os homens pequenos de olhos pequeninos e juntos de Orwell. Fazem lembrar-me o George Bush. Fazem lembrar-me a PIDE. Fazem lembrar-me o José Sócrates. Fazem lembrar-me a Maria de Lurdes Rodrigues. Fazem lembrar-me os políticos que gostam de malhar. Enfim, fazem lembrar-me coisas tristes.

Hoje, o poder das claques assusta. Ou melhor, assusta o poder de um sobre a vontade de muitos. O que a disciplina de muitos pode fazer sob o comando de um só. Vejam o vídeo, apreciem a mestria formidável desta claque, e pensem no que estes homens poderiam fazer num exército comandado por um psicopata qualquer...

Fazem lembrar-me as palavras de Nostradamus sobre o Homem de Sangue. O terceiro anti-Cristo que surgirá quando os ciclos da Lua se renovarem...

23/12/09

Merry Christmas!

Parabéns ao David Fonseca pelo excelente Postal de Natal. Basta seguir o "link":

- Postal de Natal 2009 - Merry Christmas! - Videos David Fonseca.

Votos de um Feliz Natal e de um Excelente Ano de 2010

16/12/09

O Tratado de Lisboa e a Conferência de Copenhaga

Depois de avanços e recuos entrou em vigor no passado dia 1 de Dezembro, com pompa e circunstância, o "Tratado Constitucional" da União Europeia, conhecido por Tratado de Lisboa. No site "Europa" pode ler-se: 

"Em 50 anos, a Europa mudou e o mundo também. 

Hoje mais do que nunca, num mundo globalizado em constante mutação, a Europa deve fazer face a novos desafios. A mundialização da economia, a evolução demográfica, as alterações climáticas, o aprovisionamento energético ou ainda as novas ameaças que pesam sobre a segurança são alguns dos desafios com que a Europa do século XXI se confronta.

Os Estados-Membros já não são capazes de enfrentar sozinhos todos estes novos desafios que não conhecem fronteiras. Por conseguinte, um esforço colectivo à escala europeia permitirá fazer-lhes face e responder às preocupações dos cidadãos. Todavia, para enfrentar esses desafios, a Europa deve modernizar-se. Deve dispor de utensílios eficazes e coerentes adaptados não só ao funcionamento de uma União Europeia recentemente alargada de 15 para 27 membros mas também à rápida evolução do mundo actual. As regras de vida em comum consagradas nos tratados devem, pois, ser renovadas.

É esse o objectivo do Tratado assinado em Lisboa a 13 de Dezembro de 2007. Tendo em conta as evoluções políticas, económicas e societais
(sociais), e desejando simultaneamente responder às aspirações dos europeus, os Chefes de Estado e de Governo chegaram a acordo sobre novas regras que regem o alcance e as modalidades da acção futura da União Europeia. Assim, o Tratado de Lisboa permite adaptar as instituições europeias e os seus métodos de trabalho, reforçar a legitimidade democrática da União Europeia e consolidar a base dos seus valores fundamentais.

O Tratado de Lisboa é o fruto de negociações entre Estados-Membros, reunidos em Conferência Intergovernamental. A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu participaram nos trabalhos da Conferência Intergovernamental e o Tratado foi ratificado por cada um dos 27 Estados-Membros. Coube a estes últimos, de acordo com as respectivas regras constitucionais, escolher o processo de ratificação.

O Tratado entrou em vigor em 1 de Dezembro de 2009, em conformidade com o seu artigo 6º."

Lisonjeia-nos o facto deste novo tratado ter o nome da capital portuguesa. Mas, muito mais que lindas palavras e parangonas, interessa saber exactamente qual o verdadeiro rumo da Europa a 27. Desde há muito que sabemos que comunidades alargadas e uniões entre povos conduzem à paz e à harmonia entre eles. Estes foram os maiores benefícios conseguidos pela CEE e depois pela UE. Há muito que pensadores como Einstein ou Bertrand Russell defendem esta tese, que, aliás, originou o aparecimento da Sociedade das Nações, precursora das Nações Unidas, no pós-guerra (1919). 

Mas estando a paz garantida e os interesses económicos e de propriedade saciados, resta a questão: seremos capazes de uma justa repartição da riqueza e verdadeira integração social dos povos europeus, sem necessidade de roturas ou revoluções sociais? Eu tenho algumas dúvidas, perante as políticas que têm sido seguidas pelas instituições europeias. Lembro, por exemplo, a obsessão dos interesses capitalistas e das estúpidas decisões do Banco Central Europeu, responsáveis por terem empolado o efeito da crise financeira, iniciada nos Estados Unidos. Como justificar a teimosia de Jean-Claude Trichet, ao manter em alta, a todo o custo, a taxa de juro directora do BCE, quando era evidente para todos, cidadãos e empresas, que tal seria insustentável. Não teria sido bem melhor ter aceitado um aumento da inflação em 2008, que seria sempre ligeiro, diminuindo as taxas em vez de as terem aumentado brutalmente, asfixiando pessoas e empresas? E porque mantêm inadmissivelmente alta a cotação do euro face ao dólar (150%)? Não seria bem melhor ter, para as empresas europeias e para retoma económica, um euro mais fraco? Pagámos bem caro e vamos continuar a pagar este tipo de políticas económicas. Nesse aspecto Wim Duisenberg, o anterior presidente, deixa imensas saudades. E Deus nos livre de ter Vítor Constâncio (que já aqui defendi relativamente ao papel regulador do Banco de Portugal) como braço direito de Trichet. 

Se queremos que a Europa progrida e se torne de vez numa referência mundial, num exemplo a seguir, a todos os níveis, muito há a fazer. Especialmente no campo social e ambiental. Não podemos permitir que, em vez de referência no campo do bem-estar social dos seus cidadãos, a Europa copie e vá atrás das políticas capitalistas selvagens dos países emergentes da Ásia. É isso que defende a direita europeia e os neo-liberais europeus. Pena que estejam a conseguir contaminar os sociais-democratas e os socialistas europeus. Estes, em vez de reagirem e oporem-se a este tipo de políticas, que tanta desgraça tem trazido à humanidade, insistem em continuá-las. Provavelmente, tudo isto é feito em nome das acções que possuem nas multinacionais europeias. Não é este o rumo que a Europa deve seguir. Há que haver alguma rotura com o passado recente. E tenhamos esperança que as conclusões da conferência internacional sobre as alterações climáticas que decorre neste momento em Copenhaga nos possam dar um sinal positivo em relação à sustentabilidade do planeta Terra. Claro está, que essa sustentabilidade terá que passar, não só pela protecção ambiental e ecológica, que deverá obrigar a mudanças drásticas na forma como produzimos, mas, também, por uma forma diferente de repartição dos recursos do planeta. Somente 20 % da população consome praticamente tudo, enquanto os restantes 80% lutam para sobreviver. Se nada for feito a este nível, o futuro reservar-nos-á muita instabilidade e tumultos sociais. Alguns sinais de mau estar têm sido dados no interior de países europeus, como a França e a Grécia. Estes tumultos são sinais que o rei vai nu e, como tal, têm que ser lidos e interpretados convenientemente. No entanto, a História ensina-nos que tais reformas são sempre feitas com roturas abruptas. Tal como aconteceu no passado, para que a justiça na repartição seja efectiva, há que quebrar as regras da propriedade privada da qual a direita é incapaz de abdicar. Poderá esta tornar-se altruísta? Duvidamos.


03/12/09

Frase do Dia

O que me preocupa não é o grito dos maus... É, sim, o silêncio dos bons!
Martin Luther King
Frase retirada da mensagem Cheiro a Pólvora do blogue Cantinho da Casa sobre a violência doméstica, um tema tremendamente dramático, que assume, hoje, contornos intoleráveis. Infelizmente, esta frase poderia ter sido proferida hoje, de forma generalizada, sobre a sociedade em que vivemos. Ontem como hoje...

02/12/09

Telescópio Espacial Hubble (HST)

Recebi por email uma apresentação (do autor LMG) que gostava de partilhar neste blogue, dada a beleza das imagens. Trata-se de uma retrospectiva de imagens captadas pelo telescópio espacial Hubble, cujo nome foi posto em homenagem ao grande astrónomo americano Edwin Hubble. O telescópio óptico e de infravermelhos foi colocado na órbita terrestre a 24 de Abril de 1990 pela NASA e, depois de alguns percalços, captou as imagens mais espectaculares do Universo. Com ele olhamos para o passado mais longínquo do Universo. Foi, aliás, Hubble que observou pela primeira vez que o Universo não era estático e imutável, como era unanimemente aceite, mas estava em expansão, tendo mostrado que as galáxias se afastavam umas das outras e que a velocidade de afastamento era tanto maior, quanto maior fosse a sua distância. Esta descoberta levou Einstein a confessar que a introdução da sua constante cosmológica nas equações da teoria geral da relatividade tinha sido o pior erro da sua vida. Lembramos que na concepção de Einstein era inconcebível a ideia de um Universo que não fosse estático e imutável. Dado que as equações da teoria geral da relatividade punham em causa esta concepção, Einstein introduziu a chamada constante cosmológica nas suas equações de forma a preverem um Universo mais de acordo com as suas convicções religiosas. Errou... ou talvez não... pois ao longo dos anos esta tem sido retirada e reposta ao sabor dos avanços e descobertas da Cosmologia




PS: A apresentação e o texto foram ligeiramente alterados/corrigidos relativamente ao original.

22/11/09

Sobre o Povoamento Humano dos Vales de Loriga e Alvôco e sua Evolução

A Ribeira de Alvôco atravessando a aldeia de Vide, vendo-se ao fundo a ponte medieval 

O povoamento de Vide e dos lugares circundantes teve um percurso por fases. A primeira, pelos almocreves caminheiros, teve uma fraca implementação demográfica. A segunda deve-se à invasão dos rebanhos durante a transumância e foi a mais relevante para o seu povoamento.

A revolução da água foi uma fase impulsionadora da fixação humana, devido ao aparecimento do milho, transportado pelas caravelas dos descobrimentos da América do Sul, especificamente do México. As sangrias da água nas encostas das ribeiras, as poças que regavam as leiras, as levadas, as veias de água, fizeram pulsar a paisagem, humanizando-a.

O açude dos caneiros na Ribeira de Alvôco, vendo-se a levada, em cima à esquerda, que levava a água para o moinho hidráulico do Salgueiral, infelizmente quase destruído (é incrível a falta de sensibilidade para a preservação deste património)

                                                                        Um moínho hidráulico abandonado

Os moinhos para farinar o milho, tocados pelas águas das levadas, desviadas dos açudes, substituíram os moinhos rupestres do Neolítico, onde eram esmagados, numa concavidade, de uma pedra ou rocha, glandes, castanhas e outros frutos secos. Encontra-se ainda um destes moinhos na Quinta do Espinheiro, próximo de Vasco Esteves.

Elementos estatísticos dão-nos a conhecer alguns elementos demográficos, no século XVI. Assim, em 1517, Loriga tinha 78 moradores, Alvoco da Serra, 46 e Vide, 9.

Na verdade, foi a transumância a causa dos povoamentos e consequentes desenvolvimentos rurais, devido à importância da lã, como a maior riqueza em toda a Europa. Consequência da revolução da industria têxtil, que irradiou da Inglaterra com a sua Revolução Industrial no século XVIII.

De referir que a lã, como o mais elevado valor económico, provocou graves impactos sociais na Inglaterra. Os agricultores, cuja sobrevivência estava na terra cultivada, foram arrendatários expulsos dos terrenos dos grandes senhores e latifundiários, que foram totalmente vedados, conhecidos por cercados ou “enclosure”, para os encher de rebanhos.

Esta situação de fome e de miséria levou os agricultores a revoltas sociais, com graves consequências, e, a estas, juntou-se a ameaça à sua afectividade e religiosidade: “os mortos só podem ser embrulhados em tecidos de lã”. Aos gritos de revolta dos agricultores: “Adão não deixou testamento, portanto a terra é para todos os seus filhos, que são todos os homens”. Thomas Moore, humanista e estadista irlandês, escreveu: ”os carneiros são devoradores de homens”.

Ao contrário destes acontecimentos provocados pela lã, os rebanhos da transumância foram os factores primordiais para os povoamentos nas encostas e vales, nas ribeiras de Alvoco, Loriga e Piódão.

Precisamente da Covilhã, que em 1861 já possuía oficinas de lã protegidas pelo 3º Conde de Ericeira, partiram pólos ou eixos da industria têxtil, Tortozendo, Unhais da Serra, Alvoco da Serra, Seia, Loriga e S. Romão.

Os rebanhos vindos da Terra Chã, das várzeas e lameiros, ribeirinhas do Mondego, Dão e Alva, juntavam-se na Vide e daqui partiam por dois caminhos ou canadas. Uma, pela Geia e Portela de Arão, outra, ao longo das margens das ribeiras de Loriga e Alvoco, para as pastagens da Estrela e Avoaça, desde o mês de Julho até ao S. Miguel, a 29 de Setembro.

No S. Miguel, os rebanhos regressavam e juntavam-se na Vide, nos locais do Aziral, Alagoa e Bardinhos. Nestes locais, fazia-se o ritual da aparta, isto é, a separação dos rebanhos, pelos respectivos donos. Terminada a aparta procedia-se ao pagamento das jornas aos pastores. Voltando ao povoamento de Vide, este deve-se à exigência e à obrigatoriedade do pagamento do imposto de 50 reis, por cada cabeça do rebanho, à Junta Paroquial de Loriga. Esta paróquia era a guardiã que abria as portas para entrada dos rebanhos para as pastagens na Serra da Estrela.

Aconteceu, porém, que a exigência deste pagamento, e por ser considerado um elevado custo, levou os donos dos rebanhos a abandonarem as pastagens na Serra da Estrela.

Esta recusa teve, também, como causa, as condições pastorícias propícias nas encostas e altos das ribeiras, com abundância das ervas secas estivais, a alimentação ideal dos rebanhos, dentro do triângulo geo-pastorício, Avoaça, Açor e Vide, beneficiada com os montes de Balocas e Gondufo.

Deste modo, os rebanhos pernoitavam em Vide, nos referidos locais, Aziral, Alagoa e Bardinhos. Nestas condições, muitos donos dos rebanhos e pastores fixaram-se nestes locais, porque a lã, nesses tempos, tinha um valor económico elevado. Aqui se juntavam os tosquiadores, considerados os melhores das regiões serranas, e a lã era negociada para as indústrias têxteis dos já referidos eixos ou pólos da Covilhã a Seia. De tal modo era a importância da lã, que o povo dizia: “Se todos os filhos de Adão pecaram, todos os da Covilhã cardaram”. E até Gil Vicente escreveu: “Muitos panos finos, que se fazem lã”.

A transumância foi, portanto, a principal causa do povoamento de Vide.

No livro “Estudo de Geografia humana nos vales das ribeiras de Loriga e Alvoco”, as suas autoras, Carminda Cavaco e Isabel Marques, dão-nos um trabalho bem documentado e muito relevante para o conhecimento destas regiões humanizadas.

No meu estudo, como geógrafo, sobre estes vales, especificamente o da ribeira de Alvoco, o trabalho circunscreveu-se ao conhecimento dos seus vestígios glaciares, conhecido como vale aborregado, devido aos rebolos, brancos e polidos pela erosão glaciar.

                                     Vista da aldeia da Ribeira. Ao fundo vê-se a estrada das Pedras Lavradas.

No mesmo estudo, a referência à epopeia dos agricultores dos vales dessas ribeiras que, com o mais duro trabalho, cortaram e romperam as fragas de xisto, para desviar os leitos das ribeiras.

Este desvio deu-lhes lameiros e várzeas férteis. Estes engenheiros do xisto engrandeceram o memorial do passado, deste mundo rural, dando beleza humana a toda a paisagem da Beira Serra.

Queda de água do poço da Broca na Ribeira de Alvôco, Barriosa. O melhor exemplo de desvio do leito do rio para o cultivo das terras.

O excelente restaurante Guarda Rios no poço da Broca, na Barriosa, muito bem enquadrado na paisagem ribeirinha (durante anos a fio esteve ali uma obra embargada). Deve-se ao empreendedorismo do meu primo Zé Pedro, cujo pai, o Sr. Borges era guarda-rios de profissão.