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19/08/09

Carminé Nobre

Carminé Nobre, 1909-1949

Carminé Nobre, escritor e jornalista, foi chefe de redacção do jornal "Diário de Coimbra" e, posteriormente, seu director. A homenagem promovida pela Câmara Municipal de Coimbra, ocorreu em Agosto de 2005, tendo sido inaugurada uma rua na zona de Santa Clara, em Coimbra. Dado que o Natureza ainda não existia naquela altura, aqui fica o essencial da homenagem, 4 anos depois.

"Finalmente, a cidade de Coimbra prestou a devida homenagem a um ilustre natural de Vide, Carminé Nobre."
- Palavra nos órgãos de comunicação social que deram destaque às suas elevadas qualidades, como jornalista, escritor, filantropo e amor à sua Vide. No entanto, foi esquecido na sua Terra Natal.

Mas Carminé Nobre destaca-se entre os melhores escritores de Coimbra.

Os seus livros “Coimbra de capa e batina”, 1º vol. em 1937 e 2º vol. em 1946, são, ainda hoje, os que melhor retratam a vida académica coimbrã.

Os seus livros “Três poetas, Eugénio de Castro, Afonso Duarte e Miguel Torga”, em 1947, são os melhores livros bibliográficos, publicados em Coimbra, juntamente, com o livro “Professor Elysio de Moura”, em 1948. O dinheiro da venda deste livro, reverteu, totalmente, para o Asilo de Infância Desvalida.

Na poesia, o livro “Caminhos de Sombras”, 1939, foi dedicado a seus pais.

No jornalismo, Carminé Nobre foi chefe de redacção do jornal “Diário de Coimbra” e os seus artigos publicados, tanto neste jornal, como no Diário Popular, como seu delegado em Coimbra, contribuíram para o surto de desenvolvimento sócio-económico da Beira-Alta. Sobretudo, a sua significativa contribuição para a efectiva abertura da estrada das Pedras Lavradas, eixo viário de Coimbra para a Covilhã e Beira Baixa. No prelo ficaram, jornalismo, “Porta Férrea” e contos, “Valeiros”, sobre temas de Vide. A morte prematura, num trágico acidente de viação em Março de 1949, interrompeu a sua brilhante carreira literária e de jornalista.

Um desabafo se me permitem: até que enfim Carminé! Foi com estas palavras que o seu irmão, meu pai, iniciou o discurso de agradecimento em nome da família:

Carminé Nobre tinha dentro de si, um mundo de sonhos. Sonhos que concretizou na literatura, no jornalismo, com o seu coração à Academia de Coimbra, nas dádivas beneméritas aos pobres e doentes, com o seu Grupo Karminoff, na luta contra a elevada mortalidade infantil, na sua terra natal, Vide, no desenvolvimento regional do interior desprotegido, através do seu Diário de Coimbra, e, especificamente, a Estrada das Pedras Lavradas.

Na sua profunda religiosidade, no livro de poesias “Caminho de Sombras”, Deus disse-lhe, já basta! E levou-o consigo…

De tantos que conviveram com ele, admirando e elogiando este seu mundo de sonhos, recordo as palavras de Vitorino Nemésio, aquando da sua trágica morte: “Carminé Nobre sabia o que era um jornal, por dentro e por fora, e possuía um autêntico talento literário”.

Do poeta do Sertão Brasileiro, Catulo Cearence, na sua dedicatória no livro que lhe ofereceu “Um Boémio no Céu”: “Ao Carminé Nobre, brilhante redactor do Diário de Coimbra”.

De António de Almeida Santos, meu familiar dedicado, impossibilitado de estar presente neste momento: “Os que conheceram Carminé Nobre, seguramente o lembram como um dos melhores – e dos mais espirituosos entre os melhores cronistas da Academia de Coimbra. Acho que é altura de reeditar o livro “Coimbra de Capa e Batina”. Seria um belo complemento da sua homenagem”.

Não posso deixar de “atacar” os que me levaram à luta para conseguir esta vitoriosa homenagem após tantos anos à espera, incompreensíveis ou não, os provocadores, Dr. Alberto Vilaça e o sempre risonho Dr. Mário Nunes.

Mas, as mais significativas palavras neste momento, pela sua beleza afectiva, dimensionada pela grandiosidade do seu amor a Coimbra e aos seus estudantes, estão escritas no prefácio do primeiro volume do seu livro “Coimbra de Capa e Batina” que passo a ler:

Ouvida a sua mensagem, o Carminé, disse-me, neste momento, com a mais elevada emoção e olhando-vos com os seus olhos ainda com a beleza dos seus sonhos: “Nesta nova Corte da Rainha Amor, não estão, hoje, somente os estudantes, mas também outros súbditos, os membros da Comissão Toponímica da Câmara Municipal de Coimbra, juntamente com o seu Presidente, Dr. Carlos da Encarnação. E também, acaba de me dizer, que nesta Corte, estão todos os seus amigos e todo o povo de Coimbra, com quem conviveu, com amor, irreverência e beleza de viver.”

Agora as palavras são minhas:
- Encontramo-nos felizes, a viver nesta homenagem, com duas coincidências, acompanhadas com a surpresa e alegria de Carminé:

A primeira, pelo local, onde se eterniza o seu nome. Local, o mais belo da sua cidade, que tanto amou e que condiz com a grandeza desse seu amor.

A segunda, uma coincidência divina. Precisamente, este local, a sua rua, está junto à Igreja da Rainha Santa Isabel. A Rainha, quando noiva, foi pedida em casamento, pelo nosso Rei D. Dinis, na sua aldeia, Vide, perante os embaixadores do seu pai, D. Pedro II, Rei de Aragão.

Em meu nome, de toda a minha família e, também, de todo o povo de Coimbra, abraços de agradecimentos, aos dedicados ao Carminé Nobre da Câmara Municipal de Coimbra e aos seus vitoriosos desta iniciativa, fortemente apertados pelo feliz e o muito grato homenageado.

Coimbra, 27 de Agosto de 2005,

Carlos Nobre

Avó Preciosa, a Poetisa do Meu Coração

Maria Preciosa Gil Figueira Nobre (Desenho da autoria de Luís Bonet)

Com raízes familiares no nosso grande poeta Augusto Gil, deixou um livro, com profundo espírito cristão, “Jesus Responde, Pensamentos de uma vida” (edição de autor). Deixou um valioso espólio cheio com o mesmo espírito. A sua grandeza de alma, espiritual e amor aos pobres e desprotegidos, foi uma razão fundamental da sua vida. Vida de uma Mulher e de uma Mãe, nas mais elevadas expressões humanas.

Citação:
"Se quiseres viver a razão da tua vida, olha os lírios do campo que cantam a Natureza divina e olha as avezinhas no céu azul, que voam felizes e em liberdade."

Sozinho:

O Vosso Amor é grande
O meu é muito pequenino
Juntai o meu com o Vosso
Para não andar sozinho.

O Caminho Iluminado:
A fraternidade humana
É um caminho iluminado
Feliz do povo que se ama
Sem receio de ser julgado.

Eucaristia:
Que sabedoria Infinita,
Que Santa Recordação,
deixar o seu Amor
num bocadinho de Pão.
E deixou também,
para maior valor,
O Amor de Sua Mãe.

A Magia das Camélias Brancas e as "Fornicadinhas"

No passado, já distante, as raparigas de uma aldeia, aliás das mais simpáticas e belas da Freguesia de Vide, só se casavam pela Igreja, no estado de gravidez e, por esta razão, eram conhecidas por «fornicadinhas», no melhor sentido de pureza, pela sensibilidade do nosso tempo de crianças. Até se faziam marchas, ao toque de testos e panelas como tambores, alusivas às noivas grávidas.

Num certo sábado desse passado, de manhã, fui alertado para o casamento de uma dessas noivas, mas já junto ao altar da nossa igreja. Irrequieto, já com assumos de compreensão, e ainda por cima educado num ambiente católico, mas na melhor essência cristã, tomei a iniciativa de saudar os noivos.

Nos patins, estavam na ocasião, alguns companheiros da minha infância. O Garinha, filho do José Lopes, que morava em frente ao forno, conhecido por lobisomem, porque o confundiam com os bateres dos cascos das mulas do Avelino da Maria Calheiras, junto à igreja. As mulas, já amestradas no levantar das trancas do curral, corriam para matar a sede na fonte. O Cristiano Pacheco e o Joaquim Lopes, conhecido por «verdasca», eram os companheiros mais reguilas e ariscas. O Augusto Lopes era o melhor amigo e companheiro que, na fotografia junta, está com a sua filha ao colo, junto à casa do Ti Zé António.

Pedi-lhes para me acompanharem ao jardim dos meus tios da Venda, para colher camélias brancas, para deitar sobre os noivos. Negaram-se, menos o Augusto.

O Augusto Lopes com a filha

Com os bolsos e boinas cheios de pétalas brancas das camélias, corremos para junto da porta principal da igreja. Aproximaram-se de nós nos patins, mas só o Zé Moura, conhecido pelo «fiscal do trabalho nocturno» e a Inocência do Adro, amiga dos miúdos. Com os ciúmes do João Farmácia, dava-lhe muitas vezes na veneta estilhaçar-lhe as vidraças da sua farmácia. Tinha-lhe um amor obsessivo.

Quando os noivos apareceram, depois da bênção no altar, acompanhados pelo Ti Zé António, à frente, e o padre Cândido atrás, sorrindo com a beleza do seu sempre sorriso de compreensão, atirámos sobre eles, punhados de pétalas brancas das camélias que pareciam cair do céu, numa alegoria festiva.

A minha mãe que assistia da janela, com a sua radiosa bondade, chamou-me e perguntou-me muito admirada:
- Porquê, meu filho?
Respondi-lhe com os seus ensinamentos bíblicos:
- Minha mãe, Deus disse, crescei e multiplicai-vos. Não foi? Mas não disse crescei e casai-vos!
Convencida da minha razão não deixou a janela sem me avisar, sorrindo:
- Logo, ao Terço, conversamos!

Este episódio, do meu passado, que aliás, alguém me aconselhou a não publicar para não haver mais “bicadelas” ao suplemento do Nordeste (o jornal paroquial), serve, e bem, para homenagear as jovens mães solteiras que são levadas a abandonar os seus filhos e ao suicídio com o receio de serem julgadas por pessoas que só vivem a julgar os outros quando se negam ao julgamento de si mesmas.


Aliás, a virgindade fisiológica não é a mesma da virgindade do amor, como a desta noiva grávida recordada, cuja pureza se manifesta no nascimento de um filho a mando de Deus.

A tia Encarnação entre as camélias brancas no seu jardim da Casa da Venda.… As flores querem-se umas com as outras…

Brincando aos Aviões

Uma história das "arábias"...

Um espectacular Airbus 340-600, novinho em folha, um dos maiores aviões de transporte de passageiros já construído (ultrapassado recentemente pelo A380), está estacionado à porta do hangar em Toulouse, França, sem uma horinha de voo que seja.

Entretanto, chega a tripulação árabe da ADAT (Abu Dhabi Aircraft Technologies) para realizar testes preliminares no solo, tais como ligações dos motores, antes da entrega da aeronave à "Etihad Airways", de Abu Dhabi. A tripulação da ADAT conduz o A340-600 pelo 'taxi-way' (circulações periféricas) até à zona de descolagem. De seguida, elevaram todos os quatro motores para a potência de descolagem, com o avião praticamente vazio. Sem terem lido os manuais de operação, não têm ideia do peso exacto de um A340-600 vazio e de como ele é "leve". O alarme de descolagem disparou no cockpit devido a todos os 4 propulsores se encontrarem à potência máxima. Os computadores de aviónica assumiram que estavam a tentar descolar, mas as configurações necessárias (flaps/slats, etc.) não se encontravam feitas devidamente. Um dos tripulantes da ADAT decidiu desligar o Sensor de Proximidade do Solo para silenciar o alarme. Este procedimento "engana" o avião, fazendo-o "pensar" que está no ar.

Os computadores libertaram automaticamente todos os travões e dispararam o avião. A tripulação da ADAT não fazia a menor ideia de que tudo isto é um sistema de segurança para impedir que os pilotos aterrem o avião com os travões a funcionar. Nem um único dos sete homens da tripulação árabe teve a inteligência de inverter a potência dos reactores da sua configuração máxima, e por isso a aeronave novinha em folha, no valor de 200 milhões de dólares, chocou em cheio numa barreira de disparo, ficando destruída.

Desconhece-se a extensão dos ferimentos sofridos pela tripulação, devido ao blackout noticioso sobre o assunto, quer em França quer nos outros países. A cobertura mediática do caso foi considerada como sendo insultuosa para os árabes muçulmanos. Só agora as fotos começam a ser divulgadas, meio em segredo. Um Airbus: 200 milhões de dólares. Tripulação árabe sem treino: salários de 300 mil dólares por ano. Manual de operações não lido: 300 dólares. Choque do avião contra muro de retenção, com vitória do muro: sem preço.

Que tal continuarem a andar de camelo?

NOTA: texto principal recebido por email do meu amigo Jorge Teixeira.

18/08/09

Foto do Dia

Afinal a quem devemos chamar macacos? Aos da foto, que evidenciam sabedoria, ou aos chamados homens, que tantas vezes zurram nos nossos parlamentos, televisões e afins?

Foto retirada do site da National Geographic

Por Falar em Mercearia...

A Senhora parece mesmo que não acerta uma...


17/08/09

"Triplicações"

Em tempos, Guterres engasgou-se com uma dada percentagem do PIB. Agora é Sócrates, Mimi e Valtinho que mostram as suas proezas a Matemática. Vamos lá... o triplo de 50 é?... é?.... é? Vá lá Mimi... não se acanhe....................... 150!!! Bravo Sr. P.M.!
É caso para dizer que a Matemática e o PS andam de candeias às avessas... Esperemos que, por estas e por outras, não tenhamos que enfrentar novamente a Economia de Mercearia que aparentemente se vislumbra no horizonte. Livrai-nos, Senhor, de tal cataclismo! Volta Guterres!

06/08/09

Frase do dia

"Sendo a velocidade da luz superior à velocidade do som, é perfeitamente normal que algumas pessoas pareçam brilhantes até abrirem a boca."

Autor Desconhecido.

A Flauta Mágica da Quinta da Melroa


Não era a “Flauta Mágica” de Mozart que, em 1791, enchia de música os salões de Viena, extasiando a melhor sociedade austríaca? “Flauta Mágica”, ópera musicada por Mozart que, com a sua magia, o Bem vencia o Mal e o Espírito da Luz vencia as Trevas.
A flauta da Quinta de Melroa, essa, enchia de música suave as noites de Verão, não debaixo de candelabros de cristais reluzentes, mas sob um “salão” de brilhantes estrelas lá em cima no céu. “Assunção, quem toca tão bem?” “O Filipe, menino”. Percebi, mais tarde, que a magia da flauta do Filipe eram uma serenata de amor para a Assunção. A magia da flauta morreu com a morte de Filipe, no melhor da sua juventude. A flauta do Filipe e a flauta do Zé Amaro cruzavam-se harmoniosamente sobre a Vide. Juntavam-se na mesma harmonia os cantares musicados do harmónio do Augusto Amaral, tocados nos descansos da sua profissão de coveiro e de tamanqueiro famoso.
A Vide, no meu tempo de criança e juventude, era uma aldeia de trasbordante alegria. Alegria própria de um povo que cultivava a solidariedade, solidariedade de porta aberta. Não havia favores, mas sim pedidos com uma amizade transparente e límpida. As retribuições não motivavam angústias ou vergonhas. No carnaval os bailes na casa do Zé Moura, do Vinhas e do Zé dos Santos eram muito divertidos e animados. Animados com músicos folgazões com as suas concertinas, harmónios, gaitas de boca e ferrinhos. Por vezes uma guitarra para o desafio. Aos domingos os bailes no fundo da Castanheira e na Venda faziam pirraça aos bailes mandados no terreiro da ponte. E não faltavam todos os domingos, depois da missa, os bailes à porta do Miguel, com gentes do Rio de Mel, animados pelo cantor Ventura, a desafiar os convencidos cantadores de Vide, o Artur Matias e o Salvador.
“Não achas, irmão Carminé, que quando dançaste o fandango, sobre a mesa da sala de jantar na casa do Tio Joaquim, na Venda, não era o contágio da alegria da tua Vide que tanto engrandeceste?” Nesse tempo os mais idosos eram todos tios. Recordo somente os que mais buliram com a minha imaginação de criança. Dos outros tios ficaram recordações da sua bondade ou de um recado compreensivo, nas diabruras.
Ao “Ti” Zé Domingos alto e magro. À sua profissão de sapateiro aliava uma personalidade de pensador e filósofo. Todas as tardes, na loja do meu padrinho António Nobre, entrevado numa cadeira, juntava-se com o meu pai e com o “Ti” Zé Silva, para o jogo da bisca. Eu, que aviava os fregueses, observava-os, com curiosidade e admiração. Numa dessas tardes, no Inverno, o “Ti” Zé Domingos, com as mãos enfiadas nas mangas do casaco, chegou sem saudar os parceiros da bisca. “Oh Zé, que tens?”, perguntam. “Andam por aí uns surrumangueiros a morder... mas que tenham cuidado e juízo...” “Ainda as aguilhadas vêm das profundezas do Inferno, já eu as estou a sentir no olho do cu”. “Quem?”, perguntámos mais curiosos e atiçados. “Na Vide não nomeio pessoas, para não aumentar a lista dos gajos, que choram o entrudo no pinhal da Venda”, justifica o “Ti” Zé Domingos. Recordo com ele a “Ti” Ana, que me acarinhava em sua casa.
O “Ti” Zé Silva, com a pêra aguçada no seu porte alto e elegante, lembrava uma personagem saída dos romances de Camilo Castelo Branco.
O “Ti” Francisco do Ribeiro mirava-me risonho, da sua pequena janela de granito. Semeou gerações que uniram a inteligência com o sucesso. E na mesma recordação, o “Ti” Augusto Nobre quedava-se ao soalheiro, virado para o Chão da Fonte.
O “Ti” Brito, no canto da sua loja, sempre a vasculhar, com os óculos na ponta do nariz, o seu velho alfarrábio agrícola. Conhecendo a minha tendência para a agricultura, dava-me úteis conselhos sobre a oportunidade das podas e cuidados sobre o giro da lua, nas épocas das culturas.

O “Ti” Zé Augusto dos Santos, pedagogo e mestre no ensino, dava lições aos adultos, no recanto da sua casa. Ao recordá-lo revejo nele o grande Pestalozzi (1746 – 1827), um dos maiores pedagogos na história da educação.
O “Ti” Bernardo Luís, republicano convicto, sonhando já com um mundo mais justo. Aos domingos e feriados “obrigava-me” a saudar a bandeira nacional, içada no mastro, na janela de sua casa.
O António Ferreiro fabricava, na sua forja ao cruzeiro, enxadas e podões sem igual em todo o concelho e regiões limítrofes.
E os famosos artesãos de Vide?
O “Ti” Zé Francisco, o artista canastreiro que construía as melhores cestas e balaias de castanho e a “Ti” Ana da Quinta da Melroa, na magia do seu tear, fabricava belas e garridas mantas de chita e de lã, dando nobreza a todas as salas, mesmo as mais pobres.
O “Ti” Manuel Dias, um dos últimos elos vivos do percurso das gerações passadas, desajeitava-me os calções e, ainda por cima, com uma racha atrás, na sua alfaiataria, contra o meu “estilo de moda”, a pedido dos meus padrinhos. Na sua loja de vendas observava, com uma presença silenciosa e amiga, os “aristocratas” do jogo do voltarete. Voltarete “roubado” no ambiente da lareira da Tia Maria José. Jogo de cartas santificado por mestres clericais, destacando-se o Padre Alfredo, de Unhais.
Recordamos também os antepassados mais distantes no tempo. Antepassados que nos deixaram para sempre obras trabalhadas com enxadões e picaretas, nas encostas e vales das nossas ribeiras. Cortavam xisto com a magia de Miguel Ângelo, o maior escultor italiano e do mundo, quando cortava com o seu cinzel o mármore de Carrara. Cada um, com o seu sonho. Cada um, com a criatividade na sua arte.
Manhãs de Sábado de Páscoa. Os sinos da nossa Igreja anunciavam a Ressurreição de Jesus. Soltavam-se cânticos de aleluias. Aleluias que se misturavam com a neblina sagrada dessas primaveras e com o cheiro macio e saboroso dos bolos quentes da “Ti” Marquinhas da Ponte. O “Ti” Zé António, nos Domingos de Páscoa, entrava com Jesus, em todas as casas, com a missão de juntar todos no mesmo abraço sagrado e festivo. No mesmo abraço, os donos da casa, católicos e não crentes, os raivosos virados a mansos, os zangados abraçados, crianças ranhosas e lavadas, os lambuzados com pão-de-ló, encharcados em vinho, os perfilados, comunistas (estes diziam, já com o lugar reservado no Inferno), os alegres cantadores e macambúzios.
Pedaços de paraíso levados por Jesus, nas Suas caminhadas na Páscoa.
Mas, que tem a ver o passado com a “Flauta Mágica” de Mozart?
Os tempos de hoje respondem. Essa magia morreu. Por isso recordar o passado é uma compensação, para estes tempos e para quem sente a morte dessa magia. Antepassados, sem honrarias sociais, sem cargos de mandar, mantêm-se unidos na mesma solidariedade. Unidos na mesma poeira viva que paira eternamente pelo nosso cemitério. Poeira de antepassados abraçados aos meus, recolhe a verdadeira personalidade do povo de Vide.