Este vídeo promocional sobre investimento imobiliário mostra bem a loucura que grassa na sociedade consumista, depravada, em que vivemos. Nao fosse o sotaque e diria que se tratava de Artur Albarran, rejuvenescido e capilarmente implantado, vendendo um pedaço do paraíso lá para os lados de Alcochete...
10/07/08
09/07/08
A Escola do Passado
A EscolaO Professor Sequeira Mendes, percursor da pedagogia moderna, entra na Escola e, logo de manhã, ordena, bem alto, para os alunos a exame da 4ª classe: “Meninos, levantem-se e perfilem-se alinhados, na minha frente”.
A cada pergunta da lição anterior e na revisão do ditado, a minha pele era a mesma da geada do Inverno e as respostas quedavam-se no gorgomilo, mais pelo medo de errar, pois a palmatória, grossa e com cinco olhos bem abertos, espreitava ansiosa sobre a mesa.
Mas só um, o meu companheiro, perfilado ao meu lado esquerdo, o Zé Ribeiro, respondia acertadamente, porque possuía uma inteligência afoita, que abafava o medo de errar.
E, como prémio, para castigar os que não respondiam por não saber ou por medo, apesar de pequeno, julgava-se, e com razão, o mais alto no saber.
“Ó Zé, não me malhes com força, porque tenho uma ferida na mão, quando fazia um loisão”.(1)
Disse-lhe como uma reza.
O Matias, do meu lado direito: “Zé, malha-o com força, senão queixo-me”.
O Zé Ribeiro negou-se, bateu levemente, mas ao contrário quase esmagava a mão do Matias. “Sacana” gemeu.
O professor Sequeira Mendes, como alguns pedagogos clássicos, tinha a metodologia de ensinar, partindo do contrário ou falso, para o verdadeiro, para acirrar o discernimento e ginasticar a inteligência, isto é, “abrir os olhos” para o conhecimento.
“Os meus meninos, sabem de onde vem o perfume que o Sete Estrelo, na ponte, vende para perfumar as meninas?”
Como era primavera, olhei para fora da janela e senti o cheiro das flores de laranjeira, mas calei-me, arrepiado com medo de responder. Mas o Joaquim da Silva, de Baloquinhas, por sentir o cheiro do alecrim, vindo da varanda da Senhora Marquinhas, gaguejou “Vem do alecrim” e o António Ribeiro, mais afoito: “Dos goivos”.
“Quem disse alecrim ou goivos? Nem de alecrim, nem de goivos, mas sim, vem das caganáteas! Sim ou não?” Nós todos obedientes, para aliviar: “Sim, sim Senhor Professor!”.
“Que lindos burrinhos, bem se vê que não têm idade de cheirar o perfume que vem das flores, igual, às do jardim ao lado da Escola”.
Ainda embalado na pedagogia de acirrar espertezas atirou-nos com uma pergunta fisgada e amaciada, como estivesse a pescar bordálos com uma minhoca.
“Os inteligentes meninos, sabem quantos centímetros tem um metro?”.
Todos, sem gaguejar, pois a aritmética não enganava: “Cem centímetros”.
“Não, não, meus meninos, na Vide e, por milagre, só na Vide, o metro tem noventa centímetros! Sim ou não?”
“Sim, sim, Senhor Professor!”, como para nos abençoar e para nos dar uma manhã mais sorridente.
“Noventa? Então na Loja do Senhor António Nobre, roubam os fregueses quando lhes medem a chita com o metro?”.
Já no primeiro ano do liceu em Coimbra, passei pela escola a caminho da casa dos meus tios, na Venda.
-“Ò doutorsinho, venha cá ensinar os ignorantes”. Chamou e pediu o professor Sequeira Mendes.
Arrastado, sentei-me na borda do banco e, na sua primeira pergunta, saltei, fugi como uma lebre, aos zig-zag, para arejar os calções que a Assunção tirou para enxugar, na casa dos meus padrinhos.
Nas vésperas dos exames da 4ª classe, em Seia, fui com a minha Mãe Preciosa, numa mula, pernoitando na vivenda do meu avô materno, em Torrozelo.
Minha Mãe, apesar de uma mãe com dez filhos e já com a morte de quatro, presidiu aos exames da 4ª classe, por ser considerada a melhor professora do conselho de Seia. Foi uma Mãe, uma professora e uma Santa.
Passámos todos com distinção, não por favor, mas sim, pelo saber pedagógico do professor Sequeira Mendes que, recordo, por me ter dado a melhor motivação para ensinar, educar e formar muitos jovens.

1O loisão, o fincão e a gradizela eram três peças de pau armadas na loisa para apanhar pássaros.
22/06/08
Laranja Avermelhado
Adiante. É bom ver que, finalmente, se vislumbra uma verdadeira social democrata nas hostes laranjas. Mais vale tarde do que nunca. Ou será que só vestiu a pele da avózinha? Qual loba por detrás, como a questão das obras deixou perceber? Seja como for, foi um discurso quase a relembrar a utopia que o seu amigo defendia nos tempos em que raciocinava. De tal forma que o homem, na plateia, babando-se, quase atingia o orgasmo. O Zézinho que se cuide, pois anda tudo baralhado. Abruptamente, laranjas viraram rosas. Agora, rosas virarão laranjas. Pelo meio rosas alaranjadas ou, pior ainda, laranjas avermelhadas. Sinais do tempo, com certeza.
20/06/08
Nebulosa do Caranguejo (M1)
Foto 40f/99 a 3 cores, tirada com o instrumento astronómico FORS2 ( FO cal R educer and S pectrograph), acoplado ao VLT, Very Large Telescope, conjunto de 4 telescópios com espelhos de 8,2 m, da ESO, no Monte Paranal, no Chile, a 2,635 m de altitude. Foto tirada em modo de imagem na manhã do dia 10 de Novembro de 1999 (Fonte ESO).Imagem espetacular da Nebulosa do Caranguejo, na Constelação do Touro. As nebulosas são extensas áreas de gás (especialmente hidrogénio), plasma e poeiras onde provalemente, por efeito gravitacional, são formadas as estrelas. Uma espécie de incubadora. Em termos astronómicos esta nebulosa está catalogada com o código NGC 1952, tendo sido detectada pela primeira vez por John Bevis em 1731. O Astrónomo francês Charles Messier redescobriu-a, de forma independente, em 1758, sendo o primeiro objecto astronómico referenciado no célebre catálogo de Messier (o primeiro catálogo astronómico que contava com cerca de 110 objectos) com o código M1.
Sabe-se que esta nebulosa é remanescente da Supernova SN 1054, a primeira referenciada na história, e foi observada pela primeira vez por astrónomos chineses e árabes no ano de 1054 como uma estrela visível à luz do dia. Está localizada a uma distância de cerca de 6.000 anos-luz da Terra, tem um diâmetro de cerca de 11 anos-luz (3,4 pc) e expande-se a uma velocidade de 1500 km/s. Uma supernova é basicamente o resultado de uma violenta explosão que marca o fim de vida de estrelas gigantes e super gigantes, com várias massas solares. A explosão ejectará as camadas mais externas da estrela, formando-se um remanescente de supernova. Dependendo da massa estelar inicial, novos objectos astronómicos poderão nascer da supernova. Para estrelas super gigantes, o fim do combustível nuclear fará com que a força de gravidade deixe de ser equilibrada e a matéria remanescente será comprimida de tal forma, que um corpo de tal forma denso será gerado, com um campo gravitacional tão intenso, que dele nada escapará, inclusive a luz. Nascerá assim um buraco negro. Se a massa da estrela for menor, instantes antes da explosão a região central da estrela contrai-se com a gravidade, fazendo com que os núcleos atómicos sejam literalmente esmagados, deles resultando somente neutrões e, consequentemente forma-se uma estrela de neutrões, super massivas, ultracompactas e com gravidade extremamente elevada. Existem vários tipos de estrelas de neutrões. Um deles é o que se designa por pulsar. Um pulsar é uma estrela de neutrões muito pequena e muito densa, podendo apresentar um campo gravitacional até um bilião de vezes maior que o campo gravitacional terrestre e que, devido ao movimento de massa no seu interior, gira a velocidades elevadas. No caso em questão, a estrela de neutrões no centro da nebulosa do caranguejo gira 30 vezes por segundo em torno do seu eixo. Estas estrelas possuem fontes de radiação electromagnética poderosas, especialmente de raios-X, emitindo uma enorme quantidade de radiação pelos pólos, varrendo diferentes direcções no espaço, tal e qual como um farol. Daí o termo pulsar.
Na imagem acima, a luz verde é predominantemente produzida pela emissão de hidrogénio do material ejectado pela estrela que explodiu. A luz azul é predominantemente emitida por electrões de muito elevada energia (“relativistica”) que num campo magnético de larga-escala se movem em espiral (a chamada emissão de sincrotrão). Acredita-se que estes electrões são continuamente acelerados e ejectados pela rotação rapidíssima da estrela de neutrões no centro da nebulosa. Este pulsar foi identificado pela estrela mais em baixo e mais à direita das duas estrelas juntas, vizinhas do centro geométrico da nebulosa, imediatamente à esquerda da espécie de arco pequeno, melhor visto na foto abaixo.

18/06/08
13/06/08
O Porco que Queria Morrer Santo...
Numa manhã outonal, de Outubro, fui visitar os meus tios, na sua casa da Venda. Na cozinha, encontrei uma mulher toda vestida de preto, a preparar-se para fazer benzeduras sobre uma porção alimentar para o porco, sob o olhar esperançoso da minha tia Encarnação. O porco já estava em estado de engorda para a matança, lá para o Natal.“Tia Encarnação não acredito nisto!”
Reagiu à minha juventude, irreverente e já em mudança para um certo sentido de racionalidade.
“Ó Carlos, o porco está a morrer! E depois!... E depois! … temos tanta gente no Natal”.
“Querida tia... quem vai salvar o porco, sou eu!”.
“Tu?! Mas como?!”.
Nessa altura trabalhava comigo, no Barril de Alva, o Armando Ribeiro, que nesse dia estava também de visita à sua família.
Chamei-o.
“Ó Armando vamos salvar o porco dos meus tios”.
Corremos para o curral. Eram duas horas da tarde, mais ou menos. Ficámos aterrados. O porco estava estendido ao comprido, com os pêlos baços e com o rabo esticado, indicativo de doença grave. O Armando quase gago: “O porco está morto” E agora? Estou tramado e frito. A bruxa vai rir-se de mim, pensei comigo mesmo.
Reagi. Encostei a fivela de metal reluzente do meu cinto, na boca do porco. A fivela ficou logo embaciada. O porco ainda respirava.
E, esperançado comecei logo ao trabalho de salvação. Apalpei-lhe a barriga. Como estava muito inchada, diagnostiquei a doença: timpanismo ou “barriga de gases”, resultante de fermentações de comida estragada ou imprópria.
Na minha angústia, agarrei-me aos ensinamentos práticos da minha mãe para as curas de emergência. Por outro lado, eu sabia que no quadro fisiológico dos animais, a fisiologia do porco é a mais semelhante à do homem.
Lembrei-me, que o meu pai, quando tinha gases no estômago (aerofagia), engolia comprimidos de carvão vegetal. Imediatamente mandei o Armando buscar a sua casa, bocados de carvão. Esmagados e dissolvidos em água morna, enfiámos a mistura, por um funil para dentro do estômago (aerofagia). Em seguida, um clister com azeite em água tépida, para provocar a descarga das fezes.
“O Armando, vai depressa buscar um toro de couve, mas grosso e comprido”. Untámo-lo de azeite e, de imediato, enfiámo-lo todo pelo cu acima do porco. O Armando, como um desalmado esfregava, esfregava… Aqui, o porco vingou-se. A descarga de gases foi de tal ordem, que o Armando, ainda com o toro de couve na mão foi atirado contra a parede do curral.
“Ó Armando, que grande peido?”. “Peido? Isto, foi uma bomba”.
Socorri-me, já esperançado, depois desta descarga, do último recurso para a cura do porco, o esfreganço com o vinagre, porque sabia que o vinagre era usado para reactivar o sistema nervoso e os órgãos motores. Rasguei a minha camisa de flanela e com os seus pedaços esfregámos, sem descanso, a espinha do porco, da cabeça ao rabo.
Entretanto, a tia Marquinhas, mãe do Armando veio em nosso auxilio deitar na pia, depois de bem lavada uma aguada de arroz para acalmar e limpar os intestinos do porco, no caso de sobreviver.
Depois destes tratamentos de cura, não resistimos ao cansaço e ao sono. Adormecemos encostados um ao outro.
Eram cerca de oito horas da manhã, já com o sol a assomar à porta do curral, quando acordei. E o que vejo? O porco na minha frente, empertigado, já com o rabo em rosca e a fixar-me com os seus olhos brilhantes e estranhos.

Reparei que a pia já estava quase vazia. A tia Marquinhas nunca deixou de acreditar na nossa luta contra as benzeduras.
Transponho para o porco, o conceito de alma animal, em forma de mensagem. Mensagem que reproduzo na minha perspectiva numa convergência dos três estados de alma, na igual humanização de todas essas manifestações de vida.
“Estes sacanas, salvaram-me para me matar. Os humanos matam, esfolam e chamuscam a alma, uns dos outros, para morrer e eu sou morto para lhes dar vida. Os cobardolas amarram-me ao banco, espetam no meu gorgomilo um facalhão e ficam aparvalhados com os calos da enxurrada do meu sangue. Não sabem estes hominídeos que os meus órgãos serão utilizados em transplantes para substituir os seus órgãos fanados, porque descobriram que sou, fisiologicamente, o único animal com maior semelhança com o homem. Eu sei que vou ser comido desde a minha tromba à ponta do rabo, em festins, com danças, com cantares e com bebedeiras.
Eu sei, também, que vou ser rilhado durante muito tempo, durante anos, em baptizados, casamentos e em euforias políticas e religiosas. Até o Senhor e os Santinhos da Igreja, sentem arrepios, quando à porta da sua casa, em dias festivos, ouvem as arrematações das fogaças: “Quem dá mais por este chouriço, quem dá mais por este bucho, que é de comer e chorar por mais. Sem o respeito pelo uso costumeiro, fui salvo para ser morto, quando seria mais justo, se tratado com benzeduras, para ter, sim, uma morte santa.”
As bruxas aguardavam a morte do porco assentadas nos degraus da porta da Casa da Venda. Logo que souberam que o porco “ressuscitou”, fugiram…
…e assim acabaram as bruxas em Vide.
C.N.
Nota: desenhos da autoria do artista plástico Álvaro de Matos, Coimbra.
06/06/08
Privatizem-se!
Hoje fui ao meu oculista na Praça 8 de Maio. Ando a ver mal. Esperava à porta pelos meus óculos, quando me apercebo das peripécias de um casal de turistas ingleses que, mesmo ao meu lado, pretendiam tirar uma foto à fachada da Igreja de Santa Cruz. A foto acima mostra o nosso campo de visão e a razão do seu praguejar. Absolutamente extraordinário. Não sei qual a intenção de colocarem este mamarracho alusivo ao "Jazz ao Centro", patrocinado pela Caixa dos Amigos e Amigalhaços, literalmente em cima da fonte da praça 8 de Maio, impossibilitando o seu funcionamento, num dia quente como o de hoje e, pior, tirando as vistas da fachada da Igreja de Santa Cruz. O “Jazz ao Centro” mereceria um pouco mais de respeito. Poderiam ter posto o Jazz um pouco mais ao lado. Sem desprimor pelo Jazz. Adoro Jazz. Eu penso que este postal ilustrado ilustra bem a demência que grassa nas nossas instituições púbicas, perdão, públicas. Isto só mesmo neste país das bananas, cheio de macacos comilões. Mas afinal, quanto pagará a Caixita à edilidade por esta magnifica visibilidade? É tanta a visibilidade que até repugna! Como puderam colocar esta bosta em cima da fonte da praça? Pelo espalhafato da coisa, o dinheirito, upa, upa, deve ter sido uma pipa daquelas. Afinal, bem precisam dele, não é? Quem não precisa nos dias que correm? Até a Caixa dos Amigos, que, como os outros, tem que nos meter a mão no bolso para suportar a crise… e pagar as bostas. A mim meteram! Precisamente antes de ter ido ao oculista. Mas adiante. Servirá o dinheirito amealhado para arranjar a esburacada estrada de Vale de Canas? Afinal não seria justo ser o cidadão a pagar os buracos e buracões fabricados pelos construtores civis das casitas sociais que por ali proliferam. Estes, coitados, também pelo dinheirito que ganham nas obras não podem fazer tudo. E, depois, fazer o buraco redondinho e ainda por cima pagar por ele, não seria justo, não senhor! Ou será que, finalmente, pretendem cumprir a Lei de 2004, que OBRIGARIA os responsáveis de caminhos e estradas de os limparem, pelo menos, 15 m das bermas? Ou será que é para investir na depauperada cultura da cidade? Ah sim, Jazz ao Centro... já me esquecia! Precisam de dinheiro, claro. A vida está difícil para todos, não é? Afinal o que a minha mãe vai começar a pagar de IMI não chega. Pois. Ela e todos nós! É muito pouco! Sim senhor! Quem pagaria as mordomias, o carrito e as viagens (a gasosa está de estouro), enfim… as bostas que por aí vemos? Além disso, vendo melhor as coisas, afinal a terra, o chão, é do povo! Ah, então! No fundo, no fundo, nas fundações, o chão pertence ao país, ao estado, enfim, à autarquia. A quem mais? Afinal não vamos rumo ao socialismo? A propriedade privada é uma utopia! Biba o chuchialismo! E não é a solidariedade um valor a preservar, a implementar? Ah, solidários, solidários! Sol e dó! É por isso que vão ser sol i dários com a minha mãe. Tem 82 anos, acabou de enviuvar, aufere a MILIONÁRIA REFORMA de 585 euros, qual ex-administrador honorário da Caixita, e gritaram-lhe aos ouvidos QUE SÓ VAI começar a PAGAR de IMI quase 700 euros por ano. Por um apartamento que já tem há 50 ANOS e onde vive desde 1974, depois de ter sido espiolhada do fruto de 30 anos de trabalho que deixou em África. Que chulidários! Caricato é que pagará TRÊS VEZES MAIS do que os seus vizinhos. O médico do segundo andar, então, paga menos de renda ao senhorio do que ela irá pagar ao estado pelo apartamento que deveria ser dela. É o que se chama de igualdade perante a CONSTITUIÇÃO. Acho que o são… na constipação e na obstipação! Afinal há que ser justo:Privatizem a Caixa dos Amigos! Privatizem as edilidades! Privatizem as chuchas! Privatizem a bosta! Privatizem-se!
05/06/08
Pedrada no Charco
Confesso que cada vez mais vejo menos televisão. Jornais nem vê-los. Pela merda que estão, por mim, podem ir todos à falência. As razões são as que todos conhecemos. Deambulamos pelo marasmo de notícias vazias, da venda da banha da cobra, de comentários chatos e tolos que, em boa verdade, confesso, são proferidos por pessoas que, se não estão senis, engoliram a cassete do poder vigente. Ouvi-los na TV, então, é de fugir a sete pés. Ainda há pouco estava um assim a “lanzoar”, como diria o meu pai, no noticiário da TVI. Dissertava sobre as mil e uma razões que existem para que, descendo o petróleo nos mercados mundiais, os preços dos combustíveis não possam descer em Portugal. Enfim. Não há pachorra.Mas eis que, por mero acaso, deparamos com uma entrevista surpreendente. Miguel Urbano Rodrigues a ser entrevistado pela Ana Lourenço na SIC Notícias. Há duas noites atrás, é certo. Mas ainda vou a tempo. Miguel Urbano Rodrigues, irmão do também escritor, Urbano Tavares Rodrigues, comunista assumido, e cada vez mais comunista (curioso!), tal é a coerência, delicia-nos com uma perspectiva do mundo actual que me surpreendeu pela positiva. Também ele, aos 82 anos, prefere a informação aqui, na blogoesfera, do que o lixo saído das rotativas. Formidável. De facto, um dos maiores pensadores portugueses contemporâneos, pensador comunista, como realçou Ana Lourenço no final. Aceito, independentemente da ideologia que não abraço, porque reconheci nas palavras de Miguel muito dos meus pensamentos sobre a situação do mundo actual. Alguns já por aqui escritos. Por isso deliciei-me. Eis alguém que toca na ferida, que chama os bois pelos nomes, que diz algo que sabemos ser verdadeiro, que nós próprios sentimos como tal. Miguel, dizendo-se materialista, mais parecia um idealista. Fala das FARC e de uma realidade na Colômbia que eu desconhecia em absoluto. Nesse assunto, senti que o Miguel vinha de outro planeta. Espera aí. Estou assim tão intoxicado pelo lixo noticioso? Terá ele alguma razão? Mas então e a Ingrid Betancourt de quem não falaram na entrevista? Lapso? E o seu pobre filho que implorava nas TVs pela saúde e libertação da mãe, raptada pelos malvados dos terroristas das FARC que a torturavam e faziam passar fome? O Miguel tinha uma perspectiva completamente diferente. Inversa da nossa. Mas o Miguel falou de muito mais, da decadência da nossa civilização, da regressão da humanidade, da inevitabilidade do fim desta civilização, tal como no passado assistimos à queda de Roma. Do trágico falhanço na implementação do Socialismo. Na dificuldade de implementar o Marxismo que, na realidade, nunca o foi. Defendeu Cuba e o seu regime. Indagado sobre a ausência de direitos humanos na Ilha, perguntou o que entendia Ana por Direitos Humanos? Que era um conceito muito subjectivo. Quais são afinal os direitos humanos dos mendigos que vivem nas ruas das nossas civilizadas cidades? Empestadas pela droga proveniente dos silos dos senhores que governam a Colômbia! Em Cuba existe educação e saúde para todos. Tem taxas de licenciados únicas no mundo. Enfim, arremessa-nos com uma perspectiva diferente, que nos faz pensar. Prefere dizer que é progressista em vez de esquerdista. Diz-nos que os problemas não se resolvem com sessões de esclarecimento num qualquer teatrinho. Os problemas actuais exigem muito mais do que isso. Afinal, Alegre nem sequer põe em causa a cúpula socialista, que nos impõe um governo neoliberal, imoral e repugnante, de direita pura e dura. Ao bom estilo Europeu, em nome da globalização dos interesses. Bem pior que o americano. Estamos num beco sem saída e por isso é preciso agir.Em suma, foi uma entrevista como há muito não via ou ouvia. Parabéns à SIC pelo bocadinho de verdadeira informação. Caso cada vez mais raro nos dias que correm. E obrigado ao Miguel Urbano Rodrigues pela lucidez e sabedoria. Faço votos para que o contratem como comentador. Juro que passaria a estar mais atento a umas Escolhas quaisquer, a umas Notas que não se soltam, ou aos telejornais da TVI.
01/06/08
31/05/08
Discurso Político
Resolvemos neste “post” dar a palavra a um deputado. Não! Esperem! Não desistam já! Não se trata de um discurso igual aqueles que estão habituados a ouvir aos actuais deputados. Não senhor. Trata-se do discurso proferido pelo deputado Ilídio Sardoeira no dia 11 de Março de 1976 na Assembleia da Republica. O professor Ilídio Sardoeira foi deputado do extinto partido MDP/CDE, que tanta falta faz à nossa pobre democracia.
Cartaz de propaganda eleitoral do MDP/CDE1º- Temos saudades da eloquência dos oradores do passado e que hoje, simplesmente, desapareceram do debate político. Os discursos que ouvimos no parlamento são dramaticamente pobres. Salvo raras excepções, os partidos estão inundados de politiqueiros que só estão na política para se servirem. A política portuguesa foi tomada de assalto pelo compadrio e o seguidismo. As convicções desapareceram e as ideias são nulas. Este discurso mostra como deveria ser o discurso político, das ideias, das convicções. É a antítese dos vazios que actualmente escutamos.
2º- O professor Sardoeira aborda um tema bem actual na nossa sociedade. A questão da Educação. Embora num contexto histórico completamente diferente, pois não negamos que no pós-25 de Abril a maioria do povo português vivia miseravelmente, numa sociedade quase medieval, seria bom que os nossos políticos lessem este discurso para perceberem, de uma vez por todas que, enquanto os problemas socioeconómicos da população portuguesa não forem resolvidos, jamais teremos o problema da Educação resolvido. Como bem diz Sardoeira: a escola é o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la. Sacudindo a água do capote, os actuais governantes resolveram, LAMENTAVELMENTE, culpar os professores pelo estado do ensino em Portugal. Quando estes, em meu entender, são igualmente vítimas. Agora, duplamente castigados. Por isso, aos primeiros, recomendo-lhes a leitura deste discurso. Pode ser que aprendam alguma coisa, já que a escola não lhes serviu de muito.
3º- O tema Liberdade tem sido palco de discussão intensa nalguns blogues, como no 5 Dias. Li coisas que me deixaram profundamente amargurado. Para aqueles que as escreveram, talvez este discurso lhes possa ensinar algo também. Uma ideia pelo menos. É que, segundo Sardoeira, a liberdade tem pelo menos um preço: o não sabermos usar dela em favor dos outros.
4º- Finalmente, este discurso recorda-nos temas que este blogue já focou. A profunda mesquinhez do antigo regime que teimosamente perseguia os seus opositores, mesmo depois de mortos. Naquele dia, Sardoeira evocou os acontecimentos ocorridos no funeral de Bento de Jesus Caraça. Curioso é que o testemunho que Sardoeira relata foi precisamente o do Professor Mário Augusto da Silva, a quem este blogue já dedicou vários “posts”. Além disso, já aqui tínhamos referido os tristes acontecimentos ocorridos no funeral de Abel Salazar, relatados por Alda Luís Gomes. Com entendi que se tratava de um testemunho muito importante sobre a nossa história recente, publiquei-o aqui.
O Sr. Ilídio Sardoeira (MDP/CDE): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: A aprovação em recente plenário desta Assembleia do preceito que estabelece que os funcionários e agentes do Estado e das demais entidades públicas não podem ser prejudicados ou beneficiados em virtude do exercício de quaisquer direitos políticos previstos na Constituição, designadamente por opção partidária, coincidiu com a notícia de que o Prof. Mário Silva, expulso da sua Universidade em 1947 em consequência de uma opção política consentida pelos governantes de então, iria dar a sua última lição em dia a marcar para a próxima Primavera. Mesmo que tardiamente, a Primavera chega sempre para aqueles que se consagram à defesa dos direitos fundamentais.
Nós afirmaremos aqui, e supondo-nos intérpretes do consenso desta Assembleia, que o conhecido colaborador de M.me Curie, com ser afastado da sua cátedra, deu com a sua vida uma lição da maior valia. E essa decorre da exemplaridade da sua conduta cívica. Esta breve alusão a uma injustiça que foi paradigma impiedoso de uma estratégia política que levou a classe docente às portas da mendicidade e da mediocridade funcional e o ensino, em Portugal, a um impasse complexo e com raízes de difícil deslaçamento e correcção, esta breve alusão, dizia, remete-se para um acontecimento que merece ser comunicado a esta Assembleia, até para sublinhar a pertinência do preceito referido. Estávamos em 1948. Precisamente no dia 1 de Julho. Durante um encontro, quase casual, com o Prof. Mário Silva recordei uma amizade comum - Bento de Jesus Caraça. Vim ontem de Lisboa - logo me informou. Assisti ao seu funeral. Foi uma manifestação impressionante. A polícia não consentiu que o cadáver de Bento Caraça ficasse em câmara ardente, na Casa do Alentejo, mas o cortejo fúnebre não se esquece mais. O silêncio de todos e o invulgar pesar que todos publicamente testemunhavam impressionava quantos, dos passeios, assistiam à sua passagem.
Homens simples abeiravam-se dos amigos ou admiradores de Bento Caraça e perguntavam:- Quem morreu? Quem vai aí?
- Um amigo do povo.
Muitos descobriam-se e desciam à rua por solidariedade. O cortejo engrossava de rua para rua. O silêncio cortava-se à faca; era a voz de um protesto comum. Atrás da urna, depositário da chave, seguia Mário de Azevedo Gomes, seu amigo e companheiro de luta, luta por um Portugal livre onde o direito à justiça não se contunda com uma obra de caridade e a alienação a todos os azimutes não seja o sinal e prova do autêntico civismo. Não acuso: condeno.
Observa-se desatenção da parte da Assembleia.
O Sr. Presidente: - Peço a atenção da Assembleia.
A comunicação do Sr. Prof. Sardoeira tem uma importância, tem uma emoção que me parece que exige da nossa parte um pouco mais de respeito e um pouco mais de silêncio.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Ora, quem, como eu, viu e ouviu, nas horas mais difíceis da vida política portuguesa, Mário de Azevedo Gomes, não sabe hoje ainda que mais admirar nele: se a sua figura marfínica e hierática de retábulo, se a sua palavra lúcida e incisiva ou a sua coragem exemplar. Pois bem: ele era o último guardião de um dos melhores obreiros da cultura portuguesa. E não estou a pensar tão-só no mestre, de Matemática que foi, na novidade que havia em Os Conceitos Fundamentais da Matemática ou nessas duas pequenas obras-primas que são A Cultura Integral do Indivíduo e Galileu Galilei. Tenho em mente sobretudo as dezenas de obras que constituíram a inacabada Biblioteca Cosmos, empreendimento a que votou e devotou os últimos anos da sua vida e com que se propunha, além do mais, resistir à colonização cultural em que continuamos a estar mergulhados, por míngua, em nome da política do espírito, de uma revolução cultural autêntica que fosse obra nossa, obra de todos os portugueses com o direito - e o dever - que lhes assistia de pensarem, escreverem e dialogarem livremente.
A Biblioteca Cosmos foi uma obra de resistência ao fascismo, mas também a prova de que, cerceadas as fontes criativas de um povo, é a própria sobrevivência desse mesmo povo que corre riscos - os riscos maiores.
Bento Caraça sabia isso e fazia, à sua maneira, a revolução cultural possível, devolvendo a sua confiança aos outros, certo de que a superação de cada um inclui a possibilidade do fracasso.Por isso, mesmo no seu leito de ferro e de fim, onde o visitámos, com dois polícias de informação postados em frente da sua casa, não lhe morre no rosto aquele sorriso ímpar, sorriso de um homem que confia nos outros e os chama para uma obra e uma esperança compartilhada e possível. Esperança de esquerda, sublinho, porque voltada para a sorte das classes desfavorecidas e para cujo enraizamento na praxis caberá muito concreta responsabilidade aos homens de esquerda deste país. Particularmente aos socialistas e comunistas.Mas regressemos ao termo da última e definitiva jornada de Bento Caraça, ao cemitério dos Prazeres.A multidão pára e aguarda silenciosa. Aguarda o quê? Aguarda quem? Obviamente, a última palavra de justiça e de despedida. É então que se assiste a um acto insólito e que tanto diz sobre o meio século de história que a nova Constituição se propõe ultrapassar.
A polícia aproxima-se de Azevedo Gomes e segreda-lhe o que quer que seja ao ouvido. O professor ouve e cala: o seu gesto dirá o bastante.
Manda que se abra a urna do seu amigo e companheiro de luta; enrola com lentidão as folhas onde escrevera o elogio fúnebre de Bento Caraça e, perante o espanto e a comoção de todos, dispõe a breve mensagem ao lado do cadáver do amigo. Aquele gesto e o silêncio de todos davam a real dimensão da alienação em que caíra um povo. Um povo que não fala, tem medo. Um povo que tem medo não fala. Azevedo Gomes encontrara o gesto genial para exprimir, pelo silêncio, a mensagem de um povo que perdera o direito (expressão de Pascoais) de pensar em voz alta.
Aplausos.
Eu não digo aqui tudo o que penso e quero. Todo o funcionário público, todo o professor em particular, tem ainda hoje um lastro fascista de inibições de que o 25 de Abril o não libertou, por enquanto.
Observei, atento e comovido, o rosto do Prof. Mário Silva que me fez esta descrição: por detrás das lentes espessas dos óculos, os olhos estavam húmidos. Mas, nessa soalheira manhã de Julho, eu via - e revejo agora - o sorriso confiante e saudável de Bento Caraça, sorriso deitado nos ventos da história de que começa a erguer-se, seja por que via for, um rosto novo para o povo português e que será, se os cidadãos portugueses quiserem assumir a responsabilidade que o texto da Constituição já propõe, um rosto socialista.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Chamo a atenção para uma declaração de Pierre Mendès France no seu último livro, onde diz que a sinceridade é o segredo do político. Se os Deputados que elaboraram esta Constituição forem sinceros, e se os portugueses que a vão aplicar são sinceros, eu tenho a esperança de que o rosto ri.
Reparem, Srs. Deputados, que nós não descobri-mos tão-só caminhos novos para o Mundo: criámos um povo chamado Brasil.
Só que a lição não foi tida em conta pelos governantes que o Movimento do 25 de Abril derrubou. Contra os ventos da libertação de que nasceu a Índia, o Congo Belga, as fracções territoriais que compunham os impérios francês, britânico e holandês, contra a indicação do remate da guerra argelina, contra o bom senso e o senso comum, os nossos governantes disseram não.
E aqui temos, com os retornados, o fruto amargo de uma visão estreita da história. O que poderia ter sido conseguido pelos caminhos da paz e da conciliação, graças a um controlado processo de esclarecida democratização, pois que era essa a orientação que salvaguardava os valores de expressão portuguesa, os valores e as gentes, nasce nesses países de uma violência sistematicamente aplicada e mundialmente condenada.
Se os princípios fundamentais já aprovados apontam para uma sociedade sem classes ou para o socialismo, mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder das classes trabalhadoras e pelo caminho de uma liberdade responsável, extensiva à generalidade dos portugueses, permito-me inferir que a nova Constituição situa a nossa comunidade num horizonte de esquerda ou aberto à promoção económica, social e cultural das classes desfavorecidas. O socialismo será o fruto da liberdade em acto e a todos os azimutes para a generalidade dos portugueses.
Assim o quero e espero. Se a ingenuidade não estava aqui representada, eu assumo essa responsabilidade. Faço-o em nome de milhões de portugueses marginalizados pela história e faço-o por amor das crianças e adolescentes a que votei a minha vida.
Não quiseram vender a Pátria hipotecaram-na até consequências imprevisíveis. E o prometido campo de exploração capitalista, oferecido por mais de quinhentos anos ao mundo ocidental, no curto intervalo de uma década, libertou-se, por esforço próprio, à custa de fazendas e vidas, e aconselhou a um grupo de capitães a restituir ao povo colonizador as liberdades perdidas e ao povo colonizado as liberdades nunca alcançadas.
Ora, se por terras nortenhas, entre populações tão carecidas de tudo, que mal têm consciência do cerceamento da própria liberdade, os petardos e as bombas rebentam, eu permito-me adiantar que, até pela violência das acções contra-revolucionárias, o povo aprenderá a reflectir sobre a razão de ser das condições em que tem sobrevivido. A contra-revolução pode vir a ser um processo de aceleração do movimento iniciado em 25 de Abril.Facto esse que ficará a comprovar que há ainda, entre nós, portugueses que não aprenderam com os erros de um passado recente a corrigir vias de actuação condenadas pela história.
Em nome de Cristo ou de Marx - e por que não por ambos de mãos dadas? - o homem português há-de ser descido da cruz em que o pregaram minorias satisfeitas por intermédio de frios executores de práticas alimentes.
Aplausos.
A longo prazo, o processo histórico em que todos estamos envolvidos é irreversível e visa o bem comum. Entre nós - e isto foi sublinhado durante o Concílio Ecuménico por um cardeal nórdico, salvo erro - os cristãos parecem empenhados em que a justiça social se fique a dever a Marx. Descrente desde a adolescência, começo a acreditar que Deus, no século XX, está a escrever direito pelas linhas da esquerda.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Depois de cinquenta anos de opressão e repressão, a liberdade tem um preço. Entre os vários este: o não sabermos usar dela em favor dos outros. Por exemplo: da criança portuguesa. O Deputado Gonçalves Sapinho referiu, há dias, que há milhares de alunos sem aulas e milhares de professores sem colocação. Mau é que isso esteja a acontecer. Mas vamos supor que no próximo ano lectivo esta mazela burocrática fica sanada. Os educandos encontram os educadores em disponibilidade. O nosso sistema educativo entrou nas calhas da solução justa, mesmo ao nível da escolaridade platonicamente obrigatória? É óbvio que não.
Os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz sócio-económica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos.
Eu não sei de quanto tempo disponho para mostrar exactamente, ou demonstrar esta tese: que a escola não resolve os fracassos escolares. Os fracassos escolares são resolvidos pelos adultos, pela sociedade em que a escola se insere.
O Sr. Presidente dirá quantos minutos me concede para eu fazer uma súmula que esclareça a Assembleia sobre um ponto que me parece essencial.
O Sr. Presidente: - Não tenho coragem, Sr. Deputado, de lhe cortar a palavra. Faz favor de continuar.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador:- A escola é o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la.Vou apontar sumariamente questões que, no seu desenvolvimento, cada uma daria uma intervenção. Não vou apresentar hipóteses, mas factos concretos.A subnutrição da mãe grávida e o crescimento da placenta estão em íntima ligação, na própria medida em que, numa mãe que durante a gravidez é mal nutrida, a placenta que alimentará o filho não se desenvolve. Essa criança é uma criança marcada para toda a vida. Logo: alimentação - criança que não se desenvolve convenientemente é um fracasso escolar, é um atraso mental à vista. Este é um problema de adultos, não é um problema que se resolva em qualquer escola do País.
Aplausos.
Há muitas crianças entre nós cujo nascimento é prematuro. Ora, provou-se recentemente, em Helsínquia, que uma criança nestas condições não dispõe de mecanismos bioquímicos enzimáticos capazes de eliminar determinados aminoácidos, e esses aminoácidos concentram-se nos neurónios cerebrais e isso é uma das causas de um tipo de atraso cerebral. O próprio leite industrial que se fornece às crianças, se não tiver a composição adequada, conduz ao mesmo efeito. Logo, crianças lançadas na escola submetidas a este tratamento são crianças marcadas, são crianças fracassadas. Isto é da responsabilidade das sociedades em que elas se inserem, não da escola.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Até aos 4 anos o cérebro representa 90 % da totalidade do peso do corpo.O corpo representa apenas 20 % das necessidades das proteínas para a multiplicação dos neurónios; por outras palavras, isto significa que nós temos de fornecer a uma criança que nasce, até aos 4 anos de idade, as proteínas necessárias. De outra maneira, numa fase em que os neurónios estão em rápida multiplicação, eles não atingem na qualidade e na quantidade um cérebro normal. Uma criança sem proteínas é uma criança marcada e condenada à um fracasso escolar. Ora, as crianças dos nossos meios rurais não comem proteínas, que são hoje alimentos caríssimos, e não as comem até por ignorância: vendem os ovos para comprar a broa.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Ora, as crianças, o povo que não é esclarecido a este respeito, está a criar condições nos seus filhos para que eles fracassem no domínio escolar. Os meios de comunicação - é urgente - deviam pôr-se ao lado da escola, do professor da criança, informando-os das consequências e das razões que levam a estes fracassos.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Em vez de gastarem páginas sobre páginas a falar de crimes, de roubos, etc., eles deveriam apontar as causas. Por exemplo, um psiquiatra, há dois anos na Gulbenkian, que está (isto interessa aos juristas) a trabalhar numa penitenciária belga, de Waelle, que recebe um criminoso condenado a vinte anos, estuda o seu processo e depois estuda o próprio prisioneiro. Ao fim de meses, ou de anos, diz ele, conclui que a causa é remota, a causa vem de antes dos 3 anos. Porquê? Porque se as crianças entre os 2 e os 3 anos não são levadas a realizar operações motrizes elementares, por exemplo, abrir, carregar num interruptor, tocar uma campainha, aparafusar seja o que for, enfim, os problemas que surgem em todas as casas, se o pai o proíbe, se o pai não indica como é que se executam essas operações, a criança começa a encontrar no mundo que a rodeia razões para a sua hostilidade. Esse psiquiatra diz que a causa fundamental da delinquência infantil está nisso, em não sabermos como educar uma criança até aos 3 anos de idade no domínio da motricidade. É um apelo urgente que se tem de fazer ao nosso país neste sentido.Por outro lado, há o problema da oralidade: uma das causas dos fracassos escolares está na dificuldade que grande parte das crianças tem em ler, em aprender a ler, no ano que é concedido a essa criança. Porque é que a criança não aprende a ler? Está provado que ela precisa de ser, entre os 2 e os 4 anos de idade, sujeita a trabalhos de oralidade.A falta do ensino pré-primário, de infantários, de creches e até da consciência dos pais, da consciência dos burgueses, faz com que a criança, não sendo preparada para a oralidade, vá fracassar na leitura, e fracassando na leitura fracassa, de uma maneira geral, em tudo.São isto, portanto, problemas que não têm que ver com a escola mas com a sociedade, com a ignorância das pessoas, com a não aplicação dos processos de informação a problemas tão graves como este.
Evidentemente que mesmo aqui em Lisboa há pouco tempo um pai que era metalúrgico foi saber do rendimento da filha, que era mau. Conversou com a professora, e a professora disse-lhe que a filha não dava rendimento, e lá lhe confessou porquê. O pai, discordando, diz:
- Não, a culpa é da senhora!
- Mas porquê? - Pergunta a professora.
- Eu ganho 10 000$ e a senhora 6000$. Como é que uma pessoa ganhando 6000$ pode preparar bem uma criança?
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Outro problema importante é o que se chama agora o «terrorismo linguístico».As crianças dos meios desfavorecidos, dos meios rurais, têm a linguagem dos seus pais - a linguagem autorizada é a que falam os pais, os irmãos, a família. Quando ela é transferida para a escola, particularmente para a escola do ciclo, ela encontra outros homens, outras roupas, outra linguagem, ela encontra a recusa, a rejeição da linguagem da sua própria família.
Isto implica, o que se chama um traumatismo linguístico. Enquanto os professores não estiverem informados a este respeito, eles não saberão nas suas escolas defender uma criança que traz palavras da boca dos pais que são recusadas e condenadas pela própria escola, colonizada pela classe burguesa.
Aplausos.
Outra razão: está provado que num país onde existem centros culturais de toda a ordem, centros recreativos, actividades culturais, meios de informação adequados aos níveis etários, o rendimento escolar é maior. Como é que num país como o nosso onde a comunicação foi proibida durante cinquenta anos, nós podemos esperar que a escola tenha o rendimento adequado? Por exemplo: a República da Alemanha Oriental tem fracassos escolares da ordem dos 4 %. Um livro sobre fracassos escolares dos franceses afirma que os portugueses nas suas escolas têm fracassos da ordem de 40 %. Quatro, quarenta! E o capítulo é este: isto é um milagre? Não, isto é conhecimento concreto das crianças, uma modificação ao longo de trinta anos das condições económicas do povo alemão, aqui é que está o segredo do êxito na escola. Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.
Fala-se aqui no 1.º de Maio e eu li um belo trabalho da Sophia, considerando que era uma ressurreição de um povo. Não é! É um momento de criatividade de um povo que de repente se sente livre. Mas não é a ressurreição de um povo; essa depende dos actos dos Portugueses, dos actos de todos os portugueses, dos actos concretos, das acções concretas. É esse apelo que eu faço aos presentes.
Eu sou professor; acho que o segredo de um professor está em nunca cortar raízes com a criança que foi, levá-la para as suas aulas, pela sua própria mão. Essa criança trouxe eu hoje. Está ali invisível e concreta. Ela está a acusar, através desta Assembleia, a falta de coragem dos Portugueses em não terem resolvido, nas ruas, os problemas que surgem nas escolas.Eu espero que no futuro esse problema seja resolvido definitivamente.Disse.
Aplausos prolongados de pé.
O Sr. Presidente: - Srs. Deputados: Suponho que raras vezes uma infracção regimental foi tão justificada como aquela que acaba de ser praticada, com a consideração e com o respeito e a profunda compreensão do Presidente.
Aplausos.
Na última sessão saímos todos comovidos com a invocação que aqui se fez das figuras tutelares da democracia portuguesa, que criaram um ambiente pela sua pertinácia e pelo seu heroísmo cívico para que conseguíssemos ser gente, e conseguirmos estarmos todos reunidos numa Assembleia deste tipo, hoje.
Não se levará a mal a um homem que vive mais do coração do que da inteligência, que é o meu caso, que diga ao professor Sardoeira quanto me comoveu a invocação de algumas figuras, que foram meus companheiros nas lutas iniciais contra o fascismo, dando-se até a coincidência das minhas profundas discordâncias com o Prof. Bento Caraça, mas que sempre respeitei e admirei e amei (no bom sentido da palavra), pela sua direitura moral, pelo seu proselitismo, pela sua pedagogia actuante, pelo exemplo extraordinário que deixou às juventudes vindouras e que não se vai perder com certeza.
Outras figuras aqui surgiram, como o Prof. Azevedo Gomes, outro grande amigo que perdi, o Prof. Mário Silva, felizmente vivo, embora em condições deficientes da sua visão.Acabámos de ter um momento muito alto, que fica bem numa Assembleia que por vezes é rotineira numa discussão materialista de preceitos da sua Constituição. Pode V. Ex.ª ter a certeza, Sr. Prof. Sardoeira, de que o Presidente poucas vezes terá conscientemente, tão conscientemente, violado o seu Regimento. Vamos continuar.
Aplausos.
Pausa.
Se existem pedidos de esclarecimento, eu pediria aos Srs. Deputados que não me obriguem a continuar a infringir o Regimento. Guardaríamos para amanhã as perguntas que se entende que se devam fazer ao Sr. Prof. Sardoeira, porque efectivamente há regras que têm de ser cumpridas, embora contrariamente, por vezes, com os nossos pontos de vista e com a nossa sensibilidade.
Vamos continuar a trabalhar e tenho a impressão de que continuando a trabalhar, pelo que vamos fazer, honraremos, sem dúvida nenhuma, a memória dessas figuras tutelares que foram tão sentidamente invocadas pelo Prof. Sardoeira.
ORDEM DO DIA…

