Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

13/06/08

O Porco que Queria Morrer Santo...

Para a história das tradições e costumes portugueses.

O conto, vivido pelo meu pai, passa-se durante os anos trinta do século passado. A Europa assistia à Guerra Civil Espanhola (1936-1939), antevendo as nuvens negras que se aproximavam e que tingiriam de um negro profundo a história da humanidade, na Segunda Grande Guerra (1939-1945). Portugal passaria ao lado, mergulhado numa ruralidade profunda, quase utópica. Entretanto, também o Severino Espanhol chegava ao paraíso. Aqui fica um pedaço desse tempo perdido, uma realidade que eu ainda vislumbrei, mas que os nossos filhos jamais conhecerão, em nome de costumes de outros povos, muito importantes, sem dúvida, mas que nada nos dizem.
Numa manhã outonal, de Outubro, fui visitar os meus tios, na sua casa da Venda. Na cozinha, encontrei uma mulher toda vestida de preto, a preparar-se para fazer benzeduras sobre uma porção alimentar para o porco, sob o olhar esperançoso da minha tia Encarnação. O porco já estava em estado de engorda para a matança, lá para o Natal.
“Tia Encarnação não acredito nisto!”
Reagiu à minha juventude, irreverente e já em mudança para um certo sentido de racionalidade.
“Ó Carlos, o porco está a morrer! E depois!... E depois! … temos tanta gente no Natal”.
“Querida tia... quem vai salvar o porco, sou eu!”.
“Tu?! Mas como?!”.
Nessa altura trabalhava comigo, no Barril de Alva, o Armando Ribeiro, que nesse dia estava também de visita à sua família.
Chamei-o.
“Ó Armando vamos salvar o porco dos meus tios”.
Corremos para o curral. Eram duas horas da tarde, mais ou menos. Ficámos aterrados. O porco estava estendido ao comprido, com os pêlos baços e com o rabo esticado, indicativo de doença grave. O Armando quase gago: “O porco está morto” E agora? Estou tramado e frito. A bruxa vai rir-se de mim, pensei comigo mesmo.

Reagi. Encostei a fivela de metal reluzente do meu cinto, na boca do porco. A fivela ficou logo embaciada. O porco ainda respirava.
E, esperançado comecei logo ao trabalho de salvação. Apalpei-lhe a barriga. Como estava muito inchada, diagnostiquei a doença: timpanismo ou “barriga de gases”, resultante de fermentações de comida estragada ou imprópria.
Na minha angústia, agarrei-me aos ensinamentos práticos da minha mãe para as curas de emergência. Por outro lado, eu sabia que no quadro fisiológico dos animais, a fisiologia do porco é a mais semelhante à do homem.
Lembrei-me, que o meu pai, quando tinha gases no estômago (aerofagia), engolia comprimidos de carvão vegetal. Imediatamente mandei o Armando buscar a sua casa, bocados de carvão. Esmagados e dissolvidos em água morna, enfiámos a mistura, por um funil para dentro do estômago (aerofagia). Em seguida, um clister com azeite em água tépida, para provocar a descarga das fezes.

Como o porco não se mexia, socorri-me de outro tratamento de cura, que a minha mãe usava. Quando eu era muito criança, aliás ainda usual nos bebés, metia no meu rabo, um talinho de couve, para esvaziar os meus intestinos.
“O Armando, vai depressa buscar um toro de couve, mas grosso e comprido”. Untámo-lo de azeite e, de imediato, enfiámo-lo todo pelo cu acima do porco. O Armando, como um desalmado esfregava, esfregava… Aqui, o porco vingou-se. A descarga de gases foi de tal ordem, que o Armando, ainda com o toro de couve na mão foi atirado contra a parede do curral.
“Ó Armando, que grande peido?”. “Peido? Isto, foi uma bomba”.
Socorri-me, já esperançado, depois desta descarga, do último recurso para a cura do porco, o esfreganço com o vinagre, porque sabia que o vinagre era usado para reactivar o sistema nervoso e os órgãos motores. Rasguei a minha camisa de flanela e com os seus pedaços esfregámos, sem descanso, a espinha do porco, da cabeça ao rabo.
Entretanto, a tia Marquinhas, mãe do Armando veio em nosso auxilio deitar na pia, depois de bem lavada uma aguada de arroz para acalmar e limpar os intestinos do porco, no caso de sobreviver.
Depois destes tratamentos de cura, não resistimos ao cansaço e ao sono. Adormecemos encostados um ao outro.
Eram cerca de oito horas da manhã, já com o sol a assomar à porta do curral, quando acordei. E o que vejo? O porco na minha frente, empertigado, já com o rabo em rosca e a fixar-me com os seus olhos brilhantes e estranhos.
O Armando, quando o viu, deu um salto: “Ressuscitou… ressuscitou”.
Reparei que a pia já estava quase vazia. A tia Marquinhas nunca deixou de acreditar na nossa luta contra as benzeduras.
Transponho para o porco, o conceito de alma animal, em forma de mensagem. Mensagem que reproduzo na minha perspectiva numa convergência dos três estados de alma, na igual humanização de todas essas manifestações de vida.
“Estes sacanas, salvaram-me para me matar. Os humanos matam, esfolam e chamuscam a alma, uns dos outros, para morrer e eu sou morto para lhes dar vida. Os cobardolas amarram-me ao banco, espetam no meu gorgomilo um facalhão e ficam aparvalhados com os calos da enxurrada do meu sangue. Não sabem estes hominídeos que os meus órgãos serão utilizados em transplantes para substituir os seus órgãos fanados, porque descobriram que sou, fisiologicamente, o único animal com maior semelhança com o homem. Eu sei que vou ser comido desde a minha tromba à ponta do rabo, em festins, com danças, com cantares e com bebedeiras.
Eu sei, também, que vou ser rilhado durante muito tempo, durante anos, em baptizados, casamentos e em euforias políticas e religiosas. Até o Senhor e os Santinhos da Igreja, sentem arrepios, quando à porta da sua casa, em dias festivos, ouvem as arrematações das fogaças: “Quem dá mais por este chouriço, quem dá mais por este bucho, que é de comer e chorar por mais. Sem o respeito pelo uso costumeiro, fui salvo para ser morto, quando seria mais justo, se tratado com benzeduras, para ter, sim, uma morte santa.”

As bruxas aguardavam a morte do porco assentadas nos degraus da porta da Casa da Venda. Logo que souberam que o porco “ressuscitou”, fugiram…

…e assim acabaram as bruxas em Vide.

C.N.

Nota: desenhos da autoria do artista plástico Álvaro de Matos, Coimbra.

06/06/08

Privatizem-se!

Hoje fui ao meu oculista na Praça 8 de Maio. Ando a ver mal. Esperava à porta pelos meus óculos, quando me apercebo das peripécias de um casal de turistas ingleses que, mesmo ao meu lado, pretendiam tirar uma foto à fachada da Igreja de Santa Cruz. A foto acima mostra o nosso campo de visão e a razão do seu praguejar. Absolutamente extraordinário. Não sei qual a intenção de colocarem este mamarracho alusivo ao "Jazz ao Centro", patrocinado pela Caixa dos Amigos e Amigalhaços, literalmente em cima da fonte da praça 8 de Maio, impossibilitando o seu funcionamento, num dia quente como o de hoje e, pior, tirando as vistas da fachada da Igreja de Santa Cruz. O “Jazz ao Centro” mereceria um pouco mais de respeito. Poderiam ter posto o Jazz um pouco mais ao lado. Sem desprimor pelo Jazz. Adoro Jazz. Eu penso que este postal ilustrado ilustra bem a demência que grassa nas nossas instituições púbicas, perdão, públicas. Isto só mesmo neste país das bananas, cheio de macacos comilões. Mas afinal, quanto pagará a Caixita à edilidade por esta magnifica visibilidade? É tanta a visibilidade que até repugna! Como puderam colocar esta bosta em cima da fonte da praça? Pelo espalhafato da coisa, o dinheirito, upa, upa, deve ter sido uma pipa daquelas. Afinal, bem precisam dele, não é? Quem não precisa nos dias que correm? Até a Caixa dos Amigos, que, como os outros, tem que nos meter a mão no bolso para suportar a crise… e pagar as bostas. A mim meteram! Precisamente antes de ter ido ao oculista. Mas adiante. Servirá o dinheirito amealhado para arranjar a esburacada estrada de Vale de Canas? Afinal não seria justo ser o cidadão a pagar os buracos e buracões fabricados pelos construtores civis das casitas sociais que por ali proliferam. Estes, coitados, também pelo dinheirito que ganham nas obras não podem fazer tudo. E, depois, fazer o buraco redondinho e ainda por cima pagar por ele, não seria justo, não senhor! Ou será que, finalmente, pretendem cumprir a Lei de 2004, que OBRIGARIA os responsáveis de caminhos e estradas de os limparem, pelo menos, 15 m das bermas? Ou será que é para investir na depauperada cultura da cidade? Ah sim, Jazz ao Centro... já me esquecia! Precisam de dinheiro, claro. A vida está difícil para todos, não é? Afinal o que a minha mãe vai começar a pagar de IMI não chega. Pois. Ela e todos nós! É muito pouco! Sim senhor! Quem pagaria as mordomias, o carrito e as viagens (a gasosa está de estouro), enfim… as bostas que por aí vemos? Além disso, vendo melhor as coisas, afinal a terra, o chão, é do povo! Ah, então! No fundo, no fundo, nas fundações, o chão pertence ao país, ao estado, enfim, à autarquia. A quem mais? Afinal não vamos rumo ao socialismo? A propriedade privada é uma utopia! Biba o chuchialismo! E não é a solidariedade um valor a preservar, a implementar? Ah, solidários, solidários! Sol e dó! É por isso que vão ser sol i dários com a minha mãe. Tem 82 anos, acabou de enviuvar, aufere a MILIONÁRIA REFORMA de 585 euros, qual ex-administrador honorário da Caixita, e gritaram-lhe aos ouvidos QUE SÓ VAI começar a PAGAR de IMI quase 700 euros por ano. Por um apartamento que já tem há 50 ANOS e onde vive desde 1974, depois de ter sido espiolhada do fruto de 30 anos de trabalho que deixou em África. Que chulidários! Caricato é que pagará TRÊS VEZES MAIS do que os seus vizinhos. O médico do segundo andar, então, paga menos de renda ao senhorio do que ela irá pagar ao estado pelo apartamento que deveria ser dela. É o que se chama de igualdade perante a CONSTITUIÇÃO. Acho que o são… na constipação e na obstipação! Afinal há que ser justo:
Privatizem a Caixa dos Amigos! Privatizem as edilidades! Privatizem as chuchas! Privatizem a bosta! Privatizem-se!

05/06/08

Pedrada no Charco

Confesso que cada vez mais vejo menos televisão. Jornais nem vê-los. Pela merda que estão, por mim, podem ir todos à falência. As razões são as que todos conhecemos. Deambulamos pelo marasmo de notícias vazias, da venda da banha da cobra, de comentários chatos e tolos que, em boa verdade, confesso, são proferidos por pessoas que, se não estão senis, engoliram a cassete do poder vigente. Ouvi-los na TV, então, é de fugir a sete pés. Ainda há pouco estava um assim a “lanzoar”, como diria o meu pai, no noticiário da TVI. Dissertava sobre as mil e uma razões que existem para que, descendo o petróleo nos mercados mundiais, os preços dos combustíveis não possam descer em Portugal. Enfim. Não há pachorra.
Mas eis que, por mero acaso, deparamos com uma entrevista surpreendente. Miguel Urbano Rodrigues a ser entrevistado pela Ana Lourenço na SIC Notícias. Há duas noites atrás, é certo. Mas ainda vou a tempo. Miguel Urbano Rodrigues, irmão do também escritor, Urbano Tavares Rodrigues, comunista assumido, e cada vez mais comunista (curioso!), tal é a coerência, delicia-nos com uma perspectiva do mundo actual que me surpreendeu pela positiva. Também ele, aos 82 anos, prefere a informação aqui, na blogoesfera, do que o lixo saído das rotativas. Formidável. De facto, um dos maiores pensadores portugueses contemporâneos, pensador comunista, como realçou Ana Lourenço no final. Aceito, independentemente da ideologia que não abraço, porque reconheci nas palavras de Miguel muito dos meus pensamentos sobre a situação do mundo actual. Alguns já por aqui escritos. Por isso deliciei-me. Eis alguém que toca na ferida, que chama os bois pelos nomes, que diz algo que sabemos ser verdadeiro, que nós próprios sentimos como tal. Miguel, dizendo-se materialista, mais parecia um idealista. Fala das FARC e de uma realidade na Colômbia que eu desconhecia em absoluto. Nesse assunto, senti que o Miguel vinha de outro planeta. Espera aí. Estou assim tão intoxicado pelo lixo noticioso? Terá ele alguma razão? Mas então e a Ingrid Betancourt de quem não falaram na entrevista? Lapso? E o seu pobre filho que implorava nas TVs pela saúde e libertação da mãe, raptada pelos malvados dos terroristas das FARC que a torturavam e faziam passar fome? O Miguel tinha uma perspectiva completamente diferente. Inversa da nossa. Mas o Miguel falou de muito mais, da decadência da nossa civilização, da regressão da humanidade, da inevitabilidade do fim desta civilização, tal como no passado assistimos à queda de Roma. Do trágico falhanço na implementação do Socialismo. Na dificuldade de implementar o Marxismo que, na realidade, nunca o foi. Defendeu Cuba e o seu regime. Indagado sobre a ausência de direitos humanos na Ilha, perguntou o que entendia Ana por Direitos Humanos? Que era um conceito muito subjectivo. Quais são afinal os direitos humanos dos mendigos que vivem nas ruas das nossas civilizadas cidades? Empestadas pela droga proveniente dos silos dos senhores que governam a Colômbia! Em Cuba existe educação e saúde para todos. Tem taxas de licenciados únicas no mundo. Enfim, arremessa-nos com uma perspectiva diferente, que nos faz pensar. Prefere dizer que é progressista em vez de esquerdista. Diz-nos que os problemas não se resolvem com sessões de esclarecimento num qualquer teatrinho. Os problemas actuais exigem muito mais do que isso. Afinal, Alegre nem sequer põe em causa a cúpula socialista, que nos impõe um governo neoliberal, imoral e repugnante, de direita pura e dura. Ao bom estilo Europeu, em nome da globalização dos interesses. Bem pior que o americano. Estamos num beco sem saída e por isso é preciso agir.Em suma, foi uma entrevista como há muito não via ou ouvia. Parabéns à SIC pelo bocadinho de verdadeira informação. Caso cada vez mais raro nos dias que correm. E obrigado ao Miguel Urbano Rodrigues pela lucidez e sabedoria. Faço votos para que o contratem como comentador. Juro que passaria a estar mais atento a umas Escolhas quaisquer, a umas Notas que não se soltam, ou aos telejornais da TVI.

31/05/08

Discurso Político

Resolvemos neste “post” dar a palavra a um deputado. Não! Esperem! Não desistam já! Não se trata de um discurso igual aqueles que estão habituados a ouvir aos actuais deputados. Não senhor. Trata-se do discurso proferido pelo deputado Ilídio Sardoeira no dia 11 de Março de 1976 na Assembleia da Republica. O professor Ilídio Sardoeira foi deputado do extinto partido MDP/CDE, que tanta falta faz à nossa pobre democracia.

Cartaz de propaganda eleitoral do MDP/CDE

O discurso, que encontrei on-line por acaso, merece ser lido por vários motivos:
1º- Temos saudades da eloquência dos oradores do passado e que hoje, simplesmente, desapareceram do debate político. Os discursos que ouvimos no parlamento são dramaticamente pobres. Salvo raras excepções, os partidos estão inundados de politiqueiros que só estão na política para se servirem. A política portuguesa foi tomada de assalto pelo compadrio e o seguidismo. As convicções desapareceram e as ideias são nulas. Este discurso mostra como deveria ser o discurso político, das ideias, das convicções. É a antítese dos vazios que actualmente escutamos.
2º- O professor Sardoeira aborda um tema bem actual na nossa sociedade. A questão da Educação. Embora num contexto histórico completamente diferente, pois não negamos que no pós-25 de Abril a maioria do povo português vivia miseravelmente, numa sociedade quase medieval, seria bom que os nossos políticos lessem este discurso para perceberem, de uma vez por todas que, enquanto os problemas socioeconómicos da população portuguesa não forem resolvidos, jamais teremos o problema da Educação resolvido. Como bem diz Sardoeira: a escola é o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la. Sacudindo a água do capote, os actuais governantes resolveram, LAMENTAVELMENTE, culpar os professores pelo estado do ensino em Portugal. Quando estes, em meu entender, são igualmente vítimas. Agora, duplamente castigados. Por isso, aos primeiros, recomendo-lhes a leitura deste discurso. Pode ser que aprendam alguma coisa, já que a escola não lhes serviu de muito.
3º- O tema Liberdade tem sido palco de discussão intensa nalguns blogues, como no 5 Dias. Li coisas que me deixaram profundamente amargurado. Para aqueles que as escreveram, talvez este discurso lhes possa ensinar algo também. Uma ideia pelo menos. É que, segundo Sardoeira, a liberdade tem pelo menos um preço: o não sabermos usar dela em favor dos outros.
4º- Finalmente, este discurso recorda-nos temas que este blogue já focou. A profunda mesquinhez do antigo regime que teimosamente perseguia os seus opositores, mesmo depois de mortos. Naquele dia, Sardoeira evocou os acontecimentos ocorridos no funeral de Bento de Jesus Caraça. Curioso é que o testemunho que Sardoeira relata foi precisamente o do Professor Mário Augusto da Silva, a quem este blogue já dedicou vários “posts”. Além disso, já aqui tínhamos referido os tristes acontecimentos ocorridos no funeral de Abel Salazar, relatados por Alda Luís Gomes. Com entendi que se tratava de um testemunho muito importante sobre a nossa história recente, publiquei-o aqui.
Eis o discurso na íntegra, ou melhor, a lição do deputado Ilídio Sardoeira.
O Sr. Presidente (Vasco da Gama Fernandes): - Tem a palavra o Sr. Deputado Ilídio Sardoeira.
O Sr. Ilídio Sardoeira (MDP/CDE): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: A aprovação em recente plenário desta Assembleia do preceito que estabelece que os funcionários e agentes do Estado e das demais entidades públicas não podem ser prejudicados ou beneficiados em virtude do exercício de quaisquer direitos políticos previstos na Constituição, designadamente por opção partidária, coincidiu com a notícia de que o Prof. Mário Silva, expulso da sua Universidade em 1947 em consequência de uma opção política consentida pelos governantes de então, iria dar a sua última lição em dia a marcar para a próxima Primavera. Mesmo que tardiamente, a Primavera chega sempre para aqueles que se consagram à defesa dos direitos fundamentais.
Nós afirmaremos aqui, e supondo-nos intérpretes do consenso desta Assembleia, que o conhecido colaborador de M.me Curie, com ser afastado da sua cátedra, deu com a sua vida uma lição da maior valia. E essa decorre da exemplaridade da sua conduta cívica. Esta breve alusão a uma injustiça que foi paradigma impiedoso de uma estratégia política que levou a classe docente às portas da mendicidade e da mediocridade funcional e o ensino, em Portugal, a um impasse complexo e com raízes de difícil deslaçamento e correcção, esta breve alusão, dizia, remete-se para um acontecimento que merece ser comunicado a esta Assembleia, até para sublinhar a pertinência do preceito referido. Estávamos em 1948. Precisamente no dia 1 de Julho. Durante um encontro, quase casual, com o Prof. Mário Silva recordei uma amizade comum - Bento de Jesus Caraça. Vim ontem de Lisboa - logo me informou. Assisti ao seu funeral. Foi uma manifestação impressionante. A polícia não consentiu que o cadáver de Bento Caraça ficasse em câmara ardente, na Casa do Alentejo, mas o cortejo fúnebre não se esquece mais. O silêncio de todos e o invulgar pesar que todos publicamente testemunhavam impressionava quantos, dos passeios, assistiam à sua passagem.
Homens simples abeiravam-se dos amigos ou admiradores de Bento Caraça e perguntavam:- Quem morreu? Quem vai aí?
- Um amigo do povo.
Muitos descobriam-se e desciam à rua por solidariedade. O cortejo engrossava de rua para rua. O silêncio cortava-se à faca; era a voz de um protesto comum. Atrás da urna, depositário da chave, seguia Mário de Azevedo Gomes, seu amigo e companheiro de luta, luta por um Portugal livre onde o direito à justiça não se contunda com uma obra de caridade e a alienação a todos os azimutes não seja o sinal e prova do autêntico civismo. Não acuso: condeno.
Observa-se desatenção da parte da Assembleia.
O Sr. Presidente: - Peço a atenção da Assembleia.
A comunicação do Sr. Prof. Sardoeira tem uma importância, tem uma emoção que me parece que exige da nossa parte um pouco mais de respeito e um pouco mais de silêncio.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Ora, quem, como eu, viu e ouviu, nas horas mais difíceis da vida política portuguesa, Mário de Azevedo Gomes, não sabe hoje ainda que mais admirar nele: se a sua figura marfínica e hierática de retábulo, se a sua palavra lúcida e incisiva ou a sua coragem exemplar. Pois bem: ele era o último guardião de um dos melhores obreiros da cultura portuguesa. E não estou a pensar tão-só no mestre, de Matemática que foi, na novidade que havia em Os Conceitos Fundamentais da Matemática ou nessas duas pequenas obras-primas que são A Cultura Integral do Indivíduo e Galileu Galilei. Tenho em mente sobretudo as dezenas de obras que constituíram a inacabada Biblioteca Cosmos, empreendimento a que votou e devotou os últimos anos da sua vida e com que se propunha, além do mais, resistir à colonização cultural em que continuamos a estar mergulhados, por míngua, em nome da política do espírito, de uma revolução cultural autêntica que fosse obra nossa, obra de todos os portugueses com o direito - e o dever - que lhes assistia de pensarem, escreverem e dialogarem livremente.
A Biblioteca Cosmos foi uma obra de resistência ao fascismo, mas também a prova de que, cerceadas as fontes criativas de um povo, é a própria sobrevivência desse mesmo povo que corre riscos - os riscos maiores.
Bento Caraça sabia isso e fazia, à sua maneira, a revolução cultural possível, devolvendo a sua confiança aos outros, certo de que a superação de cada um inclui a possibilidade do fracasso.Por isso, mesmo no seu leito de ferro e de fim, onde o visitámos, com dois polícias de informação postados em frente da sua casa, não lhe morre no rosto aquele sorriso ímpar, sorriso de um homem que confia nos outros e os chama para uma obra e uma esperança compartilhada e possível. Esperança de esquerda, sublinho, porque voltada para a sorte das classes desfavorecidas e para cujo enraizamento na praxis caberá muito concreta responsabilidade aos homens de esquerda deste país. Particularmente aos socialistas e comunistas.Mas regressemos ao termo da última e definitiva jornada de Bento Caraça, ao cemitério dos Prazeres.A multidão pára e aguarda silenciosa. Aguarda o quê? Aguarda quem? Obviamente, a última palavra de justiça e de despedida. É então que se assiste a um acto insólito e que tanto diz sobre o meio século de história que a nova Constituição se propõe ultrapassar.
A polícia aproxima-se de Azevedo Gomes e segreda-lhe o que quer que seja ao ouvido. O professor ouve e cala: o seu gesto dirá o bastante.
Manda que se abra a urna do seu amigo e companheiro de luta; enrola com lentidão as folhas onde escrevera o elogio fúnebre de Bento Caraça e, perante o espanto e a comoção de todos, dispõe a breve mensagem ao lado do cadáver do amigo. Aquele gesto e o silêncio de todos davam a real dimensão da alienação em que caíra um povo. Um povo que não fala, tem medo. Um povo que tem medo não fala. Azevedo Gomes encontrara o gesto genial para exprimir, pelo silêncio, a mensagem de um povo que perdera o direito (expressão de Pascoais) de pensar em voz alta.
Aplausos.
Eu não digo aqui tudo o que penso e quero. Todo o funcionário público, todo o professor em particular, tem ainda hoje um lastro fascista de inibições de que o 25 de Abril o não libertou, por enquanto.
Observei, atento e comovido, o rosto do Prof. Mário Silva que me fez esta descrição: por detrás das lentes espessas dos óculos, os olhos estavam húmidos. Mas, nessa soalheira manhã de Julho, eu via - e revejo agora - o sorriso confiante e saudável de Bento Caraça, sorriso deitado nos ventos da história de que começa a erguer-se, seja por que via for, um rosto novo para o povo português e que será, se os cidadãos portugueses quiserem assumir a responsabilidade que o texto da Constituição já propõe, um rosto socialista.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Chamo a atenção para uma declaração de Pierre Mendès France no seu último livro, onde diz que a sinceridade é o segredo do político. Se os Deputados que elaboraram esta Constituição forem sinceros, e se os portugueses que a vão aplicar são sinceros, eu tenho a esperança de que o rosto ri.
Reparem, Srs. Deputados, que nós não descobri-mos tão-só caminhos novos para o Mundo: criámos um povo chamado Brasil.
Só que a lição não foi tida em conta pelos governantes que o Movimento do 25 de Abril derrubou. Contra os ventos da libertação de que nasceu a Índia, o Congo Belga, as fracções territoriais que compunham os impérios francês, britânico e holandês, contra a indicação do remate da guerra argelina, contra o bom senso e o senso comum, os nossos governantes disseram não.
E aqui temos, com os retornados, o fruto amargo de uma visão estreita da história. O que poderia ter sido conseguido pelos caminhos da paz e da conciliação, graças a um controlado processo de esclarecida democratização, pois que era essa a orientação que salvaguardava os valores de expressão portuguesa, os valores e as gentes, nasce nesses países de uma violência sistematicamente aplicada e mundialmente condenada.
Se os princípios fundamentais já aprovados apontam para uma sociedade sem classes ou para o socialismo, mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder das classes trabalhadoras e pelo caminho de uma liberdade responsável, extensiva à generalidade dos portugueses, permito-me inferir que a nova Constituição situa a nossa comunidade num horizonte de esquerda ou aberto à promoção económica, social e cultural das classes desfavorecidas. O socialismo será o fruto da liberdade em acto e a todos os azimutes para a generalidade dos portugueses.
Assim o quero e espero. Se a ingenuidade não estava aqui representada, eu assumo essa responsabilidade. Faço-o em nome de milhões de portugueses marginalizados pela história e faço-o por amor das crianças e adolescentes a que votei a minha vida.
Não quiseram vender a Pátria hipotecaram-na até consequências imprevisíveis. E o prometido campo de exploração capitalista, oferecido por mais de quinhentos anos ao mundo ocidental, no curto intervalo de uma década, libertou-se, por esforço próprio, à custa de fazendas e vidas, e aconselhou a um grupo de capitães a restituir ao povo colonizador as liberdades perdidas e ao povo colonizado as liberdades nunca alcançadas.
Ora, se por terras nortenhas, entre populações tão carecidas de tudo, que mal têm consciência do cerceamento da própria liberdade, os petardos e as bombas rebentam, eu permito-me adiantar que, até pela violência das acções contra-revolucionárias, o povo aprenderá a reflectir sobre a razão de ser das condições em que tem sobrevivido. A contra-revolução pode vir a ser um processo de aceleração do movimento iniciado em 25 de Abril.Facto esse que ficará a comprovar que há ainda, entre nós, portugueses que não aprenderam com os erros de um passado recente a corrigir vias de actuação condenadas pela história.
Em nome de Cristo ou de Marx - e por que não por ambos de mãos dadas? - o homem português há-de ser descido da cruz em que o pregaram minorias satisfeitas por intermédio de frios executores de práticas alimentes.
Aplausos.
A longo prazo, o processo histórico em que todos estamos envolvidos é irreversível e visa o bem comum. Entre nós - e isto foi sublinhado durante o Concílio Ecuménico por um cardeal nórdico, salvo erro - os cristãos parecem empenhados em que a justiça social se fique a dever a Marx. Descrente desde a adolescência, começo a acreditar que Deus, no século XX, está a escrever direito pelas linhas da esquerda.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Depois de cinquenta anos de opressão e repressão, a liberdade tem um preço. Entre os vários este: o não sabermos usar dela em favor dos outros. Por exemplo: da criança portuguesa. O Deputado Gonçalves Sapinho referiu, há dias, que há milhares de alunos sem aulas e milhares de professores sem colocação. Mau é que isso esteja a acontecer. Mas vamos supor que no próximo ano lectivo esta mazela burocrática fica sanada. Os educandos encontram os educadores em disponibilidade. O nosso sistema educativo entrou nas calhas da solução justa, mesmo ao nível da escolaridade platonicamente obrigatória? É óbvio que não.
Os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz sócio-económica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos.
Eu não sei de quanto tempo disponho para mostrar exactamente, ou demonstrar esta tese: que a escola não resolve os fracassos escolares. Os fracassos escolares são resolvidos pelos adultos, pela sociedade em que a escola se insere.
O Sr. Presidente dirá quantos minutos me concede para eu fazer uma súmula que esclareça a Assembleia sobre um ponto que me parece essencial.
O Sr. Presidente: - Não tenho coragem, Sr. Deputado, de lhe cortar a palavra. Faz favor de continuar.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador:- A escola é o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la.Vou apontar sumariamente questões que, no seu desenvolvimento, cada uma daria uma intervenção. Não vou apresentar hipóteses, mas factos concretos.A subnutrição da mãe grávida e o crescimento da placenta estão em íntima ligação, na própria medida em que, numa mãe que durante a gravidez é mal nutrida, a placenta que alimentará o filho não se desenvolve. Essa criança é uma criança marcada para toda a vida. Logo: alimentação - criança que não se desenvolve convenientemente é um fracasso escolar, é um atraso mental à vista. Este é um problema de adultos, não é um problema que se resolva em qualquer escola do País.
Aplausos.
Há muitas crianças entre nós cujo nascimento é prematuro. Ora, provou-se recentemente, em Helsínquia, que uma criança nestas condições não dispõe de mecanismos bioquímicos enzimáticos capazes de eliminar determinados aminoácidos, e esses aminoácidos concentram-se nos neurónios cerebrais e isso é uma das causas de um tipo de atraso cerebral. O próprio leite industrial que se fornece às crianças, se não tiver a composição adequada, conduz ao mesmo efeito. Logo, crianças lançadas na escola submetidas a este tratamento são crianças marcadas, são crianças fracassadas. Isto é da responsabilidade das sociedades em que elas se inserem, não da escola.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Até aos 4 anos o cérebro representa 90 % da totalidade do peso do corpo.O corpo representa apenas 20 % das necessidades das proteínas para a multiplicação dos neurónios; por outras palavras, isto significa que nós temos de fornecer a uma criança que nasce, até aos 4 anos de idade, as proteínas necessárias. De outra maneira, numa fase em que os neurónios estão em rápida multiplicação, eles não atingem na qualidade e na quantidade um cérebro normal. Uma criança sem proteínas é uma criança marcada e condenada à um fracasso escolar. Ora, as crianças dos nossos meios rurais não comem proteínas, que são hoje alimentos caríssimos, e não as comem até por ignorância: vendem os ovos para comprar a broa.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Ora, as crianças, o povo que não é esclarecido a este respeito, está a criar condições nos seus filhos para que eles fracassem no domínio escolar. Os meios de comunicação - é urgente - deviam pôr-se ao lado da escola, do professor da criança, informando-os das consequências e das razões que levam a estes fracassos.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Em vez de gastarem páginas sobre páginas a falar de crimes, de roubos, etc., eles deveriam apontar as causas. Por exemplo, um psiquiatra, há dois anos na Gulbenkian, que está (isto interessa aos juristas) a trabalhar numa penitenciária belga, de Waelle, que recebe um criminoso condenado a vinte anos, estuda o seu processo e depois estuda o próprio prisioneiro. Ao fim de meses, ou de anos, diz ele, conclui que a causa é remota, a causa vem de antes dos 3 anos. Porquê? Porque se as crianças entre os 2 e os 3 anos não são levadas a realizar operações motrizes elementares, por exemplo, abrir, carregar num interruptor, tocar uma campainha, aparafusar seja o que for, enfim, os problemas que surgem em todas as casas, se o pai o proíbe, se o pai não indica como é que se executam essas operações, a criança começa a encontrar no mundo que a rodeia razões para a sua hostilidade. Esse psiquiatra diz que a causa fundamental da delinquência infantil está nisso, em não sabermos como educar uma criança até aos 3 anos de idade no domínio da motricidade. É um apelo urgente que se tem de fazer ao nosso país neste sentido.Por outro lado, há o problema da oralidade: uma das causas dos fracassos escolares está na dificuldade que grande parte das crianças tem em ler, em aprender a ler, no ano que é concedido a essa criança. Porque é que a criança não aprende a ler? Está provado que ela precisa de ser, entre os 2 e os 4 anos de idade, sujeita a trabalhos de oralidade.A falta do ensino pré-primário, de infantários, de creches e até da consciência dos pais, da consciência dos burgueses, faz com que a criança, não sendo preparada para a oralidade, vá fracassar na leitura, e fracassando na leitura fracassa, de uma maneira geral, em tudo.São isto, portanto, problemas que não têm que ver com a escola mas com a sociedade, com a ignorância das pessoas, com a não aplicação dos processos de informação a problemas tão graves como este.
Evidentemente que mesmo aqui em Lisboa há pouco tempo um pai que era metalúrgico foi saber do rendimento da filha, que era mau. Conversou com a professora, e a professora disse-lhe que a filha não dava rendimento, e lá lhe confessou porquê. O pai, discordando, diz:
- Não, a culpa é da senhora!
- Mas porquê? - Pergunta a professora.
- Eu ganho 10 000$ e a senhora 6000$. Como é que uma pessoa ganhando 6000$ pode preparar bem uma criança?
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Outro problema importante é o que se chama agora o «terrorismo linguístico».As crianças dos meios desfavorecidos, dos meios rurais, têm a linguagem dos seus pais - a linguagem autorizada é a que falam os pais, os irmãos, a família. Quando ela é transferida para a escola, particularmente para a escola do ciclo, ela encontra outros homens, outras roupas, outra linguagem, ela encontra a recusa, a rejeição da linguagem da sua própria família.
Isto implica, o que se chama um traumatismo linguístico. Enquanto os professores não estiverem informados a este respeito, eles não saberão nas suas escolas defender uma criança que traz palavras da boca dos pais que são recusadas e condenadas pela própria escola, colonizada pela classe burguesa.
Aplausos.
Outra razão: está provado que num país onde existem centros culturais de toda a ordem, centros recreativos, actividades culturais, meios de informação adequados aos níveis etários, o rendimento escolar é maior. Como é que num país como o nosso onde a comunicação foi proibida durante cinquenta anos, nós podemos esperar que a escola tenha o rendimento adequado? Por exemplo: a República da Alemanha Oriental tem fracassos escolares da ordem dos 4 %. Um livro sobre fracassos escolares dos franceses afirma que os portugueses nas suas escolas têm fracassos da ordem de 40 %. Quatro, quarenta! E o capítulo é este: isto é um milagre? Não, isto é conhecimento concreto das crianças, uma modificação ao longo de trinta anos das condições económicas do povo alemão, aqui é que está o segredo do êxito na escola. Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.
Fala-se aqui no 1.º de Maio e eu li um belo trabalho da Sophia, considerando que era uma ressurreição de um povo. Não é! É um momento de criatividade de um povo que de repente se sente livre. Mas não é a ressurreição de um povo; essa depende dos actos dos Portugueses, dos actos de todos os portugueses, dos actos concretos, das acções concretas. É esse apelo que eu faço aos presentes.
Eu sou professor; acho que o segredo de um professor está em nunca cortar raízes com a criança que foi, levá-la para as suas aulas, pela sua própria mão. Essa criança trouxe eu hoje. Está ali invisível e concreta. Ela está a acusar, através desta Assembleia, a falta de coragem dos Portugueses em não terem resolvido, nas ruas, os problemas que surgem nas escolas.Eu espero que no futuro esse problema seja resolvido definitivamente.Disse.
Aplausos prolongados de pé.
O Sr. Presidente: - Srs. Deputados: Suponho que raras vezes uma infracção regimental foi tão justificada como aquela que acaba de ser praticada, com a consideração e com o respeito e a profunda compreensão do Presidente.
Aplausos.
Na última sessão saímos todos comovidos com a invocação que aqui se fez das figuras tutelares da democracia portuguesa, que criaram um ambiente pela sua pertinácia e pelo seu heroísmo cívico para que conseguíssemos ser gente, e conseguirmos estarmos todos reunidos numa Assembleia deste tipo, hoje.
Não se levará a mal a um homem que vive mais do coração do que da inteligência, que é o meu caso, que diga ao professor Sardoeira quanto me comoveu a invocação de algumas figuras, que foram meus companheiros nas lutas iniciais contra o fascismo, dando-se até a coincidência das minhas profundas discordâncias com o Prof. Bento Caraça, mas que sempre respeitei e admirei e amei (no bom sentido da palavra), pela sua direitura moral, pelo seu proselitismo, pela sua pedagogia actuante, pelo exemplo extraordinário que deixou às juventudes vindouras e que não se vai perder com certeza.
Outras figuras aqui surgiram, como o Prof. Azevedo Gomes, outro grande amigo que perdi, o Prof. Mário Silva, felizmente vivo, embora em condições deficientes da sua visão.Acabámos de ter um momento muito alto, que fica bem numa Assembleia que por vezes é rotineira numa discussão materialista de preceitos da sua Constituição. Pode V. Ex.ª ter a certeza, Sr. Prof. Sardoeira, de que o Presidente poucas vezes terá conscientemente, tão conscientemente, violado o seu Regimento. Vamos continuar.
Aplausos.
Pausa.
Se existem pedidos de esclarecimento, eu pediria aos Srs. Deputados que não me obriguem a continuar a infringir o Regimento. Guardaríamos para amanhã as perguntas que se entende que se devam fazer ao Sr. Prof. Sardoeira, porque efectivamente há regras que têm de ser cumpridas, embora contrariamente, por vezes, com os nossos pontos de vista e com a nossa sensibilidade.
Vamos continuar a trabalhar e tenho a impressão de que continuando a trabalhar, pelo que vamos fazer, honraremos, sem dúvida nenhuma, a memória dessas figuras tutelares que foram tão sentidamente invocadas pelo Prof. Sardoeira.
ORDEM DO DIA…

29/05/08

O Mestre da Cor

Pintura a óleo de Mário Silva de 1969, pertencente ao período dos barcos
Já aqui falámos do Professor Mário Augusto da Silva. Chegou a hora de homenagear o seu filho, o pintor Mário Silva. Provavelmente um dos maiores pintores e escultores portugueses contemporâneos. Um "outsider" a quem a crítica "instalada" nunca fez justiça. Bem pelo contrário. Tal pai, tal filho. Razão de sobra para aqui tentar fazer justiça. Como seu familiar sou com certeza suspeito. Mas não me importo. Porque a sua obra sempre me tocou, sempre me disse mais do que muitas outras. Por isso, moralmente, tenho o dever de dizer:

Obrigado Tio,

Bravo! Obrigado pela tua obra, que desde miúdo admiro e que sempre a alma me encheu. As cores fortes, os espaços monocromáticos, o traço marcante e único. Ninguém nunca pintou a sua cidade como tu o fizeste. Coimbra ficará imortalizada para sempre. Nenhuma cidade do mundo teve esse privilégio. Quem mais? O de ser pintada de todas as cores. Uma de cada vez. Pintas o Céu e o Mondego da cor das casas tristes que se encavalitam pela Couraça de Lisboa afora. Vejo os telhados de Coimbra pintados na cor do azul do mar cristalino. Onde traineiras da mesma cor labutam para dar de comer às mulheres de preto que esperam na praia. Na praia azul, onde o soldado desconhecido, no dia D, também luta para salvar a sua pele, e a do mundo, numa manhã de nevoeiro azul. E as catedrais castanhas, molhadas pela chuva castanha daquele dia castanho? E os pássaros, que aos magotes esvoaçam no céu vermelho? De quem fogem? E as almas, tantas, nós todos… para onde vamos?

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27/05/08

Oportunidade!


Bónus, Bónus, Bónus: Se comprar nas próxima 48 horas ainda ganha um bonito saco azul, FANTÁSTICO, cheio de comentadores paupérrimos e pseudo-intelectualóides de merda! Porreiro Pá!

22/05/08

Notas Presas e Combustíveis!


Cartoon sobre Sócrates publicado em 2005 no jornal «Le Monde»! Mais actual não poderia ser!!!

Mas que ideias? Ideia principal deste último programa: os consumidores que se cuidem porque os preços dos combustíveis vieram para ficar. Nada a fazer. Ponto final. E, portanto, face a esta ideia genial, se o comum dos cidadãos não puder pagar a gasosa dos "engenheiros", nem os lucros milionários dos comilões, sejam eles as petrolíferas ou o próprio estado, que se abarbata com “somente” 60% do preço dos combustíveis, só lhe resta mesmo começar a deixar o carro em casa e a começar a andar nos fabulosos transportes públicos (de Lisboa). Nossa… que génio! Ouvir uma palavra a Vitorino, um comentário que fosse, sobre a carga brutal dos impostos sobre os combustíveis, sobre o preço do petróleo em euros, e não em dólares, sobre o possível cartel que fixa os preços em Portugal, é que não. Isso é que não. O governo não deixaria, ficaria mal na fotografia. Mas era isso que se exigia. O governo não pode continuar a fazer ouvidos de mercador, a não querer saber, a deixar andar. Não pode!
Mas depois da triste cena, que foi assistir na noite de segunda às “ideias” de Vitorino, eis que temos a infelicidade de assistir a alguns momentos, hilariantes, da sessão das terças da Assembleia da Republica. Eu nunca gostei de Paulo Portas, mas com ele tenho que concordar quando, em resposta ao sorriso amarelo e arrogante do nosso primeiro-ministro, diz “que querem fazer de nós parvos!”. Querem mesmo! Este governo trata-nos como mentecaptos.

aqui falei sobre o logro no preço dos combustíveis em Portugal. É uma verdade indesmentível. E quem assistiu, também na noite de segunda, ao programa prós e contras, não pode ter deixado de tirar a conclusão que, em Portugal, independentemente do que a Autoridade da Concorrência vier agora dizer, as petrolíferas, orquestradas pela Galp, funcionam em Cartel. Aproveitando-se de tudo para, de forma concertada, aumentarem os preços dos combustíveis. Penso que toda a gente percebe isso. Se disserem o contrário, estarão, naturalmente, a mentir. E vão ao ponto de gozar com o povo português! Tal é o descaramento! É que já hoje mesmo, em resposta às acusações de que têm sido alvo, voltaram a aumentar o preço dos combustíveis, depois de o terem feito ontem! Isto é, simplesmente, incrível!

Nós não somos estúpidos, sr. primeiro-ministro! E percebemos muito bem a razão do encobrimento desavergonhado de toda esta situação. As petrolíferas apresentam, tal como a banca e os seguros, lucros altíssimos, como nunca tiveram. Escandalosos, face à actual situação económica do país. E vossas excelências, nada fazendo, aproveitam para encher os cofres do estado. Em nome do sacrossanto défice e dos faustosos gastos em mordomias, assessorias e outras coisas terminadas em ias! Bravo! O sr. primeiro-ministro, reconhecendo e afirmando que foi um decreto-lei de 2003, feito pelo governo do PSD com a pretensão de liberalizar o sector, o principal responsável por toda a actual situação no mercado dos combustíveis, limita-se a aproveitar-se dele, usa-o como arma de arremesso político e nada faz. Nada mesmo. Antes pelo contrário. Vai ao ponto de dizer que agora, SÓ 60% do preço dos combustíveis vai para os cofres do estado, contra os 69% cobrados em 2003. Meu Deus! Mas, como dizia Portas, é isto comparável?! É óbvio que o Estado arrecada hoje uma receita em impostos sobre os combustíveis várias vezes mais elevada do que naquele tempo. Um autêntico maná! Não sabemos é para onde vai tanto dinheiro. Portanto, não é preciso ser um génio para perceber todo este logro, toda esta vergonha.

Este governo, que de socialista nada tem, aliás, que o envergonha até, tem a ousadia de não intervir nesta situação, deixando que o mercado, que ele próprio reconheceu como não funcionando, regule esta sua verdadeira obra-prima do liberalismo e do capitalismo selvagem. Uma autêntica vergonha, só possível em países ditatoriais terceiro-mundistas. Assim se começa também a perceber o interesse do sr. primeiro-ministro pela América latina…

Cartoon de Carlos Laranjeira, retirado daqui

20/05/08

As Alternâncias Climáticas e as suas Consequências

Neste local da Serra da Boa Viagem já esteve o Atlântico!
Alfredo Fernandes Martins – Professor de Geografia da Universidade de Coimbra

A cidade da Figueira da Foz vista da Serra da Boa Viagem

Numa viagem de estudo à Serra da Boa Viagem, o meu Mestre, Professor Alfredo Fernandes Martins, num local próximo da meia encosta desta serra, escavou e retirou do solo, fósseis conchíferos marítimos e disse convicto: “Aqui já esteve o Atlântico!”.

Arenitos na Serra da Boa Viagem
Surpreendido, regressei aos meus tempos liceais de Geografia (no primitivo liceu José Falcão), para reler as eras de glaciação (Gunz, Mindel, Riss e a última, Wurm), e os seus respectivos períodos interglaciares, de degelo, pelo aquecimento global. Como escreve J.M. Roberts: “Nos quatro períodos glaciares ocorridos, todos, no último milhão de anos…”. Isto é, nos últimos períodos recentes, ou pleistocénicos.
Neste contexto, também, procurei esclarecer-me, no âmbito científico, das causas destas alternâncias climáticas e, obviamente, das suas consequências no controverso aquecimento global, a elas associado. Para começar procurei o astrónomo sérvio Milutin Milankovitch (1879-1958). Este cientista responsabiliza os períodos cíclicos das alternâncias climáticas, pela variação da precessão do periélio e da excentricidade da órbita da Terra em torno do Sol. O efeito dos muitos corpos celestes também influencia a variação da obliquidade da eclíptica, de 22,1° a 24,5° em torno do valor médio de 23,4°, com um período da ordem de 41 mil anos, conhecido como ciclo de Milankovitch. As evidências indicam também que o ciclo climático mais importante é da ordem dos 100 mil anos, o que coincide com o ciclo de excentricidade. Por outro lado, a variação em excentricidade, por si só, é um factor que pouco influencia a variação da insolação na Terra. De notar que a idade do gelo se reforça, pois quando a Terra está coberta de gelo ela reflecte mais luz do Sol para o espaço, aumentando o seu arrefecimento. Também antes, já em 1870, na mesma procura, o escocês James Croll, justificava as alternâncias e suas consequências pelas oscilações do eixo terrestre em relação ao Sol. Por outro lado, os americanos Saltzman e Kikmasch, justificam cientificamente, que as alternâncias climáticas resultam da capacidade dos oceanos em retirar o dióxido de carbono e libertá-lo, novamente, para a atmosfera. Processo conhecido por Ciclo Carbónico. Aliás, neste mesmo sentido, o cientista francês R. Revelle concebeu a Bomba Biológica, resultante da retirada do dióxido de carbono da atmosfera que é levado para as profundidades oceânicas. Recuando, o geógrafo e matemático J. Achemar, admitiu também, em 1842, como os cientistas já referidos, que as alternâncias climáticas e os seus períodos interglaciários são causados por variações da órbita da Terra em volta do Sol.
Movimentos do eixo da terra
As culpas são humanas, como têm sido divulgadas e, ainda por cima, com a aberração de aproveitamentos políticos?
Constata-se que a diversidade de culpas humanas, pelas alternâncias climáticas e consequente aquecimento global, contrariando as causas científicas citadas atrás, baseia-se essencialmente no chamado efeito de estufa, provocado pelo efeito de emissões volumosas de dióxido de carbono para atmosfera proveniente de toda a actividade humana, acompanhadas por emissões de outros compostos nocivos para a atmosfera (buraco na camada de Ozono), como os clorofluorcarbonetos (CFC e CF) ou os perfluorcarbonetos (PFC).

Em termos comparativos das alternâncias climáticas e períodos interglaciares, com culpas para o homem, justificadas na actualidade, são as mesmas culpas, para as anteriores eras glaciares alternadas com períodos interglaciares, com o mesmo aquecimento global?

Neste esclarecimento de culpas, transcrevo J.M. Roberts no seu livro “História Ilustrada do Mundo”; “Os períodos interglaciares eram bastante semelhantes ao actual período, com a principal consequência o aquecimento global da Terra”. E, acrescenta: “Todo o avanço como o retrocesso dos gelos foram catastróficos para o ambiente”.

Neste ciclo do retrocesso dos gelos, no actual período interglaciar, ninguém poderá impedir a subida e o avanço do Atlântico, para cumprir as suas funções cíclicas que lhe foram atribuídas. Engolirá as montanhas de dunas e arribas. Os esporões e as barreiras ou paredões de pedregulhos, serão engolidos como rebuçados. Na revista Única, Luísa Schmidt, que acompanha com interesse esta subida escreve: “De Moledo à Ria Formosa as praias recuam, as arribas esboroam-se. Por mais obras que se façam”. Naturalmente que esta situação trágica no litoral atlântico, obriga a defesas, mesmo sendo ineficazes, somente para minorar as angústias das populações que aí vivem.

No contexto nacional, o Programa Finisterra, o Plano de Ordenamento da Orla Costeira, com maior relevância. Recentemente, uma agência única, composta por uma centena de personalidades, para divertimento do Atlântico…

No âmbito internacional, destacam-se, o Projecto Internacional da Geosfera e Biosfera (IGBP), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e o Protocolo de Quioto. Recentemente, o espectáculo-ambiente, tipo americano, de Al Gore. Os projectos dos governantes ambientalistas dos países poluidores e os projectos de elevada relevância dos países da EU, mais para redução das emissões do dióxido de carbono, alinham-se para a luta, nesta revolução ambiental.

O que está em causa, não são barreiras contra os ciclos das alternâncias climáticas e suas consequências, com o seu aquecimento global, mas sim uma revolução ambiental. Revolução para a conquista de uma vivência adaptada a estas mudanças, irreversíveis. Adaptação a novas normas ou conceitos, intrínsecos a essa nova vivência impostas por leis naturais. Caso contrário, a vida planetária, desaparecerá. Esta revolução em termos de adaptação a estas consequências climáticas, tem um poderoso aliado, alertado pelo astrofísico Martin Rees (entrevista, no jornal “Público”, em 2003): “Há 50% de hipóteses de um retrocesso civilizacional catastrófico neste século XXI”. Isto é, sem adaptação, a humanidade não sobreviverá a essas consequências, que vão prolongar-se por milhares de anos.

Neste contexto, condicionado às diferenças geo-climáticas, o degelo dos glaciares no continente asiático, ameaça milhões de pessoas. O aquecimento global, no seu ciclo irreversível, está a derreter os glaciares árcticos e tropicais. As correntes ou frentes frias libertadas pelo degelo árctico, descem para as baixas latitudes, provocando trágicas tempestades e chuvas diluvianas. Resultante do impacto das baixas pressões destas latitudes. Este nosso reduto costeiro atlântico, não escapa a estes impactos climáticos. É certo que não está sujeito às catástrofes directas como nos países sujeitos ao degelo das camadas espessas de gelo, mas sim, com maiores impactos, à subida do Atlântico e aquecimento global. Sendo assim, torna-se necessário e urgente que seja dada a conhecer a realidade dos ciclos da subida do Atlântico. É que na realidade ninguém poderá impedir o desaparecimento da nossa actual orla costeira. Esta é que é a verdade que deve ser interiorizada, planeando-se o futuro de forma a minorar as consequências desse efeito. E isto, que parece tão evidente, tem sido, lamentavelmente, descurado pelas autoridades portuguesas, muito por ignorância da sua classe política, continuando-se a gastar rios de dinheiro em planeamento e obras que serão, num futuro mais ou menos próximo, engolidas pelo mar.

Consequência positiva deste fenómeno, o facto da rede fluvial voltar a ser beneficiada. Nos últimos séculos da Idade Média, existiam 35 portos fluviais, a nível nacional. No distrito de Coimbra, 4 portos, Coimbra, Montemor-o-Velho, Verride e Soure. Com o recuo da orla costeira, o que vai acontecer? Obviamente que obrigará a um realinhamento costeiro, com cotas num espaço – no interior - conducente com a previsão do fim do avanço do Atlântico. Estudos divulgados sobre a subida deste oceano confirmam que o seu nível se elevou a cerca de 120 metros, nos últimos quatro mil anos. Neste mesmo sentido, o seu nível elevar-se-á mais de 6 metros até 2100. Na Serra da Boa Viagem, e na referida aula do Professor Fernandes Martins, os fósseis conchíferos marítimos, foram localizados acima dos 50 metros do nível actual do Atlântico.

Afinal estas alternâncias climáticas e suas consequências, com o seu aquecimento global, são culpas humanas? Uma pergunta, portanto: Se ninguém pode impedir os movimentos de rotação e translação, bem como o movimento de precessão do eixo terrestre, comandados ciclicamente por funções intrínsecas ao planeta terra e aos astros que o rodeiam, como é possível impedir as alternâncias climáticas, sendo que estas, segundo os cientistas referidos, são consequência daqueles?

Estudo efectuado pela Unviversidade de Delaware, nos Estados Unidos, sobre a subida do nível do oceano. A vermelho, na imagem da esquerda, a terra que provavelmente será perdida até ao fim deste século. Veja-se a consequência do aumento até 15 m, imagem da direita, devido ao degelo combinado da parte oeste da Antártida e da Gronelândia, que significaria submergir cidades inteiras da orla costeira.

A sobrevivência, naturalmente dramática, das populações que vivem na actual orla costeira, só se conseguirá, com o seu recuo. Não um recuo com a fuga ao Atlântico, mas sim, para proporcionar um novo espaço de vivência, com aproveitamento para adquirir melhores valores, em todos os seus aspectos. Especificamente, harmonizar o seu ambiente, com a paisagem humanizada. No entanto, esta nova perspectiva de vivência, só é possível, com a inovação e dinâmica de novos quadros humanos, especializados e nunca politizados, desde os geógrafos a arquitectos paisagistas e ambientalistas, motivados para os ciclos de mudanças climáticas. E, consequentemente, às mutações, desaparecimento e novas, na diversidade de espécies, na flora, fauna e noutras manifestações de vidas. Outros ecossistemas e nichos ecológicos devem ser protegidos. Já agora, já nesta revolução ambiental, algumas fugas que traíram o ambiente. Dois casos, os mais expressivos, entre outros. O primeiro. Recordo o Professor Mário Silva. Este ilustre cientista criou no Museu Nacional da Ciência e da Técnica, que fundou, a secção de Ecologia e Ambiente, em 1975, tendo aberto uma exposição permanente sobre esta temática no antigo edifício da Legião Portuguesa, à Rua Fernandes Tomás, em Coimbra. Esta sua iniciativa já se fundamentava na previsão das consequências das alternâncias climáticas. Daí, promoveu, nesta secção, aulas de elevada motivação ambiental, que mereceram dos interessados, principalmente, alunos liceais e universitários. Teve apoios de empresas industriais e da Philips, com a oferta de um aparelho para detectar a poluição atmosférica. Infelizmente, a sua morte provocou outras duas. A do seu Museu, abandonado por todos, com o seu ideal científico herdado da cientista Madame Curie, e o seu ideal Ambientalista, hoje, tão aclamado. O segundo caso. O “Jornal de Notícias”, de 4 de Maio de 1980, publicou um artigo sobre uma distinta investigadora, licenciada em Física, eng.ª Ermelinda Duarte de Oliveira. No Polytechnic of Central, em Londres, apresentou a sua tese sobre o perigo dos resíduos nucleares, que estavam a ser lançados, em bidões, no Atlântico Norte. Na altura, alertou o Governo português, para o perigo deste lixo nuclear, já a 500 km da costa portuguesa. A resposta do Governo, citando o referido jornal: “Que (Eng.ª Ermelinda Duarte de Oliveira), se limitasse a tomar conta da casa, das crianças, ser mãe e esposa”.

Estas mortes não convenceram. Mas acreditam que as muralhas, mais com cimento político, podem travar o avanço e subida do Atlântico. Serão engolidas, como as outras barreiras, atrás referidas.

CN - Geógrafo