Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

31/05/08

Discurso Político

Resolvemos neste “post” dar a palavra a um deputado. Não! Esperem! Não desistam já! Não se trata de um discurso igual aqueles que estão habituados a ouvir aos actuais deputados. Não senhor. Trata-se do discurso proferido pelo deputado Ilídio Sardoeira no dia 11 de Março de 1976 na Assembleia da Republica. O professor Ilídio Sardoeira foi deputado do extinto partido MDP/CDE, que tanta falta faz à nossa pobre democracia.

Cartaz de propaganda eleitoral do MDP/CDE

O discurso, que encontrei on-line por acaso, merece ser lido por vários motivos:
1º- Temos saudades da eloquência dos oradores do passado e que hoje, simplesmente, desapareceram do debate político. Os discursos que ouvimos no parlamento são dramaticamente pobres. Salvo raras excepções, os partidos estão inundados de politiqueiros que só estão na política para se servirem. A política portuguesa foi tomada de assalto pelo compadrio e o seguidismo. As convicções desapareceram e as ideias são nulas. Este discurso mostra como deveria ser o discurso político, das ideias, das convicções. É a antítese dos vazios que actualmente escutamos.
2º- O professor Sardoeira aborda um tema bem actual na nossa sociedade. A questão da Educação. Embora num contexto histórico completamente diferente, pois não negamos que no pós-25 de Abril a maioria do povo português vivia miseravelmente, numa sociedade quase medieval, seria bom que os nossos políticos lessem este discurso para perceberem, de uma vez por todas que, enquanto os problemas socioeconómicos da população portuguesa não forem resolvidos, jamais teremos o problema da Educação resolvido. Como bem diz Sardoeira: a escola é o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la. Sacudindo a água do capote, os actuais governantes resolveram, LAMENTAVELMENTE, culpar os professores pelo estado do ensino em Portugal. Quando estes, em meu entender, são igualmente vítimas. Agora, duplamente castigados. Por isso, aos primeiros, recomendo-lhes a leitura deste discurso. Pode ser que aprendam alguma coisa, já que a escola não lhes serviu de muito.
3º- O tema Liberdade tem sido palco de discussão intensa nalguns blogues, como no 5 Dias. Li coisas que me deixaram profundamente amargurado. Para aqueles que as escreveram, talvez este discurso lhes possa ensinar algo também. Uma ideia pelo menos. É que, segundo Sardoeira, a liberdade tem pelo menos um preço: o não sabermos usar dela em favor dos outros.
4º- Finalmente, este discurso recorda-nos temas que este blogue já focou. A profunda mesquinhez do antigo regime que teimosamente perseguia os seus opositores, mesmo depois de mortos. Naquele dia, Sardoeira evocou os acontecimentos ocorridos no funeral de Bento de Jesus Caraça. Curioso é que o testemunho que Sardoeira relata foi precisamente o do Professor Mário Augusto da Silva, a quem este blogue já dedicou vários “posts”. Além disso, já aqui tínhamos referido os tristes acontecimentos ocorridos no funeral de Abel Salazar, relatados por Alda Luís Gomes. Com entendi que se tratava de um testemunho muito importante sobre a nossa história recente, publiquei-o aqui.
Eis o discurso na íntegra, ou melhor, a lição do deputado Ilídio Sardoeira.
O Sr. Presidente (Vasco da Gama Fernandes): - Tem a palavra o Sr. Deputado Ilídio Sardoeira.
O Sr. Ilídio Sardoeira (MDP/CDE): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: A aprovação em recente plenário desta Assembleia do preceito que estabelece que os funcionários e agentes do Estado e das demais entidades públicas não podem ser prejudicados ou beneficiados em virtude do exercício de quaisquer direitos políticos previstos na Constituição, designadamente por opção partidária, coincidiu com a notícia de que o Prof. Mário Silva, expulso da sua Universidade em 1947 em consequência de uma opção política consentida pelos governantes de então, iria dar a sua última lição em dia a marcar para a próxima Primavera. Mesmo que tardiamente, a Primavera chega sempre para aqueles que se consagram à defesa dos direitos fundamentais.
Nós afirmaremos aqui, e supondo-nos intérpretes do consenso desta Assembleia, que o conhecido colaborador de M.me Curie, com ser afastado da sua cátedra, deu com a sua vida uma lição da maior valia. E essa decorre da exemplaridade da sua conduta cívica. Esta breve alusão a uma injustiça que foi paradigma impiedoso de uma estratégia política que levou a classe docente às portas da mendicidade e da mediocridade funcional e o ensino, em Portugal, a um impasse complexo e com raízes de difícil deslaçamento e correcção, esta breve alusão, dizia, remete-se para um acontecimento que merece ser comunicado a esta Assembleia, até para sublinhar a pertinência do preceito referido. Estávamos em 1948. Precisamente no dia 1 de Julho. Durante um encontro, quase casual, com o Prof. Mário Silva recordei uma amizade comum - Bento de Jesus Caraça. Vim ontem de Lisboa - logo me informou. Assisti ao seu funeral. Foi uma manifestação impressionante. A polícia não consentiu que o cadáver de Bento Caraça ficasse em câmara ardente, na Casa do Alentejo, mas o cortejo fúnebre não se esquece mais. O silêncio de todos e o invulgar pesar que todos publicamente testemunhavam impressionava quantos, dos passeios, assistiam à sua passagem.
Homens simples abeiravam-se dos amigos ou admiradores de Bento Caraça e perguntavam:- Quem morreu? Quem vai aí?
- Um amigo do povo.
Muitos descobriam-se e desciam à rua por solidariedade. O cortejo engrossava de rua para rua. O silêncio cortava-se à faca; era a voz de um protesto comum. Atrás da urna, depositário da chave, seguia Mário de Azevedo Gomes, seu amigo e companheiro de luta, luta por um Portugal livre onde o direito à justiça não se contunda com uma obra de caridade e a alienação a todos os azimutes não seja o sinal e prova do autêntico civismo. Não acuso: condeno.
Observa-se desatenção da parte da Assembleia.
O Sr. Presidente: - Peço a atenção da Assembleia.
A comunicação do Sr. Prof. Sardoeira tem uma importância, tem uma emoção que me parece que exige da nossa parte um pouco mais de respeito e um pouco mais de silêncio.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Ora, quem, como eu, viu e ouviu, nas horas mais difíceis da vida política portuguesa, Mário de Azevedo Gomes, não sabe hoje ainda que mais admirar nele: se a sua figura marfínica e hierática de retábulo, se a sua palavra lúcida e incisiva ou a sua coragem exemplar. Pois bem: ele era o último guardião de um dos melhores obreiros da cultura portuguesa. E não estou a pensar tão-só no mestre, de Matemática que foi, na novidade que havia em Os Conceitos Fundamentais da Matemática ou nessas duas pequenas obras-primas que são A Cultura Integral do Indivíduo e Galileu Galilei. Tenho em mente sobretudo as dezenas de obras que constituíram a inacabada Biblioteca Cosmos, empreendimento a que votou e devotou os últimos anos da sua vida e com que se propunha, além do mais, resistir à colonização cultural em que continuamos a estar mergulhados, por míngua, em nome da política do espírito, de uma revolução cultural autêntica que fosse obra nossa, obra de todos os portugueses com o direito - e o dever - que lhes assistia de pensarem, escreverem e dialogarem livremente.
A Biblioteca Cosmos foi uma obra de resistência ao fascismo, mas também a prova de que, cerceadas as fontes criativas de um povo, é a própria sobrevivência desse mesmo povo que corre riscos - os riscos maiores.
Bento Caraça sabia isso e fazia, à sua maneira, a revolução cultural possível, devolvendo a sua confiança aos outros, certo de que a superação de cada um inclui a possibilidade do fracasso.Por isso, mesmo no seu leito de ferro e de fim, onde o visitámos, com dois polícias de informação postados em frente da sua casa, não lhe morre no rosto aquele sorriso ímpar, sorriso de um homem que confia nos outros e os chama para uma obra e uma esperança compartilhada e possível. Esperança de esquerda, sublinho, porque voltada para a sorte das classes desfavorecidas e para cujo enraizamento na praxis caberá muito concreta responsabilidade aos homens de esquerda deste país. Particularmente aos socialistas e comunistas.Mas regressemos ao termo da última e definitiva jornada de Bento Caraça, ao cemitério dos Prazeres.A multidão pára e aguarda silenciosa. Aguarda o quê? Aguarda quem? Obviamente, a última palavra de justiça e de despedida. É então que se assiste a um acto insólito e que tanto diz sobre o meio século de história que a nova Constituição se propõe ultrapassar.
A polícia aproxima-se de Azevedo Gomes e segreda-lhe o que quer que seja ao ouvido. O professor ouve e cala: o seu gesto dirá o bastante.
Manda que se abra a urna do seu amigo e companheiro de luta; enrola com lentidão as folhas onde escrevera o elogio fúnebre de Bento Caraça e, perante o espanto e a comoção de todos, dispõe a breve mensagem ao lado do cadáver do amigo. Aquele gesto e o silêncio de todos davam a real dimensão da alienação em que caíra um povo. Um povo que não fala, tem medo. Um povo que tem medo não fala. Azevedo Gomes encontrara o gesto genial para exprimir, pelo silêncio, a mensagem de um povo que perdera o direito (expressão de Pascoais) de pensar em voz alta.
Aplausos.
Eu não digo aqui tudo o que penso e quero. Todo o funcionário público, todo o professor em particular, tem ainda hoje um lastro fascista de inibições de que o 25 de Abril o não libertou, por enquanto.
Observei, atento e comovido, o rosto do Prof. Mário Silva que me fez esta descrição: por detrás das lentes espessas dos óculos, os olhos estavam húmidos. Mas, nessa soalheira manhã de Julho, eu via - e revejo agora - o sorriso confiante e saudável de Bento Caraça, sorriso deitado nos ventos da história de que começa a erguer-se, seja por que via for, um rosto novo para o povo português e que será, se os cidadãos portugueses quiserem assumir a responsabilidade que o texto da Constituição já propõe, um rosto socialista.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Chamo a atenção para uma declaração de Pierre Mendès France no seu último livro, onde diz que a sinceridade é o segredo do político. Se os Deputados que elaboraram esta Constituição forem sinceros, e se os portugueses que a vão aplicar são sinceros, eu tenho a esperança de que o rosto ri.
Reparem, Srs. Deputados, que nós não descobri-mos tão-só caminhos novos para o Mundo: criámos um povo chamado Brasil.
Só que a lição não foi tida em conta pelos governantes que o Movimento do 25 de Abril derrubou. Contra os ventos da libertação de que nasceu a Índia, o Congo Belga, as fracções territoriais que compunham os impérios francês, britânico e holandês, contra a indicação do remate da guerra argelina, contra o bom senso e o senso comum, os nossos governantes disseram não.
E aqui temos, com os retornados, o fruto amargo de uma visão estreita da história. O que poderia ter sido conseguido pelos caminhos da paz e da conciliação, graças a um controlado processo de esclarecida democratização, pois que era essa a orientação que salvaguardava os valores de expressão portuguesa, os valores e as gentes, nasce nesses países de uma violência sistematicamente aplicada e mundialmente condenada.
Se os princípios fundamentais já aprovados apontam para uma sociedade sem classes ou para o socialismo, mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder das classes trabalhadoras e pelo caminho de uma liberdade responsável, extensiva à generalidade dos portugueses, permito-me inferir que a nova Constituição situa a nossa comunidade num horizonte de esquerda ou aberto à promoção económica, social e cultural das classes desfavorecidas. O socialismo será o fruto da liberdade em acto e a todos os azimutes para a generalidade dos portugueses.
Assim o quero e espero. Se a ingenuidade não estava aqui representada, eu assumo essa responsabilidade. Faço-o em nome de milhões de portugueses marginalizados pela história e faço-o por amor das crianças e adolescentes a que votei a minha vida.
Não quiseram vender a Pátria hipotecaram-na até consequências imprevisíveis. E o prometido campo de exploração capitalista, oferecido por mais de quinhentos anos ao mundo ocidental, no curto intervalo de uma década, libertou-se, por esforço próprio, à custa de fazendas e vidas, e aconselhou a um grupo de capitães a restituir ao povo colonizador as liberdades perdidas e ao povo colonizado as liberdades nunca alcançadas.
Ora, se por terras nortenhas, entre populações tão carecidas de tudo, que mal têm consciência do cerceamento da própria liberdade, os petardos e as bombas rebentam, eu permito-me adiantar que, até pela violência das acções contra-revolucionárias, o povo aprenderá a reflectir sobre a razão de ser das condições em que tem sobrevivido. A contra-revolução pode vir a ser um processo de aceleração do movimento iniciado em 25 de Abril.Facto esse que ficará a comprovar que há ainda, entre nós, portugueses que não aprenderam com os erros de um passado recente a corrigir vias de actuação condenadas pela história.
Em nome de Cristo ou de Marx - e por que não por ambos de mãos dadas? - o homem português há-de ser descido da cruz em que o pregaram minorias satisfeitas por intermédio de frios executores de práticas alimentes.
Aplausos.
A longo prazo, o processo histórico em que todos estamos envolvidos é irreversível e visa o bem comum. Entre nós - e isto foi sublinhado durante o Concílio Ecuménico por um cardeal nórdico, salvo erro - os cristãos parecem empenhados em que a justiça social se fique a dever a Marx. Descrente desde a adolescência, começo a acreditar que Deus, no século XX, está a escrever direito pelas linhas da esquerda.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Depois de cinquenta anos de opressão e repressão, a liberdade tem um preço. Entre os vários este: o não sabermos usar dela em favor dos outros. Por exemplo: da criança portuguesa. O Deputado Gonçalves Sapinho referiu, há dias, que há milhares de alunos sem aulas e milhares de professores sem colocação. Mau é que isso esteja a acontecer. Mas vamos supor que no próximo ano lectivo esta mazela burocrática fica sanada. Os educandos encontram os educadores em disponibilidade. O nosso sistema educativo entrou nas calhas da solução justa, mesmo ao nível da escolaridade platonicamente obrigatória? É óbvio que não.
Os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz sócio-económica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos.
Eu não sei de quanto tempo disponho para mostrar exactamente, ou demonstrar esta tese: que a escola não resolve os fracassos escolares. Os fracassos escolares são resolvidos pelos adultos, pela sociedade em que a escola se insere.
O Sr. Presidente dirá quantos minutos me concede para eu fazer uma súmula que esclareça a Assembleia sobre um ponto que me parece essencial.
O Sr. Presidente: - Não tenho coragem, Sr. Deputado, de lhe cortar a palavra. Faz favor de continuar.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador:- A escola é o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la.Vou apontar sumariamente questões que, no seu desenvolvimento, cada uma daria uma intervenção. Não vou apresentar hipóteses, mas factos concretos.A subnutrição da mãe grávida e o crescimento da placenta estão em íntima ligação, na própria medida em que, numa mãe que durante a gravidez é mal nutrida, a placenta que alimentará o filho não se desenvolve. Essa criança é uma criança marcada para toda a vida. Logo: alimentação - criança que não se desenvolve convenientemente é um fracasso escolar, é um atraso mental à vista. Este é um problema de adultos, não é um problema que se resolva em qualquer escola do País.
Aplausos.
Há muitas crianças entre nós cujo nascimento é prematuro. Ora, provou-se recentemente, em Helsínquia, que uma criança nestas condições não dispõe de mecanismos bioquímicos enzimáticos capazes de eliminar determinados aminoácidos, e esses aminoácidos concentram-se nos neurónios cerebrais e isso é uma das causas de um tipo de atraso cerebral. O próprio leite industrial que se fornece às crianças, se não tiver a composição adequada, conduz ao mesmo efeito. Logo, crianças lançadas na escola submetidas a este tratamento são crianças marcadas, são crianças fracassadas. Isto é da responsabilidade das sociedades em que elas se inserem, não da escola.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Até aos 4 anos o cérebro representa 90 % da totalidade do peso do corpo.O corpo representa apenas 20 % das necessidades das proteínas para a multiplicação dos neurónios; por outras palavras, isto significa que nós temos de fornecer a uma criança que nasce, até aos 4 anos de idade, as proteínas necessárias. De outra maneira, numa fase em que os neurónios estão em rápida multiplicação, eles não atingem na qualidade e na quantidade um cérebro normal. Uma criança sem proteínas é uma criança marcada e condenada à um fracasso escolar. Ora, as crianças dos nossos meios rurais não comem proteínas, que são hoje alimentos caríssimos, e não as comem até por ignorância: vendem os ovos para comprar a broa.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Ora, as crianças, o povo que não é esclarecido a este respeito, está a criar condições nos seus filhos para que eles fracassem no domínio escolar. Os meios de comunicação - é urgente - deviam pôr-se ao lado da escola, do professor da criança, informando-os das consequências e das razões que levam a estes fracassos.
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Em vez de gastarem páginas sobre páginas a falar de crimes, de roubos, etc., eles deveriam apontar as causas. Por exemplo, um psiquiatra, há dois anos na Gulbenkian, que está (isto interessa aos juristas) a trabalhar numa penitenciária belga, de Waelle, que recebe um criminoso condenado a vinte anos, estuda o seu processo e depois estuda o próprio prisioneiro. Ao fim de meses, ou de anos, diz ele, conclui que a causa é remota, a causa vem de antes dos 3 anos. Porquê? Porque se as crianças entre os 2 e os 3 anos não são levadas a realizar operações motrizes elementares, por exemplo, abrir, carregar num interruptor, tocar uma campainha, aparafusar seja o que for, enfim, os problemas que surgem em todas as casas, se o pai o proíbe, se o pai não indica como é que se executam essas operações, a criança começa a encontrar no mundo que a rodeia razões para a sua hostilidade. Esse psiquiatra diz que a causa fundamental da delinquência infantil está nisso, em não sabermos como educar uma criança até aos 3 anos de idade no domínio da motricidade. É um apelo urgente que se tem de fazer ao nosso país neste sentido.Por outro lado, há o problema da oralidade: uma das causas dos fracassos escolares está na dificuldade que grande parte das crianças tem em ler, em aprender a ler, no ano que é concedido a essa criança. Porque é que a criança não aprende a ler? Está provado que ela precisa de ser, entre os 2 e os 4 anos de idade, sujeita a trabalhos de oralidade.A falta do ensino pré-primário, de infantários, de creches e até da consciência dos pais, da consciência dos burgueses, faz com que a criança, não sendo preparada para a oralidade, vá fracassar na leitura, e fracassando na leitura fracassa, de uma maneira geral, em tudo.São isto, portanto, problemas que não têm que ver com a escola mas com a sociedade, com a ignorância das pessoas, com a não aplicação dos processos de informação a problemas tão graves como este.
Evidentemente que mesmo aqui em Lisboa há pouco tempo um pai que era metalúrgico foi saber do rendimento da filha, que era mau. Conversou com a professora, e a professora disse-lhe que a filha não dava rendimento, e lá lhe confessou porquê. O pai, discordando, diz:
- Não, a culpa é da senhora!
- Mas porquê? - Pergunta a professora.
- Eu ganho 10 000$ e a senhora 6000$. Como é que uma pessoa ganhando 6000$ pode preparar bem uma criança?
Vozes: - Muito bem!
Aplausos.
O Orador: - Outro problema importante é o que se chama agora o «terrorismo linguístico».As crianças dos meios desfavorecidos, dos meios rurais, têm a linguagem dos seus pais - a linguagem autorizada é a que falam os pais, os irmãos, a família. Quando ela é transferida para a escola, particularmente para a escola do ciclo, ela encontra outros homens, outras roupas, outra linguagem, ela encontra a recusa, a rejeição da linguagem da sua própria família.
Isto implica, o que se chama um traumatismo linguístico. Enquanto os professores não estiverem informados a este respeito, eles não saberão nas suas escolas defender uma criança que traz palavras da boca dos pais que são recusadas e condenadas pela própria escola, colonizada pela classe burguesa.
Aplausos.
Outra razão: está provado que num país onde existem centros culturais de toda a ordem, centros recreativos, actividades culturais, meios de informação adequados aos níveis etários, o rendimento escolar é maior. Como é que num país como o nosso onde a comunicação foi proibida durante cinquenta anos, nós podemos esperar que a escola tenha o rendimento adequado? Por exemplo: a República da Alemanha Oriental tem fracassos escolares da ordem dos 4 %. Um livro sobre fracassos escolares dos franceses afirma que os portugueses nas suas escolas têm fracassos da ordem de 40 %. Quatro, quarenta! E o capítulo é este: isto é um milagre? Não, isto é conhecimento concreto das crianças, uma modificação ao longo de trinta anos das condições económicas do povo alemão, aqui é que está o segredo do êxito na escola. Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.
Fala-se aqui no 1.º de Maio e eu li um belo trabalho da Sophia, considerando que era uma ressurreição de um povo. Não é! É um momento de criatividade de um povo que de repente se sente livre. Mas não é a ressurreição de um povo; essa depende dos actos dos Portugueses, dos actos de todos os portugueses, dos actos concretos, das acções concretas. É esse apelo que eu faço aos presentes.
Eu sou professor; acho que o segredo de um professor está em nunca cortar raízes com a criança que foi, levá-la para as suas aulas, pela sua própria mão. Essa criança trouxe eu hoje. Está ali invisível e concreta. Ela está a acusar, através desta Assembleia, a falta de coragem dos Portugueses em não terem resolvido, nas ruas, os problemas que surgem nas escolas.Eu espero que no futuro esse problema seja resolvido definitivamente.Disse.
Aplausos prolongados de pé.
O Sr. Presidente: - Srs. Deputados: Suponho que raras vezes uma infracção regimental foi tão justificada como aquela que acaba de ser praticada, com a consideração e com o respeito e a profunda compreensão do Presidente.
Aplausos.
Na última sessão saímos todos comovidos com a invocação que aqui se fez das figuras tutelares da democracia portuguesa, que criaram um ambiente pela sua pertinácia e pelo seu heroísmo cívico para que conseguíssemos ser gente, e conseguirmos estarmos todos reunidos numa Assembleia deste tipo, hoje.
Não se levará a mal a um homem que vive mais do coração do que da inteligência, que é o meu caso, que diga ao professor Sardoeira quanto me comoveu a invocação de algumas figuras, que foram meus companheiros nas lutas iniciais contra o fascismo, dando-se até a coincidência das minhas profundas discordâncias com o Prof. Bento Caraça, mas que sempre respeitei e admirei e amei (no bom sentido da palavra), pela sua direitura moral, pelo seu proselitismo, pela sua pedagogia actuante, pelo exemplo extraordinário que deixou às juventudes vindouras e que não se vai perder com certeza.
Outras figuras aqui surgiram, como o Prof. Azevedo Gomes, outro grande amigo que perdi, o Prof. Mário Silva, felizmente vivo, embora em condições deficientes da sua visão.Acabámos de ter um momento muito alto, que fica bem numa Assembleia que por vezes é rotineira numa discussão materialista de preceitos da sua Constituição. Pode V. Ex.ª ter a certeza, Sr. Prof. Sardoeira, de que o Presidente poucas vezes terá conscientemente, tão conscientemente, violado o seu Regimento. Vamos continuar.
Aplausos.
Pausa.
Se existem pedidos de esclarecimento, eu pediria aos Srs. Deputados que não me obriguem a continuar a infringir o Regimento. Guardaríamos para amanhã as perguntas que se entende que se devam fazer ao Sr. Prof. Sardoeira, porque efectivamente há regras que têm de ser cumpridas, embora contrariamente, por vezes, com os nossos pontos de vista e com a nossa sensibilidade.
Vamos continuar a trabalhar e tenho a impressão de que continuando a trabalhar, pelo que vamos fazer, honraremos, sem dúvida nenhuma, a memória dessas figuras tutelares que foram tão sentidamente invocadas pelo Prof. Sardoeira.
ORDEM DO DIA…

29/05/08

O Mestre da Cor

Pintura a óleo de Mário Silva de 1969, pertencente ao período dos barcos
Já aqui falámos do Professor Mário Augusto da Silva. Chegou a hora de homenagear o seu filho, o pintor Mário Silva. Provavelmente um dos maiores pintores e escultores portugueses contemporâneos. Um "outsider" a quem a crítica "instalada" nunca fez justiça. Bem pelo contrário. Tal pai, tal filho. Razão de sobra para aqui tentar fazer justiça. Como seu familiar sou com certeza suspeito. Mas não me importo. Porque a sua obra sempre me tocou, sempre me disse mais do que muitas outras. Por isso, moralmente, tenho o dever de dizer:

Obrigado Tio,

Bravo! Obrigado pela tua obra, que desde miúdo admiro e que sempre a alma me encheu. As cores fortes, os espaços monocromáticos, o traço marcante e único. Ninguém nunca pintou a sua cidade como tu o fizeste. Coimbra ficará imortalizada para sempre. Nenhuma cidade do mundo teve esse privilégio. Quem mais? O de ser pintada de todas as cores. Uma de cada vez. Pintas o Céu e o Mondego da cor das casas tristes que se encavalitam pela Couraça de Lisboa afora. Vejo os telhados de Coimbra pintados na cor do azul do mar cristalino. Onde traineiras da mesma cor labutam para dar de comer às mulheres de preto que esperam na praia. Na praia azul, onde o soldado desconhecido, no dia D, também luta para salvar a sua pele, e a do mundo, numa manhã de nevoeiro azul. E as catedrais castanhas, molhadas pela chuva castanha daquele dia castanho? E os pássaros, que aos magotes esvoaçam no céu vermelho? De quem fogem? E as almas, tantas, nós todos… para onde vamos?

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27/05/08

Oportunidade!


Bónus, Bónus, Bónus: Se comprar nas próxima 48 horas ainda ganha um bonito saco azul, FANTÁSTICO, cheio de comentadores paupérrimos e pseudo-intelectualóides de merda! Porreiro Pá!

22/05/08

Notas Presas e Combustíveis!


Cartoon sobre Sócrates publicado em 2005 no jornal «Le Monde»! Mais actual não poderia ser!!!

Mas que ideias? Ideia principal deste último programa: os consumidores que se cuidem porque os preços dos combustíveis vieram para ficar. Nada a fazer. Ponto final. E, portanto, face a esta ideia genial, se o comum dos cidadãos não puder pagar a gasosa dos "engenheiros", nem os lucros milionários dos comilões, sejam eles as petrolíferas ou o próprio estado, que se abarbata com “somente” 60% do preço dos combustíveis, só lhe resta mesmo começar a deixar o carro em casa e a começar a andar nos fabulosos transportes públicos (de Lisboa). Nossa… que génio! Ouvir uma palavra a Vitorino, um comentário que fosse, sobre a carga brutal dos impostos sobre os combustíveis, sobre o preço do petróleo em euros, e não em dólares, sobre o possível cartel que fixa os preços em Portugal, é que não. Isso é que não. O governo não deixaria, ficaria mal na fotografia. Mas era isso que se exigia. O governo não pode continuar a fazer ouvidos de mercador, a não querer saber, a deixar andar. Não pode!
Mas depois da triste cena, que foi assistir na noite de segunda às “ideias” de Vitorino, eis que temos a infelicidade de assistir a alguns momentos, hilariantes, da sessão das terças da Assembleia da Republica. Eu nunca gostei de Paulo Portas, mas com ele tenho que concordar quando, em resposta ao sorriso amarelo e arrogante do nosso primeiro-ministro, diz “que querem fazer de nós parvos!”. Querem mesmo! Este governo trata-nos como mentecaptos.

aqui falei sobre o logro no preço dos combustíveis em Portugal. É uma verdade indesmentível. E quem assistiu, também na noite de segunda, ao programa prós e contras, não pode ter deixado de tirar a conclusão que, em Portugal, independentemente do que a Autoridade da Concorrência vier agora dizer, as petrolíferas, orquestradas pela Galp, funcionam em Cartel. Aproveitando-se de tudo para, de forma concertada, aumentarem os preços dos combustíveis. Penso que toda a gente percebe isso. Se disserem o contrário, estarão, naturalmente, a mentir. E vão ao ponto de gozar com o povo português! Tal é o descaramento! É que já hoje mesmo, em resposta às acusações de que têm sido alvo, voltaram a aumentar o preço dos combustíveis, depois de o terem feito ontem! Isto é, simplesmente, incrível!

Nós não somos estúpidos, sr. primeiro-ministro! E percebemos muito bem a razão do encobrimento desavergonhado de toda esta situação. As petrolíferas apresentam, tal como a banca e os seguros, lucros altíssimos, como nunca tiveram. Escandalosos, face à actual situação económica do país. E vossas excelências, nada fazendo, aproveitam para encher os cofres do estado. Em nome do sacrossanto défice e dos faustosos gastos em mordomias, assessorias e outras coisas terminadas em ias! Bravo! O sr. primeiro-ministro, reconhecendo e afirmando que foi um decreto-lei de 2003, feito pelo governo do PSD com a pretensão de liberalizar o sector, o principal responsável por toda a actual situação no mercado dos combustíveis, limita-se a aproveitar-se dele, usa-o como arma de arremesso político e nada faz. Nada mesmo. Antes pelo contrário. Vai ao ponto de dizer que agora, SÓ 60% do preço dos combustíveis vai para os cofres do estado, contra os 69% cobrados em 2003. Meu Deus! Mas, como dizia Portas, é isto comparável?! É óbvio que o Estado arrecada hoje uma receita em impostos sobre os combustíveis várias vezes mais elevada do que naquele tempo. Um autêntico maná! Não sabemos é para onde vai tanto dinheiro. Portanto, não é preciso ser um génio para perceber todo este logro, toda esta vergonha.

Este governo, que de socialista nada tem, aliás, que o envergonha até, tem a ousadia de não intervir nesta situação, deixando que o mercado, que ele próprio reconheceu como não funcionando, regule esta sua verdadeira obra-prima do liberalismo e do capitalismo selvagem. Uma autêntica vergonha, só possível em países ditatoriais terceiro-mundistas. Assim se começa também a perceber o interesse do sr. primeiro-ministro pela América latina…

Cartoon de Carlos Laranjeira, retirado daqui

20/05/08

As Alternâncias Climáticas e as suas Consequências

Neste local da Serra da Boa Viagem já esteve o Atlântico!
Alfredo Fernandes Martins – Professor de Geografia da Universidade de Coimbra

A cidade da Figueira da Foz vista da Serra da Boa Viagem

Numa viagem de estudo à Serra da Boa Viagem, o meu Mestre, Professor Alfredo Fernandes Martins, num local próximo da meia encosta desta serra, escavou e retirou do solo, fósseis conchíferos marítimos e disse convicto: “Aqui já esteve o Atlântico!”.

Arenitos na Serra da Boa Viagem
Surpreendido, regressei aos meus tempos liceais de Geografia (no primitivo liceu José Falcão), para reler as eras de glaciação (Gunz, Mindel, Riss e a última, Wurm), e os seus respectivos períodos interglaciares, de degelo, pelo aquecimento global. Como escreve J.M. Roberts: “Nos quatro períodos glaciares ocorridos, todos, no último milhão de anos…”. Isto é, nos últimos períodos recentes, ou pleistocénicos.
Neste contexto, também, procurei esclarecer-me, no âmbito científico, das causas destas alternâncias climáticas e, obviamente, das suas consequências no controverso aquecimento global, a elas associado. Para começar procurei o astrónomo sérvio Milutin Milankovitch (1879-1958). Este cientista responsabiliza os períodos cíclicos das alternâncias climáticas, pela variação da precessão do periélio e da excentricidade da órbita da Terra em torno do Sol. O efeito dos muitos corpos celestes também influencia a variação da obliquidade da eclíptica, de 22,1° a 24,5° em torno do valor médio de 23,4°, com um período da ordem de 41 mil anos, conhecido como ciclo de Milankovitch. As evidências indicam também que o ciclo climático mais importante é da ordem dos 100 mil anos, o que coincide com o ciclo de excentricidade. Por outro lado, a variação em excentricidade, por si só, é um factor que pouco influencia a variação da insolação na Terra. De notar que a idade do gelo se reforça, pois quando a Terra está coberta de gelo ela reflecte mais luz do Sol para o espaço, aumentando o seu arrefecimento. Também antes, já em 1870, na mesma procura, o escocês James Croll, justificava as alternâncias e suas consequências pelas oscilações do eixo terrestre em relação ao Sol. Por outro lado, os americanos Saltzman e Kikmasch, justificam cientificamente, que as alternâncias climáticas resultam da capacidade dos oceanos em retirar o dióxido de carbono e libertá-lo, novamente, para a atmosfera. Processo conhecido por Ciclo Carbónico. Aliás, neste mesmo sentido, o cientista francês R. Revelle concebeu a Bomba Biológica, resultante da retirada do dióxido de carbono da atmosfera que é levado para as profundidades oceânicas. Recuando, o geógrafo e matemático J. Achemar, admitiu também, em 1842, como os cientistas já referidos, que as alternâncias climáticas e os seus períodos interglaciários são causados por variações da órbita da Terra em volta do Sol.
Movimentos do eixo da terra
As culpas são humanas, como têm sido divulgadas e, ainda por cima, com a aberração de aproveitamentos políticos?
Constata-se que a diversidade de culpas humanas, pelas alternâncias climáticas e consequente aquecimento global, contrariando as causas científicas citadas atrás, baseia-se essencialmente no chamado efeito de estufa, provocado pelo efeito de emissões volumosas de dióxido de carbono para atmosfera proveniente de toda a actividade humana, acompanhadas por emissões de outros compostos nocivos para a atmosfera (buraco na camada de Ozono), como os clorofluorcarbonetos (CFC e CF) ou os perfluorcarbonetos (PFC).

Em termos comparativos das alternâncias climáticas e períodos interglaciares, com culpas para o homem, justificadas na actualidade, são as mesmas culpas, para as anteriores eras glaciares alternadas com períodos interglaciares, com o mesmo aquecimento global?

Neste esclarecimento de culpas, transcrevo J.M. Roberts no seu livro “História Ilustrada do Mundo”; “Os períodos interglaciares eram bastante semelhantes ao actual período, com a principal consequência o aquecimento global da Terra”. E, acrescenta: “Todo o avanço como o retrocesso dos gelos foram catastróficos para o ambiente”.

Neste ciclo do retrocesso dos gelos, no actual período interglaciar, ninguém poderá impedir a subida e o avanço do Atlântico, para cumprir as suas funções cíclicas que lhe foram atribuídas. Engolirá as montanhas de dunas e arribas. Os esporões e as barreiras ou paredões de pedregulhos, serão engolidos como rebuçados. Na revista Única, Luísa Schmidt, que acompanha com interesse esta subida escreve: “De Moledo à Ria Formosa as praias recuam, as arribas esboroam-se. Por mais obras que se façam”. Naturalmente que esta situação trágica no litoral atlântico, obriga a defesas, mesmo sendo ineficazes, somente para minorar as angústias das populações que aí vivem.

No contexto nacional, o Programa Finisterra, o Plano de Ordenamento da Orla Costeira, com maior relevância. Recentemente, uma agência única, composta por uma centena de personalidades, para divertimento do Atlântico…

No âmbito internacional, destacam-se, o Projecto Internacional da Geosfera e Biosfera (IGBP), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e o Protocolo de Quioto. Recentemente, o espectáculo-ambiente, tipo americano, de Al Gore. Os projectos dos governantes ambientalistas dos países poluidores e os projectos de elevada relevância dos países da EU, mais para redução das emissões do dióxido de carbono, alinham-se para a luta, nesta revolução ambiental.

O que está em causa, não são barreiras contra os ciclos das alternâncias climáticas e suas consequências, com o seu aquecimento global, mas sim uma revolução ambiental. Revolução para a conquista de uma vivência adaptada a estas mudanças, irreversíveis. Adaptação a novas normas ou conceitos, intrínsecos a essa nova vivência impostas por leis naturais. Caso contrário, a vida planetária, desaparecerá. Esta revolução em termos de adaptação a estas consequências climáticas, tem um poderoso aliado, alertado pelo astrofísico Martin Rees (entrevista, no jornal “Público”, em 2003): “Há 50% de hipóteses de um retrocesso civilizacional catastrófico neste século XXI”. Isto é, sem adaptação, a humanidade não sobreviverá a essas consequências, que vão prolongar-se por milhares de anos.

Neste contexto, condicionado às diferenças geo-climáticas, o degelo dos glaciares no continente asiático, ameaça milhões de pessoas. O aquecimento global, no seu ciclo irreversível, está a derreter os glaciares árcticos e tropicais. As correntes ou frentes frias libertadas pelo degelo árctico, descem para as baixas latitudes, provocando trágicas tempestades e chuvas diluvianas. Resultante do impacto das baixas pressões destas latitudes. Este nosso reduto costeiro atlântico, não escapa a estes impactos climáticos. É certo que não está sujeito às catástrofes directas como nos países sujeitos ao degelo das camadas espessas de gelo, mas sim, com maiores impactos, à subida do Atlântico e aquecimento global. Sendo assim, torna-se necessário e urgente que seja dada a conhecer a realidade dos ciclos da subida do Atlântico. É que na realidade ninguém poderá impedir o desaparecimento da nossa actual orla costeira. Esta é que é a verdade que deve ser interiorizada, planeando-se o futuro de forma a minorar as consequências desse efeito. E isto, que parece tão evidente, tem sido, lamentavelmente, descurado pelas autoridades portuguesas, muito por ignorância da sua classe política, continuando-se a gastar rios de dinheiro em planeamento e obras que serão, num futuro mais ou menos próximo, engolidas pelo mar.

Consequência positiva deste fenómeno, o facto da rede fluvial voltar a ser beneficiada. Nos últimos séculos da Idade Média, existiam 35 portos fluviais, a nível nacional. No distrito de Coimbra, 4 portos, Coimbra, Montemor-o-Velho, Verride e Soure. Com o recuo da orla costeira, o que vai acontecer? Obviamente que obrigará a um realinhamento costeiro, com cotas num espaço – no interior - conducente com a previsão do fim do avanço do Atlântico. Estudos divulgados sobre a subida deste oceano confirmam que o seu nível se elevou a cerca de 120 metros, nos últimos quatro mil anos. Neste mesmo sentido, o seu nível elevar-se-á mais de 6 metros até 2100. Na Serra da Boa Viagem, e na referida aula do Professor Fernandes Martins, os fósseis conchíferos marítimos, foram localizados acima dos 50 metros do nível actual do Atlântico.

Afinal estas alternâncias climáticas e suas consequências, com o seu aquecimento global, são culpas humanas? Uma pergunta, portanto: Se ninguém pode impedir os movimentos de rotação e translação, bem como o movimento de precessão do eixo terrestre, comandados ciclicamente por funções intrínsecas ao planeta terra e aos astros que o rodeiam, como é possível impedir as alternâncias climáticas, sendo que estas, segundo os cientistas referidos, são consequência daqueles?

Estudo efectuado pela Unviversidade de Delaware, nos Estados Unidos, sobre a subida do nível do oceano. A vermelho, na imagem da esquerda, a terra que provavelmente será perdida até ao fim deste século. Veja-se a consequência do aumento até 15 m, imagem da direita, devido ao degelo combinado da parte oeste da Antártida e da Gronelândia, que significaria submergir cidades inteiras da orla costeira.

A sobrevivência, naturalmente dramática, das populações que vivem na actual orla costeira, só se conseguirá, com o seu recuo. Não um recuo com a fuga ao Atlântico, mas sim, para proporcionar um novo espaço de vivência, com aproveitamento para adquirir melhores valores, em todos os seus aspectos. Especificamente, harmonizar o seu ambiente, com a paisagem humanizada. No entanto, esta nova perspectiva de vivência, só é possível, com a inovação e dinâmica de novos quadros humanos, especializados e nunca politizados, desde os geógrafos a arquitectos paisagistas e ambientalistas, motivados para os ciclos de mudanças climáticas. E, consequentemente, às mutações, desaparecimento e novas, na diversidade de espécies, na flora, fauna e noutras manifestações de vidas. Outros ecossistemas e nichos ecológicos devem ser protegidos. Já agora, já nesta revolução ambiental, algumas fugas que traíram o ambiente. Dois casos, os mais expressivos, entre outros. O primeiro. Recordo o Professor Mário Silva. Este ilustre cientista criou no Museu Nacional da Ciência e da Técnica, que fundou, a secção de Ecologia e Ambiente, em 1975, tendo aberto uma exposição permanente sobre esta temática no antigo edifício da Legião Portuguesa, à Rua Fernandes Tomás, em Coimbra. Esta sua iniciativa já se fundamentava na previsão das consequências das alternâncias climáticas. Daí, promoveu, nesta secção, aulas de elevada motivação ambiental, que mereceram dos interessados, principalmente, alunos liceais e universitários. Teve apoios de empresas industriais e da Philips, com a oferta de um aparelho para detectar a poluição atmosférica. Infelizmente, a sua morte provocou outras duas. A do seu Museu, abandonado por todos, com o seu ideal científico herdado da cientista Madame Curie, e o seu ideal Ambientalista, hoje, tão aclamado. O segundo caso. O “Jornal de Notícias”, de 4 de Maio de 1980, publicou um artigo sobre uma distinta investigadora, licenciada em Física, eng.ª Ermelinda Duarte de Oliveira. No Polytechnic of Central, em Londres, apresentou a sua tese sobre o perigo dos resíduos nucleares, que estavam a ser lançados, em bidões, no Atlântico Norte. Na altura, alertou o Governo português, para o perigo deste lixo nuclear, já a 500 km da costa portuguesa. A resposta do Governo, citando o referido jornal: “Que (Eng.ª Ermelinda Duarte de Oliveira), se limitasse a tomar conta da casa, das crianças, ser mãe e esposa”.

Estas mortes não convenceram. Mas acreditam que as muralhas, mais com cimento político, podem travar o avanço e subida do Atlântico. Serão engolidas, como as outras barreiras, atrás referidas.

CN - Geógrafo

01/05/08

Elementos para a História da Radioactividade em Portugal (III)

A Triste História do Instituto do Rádio de Coimbra...

Nota Introdutória
A história do Instituto do Rádio de Coimbra é talvez uma das principais provas da tese segundo a qual o Estado Novo é o principal responsável pelo atraso científico e técnico, e consequentemente social, de que Portugal padece, face aos seus parceiros europeus mais desenvolvidos. Este apontamento ficará aqui escrito para quem o quiser ler, na certeza, porém, de que contribuirá para a verdade histórica. Espero, deste modo, contribuir para que a deturpação e o branqueamento dos malefícios do Estado Novo, a que tantas vezes temos assistido, possam ser travados.

Fachada do Pavilhão Curie do Instituto do Rádio de Paris, vista da rua Pierre e Marie Curie


O Instituto do Rádio de Coimbra

Fachada do magnífico edifício pombalino onde funcionou o antigo Laboratório de Física da Universidade de Coimbra. As duas salas superiores da esquina albergam hoje o Museu Pombalino de Física. Neste edifício encontram-se igualmente os museus de Mineralogia e de Zoologia da UC. Pena que a Universidade não transforme todo o edifício em Museu. Ao lado, ainda se pode ver a Sé Nova. Em frente, encontra-se o antigo Laboratório Chimico, também pombalino, transformado hoje em Museu(zito) da Ciência. Ao lado dele, o Colégio das Artes alberga, hoje, a maior parte do espólio ABANDONADO do moribundo MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA. Descendo as escadinhas ao lado da Sé, deparamo-nos com o Museu Nacional Machado de Castro. Infelizmente, pouca parra para tanta uva. Aqui poderia ser criado um dos espaços museológicos mais belos do mundo. Aliás, todo este património é do Estado e ao Estado competeria transformar esta zona num magnífico espaço museológico. Mas, infelizmente, estamos em Portugal! Lá diz o ditado: dá Deus nozes a quem não tem dentes...

Como provámos num post precedente, Mário Augusto da Silva foi obrigado a regressar a Coimbra e à sua Universidade, após a conclusão do seu doutoramento em Paris, em 1929, sob a orientação da insigne cientista que foi Marie Curie. Teve a honra de ter defendido a sua tese sobre electroafinidade dos gases perante três eminentes cientistas, todos eles laureados com o Nobel: Madame Curie, Jean Perrin e Debierne. Impedido de prosseguir no Instituto do Rádio de Paris, apesar dos pedidos de Madame Curie dirigidos à Universidade de Coimbra, e ciente da inevitabilidade do seu regresso, muito cedo teve a ideia de criar em Coimbra um Instituto do Rádio semelhante ao de Paris. Naquele tempo ninguém poderia negar o interesse da investigação nesta área científica. As radiações emitidas por isótopos radioactivos continuam a ter um vasto campo de aplicação na Medicina e, por outro lado, a fusão nuclear constituirá a única alternativa energética viável para as gerações do futuro. É a fonte mais poderosa de energia que o Homem conhece. A energia resul­tante das reacções de fusão nuclear é, ao contrário da subjacente às actuais centrais de fissão, uma energia muitíssimo mais "limpa". Esses reactores alimentar-se-ão com a água dos Oceanos! Infeliz­mente, a tecnologia actual não nos permite, ainda, dominá-la [1]. De notar que, em 1929, a Física estava ainda numa época pré-nuclear, pois a estrutura do núcleo atómico só seria desvendada a partir da descoberta do neutrão, alguns anos mais tarde, em 1933, por Chadwick. Descoberta que poderia muito bem ter sido feita, muitos anos antes, em Portugal, como contaremos num futuro post.

Com vista à criação de um instituto dedicado ao estudo da radioactividade e às suas aplicações na Medicina, Mário Silva iniciou uma série de diligências que viriam a culminar na criação da comissão instaladora do futuro "Instituto do Rádio da Universidade de Coimbra". Essa comissão foi consti­tuída por Mário Silva e Ferraz de Carvalho, como representantes da Faculdade de Ciências, e por Álvaro de Matos e Feliciano Guimarães pela Fa­culdade de Medicina. No princípio de 1931 o Insti­tuto do Rádio de Coimbra estava completamente instalado e pronto a funcionar. Contudo, tinha che­gado a hora da vingança. Infelizmente para todos nós, os fanáticos religiosos que, cerca de oito anos antes, se opuseram veementemente a um seu ensaio, publicado num jornal de Coimbra, estavam agora no poder com a faca e o queijo na mão. Foi pois a intolerância religiosa que impossibilitou a realização de uma obra que poderia ter mudado o rumo do ensino e da investigação da Física em Portugal.

De facto, em 1923, Mário Silva publicou no jornal "A Cidade" um magnífico ensaio sobre a origem da vida, intitulado "Sobre o Problema da Génese da Vida... O problema da geração espontânea". Tinha 22 anos e era Assistente do Departamento de Física da Faculdade de Ciências. Nesses artigos discutia como cientificamente se poderia explicar a origem da vida na terra, sem necessidade da intervenção divina. As suas ideias base­avam-se em princípios científicos e não dogmáticos. A intolerância de alguns professores universitários, pertencentes ao C.A.D.C., Centro Académico de Democracia Cristã, nomeadamente, Oliveira Salazar, Manuel Cerejeira e Ferrand de Almeida, foi imediata. Primeiro surgiram as respostas de forma anónima no mesmo jornal, depois, para se ter uma ideia da polémica levantada, refira-se que num outro jornal (Correio de Coimbra) e durante cerca de três meses, duas vezes por semana, foram publicados artigos de resposta com direito a primeira página! Apesar de terem sido assinados por Ferrand de Almeida, Mário Silva sabia perfeitamente da influência de Salazar e Cerejeira. Começava aqui, na verdade, uma perseguição que se prolongaria até ao 25 de Abril. Obviamente que a não promulgação, anos mais tarde, do Decreto-Lei que criaria o Instituto do Rádio de Coimbra foi o corolário daquela polémica e o início de uma perseguição, pessoal, mesquinha e execrável. Posteriormente, sentido directamente na pele a intolerância e o ostracismo a que fora votado, Mário Silva viria a embrenhar-se arduamente na luta pela Liberdade e a Democracia em Portugal. De notar que o que acabámos de desvendar, fruto da investigação que fizemos, pode também explicar muitíssimo bem a razão porque Mário Silva encabeçou a lista dos docentes e investigadores afastados por Salazar, em 1947, das universidades portuguesas. Praticamente como todos os maiores cérebros portugueses, foi aposentado compulsivamente da Universidade de Coimbra, através do célebre e trágico Despacho do Conselho de Ministros (Diário de Governo, série 1, nº 138 de 18 de Junho de 1947). Isto, claro está, após ter estado preso pela PIDE, de forma arbitrária e sem culpa formada, durante mais de dois meses, no verão do ano anterior. Voltaria a estar detido posteriormente.

A geração espontânea... (imagem retirada daqui)

Em 1931, no entanto, Mário Silva preocupava-se somente em continuar os trabalhos de investiga­ção científica que tinha iniciado em Paris. Não deixou contudo de denunciar a perseguição. Fê-lo, no auge do Estado Novo, cerca de oito anos após a criação do Instituto do Rádio de Coimbra, num artigo publi­cado no jornal «Notícias de Coimbra», no dia 4 de Dezembro de 1938, intitulado «Madame Curie - No 40º aniversário da descoberta do Rádio»:
"... Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de pro­var-lhe que, reconhecida, a velha Universidade portugue­sa, a ia homenagear... A homenagem a prestar-lhe devia, pois, ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe, um dia, que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Insti­tuto do Rádio, feito à ima­gem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno mas agradecido país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz! Foi com a alegria de uma criança que aca­ba de ter um brinquedo desejado que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investi­gações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs deslocar-se a Coimbra para assistir à inauguração do Instituto. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à projectada inauguração do novo Instituto do Rádio de Coimbra para cuja cria­ção, eu e o Prof. Álvaro de Matos, da Faculdade de Medicina, tanto havíamos trabalhado. Na verdade, juntos, haví­amos conseguido obter, tempos antes, do Ministro das Finanças, General Sinel de Cordes, um subsídio de 600 contos com o qual imediata­mente se fizeram as primeiras enco­mendas de di­verso material para as Secções de Física e de Me­dicina que deveriam trabalhar em íntima co­labora­ção. No meu regresso a Coimbra, o material havia começado a ser instalado. Foi, pois, também com alvoroço que o Prof. Álvaro de Matos recebeu a boa notícia da vinda de Madame Curie. Redobrá­mos, por isso, os nossos esforços para abreviar a inaugu­ração. Neste sentido trabalhámos sem des­canso, mas todos esses esforços se quebraram perante uma inexplicável e odienta teimosia, invejo­samente desen­volvida na sombra contra nós, que impediu, sistema­ticamente, a publicação do di­ploma oficial que devia criar os quadros do pessoal técnico e auxiliar, bem como regulamentar o funci­onamento do Instituto. E é por isto e só por isto, sem outras razões que, nove anos depois, neste fim de ano de 1938, o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fe­chadas; o pior - e isso é que é profundamente mais doloroso - é que o falecimento de Madame Curie que entretanto sobre­veio, acabou por inutilizar o projecto da sua vinda a Coimbra em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À sagrada memória de Madame Curie devo esta declaração de consciên­cia...".

No fim dos anos trinta um terramoto algo intenso partiu as ampolas de rádio e as portas fecha­ram-se. Eduardo Caetano [2], grande especialista em engenharia hospitalar e que nunca esqueceu o seu Mestre, escreveu na sua biografia [2]: "Na altura o Prof. Mário Silva não podia dizer mais. Vivia-se então o apogeu do regime salazarista. A verdade é que o Prof. Salazar nunca permitiu a aprovação do Decreto-Lei criando o Instituto do Rádio de Coimbra... No en­tretanto, o Prof. Francisco Gentil veio a Coimbra ver as instalações e pouco tempo depois surgia o Instituto do Rádio de Lisboa! Porque é que Lisboa podia ter um Instituto do Rádio e Coimbra que co­meçara muito antes não? Não há dúvida nenhuma de que o Prof. Mário Silva era, e seria, maldosa­mente hostilizado em escalão muito elevado...".

Acerca do Instituto do Rádio de Coimbra escreveu, igualmente, Sant´Ana Dionísio, num artigo sobre o Físico Salomon Rosenblum "Um Cientista que de­saparece", em Janeiro de 1960: "... Pode-se imagi­nar o que teria sido esse Instituto se tivesse tido como colaborador desde a sua fundação um cien­tista tão ilustre e dinâmico como o Dr. S. Rosenblum...". Aliás, num artigo citado por Sant´Ana Dionísio, es­creveu com amargura Mário Silva: "... agora, 26 anos volvidos, no rodar dos tempos, sobre essa insta­lação, o Instituto continua com as suas portas fecha­das, abandonado e es­quecido pela Universidade que deveria ter feito dele o nosso primeiro Instituto de Física Nuclear e o nosso primeiro Instituto de Onco­logia. Mas não foi assim e, por isso, continuamos ainda hoje a aguar­dar a sua inauguração, não se sabe mesmo até quando...". Finalmente em 1963 escrevia com des­gosto [3]: "Porém, agora, em 1963, ... tudo acabou! As instalações de radiodiagnóstico e de ra­diotera­pia foram desmanteladas e as salas...foram adapta­das a outros serviços. Afastado do serviço docente há muitos anos, por motivos políticos que muito me honram, até mim ninguém chegou pedindo informa­ções ou qualquer sugestão quanto ao destino a dar ao material que constituía o recheio da secção mé­dica do Instituto (espólio que hoje pertence ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica – N.A.). Sei apenas que o material foi desmontado e distribuído pelo novo Laboratório de Radioisótopos, há anos criado na Faculdade de Medicina, e pelo Laboratório de Física da Facul­dade de Ciências, onde continua a existir todo o material, comprado, logo de início, para a sua Secção de Física (que será feito deste material?). E assim, por forma tão insólita, morreu um Instituto que - pode dizer-se - nunca chegou propriamente a viver."

A este respeito quero ainda lembrar as palavras de Eduardo Caetano na excelente biografia que, como discípulo de Mário Silva e conhecedor das injustiças que lhe tinham sido movidas por Oliveira Salazar, resolveu, num acto louvável, escrever: "Os portugueses não poderão deixar de lamentar que este projecto do então jovem físico e cientista Prof. Mário Silva iniciado em Portugal com a colaboração de alguns, como Álvaro de Matos, Carlos Santos e Moura Relvas na Medicina e Luís Carriço na Botânica, tivesse sido abortado devido aos «espíritos maléficos» (Designação atribuída por Mário Silva a todos aqueles que impediram, de alguma forma, a realização das suas obras). Nem se pedia que o ajudassem, a não ser materialmente, mas tão-só, que não o impedissem de trabalhar. Que obra notável se poderia ter desenvolvido para bem de portugueses doentes, para bem da Ciência e Tecnologia, para bem do Homem! Imagine-se só, por alguns momentos, este Instituto a trabalhar com Mário Silva, Salomon Rosenblum, A. Proca, S. deBenedetti e G. Beck e tantos outros nacionais e estrangeiros que viriam atraídos pelos trabalhos que certamente se realizariam e pelo alto nível científico que o Instituto não deixaria de ter. Que pena!".

O impacto que o referido Instituto teria tido no des­envolvimento científico português e no bem estar dos portugueses não é mensurável e a sua proibição constituiu um rude golpe no desenvolvimento da Ciência e Tecnologia em Portugal. Ainda mais porque, em 1940, Mário Silva pretendeu criar uma Escola de Física Nuclear. Acolheu em Coimbra, du­rante a 2ª Guerra Mundial, alguns físicos de renome que, fugidos ao regime totalitário nazi, ali procura­ram refúgio. Conheceu-os no Instituto do Rádio de Paris. Guido Beck (austríaco), Sergio deBenedetti (italiano) e Alphonse Proca (romeno) foram propos­tos por Mário Silva à Universidade, mas a proposta não teve seguimento..., foram perseguidos e acabaram por ser expulsos de Portugal, por serem antifascistas e de ascendência judaica (excepto A. Proca), não fossem infectar os chamados valores tradicionais portugueses. Estes cientistas foram ime­diatamente admitidos noutros centros de inves­tiga­ção. Beck - Universidad de Cordoba, deBenedetti - Carnegie Institut of Technology, Pittsburgh e Proca regressou ao Instituto do Rádio de Paris. Sobre deBenedetti refere Mário Silva [1]:"...Muito desejei fixar este notável investigador em Coimbra, mas, tal como noutros casos análogos, não consegui obter quaisquer facilidades neste sentido, por parte das autoridades oficiais responsáveis. Seguiu para os Estados Unidos da América onde fez uma notável carreira de professor e investigador. Como «Professor of Physics, Carnegie Institut of Technology» escreveu, em 1964, um notável livro «Nuclear Interactions»". Editado pela John Wiley & Sons. Sergio deBenedetti foi membro editorial de algumas importantes revistas, como a «Reviews of Modern Physics» e «Nuclear Instruments and Methods». Proferiu, num ciclo de conferências realizado em 1940 no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra, uma conferência intitulada «Raios cósmicos e núcleo atómico». De notar que Beck e Proca passaram pela Universidade do Porto, onde trabalharam com Ruy Luís Gomes. Mas foi pela mão de Mário Silva que vieram para Portugal. Veja-se o telegrama de Guido Beck dirigido a Mário Silva, pedindo-lhe que fosse rápido nas diligências que permitissem a sua vinda para Portugal. É perceptível o terror de Beck pela chegada dos nazis à França ocupada.

Telegrama, enviado de Lyon, pelo cientista austríaco Guido Beck a Mário Silva a 4 de Julho de 1941. Beck fugia ao regime nazi.

Aproveitando a estada destes cientistas em Coim­bra, Mário Silva dinamizou um curso intitulado "Introduction Physique et Philosophique à la Théo­rie des Quanta", que chamou a atenção da comuni­dade científica internacional e onde participaram outros nomes da Ciência Portuguesa deste século como Magalhães Vilhena, Pacheco de Amorim, Manuel dos Reis e Vicente Gonçalves, entre outros. Existe uma carta de Jean Thibaud solicitando à Universidade de Coimbra as lições aí proferidas, pois Guido Beck terminou em Coimbra um importante trabalho sobre teoria quântica dos campos. A propósito do curso, escreveu Mário Silva: "... Com a saída de Coimbra do Prof. Guido Beck, ficou inutilizada a obra que tencionávamos publicar, em colaboração, intitulada Le champ electromagnétique variable, da qual saíram apenas 48 páginas, em 1942. As lições dos Profs. Guido Beck e Vicente Gonçalves foram publicadas na Revista da Faculdade de Ciências, no vol. X... e são dois valiosos trabalhos".

Eduardo Caetano [2] relata bem a situação vivida no país naquele tempo: "A apatia intelectual que então se vivia era tão grande que, embora con­vidados, ninguém de Lisboa e do Porto se interessou por este notável curso... Infelizmente também aqui os «espíritos maléficos» voltaram a fazer sentir a sua acção obrigando a sair do país o Prof. Guido Beck [7] e interrompendo assim o curso... Para a época o curso era uma pedrada no charco! Era o dinamismo criador contra o marasmo estéril! Era a agitação intelectual insatisfeita contra o imobilismo acomodatício e rotineiro... E daí a oposição sistemática a todas as ideias criadoras do Mestre! Mas, apesar de tudo lu­tava, lutava sempre por um mundo melhor, à sua maneira e no seu campo de acção. Porque a têmpera excepcional de que era dotado o fazia reagir e vencer obstáculos que constantemente e sistematicamente lhe bloquea­vam o caminho. Por inveja e despeito dos pigmeus perante o saber, a inteligência e a força cria­dora do gigante. Eles pouco ou nada fizeram. Muito pouco ou nada produziram, de interesse, de real va­lia. E por isso sentiam-se pequeninos, complexados, infe­riorizados. E daí semear escolhos a barrar-lhe o caminho. E, como eram muitos, mesmo pigmeus, tinham a força do número... Todavia o Prof. Mário Silva venceu. Se lhe tivessem permitido teria feito mais, pela Ciência pura e aplicada, pelo ensino ci­en­tífico. Mas a sua obra existe. É indestrutível. E os gnomos passaram. Ninguém mais falará deles!" Será? Porque foi então votado ao abandono, ao esquecimento e à destruição a sua última obra, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica? Museu da Vergonha Nacional?

A hostilidade para com Mário Silva ficou bem ex­pressa noutro triste acontecimento. Mário Silva foi convidado oficialmente pelo governo francês para, em 1967, assistir ao primeiro centenário do nasci­mento de Madame Curie. Alguns meses antes do honroso convite, propôs ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa a realização de uma sessão comemorativa. Esta proposta não mereceu, lamen­ta­velmente, qualquer andamento. Todavia, em Paris, Mário Silva verificou que a Academia das Ciências de Lisboa, da qual era membro desde 1939, se havia feito representar por um francês em vez de ter enviado um dos seus membros, na qualidade de seu representante. O pior é que aquele representante não assistiu a nenhum dos actos ou sessões comemorativas, nem sequer deu nota que representaria a Academia das Ciências de Lisboa. Para vergonha dos portugueses foi a única Academia das Ciências do mundo que não enviou representante ou delegação nacional [2-3].

Em Coimbra, no início dos anos 30, efectuou os primeiros trabalhos sobre radioactividade em águas termais no nosso país [4]. Especialista em radioactividade, reconhecido mun­dialmente, pôde constatar o quão atrasado estava o nosso país. A investigação científica era quase inexistente. Tudo fez para aplicar os conhecimentos adquiridos em Paris... A sua revolta ficou bem ex­pressa na dedicatória que escreveu no seu livro «O Elogio da Ciência» em 1970 [3]: "... o autor saúda a generosa Juventude universitária de Coimbra que, hoje, como então, e como sempre desde os tempos de Antero, está empenhada em erguer, sobre os escombros de uma Universidade há muito envelhe­cida, as paredes mestras de uma Nova Universi­dade, que seja capaz de, efectivamente, promover o desenvolvimento moral, intelectual e social do país, e possa estar, sem peias nem entraves, ao serviço do desenvolvimento da própria Ciência."

Referências
[1] Carlo Rubbia, O Dilema Energético, Editorial Presença, 1987.
[2] Eduardo Caetano, Mário Silva: Professor e De¬mocrata, Coimbra Editora, 1977.
[3] Mário A. da Silva, Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1963.
[4] M. A da Silva, La radioactivité des gaz spontanés de la source de Luso, Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. I nº 2, 1930.
[5] Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol I-X (1930-1942).

29/04/08

A Taberna e o Milagre do João Farmácia

Taberna do "ti"Pereira (foto retirada daqui)
Noé, logo que saiu da Arca, após o Dilúvio, a primeira coisa que fez foi plantar uma vinha, porque antes tinha sido agricultor – Génesis, Sagradas Escrituras. Plantada a vinha, espremidas as uvas e fermentado o mosto, Noé bebeu o vinho, gostou e embebedou-se. A bebedeira foi tal que provocou a primeira zaragata familiar na segunda fornada humana, castigando o seu neto Canaã, filho de Cam, por este o ter visto nu. Este simples resumo bíblico, sobre o aparecimento do vinho, tem um único sentido justificativo. Sem vinho, não há taberna.
A vinha iniciou o seu percurso para o sul, expandindo-se pelos países mediterrânicos da Europa e pelos países do Norte de África. Passando pela Galileia, Jesus bebeu do seu vinho e lastimou que o chamassem bebedor – S. Mateus, 11 –. Ao sul de Portugal, beneficiado pela mesma zonagem climática, os árabes encheram as suas ânforas com vinho. Na sua subida para o Norte, abandonadas as ânforas, o vinho enche as pipas de castanho e de carvalho.
Nas albergarias, no tempo das mudas, quando os cavalos suados puxavam as diligências reais, os seus ocupantes fidalgos, os piratas e salteadores, os pichéis de estanho saciavam-nos com vinho, sem distinguir classes. Nas estalagens serranas ou tabernas alargadas aos almocreves e aos machos cansados pelas cargas de odres de vinho e de azeite, os pichéis não descansavam. Por vezes, nas estalagens, tinham a companhia dos carvoeiros, que aldrabavam os compradores de carvão com o peso do negro volfrâmio, apanhado do chão para os lados da Panasqueira.
A taberna foi, ao longo dos tempos, a sala de visitas das aldeias ou lugarejos e o único centro social das suas comunidades. Na sua penumbra das tardes e nas noites, estas aclaradas com a luminosidade pálida do candeeiro, os jogadores da sueca ou do dominó só toleravam o som das gaitadas do realejo de boca ou de um acordeão de passagem. Depois do trabalho, o cavador, largada a enxada na soleira, guardada pelo rafeiro, entra sorrateiro e, enquanto espera a oferta de um copo, mastiga bacalhau cru desfiado, para completar o ritual.
De madrugada, o bagaço para matar o bicho, à tarde, o vinho para a merenda, à noite, o vinho para sossega.
O caixeiro-viajante, com aparições periódicas, entra engravatado e pinoca e logo saúda com a oferta de uma rodada, para abrir caminho ao seu negócio.
A taberna do passado não foi, somente, um centro social.
Os imprevistos da Natureza deram ao homem rural uma cultura de conhecimentos, brotada da sua experiência com os amanhos da terra de cultivo. O homem sabia observar, interpretar as mudanças do clima e gastava os olhos a ver o céu, na esperança da chuva. E, certa, quando o vento empurrava as nuvens do Colcurinho para a Estrela. Olhando a lua, só podava no quarto crescente. Saber capar os tomateiros e meloais era com ele e não com o engenheiro, ou impedir a entrada da mulher menstruada no lagar de azeite, era com o seu mestre e não com o doutor.
Na taberna, nos dias festivos ou de convívio já molhado, cantava-se ao desafio, não com versos de Camões, mas com as quadras rimadas do cavador-poeta da Malhada, na freguesia de Vide. Estas quadras, cantadas isoladas ou ao desafio, tinham a cadência do fado corrido e o fôlego da verdade do vinho e da verdade dos versos do melhor poeta português António Botto: «Amigos, enchei as taças de vinho, as almas vêm à tona».
A taberna também fazia milagres.
Num certo dia, já afastado no tempo, o cónego Nogueira sai do Piódão e do seu Colégio que preparava jovens para o Seminário da Guarda. No caminho, cai da mula que o transportava para a Vide e é levado muito ferido e ensanguentado para a farmácia, numa padiola de paus atados. O seu dono, conhecido por João Farmácia, estava, na altura, bêbedo e sonolento sobre o banco da taberna próxima. O «Farmácia», aliás sabedor e pronto a socorrer doentes, na falta do médico, colocado em frente do cónego Nogueira, limpa-lhe o sangue, lava-lhe as feridas com tintura de iodo, une com agrafes as fendas da cabeça e envolve-as com ligaduras rasgadas de um lençol branco de linho, de uma vizinha. O povo embasbacado assiste, formando um círculo fechado e abafado. Terminado o tratamento, ouve-se um murmúrio: “foi um milagre, não gemeu!” e, mais alto, para o céu ouvir, “é um santo!”.
Na taberna o vinho revigorava forças aos combatentes de João Brandão, nas lutas contra os miguelistas. Na estalagem, em Vide, o pichel fazia rodadas com João Brandão e seus combatentes antes de enfrentar os Cacas que, de trás da serra, como salteadores e fiéis aos absolutistas, atacavam para os lados da Barriosa e Baloquinhas.
Na sua taberna, em Vide, o Severino Espanhol, prestes a transportar na sua mula o Dr. Vasco de Campos para socorrer um doente, pede à mulher para servir dois copos.
Na taberna, o vinho branco era o champanhe dos pobres. A taberna fomentava, também, uma certa democracia rural. Na Vide, os estudantes, nas suas férias, levavam o voltarete para a taberna, o jogo de cartas que, no antigo regime, era jogado pela aristocracia nos salões dos palácios franceses. O Voltarete foi acolhido nas lareiras dos senhores padres serranos, a partir de Unhais da Serra, liderado pelo padre Alfredo e pelo padre Cândido Nobre, em Vide, como anfitrião. Mas era na loja de Manuel Dias, com a alfaiataria e taberna, que se jogava o voltarete. Este jogo, jogado nos palácios reais em França pela aristocracia clerical e rural, teve o privilégio de ser jogado na taberna.

24/04/08

A Mais Bela História de Futebol...

A Primeira equipa de futebol de Vide, Agosto de 1938
Primeira fila: António Batista, Cristiano Pacheco, Joaquim Lopes, José Brito, Augusto Lopes. Segunda fila: Carlos Nobre, Ovídio Batista, António Matias. Terceira fila: José Gonçalves, João de Brito, José Matias, Américo Amaro, Victor Ribeiro.
A Vide é uma bonita aldeia beirã, localizada no vale da ribeira de Âlvoco, encurralada entre as serras da Estrela e do Açor. A equipa de futebol de Vide, do qual o meu pai fez parte, realizou o seu primeiro jogo oficial, com a equipa de S. Gião, no seu campo, localizado no alto dos Atoleiros, no mês de Agosto de 1938. Aqui fica esta deliciosa história sobre futebol, quiçá a mais espectacular de todas.
...A equipa de Vide foi constituída nas férias de Verão e treinada, inicialmente, com bolas de trapos, no Largo da Ponte, em terra batida. Os jogadores partiram para o campo dos Atoleiros, sob o calor de Verão. O apoio material, equipamento, bola e tintura de iodo (oferecido pelo João Farmácias), estava a cargo do Victor da Venda. A claque de apoio estava bem representada pelo Zé Matias que, ao longo do jogo, saltava e gritava para incutir ânimo e frescura aos jogadores. Iniciaram o desafio, cansado e suados, pela caminhada a pé, no pino do Sol, de Vide aos Atoleiros (uma estirada que só visto).
Pelo contrário, os jogadores da equipa de S. Gião apareceram frescos e bem equipados à “Benfica”. Atrás dos jogadores uma comprida fila de apoiantes, homens, mulheres e crianças. Vista de cima, ao alto dos Atoleiros, a fila parecia uma procissão, com opas vermelhas à frente.
No início do jogo, o defesa Augusto, já alinhado no campo, com os restantes jogadores, desata a correr em direcção ao árbitro, com gestos agressivos.
- Ó Augusto, o que se passa?
- Que anda este gajo a fazer com um apito na boca?
Responde ainda ameaçador.
Esclarecido e acalmado, o Augusto retoma o seu lugar no campo.
A equipa de S. Gião, ajudada pela frescura, dominava o jogo, no início. O Augusto e o Cristiano Pacheco aguentavam bem a genica dos jogadores contrários. O João Alfaiate, na baliza, dava confiança à equipa. A certa altura do jogo, a boina espanhola do Cristiano, sempre enfiada na cabeça, foge-lhe. O Cristiano pára e o jogador de S. Gião ultrapassa-o com ganas para marcar o golo.
- Cristiano, deixa a boina!
Gritaram os companheiros.
Pernalta e com passadas largas, apanha o adversário, passa-lhe uma rasteira e aplica-lhe a devida canelada. Naquele tempo, os jogadores de Vide, já praticavam as “boas regras de futebol”. Como hoje, aliás, se praticam. O jogador de S. Gião, estatelado no chão, com a barriga para baixo, berrava com palavras “bem à portuguesa”, de sacana para cima. Insultos, aliás óbvios, que se perdiam na paisagem agreste e indiferente aos Atoleiros, de pinheiros e tojos.
A linha avançada de Vide, com o seu último fôlego, marca o golo da confirmação da vitória. Foi o fim do mundo. Os apoiantes de S. Gião revoltaram-se. Quando estavam para invadir o campo, para agredir os jogadores de Vide, ouviram-se dois tiros. Todos os jogadores pararam. A assistência ficou silenciosa e pasmada.
O Gato Negro de Alvoco, apoiante e defensor físico da equipa de Vide, destaca-se alto e ameaçador, com uma pistola na mão levantada:
- Se alguém bater nos de Vide! Mato o primeiro!
Avisa com firmeza.
Foi a debandada dos apoiantes de S. Gião. Era vê-los a correr pela encosta abaixo, sem olhar para atrás.
Terminado o jogo, todos os jogadores de Vide, agarraram-se uns aos outros, aos abraços e beijos, como uma ninhada de crianças alegres e felizes.
No regresso a Vide, entraram a cantar:
"Malta, malta, malta
Atenção
Ganhamos por dois a zero
Aos de S. Gião."
A morte já levou quase todos estes jogadores da primeira equipa de futebol de Vide. Aos que ainda vivem, a emoção ao recordá-los, neste momento, não recusa lágrimas. Emoção sentida, como o abraço medido na distância de Vide aos Atoleiros, mas, também, com uma imensa largura, medida na saudade desse Verão.
Na realidade o autor deste texto, meu pai, foi o último Gavroche e faleceu a 11 de Junho de 2oo7.
Bem-hajas!

A Propósito de um Conselho Nacional...

É meia-noite e picos e o dito ainda decorre.
Mas eis quando o ex se dirige ao ex que não sabe se é candidato: