Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

22/05/08

Notas Presas e Combustíveis!


Cartoon sobre Sócrates publicado em 2005 no jornal «Le Monde»! Mais actual não poderia ser!!!

Mas que ideias? Ideia principal deste último programa: os consumidores que se cuidem porque os preços dos combustíveis vieram para ficar. Nada a fazer. Ponto final. E, portanto, face a esta ideia genial, se o comum dos cidadãos não puder pagar a gasosa dos "engenheiros", nem os lucros milionários dos comilões, sejam eles as petrolíferas ou o próprio estado, que se abarbata com “somente” 60% do preço dos combustíveis, só lhe resta mesmo começar a deixar o carro em casa e a começar a andar nos fabulosos transportes públicos (de Lisboa). Nossa… que génio! Ouvir uma palavra a Vitorino, um comentário que fosse, sobre a carga brutal dos impostos sobre os combustíveis, sobre o preço do petróleo em euros, e não em dólares, sobre o possível cartel que fixa os preços em Portugal, é que não. Isso é que não. O governo não deixaria, ficaria mal na fotografia. Mas era isso que se exigia. O governo não pode continuar a fazer ouvidos de mercador, a não querer saber, a deixar andar. Não pode!
Mas depois da triste cena, que foi assistir na noite de segunda às “ideias” de Vitorino, eis que temos a infelicidade de assistir a alguns momentos, hilariantes, da sessão das terças da Assembleia da Republica. Eu nunca gostei de Paulo Portas, mas com ele tenho que concordar quando, em resposta ao sorriso amarelo e arrogante do nosso primeiro-ministro, diz “que querem fazer de nós parvos!”. Querem mesmo! Este governo trata-nos como mentecaptos.

aqui falei sobre o logro no preço dos combustíveis em Portugal. É uma verdade indesmentível. E quem assistiu, também na noite de segunda, ao programa prós e contras, não pode ter deixado de tirar a conclusão que, em Portugal, independentemente do que a Autoridade da Concorrência vier agora dizer, as petrolíferas, orquestradas pela Galp, funcionam em Cartel. Aproveitando-se de tudo para, de forma concertada, aumentarem os preços dos combustíveis. Penso que toda a gente percebe isso. Se disserem o contrário, estarão, naturalmente, a mentir. E vão ao ponto de gozar com o povo português! Tal é o descaramento! É que já hoje mesmo, em resposta às acusações de que têm sido alvo, voltaram a aumentar o preço dos combustíveis, depois de o terem feito ontem! Isto é, simplesmente, incrível!

Nós não somos estúpidos, sr. primeiro-ministro! E percebemos muito bem a razão do encobrimento desavergonhado de toda esta situação. As petrolíferas apresentam, tal como a banca e os seguros, lucros altíssimos, como nunca tiveram. Escandalosos, face à actual situação económica do país. E vossas excelências, nada fazendo, aproveitam para encher os cofres do estado. Em nome do sacrossanto défice e dos faustosos gastos em mordomias, assessorias e outras coisas terminadas em ias! Bravo! O sr. primeiro-ministro, reconhecendo e afirmando que foi um decreto-lei de 2003, feito pelo governo do PSD com a pretensão de liberalizar o sector, o principal responsável por toda a actual situação no mercado dos combustíveis, limita-se a aproveitar-se dele, usa-o como arma de arremesso político e nada faz. Nada mesmo. Antes pelo contrário. Vai ao ponto de dizer que agora, SÓ 60% do preço dos combustíveis vai para os cofres do estado, contra os 69% cobrados em 2003. Meu Deus! Mas, como dizia Portas, é isto comparável?! É óbvio que o Estado arrecada hoje uma receita em impostos sobre os combustíveis várias vezes mais elevada do que naquele tempo. Um autêntico maná! Não sabemos é para onde vai tanto dinheiro. Portanto, não é preciso ser um génio para perceber todo este logro, toda esta vergonha.

Este governo, que de socialista nada tem, aliás, que o envergonha até, tem a ousadia de não intervir nesta situação, deixando que o mercado, que ele próprio reconheceu como não funcionando, regule esta sua verdadeira obra-prima do liberalismo e do capitalismo selvagem. Uma autêntica vergonha, só possível em países ditatoriais terceiro-mundistas. Assim se começa também a perceber o interesse do sr. primeiro-ministro pela América latina…

Cartoon de Carlos Laranjeira, retirado daqui

20/05/08

As Alternâncias Climáticas e as suas Consequências

Neste local da Serra da Boa Viagem já esteve o Atlântico!
Alfredo Fernandes Martins – Professor de Geografia da Universidade de Coimbra

A cidade da Figueira da Foz vista da Serra da Boa Viagem

Numa viagem de estudo à Serra da Boa Viagem, o meu Mestre, Professor Alfredo Fernandes Martins, num local próximo da meia encosta desta serra, escavou e retirou do solo, fósseis conchíferos marítimos e disse convicto: “Aqui já esteve o Atlântico!”.

Arenitos na Serra da Boa Viagem
Surpreendido, regressei aos meus tempos liceais de Geografia (no primitivo liceu José Falcão), para reler as eras de glaciação (Gunz, Mindel, Riss e a última, Wurm), e os seus respectivos períodos interglaciares, de degelo, pelo aquecimento global. Como escreve J.M. Roberts: “Nos quatro períodos glaciares ocorridos, todos, no último milhão de anos…”. Isto é, nos últimos períodos recentes, ou pleistocénicos.
Neste contexto, também, procurei esclarecer-me, no âmbito científico, das causas destas alternâncias climáticas e, obviamente, das suas consequências no controverso aquecimento global, a elas associado. Para começar procurei o astrónomo sérvio Milutin Milankovitch (1879-1958). Este cientista responsabiliza os períodos cíclicos das alternâncias climáticas, pela variação da precessão do periélio e da excentricidade da órbita da Terra em torno do Sol. O efeito dos muitos corpos celestes também influencia a variação da obliquidade da eclíptica, de 22,1° a 24,5° em torno do valor médio de 23,4°, com um período da ordem de 41 mil anos, conhecido como ciclo de Milankovitch. As evidências indicam também que o ciclo climático mais importante é da ordem dos 100 mil anos, o que coincide com o ciclo de excentricidade. Por outro lado, a variação em excentricidade, por si só, é um factor que pouco influencia a variação da insolação na Terra. De notar que a idade do gelo se reforça, pois quando a Terra está coberta de gelo ela reflecte mais luz do Sol para o espaço, aumentando o seu arrefecimento. Também antes, já em 1870, na mesma procura, o escocês James Croll, justificava as alternâncias e suas consequências pelas oscilações do eixo terrestre em relação ao Sol. Por outro lado, os americanos Saltzman e Kikmasch, justificam cientificamente, que as alternâncias climáticas resultam da capacidade dos oceanos em retirar o dióxido de carbono e libertá-lo, novamente, para a atmosfera. Processo conhecido por Ciclo Carbónico. Aliás, neste mesmo sentido, o cientista francês R. Revelle concebeu a Bomba Biológica, resultante da retirada do dióxido de carbono da atmosfera que é levado para as profundidades oceânicas. Recuando, o geógrafo e matemático J. Achemar, admitiu também, em 1842, como os cientistas já referidos, que as alternâncias climáticas e os seus períodos interglaciários são causados por variações da órbita da Terra em volta do Sol.
Movimentos do eixo da terra
As culpas são humanas, como têm sido divulgadas e, ainda por cima, com a aberração de aproveitamentos políticos?
Constata-se que a diversidade de culpas humanas, pelas alternâncias climáticas e consequente aquecimento global, contrariando as causas científicas citadas atrás, baseia-se essencialmente no chamado efeito de estufa, provocado pelo efeito de emissões volumosas de dióxido de carbono para atmosfera proveniente de toda a actividade humana, acompanhadas por emissões de outros compostos nocivos para a atmosfera (buraco na camada de Ozono), como os clorofluorcarbonetos (CFC e CF) ou os perfluorcarbonetos (PFC).

Em termos comparativos das alternâncias climáticas e períodos interglaciares, com culpas para o homem, justificadas na actualidade, são as mesmas culpas, para as anteriores eras glaciares alternadas com períodos interglaciares, com o mesmo aquecimento global?

Neste esclarecimento de culpas, transcrevo J.M. Roberts no seu livro “História Ilustrada do Mundo”; “Os períodos interglaciares eram bastante semelhantes ao actual período, com a principal consequência o aquecimento global da Terra”. E, acrescenta: “Todo o avanço como o retrocesso dos gelos foram catastróficos para o ambiente”.

Neste ciclo do retrocesso dos gelos, no actual período interglaciar, ninguém poderá impedir a subida e o avanço do Atlântico, para cumprir as suas funções cíclicas que lhe foram atribuídas. Engolirá as montanhas de dunas e arribas. Os esporões e as barreiras ou paredões de pedregulhos, serão engolidos como rebuçados. Na revista Única, Luísa Schmidt, que acompanha com interesse esta subida escreve: “De Moledo à Ria Formosa as praias recuam, as arribas esboroam-se. Por mais obras que se façam”. Naturalmente que esta situação trágica no litoral atlântico, obriga a defesas, mesmo sendo ineficazes, somente para minorar as angústias das populações que aí vivem.

No contexto nacional, o Programa Finisterra, o Plano de Ordenamento da Orla Costeira, com maior relevância. Recentemente, uma agência única, composta por uma centena de personalidades, para divertimento do Atlântico…

No âmbito internacional, destacam-se, o Projecto Internacional da Geosfera e Biosfera (IGBP), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e o Protocolo de Quioto. Recentemente, o espectáculo-ambiente, tipo americano, de Al Gore. Os projectos dos governantes ambientalistas dos países poluidores e os projectos de elevada relevância dos países da EU, mais para redução das emissões do dióxido de carbono, alinham-se para a luta, nesta revolução ambiental.

O que está em causa, não são barreiras contra os ciclos das alternâncias climáticas e suas consequências, com o seu aquecimento global, mas sim uma revolução ambiental. Revolução para a conquista de uma vivência adaptada a estas mudanças, irreversíveis. Adaptação a novas normas ou conceitos, intrínsecos a essa nova vivência impostas por leis naturais. Caso contrário, a vida planetária, desaparecerá. Esta revolução em termos de adaptação a estas consequências climáticas, tem um poderoso aliado, alertado pelo astrofísico Martin Rees (entrevista, no jornal “Público”, em 2003): “Há 50% de hipóteses de um retrocesso civilizacional catastrófico neste século XXI”. Isto é, sem adaptação, a humanidade não sobreviverá a essas consequências, que vão prolongar-se por milhares de anos.

Neste contexto, condicionado às diferenças geo-climáticas, o degelo dos glaciares no continente asiático, ameaça milhões de pessoas. O aquecimento global, no seu ciclo irreversível, está a derreter os glaciares árcticos e tropicais. As correntes ou frentes frias libertadas pelo degelo árctico, descem para as baixas latitudes, provocando trágicas tempestades e chuvas diluvianas. Resultante do impacto das baixas pressões destas latitudes. Este nosso reduto costeiro atlântico, não escapa a estes impactos climáticos. É certo que não está sujeito às catástrofes directas como nos países sujeitos ao degelo das camadas espessas de gelo, mas sim, com maiores impactos, à subida do Atlântico e aquecimento global. Sendo assim, torna-se necessário e urgente que seja dada a conhecer a realidade dos ciclos da subida do Atlântico. É que na realidade ninguém poderá impedir o desaparecimento da nossa actual orla costeira. Esta é que é a verdade que deve ser interiorizada, planeando-se o futuro de forma a minorar as consequências desse efeito. E isto, que parece tão evidente, tem sido, lamentavelmente, descurado pelas autoridades portuguesas, muito por ignorância da sua classe política, continuando-se a gastar rios de dinheiro em planeamento e obras que serão, num futuro mais ou menos próximo, engolidas pelo mar.

Consequência positiva deste fenómeno, o facto da rede fluvial voltar a ser beneficiada. Nos últimos séculos da Idade Média, existiam 35 portos fluviais, a nível nacional. No distrito de Coimbra, 4 portos, Coimbra, Montemor-o-Velho, Verride e Soure. Com o recuo da orla costeira, o que vai acontecer? Obviamente que obrigará a um realinhamento costeiro, com cotas num espaço – no interior - conducente com a previsão do fim do avanço do Atlântico. Estudos divulgados sobre a subida deste oceano confirmam que o seu nível se elevou a cerca de 120 metros, nos últimos quatro mil anos. Neste mesmo sentido, o seu nível elevar-se-á mais de 6 metros até 2100. Na Serra da Boa Viagem, e na referida aula do Professor Fernandes Martins, os fósseis conchíferos marítimos, foram localizados acima dos 50 metros do nível actual do Atlântico.

Afinal estas alternâncias climáticas e suas consequências, com o seu aquecimento global, são culpas humanas? Uma pergunta, portanto: Se ninguém pode impedir os movimentos de rotação e translação, bem como o movimento de precessão do eixo terrestre, comandados ciclicamente por funções intrínsecas ao planeta terra e aos astros que o rodeiam, como é possível impedir as alternâncias climáticas, sendo que estas, segundo os cientistas referidos, são consequência daqueles?

Estudo efectuado pela Unviversidade de Delaware, nos Estados Unidos, sobre a subida do nível do oceano. A vermelho, na imagem da esquerda, a terra que provavelmente será perdida até ao fim deste século. Veja-se a consequência do aumento até 15 m, imagem da direita, devido ao degelo combinado da parte oeste da Antártida e da Gronelândia, que significaria submergir cidades inteiras da orla costeira.

A sobrevivência, naturalmente dramática, das populações que vivem na actual orla costeira, só se conseguirá, com o seu recuo. Não um recuo com a fuga ao Atlântico, mas sim, para proporcionar um novo espaço de vivência, com aproveitamento para adquirir melhores valores, em todos os seus aspectos. Especificamente, harmonizar o seu ambiente, com a paisagem humanizada. No entanto, esta nova perspectiva de vivência, só é possível, com a inovação e dinâmica de novos quadros humanos, especializados e nunca politizados, desde os geógrafos a arquitectos paisagistas e ambientalistas, motivados para os ciclos de mudanças climáticas. E, consequentemente, às mutações, desaparecimento e novas, na diversidade de espécies, na flora, fauna e noutras manifestações de vidas. Outros ecossistemas e nichos ecológicos devem ser protegidos. Já agora, já nesta revolução ambiental, algumas fugas que traíram o ambiente. Dois casos, os mais expressivos, entre outros. O primeiro. Recordo o Professor Mário Silva. Este ilustre cientista criou no Museu Nacional da Ciência e da Técnica, que fundou, a secção de Ecologia e Ambiente, em 1975, tendo aberto uma exposição permanente sobre esta temática no antigo edifício da Legião Portuguesa, à Rua Fernandes Tomás, em Coimbra. Esta sua iniciativa já se fundamentava na previsão das consequências das alternâncias climáticas. Daí, promoveu, nesta secção, aulas de elevada motivação ambiental, que mereceram dos interessados, principalmente, alunos liceais e universitários. Teve apoios de empresas industriais e da Philips, com a oferta de um aparelho para detectar a poluição atmosférica. Infelizmente, a sua morte provocou outras duas. A do seu Museu, abandonado por todos, com o seu ideal científico herdado da cientista Madame Curie, e o seu ideal Ambientalista, hoje, tão aclamado. O segundo caso. O “Jornal de Notícias”, de 4 de Maio de 1980, publicou um artigo sobre uma distinta investigadora, licenciada em Física, eng.ª Ermelinda Duarte de Oliveira. No Polytechnic of Central, em Londres, apresentou a sua tese sobre o perigo dos resíduos nucleares, que estavam a ser lançados, em bidões, no Atlântico Norte. Na altura, alertou o Governo português, para o perigo deste lixo nuclear, já a 500 km da costa portuguesa. A resposta do Governo, citando o referido jornal: “Que (Eng.ª Ermelinda Duarte de Oliveira), se limitasse a tomar conta da casa, das crianças, ser mãe e esposa”.

Estas mortes não convenceram. Mas acreditam que as muralhas, mais com cimento político, podem travar o avanço e subida do Atlântico. Serão engolidas, como as outras barreiras, atrás referidas.

CN - Geógrafo

01/05/08

Elementos para a História da Radioactividade em Portugal (III)

A Triste História do Instituto do Rádio de Coimbra...

Nota Introdutória
A história do Instituto do Rádio de Coimbra é talvez uma das principais provas da tese segundo a qual o Estado Novo é o principal responsável pelo atraso científico e técnico, e consequentemente social, de que Portugal padece, face aos seus parceiros europeus mais desenvolvidos. Este apontamento ficará aqui escrito para quem o quiser ler, na certeza, porém, de que contribuirá para a verdade histórica. Espero, deste modo, contribuir para que a deturpação e o branqueamento dos malefícios do Estado Novo, a que tantas vezes temos assistido, possam ser travados.

Fachada do Pavilhão Curie do Instituto do Rádio de Paris, vista da rua Pierre e Marie Curie


O Instituto do Rádio de Coimbra

Fachada do magnífico edifício pombalino onde funcionou o antigo Laboratório de Física da Universidade de Coimbra. As duas salas superiores da esquina albergam hoje o Museu Pombalino de Física. Neste edifício encontram-se igualmente os museus de Mineralogia e de Zoologia da UC. Pena que a Universidade não transforme todo o edifício em Museu. Ao lado, ainda se pode ver a Sé Nova. Em frente, encontra-se o antigo Laboratório Chimico, também pombalino, transformado hoje em Museu(zito) da Ciência. Ao lado dele, o Colégio das Artes alberga, hoje, a maior parte do espólio ABANDONADO do moribundo MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA. Descendo as escadinhas ao lado da Sé, deparamo-nos com o Museu Nacional Machado de Castro. Infelizmente, pouca parra para tanta uva. Aqui poderia ser criado um dos espaços museológicos mais belos do mundo. Aliás, todo este património é do Estado e ao Estado competeria transformar esta zona num magnífico espaço museológico. Mas, infelizmente, estamos em Portugal! Lá diz o ditado: dá Deus nozes a quem não tem dentes...

Como provámos num post precedente, Mário Augusto da Silva foi obrigado a regressar a Coimbra e à sua Universidade, após a conclusão do seu doutoramento em Paris, em 1929, sob a orientação da insigne cientista que foi Marie Curie. Teve a honra de ter defendido a sua tese sobre electroafinidade dos gases perante três eminentes cientistas, todos eles laureados com o Nobel: Madame Curie, Jean Perrin e Debierne. Impedido de prosseguir no Instituto do Rádio de Paris, apesar dos pedidos de Madame Curie dirigidos à Universidade de Coimbra, e ciente da inevitabilidade do seu regresso, muito cedo teve a ideia de criar em Coimbra um Instituto do Rádio semelhante ao de Paris. Naquele tempo ninguém poderia negar o interesse da investigação nesta área científica. As radiações emitidas por isótopos radioactivos continuam a ter um vasto campo de aplicação na Medicina e, por outro lado, a fusão nuclear constituirá a única alternativa energética viável para as gerações do futuro. É a fonte mais poderosa de energia que o Homem conhece. A energia resul­tante das reacções de fusão nuclear é, ao contrário da subjacente às actuais centrais de fissão, uma energia muitíssimo mais "limpa". Esses reactores alimentar-se-ão com a água dos Oceanos! Infeliz­mente, a tecnologia actual não nos permite, ainda, dominá-la [1]. De notar que, em 1929, a Física estava ainda numa época pré-nuclear, pois a estrutura do núcleo atómico só seria desvendada a partir da descoberta do neutrão, alguns anos mais tarde, em 1933, por Chadwick. Descoberta que poderia muito bem ter sido feita, muitos anos antes, em Portugal, como contaremos num futuro post.

Com vista à criação de um instituto dedicado ao estudo da radioactividade e às suas aplicações na Medicina, Mário Silva iniciou uma série de diligências que viriam a culminar na criação da comissão instaladora do futuro "Instituto do Rádio da Universidade de Coimbra". Essa comissão foi consti­tuída por Mário Silva e Ferraz de Carvalho, como representantes da Faculdade de Ciências, e por Álvaro de Matos e Feliciano Guimarães pela Fa­culdade de Medicina. No princípio de 1931 o Insti­tuto do Rádio de Coimbra estava completamente instalado e pronto a funcionar. Contudo, tinha che­gado a hora da vingança. Infelizmente para todos nós, os fanáticos religiosos que, cerca de oito anos antes, se opuseram veementemente a um seu ensaio, publicado num jornal de Coimbra, estavam agora no poder com a faca e o queijo na mão. Foi pois a intolerância religiosa que impossibilitou a realização de uma obra que poderia ter mudado o rumo do ensino e da investigação da Física em Portugal.

De facto, em 1923, Mário Silva publicou no jornal "A Cidade" um magnífico ensaio sobre a origem da vida, intitulado "Sobre o Problema da Génese da Vida... O problema da geração espontânea". Tinha 22 anos e era Assistente do Departamento de Física da Faculdade de Ciências. Nesses artigos discutia como cientificamente se poderia explicar a origem da vida na terra, sem necessidade da intervenção divina. As suas ideias base­avam-se em princípios científicos e não dogmáticos. A intolerância de alguns professores universitários, pertencentes ao C.A.D.C., Centro Académico de Democracia Cristã, nomeadamente, Oliveira Salazar, Manuel Cerejeira e Ferrand de Almeida, foi imediata. Primeiro surgiram as respostas de forma anónima no mesmo jornal, depois, para se ter uma ideia da polémica levantada, refira-se que num outro jornal (Correio de Coimbra) e durante cerca de três meses, duas vezes por semana, foram publicados artigos de resposta com direito a primeira página! Apesar de terem sido assinados por Ferrand de Almeida, Mário Silva sabia perfeitamente da influência de Salazar e Cerejeira. Começava aqui, na verdade, uma perseguição que se prolongaria até ao 25 de Abril. Obviamente que a não promulgação, anos mais tarde, do Decreto-Lei que criaria o Instituto do Rádio de Coimbra foi o corolário daquela polémica e o início de uma perseguição, pessoal, mesquinha e execrável. Posteriormente, sentido directamente na pele a intolerância e o ostracismo a que fora votado, Mário Silva viria a embrenhar-se arduamente na luta pela Liberdade e a Democracia em Portugal. De notar que o que acabámos de desvendar, fruto da investigação que fizemos, pode também explicar muitíssimo bem a razão porque Mário Silva encabeçou a lista dos docentes e investigadores afastados por Salazar, em 1947, das universidades portuguesas. Praticamente como todos os maiores cérebros portugueses, foi aposentado compulsivamente da Universidade de Coimbra, através do célebre e trágico Despacho do Conselho de Ministros (Diário de Governo, série 1, nº 138 de 18 de Junho de 1947). Isto, claro está, após ter estado preso pela PIDE, de forma arbitrária e sem culpa formada, durante mais de dois meses, no verão do ano anterior. Voltaria a estar detido posteriormente.

A geração espontânea... (imagem retirada daqui)

Em 1931, no entanto, Mário Silva preocupava-se somente em continuar os trabalhos de investiga­ção científica que tinha iniciado em Paris. Não deixou contudo de denunciar a perseguição. Fê-lo, no auge do Estado Novo, cerca de oito anos após a criação do Instituto do Rádio de Coimbra, num artigo publi­cado no jornal «Notícias de Coimbra», no dia 4 de Dezembro de 1938, intitulado «Madame Curie - No 40º aniversário da descoberta do Rádio»:
"... Tantas vezes, realmente, a ouvi falar de Coimbra que não descansei enquanto não consegui um meio de pro­var-lhe que, reconhecida, a velha Universidade portugue­sa, a ia homenagear... A homenagem a prestar-lhe devia, pois, ter em atenção as suas predilecções e o seu ideal de vida. Nada melhor podia ter arranjado do que comunicar-lhe, um dia, que a Universidade de Coimbra ia ter, como a sua Universidade, um Insti­tuto do Rádio, feito à ima­gem e semelhança do seu próprio Instituto. Era a projecção da sua obra no pequeno mas agradecido país do Ocidente da Europa; era continuar aqui a ciência que ela tinha criado e que constituía toda a ambição da sua vida. A ideia tinha sido feliz! Foi com a alegria de uma criança que aca­ba de ter um brinquedo desejado que Madame Curie me felicitou e se felicitou por saber que mais um Instituto do Rádio ia aparecer consagrado às investi­gações e às aplicações do «seu Rádio». Tão grande foi essa alegria que logo me propôs deslocar-se a Coimbra para assistir à inauguração do Instituto. Foi esta a agradável notícia que eu trouxe para Portugal quando regressei em 1929. A todos anunciei que Madame Curie viria expressamente a Coimbra, e só a Coimbra, assistir à projectada inauguração do novo Instituto do Rádio de Coimbra para cuja cria­ção, eu e o Prof. Álvaro de Matos, da Faculdade de Medicina, tanto havíamos trabalhado. Na verdade, juntos, haví­amos conseguido obter, tempos antes, do Ministro das Finanças, General Sinel de Cordes, um subsídio de 600 contos com o qual imediata­mente se fizeram as primeiras enco­mendas de di­verso material para as Secções de Física e de Me­dicina que deveriam trabalhar em íntima co­labora­ção. No meu regresso a Coimbra, o material havia começado a ser instalado. Foi, pois, também com alvoroço que o Prof. Álvaro de Matos recebeu a boa notícia da vinda de Madame Curie. Redobrá­mos, por isso, os nossos esforços para abreviar a inaugu­ração. Neste sentido trabalhámos sem des­canso, mas todos esses esforços se quebraram perante uma inexplicável e odienta teimosia, invejo­samente desen­volvida na sombra contra nós, que impediu, sistema­ticamente, a publicação do di­ploma oficial que devia criar os quadros do pessoal técnico e auxiliar, bem como regulamentar o funci­onamento do Instituto. E é por isto e só por isto, sem outras razões que, nove anos depois, neste fim de ano de 1938, o Instituto do Rádio de Coimbra continua com as suas portas fe­chadas; o pior - e isso é que é profundamente mais doloroso - é que o falecimento de Madame Curie que entretanto sobre­veio, acabou por inutilizar o projecto da sua vinda a Coimbra em cuja realização empenhei o melhor da minha boa vontade. À sagrada memória de Madame Curie devo esta declaração de consciên­cia...".

No fim dos anos trinta um terramoto algo intenso partiu as ampolas de rádio e as portas fecha­ram-se. Eduardo Caetano [2], grande especialista em engenharia hospitalar e que nunca esqueceu o seu Mestre, escreveu na sua biografia [2]: "Na altura o Prof. Mário Silva não podia dizer mais. Vivia-se então o apogeu do regime salazarista. A verdade é que o Prof. Salazar nunca permitiu a aprovação do Decreto-Lei criando o Instituto do Rádio de Coimbra... No en­tretanto, o Prof. Francisco Gentil veio a Coimbra ver as instalações e pouco tempo depois surgia o Instituto do Rádio de Lisboa! Porque é que Lisboa podia ter um Instituto do Rádio e Coimbra que co­meçara muito antes não? Não há dúvida nenhuma de que o Prof. Mário Silva era, e seria, maldosa­mente hostilizado em escalão muito elevado...".

Acerca do Instituto do Rádio de Coimbra escreveu, igualmente, Sant´Ana Dionísio, num artigo sobre o Físico Salomon Rosenblum "Um Cientista que de­saparece", em Janeiro de 1960: "... Pode-se imagi­nar o que teria sido esse Instituto se tivesse tido como colaborador desde a sua fundação um cien­tista tão ilustre e dinâmico como o Dr. S. Rosenblum...". Aliás, num artigo citado por Sant´Ana Dionísio, es­creveu com amargura Mário Silva: "... agora, 26 anos volvidos, no rodar dos tempos, sobre essa insta­lação, o Instituto continua com as suas portas fecha­das, abandonado e es­quecido pela Universidade que deveria ter feito dele o nosso primeiro Instituto de Física Nuclear e o nosso primeiro Instituto de Onco­logia. Mas não foi assim e, por isso, continuamos ainda hoje a aguar­dar a sua inauguração, não se sabe mesmo até quando...". Finalmente em 1963 escrevia com des­gosto [3]: "Porém, agora, em 1963, ... tudo acabou! As instalações de radiodiagnóstico e de ra­diotera­pia foram desmanteladas e as salas...foram adapta­das a outros serviços. Afastado do serviço docente há muitos anos, por motivos políticos que muito me honram, até mim ninguém chegou pedindo informa­ções ou qualquer sugestão quanto ao destino a dar ao material que constituía o recheio da secção mé­dica do Instituto (espólio que hoje pertence ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica – N.A.). Sei apenas que o material foi desmontado e distribuído pelo novo Laboratório de Radioisótopos, há anos criado na Faculdade de Medicina, e pelo Laboratório de Física da Facul­dade de Ciências, onde continua a existir todo o material, comprado, logo de início, para a sua Secção de Física (que será feito deste material?). E assim, por forma tão insólita, morreu um Instituto que - pode dizer-se - nunca chegou propriamente a viver."

A este respeito quero ainda lembrar as palavras de Eduardo Caetano na excelente biografia que, como discípulo de Mário Silva e conhecedor das injustiças que lhe tinham sido movidas por Oliveira Salazar, resolveu, num acto louvável, escrever: "Os portugueses não poderão deixar de lamentar que este projecto do então jovem físico e cientista Prof. Mário Silva iniciado em Portugal com a colaboração de alguns, como Álvaro de Matos, Carlos Santos e Moura Relvas na Medicina e Luís Carriço na Botânica, tivesse sido abortado devido aos «espíritos maléficos» (Designação atribuída por Mário Silva a todos aqueles que impediram, de alguma forma, a realização das suas obras). Nem se pedia que o ajudassem, a não ser materialmente, mas tão-só, que não o impedissem de trabalhar. Que obra notável se poderia ter desenvolvido para bem de portugueses doentes, para bem da Ciência e Tecnologia, para bem do Homem! Imagine-se só, por alguns momentos, este Instituto a trabalhar com Mário Silva, Salomon Rosenblum, A. Proca, S. deBenedetti e G. Beck e tantos outros nacionais e estrangeiros que viriam atraídos pelos trabalhos que certamente se realizariam e pelo alto nível científico que o Instituto não deixaria de ter. Que pena!".

O impacto que o referido Instituto teria tido no des­envolvimento científico português e no bem estar dos portugueses não é mensurável e a sua proibição constituiu um rude golpe no desenvolvimento da Ciência e Tecnologia em Portugal. Ainda mais porque, em 1940, Mário Silva pretendeu criar uma Escola de Física Nuclear. Acolheu em Coimbra, du­rante a 2ª Guerra Mundial, alguns físicos de renome que, fugidos ao regime totalitário nazi, ali procura­ram refúgio. Conheceu-os no Instituto do Rádio de Paris. Guido Beck (austríaco), Sergio deBenedetti (italiano) e Alphonse Proca (romeno) foram propos­tos por Mário Silva à Universidade, mas a proposta não teve seguimento..., foram perseguidos e acabaram por ser expulsos de Portugal, por serem antifascistas e de ascendência judaica (excepto A. Proca), não fossem infectar os chamados valores tradicionais portugueses. Estes cientistas foram ime­diatamente admitidos noutros centros de inves­tiga­ção. Beck - Universidad de Cordoba, deBenedetti - Carnegie Institut of Technology, Pittsburgh e Proca regressou ao Instituto do Rádio de Paris. Sobre deBenedetti refere Mário Silva [1]:"...Muito desejei fixar este notável investigador em Coimbra, mas, tal como noutros casos análogos, não consegui obter quaisquer facilidades neste sentido, por parte das autoridades oficiais responsáveis. Seguiu para os Estados Unidos da América onde fez uma notável carreira de professor e investigador. Como «Professor of Physics, Carnegie Institut of Technology» escreveu, em 1964, um notável livro «Nuclear Interactions»". Editado pela John Wiley & Sons. Sergio deBenedetti foi membro editorial de algumas importantes revistas, como a «Reviews of Modern Physics» e «Nuclear Instruments and Methods». Proferiu, num ciclo de conferências realizado em 1940 no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra, uma conferência intitulada «Raios cósmicos e núcleo atómico». De notar que Beck e Proca passaram pela Universidade do Porto, onde trabalharam com Ruy Luís Gomes. Mas foi pela mão de Mário Silva que vieram para Portugal. Veja-se o telegrama de Guido Beck dirigido a Mário Silva, pedindo-lhe que fosse rápido nas diligências que permitissem a sua vinda para Portugal. É perceptível o terror de Beck pela chegada dos nazis à França ocupada.

Telegrama, enviado de Lyon, pelo cientista austríaco Guido Beck a Mário Silva a 4 de Julho de 1941. Beck fugia ao regime nazi.

Aproveitando a estada destes cientistas em Coim­bra, Mário Silva dinamizou um curso intitulado "Introduction Physique et Philosophique à la Théo­rie des Quanta", que chamou a atenção da comuni­dade científica internacional e onde participaram outros nomes da Ciência Portuguesa deste século como Magalhães Vilhena, Pacheco de Amorim, Manuel dos Reis e Vicente Gonçalves, entre outros. Existe uma carta de Jean Thibaud solicitando à Universidade de Coimbra as lições aí proferidas, pois Guido Beck terminou em Coimbra um importante trabalho sobre teoria quântica dos campos. A propósito do curso, escreveu Mário Silva: "... Com a saída de Coimbra do Prof. Guido Beck, ficou inutilizada a obra que tencionávamos publicar, em colaboração, intitulada Le champ electromagnétique variable, da qual saíram apenas 48 páginas, em 1942. As lições dos Profs. Guido Beck e Vicente Gonçalves foram publicadas na Revista da Faculdade de Ciências, no vol. X... e são dois valiosos trabalhos".

Eduardo Caetano [2] relata bem a situação vivida no país naquele tempo: "A apatia intelectual que então se vivia era tão grande que, embora con­vidados, ninguém de Lisboa e do Porto se interessou por este notável curso... Infelizmente também aqui os «espíritos maléficos» voltaram a fazer sentir a sua acção obrigando a sair do país o Prof. Guido Beck [7] e interrompendo assim o curso... Para a época o curso era uma pedrada no charco! Era o dinamismo criador contra o marasmo estéril! Era a agitação intelectual insatisfeita contra o imobilismo acomodatício e rotineiro... E daí a oposição sistemática a todas as ideias criadoras do Mestre! Mas, apesar de tudo lu­tava, lutava sempre por um mundo melhor, à sua maneira e no seu campo de acção. Porque a têmpera excepcional de que era dotado o fazia reagir e vencer obstáculos que constantemente e sistematicamente lhe bloquea­vam o caminho. Por inveja e despeito dos pigmeus perante o saber, a inteligência e a força cria­dora do gigante. Eles pouco ou nada fizeram. Muito pouco ou nada produziram, de interesse, de real va­lia. E por isso sentiam-se pequeninos, complexados, infe­riorizados. E daí semear escolhos a barrar-lhe o caminho. E, como eram muitos, mesmo pigmeus, tinham a força do número... Todavia o Prof. Mário Silva venceu. Se lhe tivessem permitido teria feito mais, pela Ciência pura e aplicada, pelo ensino ci­en­tífico. Mas a sua obra existe. É indestrutível. E os gnomos passaram. Ninguém mais falará deles!" Será? Porque foi então votado ao abandono, ao esquecimento e à destruição a sua última obra, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica? Museu da Vergonha Nacional?

A hostilidade para com Mário Silva ficou bem ex­pressa noutro triste acontecimento. Mário Silva foi convidado oficialmente pelo governo francês para, em 1967, assistir ao primeiro centenário do nasci­mento de Madame Curie. Alguns meses antes do honroso convite, propôs ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa a realização de uma sessão comemorativa. Esta proposta não mereceu, lamen­ta­velmente, qualquer andamento. Todavia, em Paris, Mário Silva verificou que a Academia das Ciências de Lisboa, da qual era membro desde 1939, se havia feito representar por um francês em vez de ter enviado um dos seus membros, na qualidade de seu representante. O pior é que aquele representante não assistiu a nenhum dos actos ou sessões comemorativas, nem sequer deu nota que representaria a Academia das Ciências de Lisboa. Para vergonha dos portugueses foi a única Academia das Ciências do mundo que não enviou representante ou delegação nacional [2-3].

Em Coimbra, no início dos anos 30, efectuou os primeiros trabalhos sobre radioactividade em águas termais no nosso país [4]. Especialista em radioactividade, reconhecido mun­dialmente, pôde constatar o quão atrasado estava o nosso país. A investigação científica era quase inexistente. Tudo fez para aplicar os conhecimentos adquiridos em Paris... A sua revolta ficou bem ex­pressa na dedicatória que escreveu no seu livro «O Elogio da Ciência» em 1970 [3]: "... o autor saúda a generosa Juventude universitária de Coimbra que, hoje, como então, e como sempre desde os tempos de Antero, está empenhada em erguer, sobre os escombros de uma Universidade há muito envelhe­cida, as paredes mestras de uma Nova Universi­dade, que seja capaz de, efectivamente, promover o desenvolvimento moral, intelectual e social do país, e possa estar, sem peias nem entraves, ao serviço do desenvolvimento da própria Ciência."

Referências
[1] Carlo Rubbia, O Dilema Energético, Editorial Presença, 1987.
[2] Eduardo Caetano, Mário Silva: Professor e De¬mocrata, Coimbra Editora, 1977.
[3] Mário A. da Silva, Elogio da Ciência, Coimbra Editora, 1963.
[4] M. A da Silva, La radioactivité des gaz spontanés de la source de Luso, Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, Vol. I nº 2, 1930.
[5] Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, vol I-X (1930-1942).

29/04/08

A Taberna e o Milagre do João Farmácia

Taberna do "ti"Pereira (foto retirada daqui)
Noé, logo que saiu da Arca, após o Dilúvio, a primeira coisa que fez foi plantar uma vinha, porque antes tinha sido agricultor – Génesis, Sagradas Escrituras. Plantada a vinha, espremidas as uvas e fermentado o mosto, Noé bebeu o vinho, gostou e embebedou-se. A bebedeira foi tal que provocou a primeira zaragata familiar na segunda fornada humana, castigando o seu neto Canaã, filho de Cam, por este o ter visto nu. Este simples resumo bíblico, sobre o aparecimento do vinho, tem um único sentido justificativo. Sem vinho, não há taberna.
A vinha iniciou o seu percurso para o sul, expandindo-se pelos países mediterrânicos da Europa e pelos países do Norte de África. Passando pela Galileia, Jesus bebeu do seu vinho e lastimou que o chamassem bebedor – S. Mateus, 11 –. Ao sul de Portugal, beneficiado pela mesma zonagem climática, os árabes encheram as suas ânforas com vinho. Na sua subida para o Norte, abandonadas as ânforas, o vinho enche as pipas de castanho e de carvalho.
Nas albergarias, no tempo das mudas, quando os cavalos suados puxavam as diligências reais, os seus ocupantes fidalgos, os piratas e salteadores, os pichéis de estanho saciavam-nos com vinho, sem distinguir classes. Nas estalagens serranas ou tabernas alargadas aos almocreves e aos machos cansados pelas cargas de odres de vinho e de azeite, os pichéis não descansavam. Por vezes, nas estalagens, tinham a companhia dos carvoeiros, que aldrabavam os compradores de carvão com o peso do negro volfrâmio, apanhado do chão para os lados da Panasqueira.
A taberna foi, ao longo dos tempos, a sala de visitas das aldeias ou lugarejos e o único centro social das suas comunidades. Na sua penumbra das tardes e nas noites, estas aclaradas com a luminosidade pálida do candeeiro, os jogadores da sueca ou do dominó só toleravam o som das gaitadas do realejo de boca ou de um acordeão de passagem. Depois do trabalho, o cavador, largada a enxada na soleira, guardada pelo rafeiro, entra sorrateiro e, enquanto espera a oferta de um copo, mastiga bacalhau cru desfiado, para completar o ritual.
De madrugada, o bagaço para matar o bicho, à tarde, o vinho para a merenda, à noite, o vinho para sossega.
O caixeiro-viajante, com aparições periódicas, entra engravatado e pinoca e logo saúda com a oferta de uma rodada, para abrir caminho ao seu negócio.
A taberna do passado não foi, somente, um centro social.
Os imprevistos da Natureza deram ao homem rural uma cultura de conhecimentos, brotada da sua experiência com os amanhos da terra de cultivo. O homem sabia observar, interpretar as mudanças do clima e gastava os olhos a ver o céu, na esperança da chuva. E, certa, quando o vento empurrava as nuvens do Colcurinho para a Estrela. Olhando a lua, só podava no quarto crescente. Saber capar os tomateiros e meloais era com ele e não com o engenheiro, ou impedir a entrada da mulher menstruada no lagar de azeite, era com o seu mestre e não com o doutor.
Na taberna, nos dias festivos ou de convívio já molhado, cantava-se ao desafio, não com versos de Camões, mas com as quadras rimadas do cavador-poeta da Malhada, na freguesia de Vide. Estas quadras, cantadas isoladas ou ao desafio, tinham a cadência do fado corrido e o fôlego da verdade do vinho e da verdade dos versos do melhor poeta português António Botto: «Amigos, enchei as taças de vinho, as almas vêm à tona».
A taberna também fazia milagres.
Num certo dia, já afastado no tempo, o cónego Nogueira sai do Piódão e do seu Colégio que preparava jovens para o Seminário da Guarda. No caminho, cai da mula que o transportava para a Vide e é levado muito ferido e ensanguentado para a farmácia, numa padiola de paus atados. O seu dono, conhecido por João Farmácia, estava, na altura, bêbedo e sonolento sobre o banco da taberna próxima. O «Farmácia», aliás sabedor e pronto a socorrer doentes, na falta do médico, colocado em frente do cónego Nogueira, limpa-lhe o sangue, lava-lhe as feridas com tintura de iodo, une com agrafes as fendas da cabeça e envolve-as com ligaduras rasgadas de um lençol branco de linho, de uma vizinha. O povo embasbacado assiste, formando um círculo fechado e abafado. Terminado o tratamento, ouve-se um murmúrio: “foi um milagre, não gemeu!” e, mais alto, para o céu ouvir, “é um santo!”.
Na taberna o vinho revigorava forças aos combatentes de João Brandão, nas lutas contra os miguelistas. Na estalagem, em Vide, o pichel fazia rodadas com João Brandão e seus combatentes antes de enfrentar os Cacas que, de trás da serra, como salteadores e fiéis aos absolutistas, atacavam para os lados da Barriosa e Baloquinhas.
Na sua taberna, em Vide, o Severino Espanhol, prestes a transportar na sua mula o Dr. Vasco de Campos para socorrer um doente, pede à mulher para servir dois copos.
Na taberna, o vinho branco era o champanhe dos pobres. A taberna fomentava, também, uma certa democracia rural. Na Vide, os estudantes, nas suas férias, levavam o voltarete para a taberna, o jogo de cartas que, no antigo regime, era jogado pela aristocracia nos salões dos palácios franceses. O Voltarete foi acolhido nas lareiras dos senhores padres serranos, a partir de Unhais da Serra, liderado pelo padre Alfredo e pelo padre Cândido Nobre, em Vide, como anfitrião. Mas era na loja de Manuel Dias, com a alfaiataria e taberna, que se jogava o voltarete. Este jogo, jogado nos palácios reais em França pela aristocracia clerical e rural, teve o privilégio de ser jogado na taberna.

24/04/08

A Mais Bela História de Futebol...

A Primeira equipa de futebol de Vide, Agosto de 1938
Primeira fila: António Batista, Cristiano Pacheco, Joaquim Lopes, José Brito, Augusto Lopes. Segunda fila: Carlos Nobre, Ovídio Batista, António Matias. Terceira fila: José Gonçalves, João de Brito, José Matias, Américo Amaro, Victor Ribeiro.
A Vide é uma bonita aldeia beirã, localizada no vale da ribeira de Âlvoco, encurralada entre as serras da Estrela e do Açor. A equipa de futebol de Vide, do qual o meu pai fez parte, realizou o seu primeiro jogo oficial, com a equipa de S. Gião, no seu campo, localizado no alto dos Atoleiros, no mês de Agosto de 1938. Aqui fica esta deliciosa história sobre futebol, quiçá a mais espectacular de todas.
...A equipa de Vide foi constituída nas férias de Verão e treinada, inicialmente, com bolas de trapos, no Largo da Ponte, em terra batida. Os jogadores partiram para o campo dos Atoleiros, sob o calor de Verão. O apoio material, equipamento, bola e tintura de iodo (oferecido pelo João Farmácias), estava a cargo do Victor da Venda. A claque de apoio estava bem representada pelo Zé Matias que, ao longo do jogo, saltava e gritava para incutir ânimo e frescura aos jogadores. Iniciaram o desafio, cansado e suados, pela caminhada a pé, no pino do Sol, de Vide aos Atoleiros (uma estirada que só visto).
Pelo contrário, os jogadores da equipa de S. Gião apareceram frescos e bem equipados à “Benfica”. Atrás dos jogadores uma comprida fila de apoiantes, homens, mulheres e crianças. Vista de cima, ao alto dos Atoleiros, a fila parecia uma procissão, com opas vermelhas à frente.
No início do jogo, o defesa Augusto, já alinhado no campo, com os restantes jogadores, desata a correr em direcção ao árbitro, com gestos agressivos.
- Ó Augusto, o que se passa?
- Que anda este gajo a fazer com um apito na boca?
Responde ainda ameaçador.
Esclarecido e acalmado, o Augusto retoma o seu lugar no campo.
A equipa de S. Gião, ajudada pela frescura, dominava o jogo, no início. O Augusto e o Cristiano Pacheco aguentavam bem a genica dos jogadores contrários. O João Alfaiate, na baliza, dava confiança à equipa. A certa altura do jogo, a boina espanhola do Cristiano, sempre enfiada na cabeça, foge-lhe. O Cristiano pára e o jogador de S. Gião ultrapassa-o com ganas para marcar o golo.
- Cristiano, deixa a boina!
Gritaram os companheiros.
Pernalta e com passadas largas, apanha o adversário, passa-lhe uma rasteira e aplica-lhe a devida canelada. Naquele tempo, os jogadores de Vide, já praticavam as “boas regras de futebol”. Como hoje, aliás, se praticam. O jogador de S. Gião, estatelado no chão, com a barriga para baixo, berrava com palavras “bem à portuguesa”, de sacana para cima. Insultos, aliás óbvios, que se perdiam na paisagem agreste e indiferente aos Atoleiros, de pinheiros e tojos.
A linha avançada de Vide, com o seu último fôlego, marca o golo da confirmação da vitória. Foi o fim do mundo. Os apoiantes de S. Gião revoltaram-se. Quando estavam para invadir o campo, para agredir os jogadores de Vide, ouviram-se dois tiros. Todos os jogadores pararam. A assistência ficou silenciosa e pasmada.
O Gato Negro de Alvoco, apoiante e defensor físico da equipa de Vide, destaca-se alto e ameaçador, com uma pistola na mão levantada:
- Se alguém bater nos de Vide! Mato o primeiro!
Avisa com firmeza.
Foi a debandada dos apoiantes de S. Gião. Era vê-los a correr pela encosta abaixo, sem olhar para atrás.
Terminado o jogo, todos os jogadores de Vide, agarraram-se uns aos outros, aos abraços e beijos, como uma ninhada de crianças alegres e felizes.
No regresso a Vide, entraram a cantar:
"Malta, malta, malta
Atenção
Ganhamos por dois a zero
Aos de S. Gião."
A morte já levou quase todos estes jogadores da primeira equipa de futebol de Vide. Aos que ainda vivem, a emoção ao recordá-los, neste momento, não recusa lágrimas. Emoção sentida, como o abraço medido na distância de Vide aos Atoleiros, mas, também, com uma imensa largura, medida na saudade desse Verão.
Na realidade o autor deste texto, meu pai, foi o último Gavroche e faleceu a 11 de Junho de 2oo7.
Bem-hajas!

A Propósito de um Conselho Nacional...

É meia-noite e picos e o dito ainda decorre.
Mas eis quando o ex se dirige ao ex que não sabe se é candidato:

20/04/08

A Berlusconização do PSD

Um filme a não perder, que nos mostra à saciedade como se pode ser oposição da oposição.
O filme está em cena em qualquer tv perto de si (image made by kaos)
A propósito do episódio que é do conhecimento público, e pelas reacções e pelos exemplos de vitórias recentes, mesmo depois de toda a espécie de trafulhice, juntando a encenação de uns e de outros, à actuação de outros tantos, aos efeitos especiais e da iluminação sem igual, pensamos que estamos na presença de uma obra-prima, um épico trágico-cómico, que certamente receberá da academia o óscar para o melhor filme estrangeiro.
No entanto, apesar de em equipa vencedora não se dever mexer, só um, e um só, poderá dar a volta ao texto, castigar os ímpios e subir ao poder.
made by Kaos

O Bravo do Pelotão!

A Fórmula 1 que eu conheci na minha adolescência pouco ou nada tem a ver com a dos nossos dias. Naquele tempo a capacidade dos pilotos sobrepunha-se à das máquinas. As corridas ganhavam-se nas pistas e não nas boxes, como hoje acontece. Ficávamos presos ao pequeno ecrã, atónitos com os despiques intensos e as ultrapassagens impossíveis. Quem não se lembra dos duelos Piquet/Senna, Prost/Senna, Senna/Schumacher, e tantos outros. Hoje as provas da F1 são monótonas, diria mesmo chatas, e só apetece mudar de canal. Mas revivendo esses tempos áureos, lembrando o trágico acidente no autódromo de Zolder, durante o grande prémio Bélgica, ao volante de um Ferrari, há precisamente vinte e seis anos (5 de Maio próximo), o Natureza presta hoje homenagem a um dos pilotos mais espectaculares que a Fórmula 1 conheceu. Referimo-nos a Gilles Villeneuve (Berthierville, 18/01/1950 — Leuven, 8/05/1982), pai do também piloto Jacques Villeneuve. Apesar de ter obtido apenas 6 vitórias em 67 corridas disputadas na sua passagem pela F1, entre 1977 e 1982, é considerado um dos melhores pilotos de toda a história da Fórmula 1. Enzo Ferrari, o patrão da sua equipa, era um dos seus maiores fans. Eis a razão:

O Efeito Borboleta...

Edward Lorenz e o seu modelo do tempo (daqui)
Em homenagem a Edward Norton Lorenz (1917-2008), matemático e metereologista americano, pioneiro da chamada teoria do caos, falecido no passado dia 16 de Abril, aqui fica um video publicitário espetacular baseado no célebre efeito borboleta (importância das condições iniciais na teoria do caos), por ele descoberto. Quem não conhece a célebre frase "O bater de asas de uma borboleta na China, pode desencadear um furacão na América".


17/04/08

A Descolonização Portuguesa (I)

Se eles imaginassem o que os esperava... (imagem retirada daqui)
A verdadeira história da descolonização portuguesa está ainda por fazer!
A vergonhosa acção das nossas forças armadas, com muitos dos seus oficiais a enriquecerem, do dia para a noite, à custa do colono português, traindo-o, jamais será esquecida.
A vergonhosa conivência do estado português que, impondo uma limitação miserável de cinquenta contos para o câmbio possível às pessoas que fugiam ao terror, abrindo as portas a uma das maiores fraudes da história portuguesa contemporânea, jamais será esquecida. Para os oficiais e diplomatas um milhão lá, um milhão cá. Este assunto foi sempre muito bem escondido do povo português.
A vergonhosa desonestidade do estado português que, após trinta e quatro anos depois do 25 de Abril, ainda não teve a hombridade de indemnizar os portugueses que viviam e trabalhavam nas suas colónias ultramarinas; e foram espoliados de tudo o que tinham, incluindo dos familiares que viram ser chacinados; ao contrário do que fizeram todas as antigas nações coloniais europeias, incluindo a Itália, jamais será esquecida.
A vergonhosa atitude de muitos "irmãos" do continente que, olhando-os de soslaio e apelidando-os de retornados e exploradores de pretos, lhes viraram as costas, jamais será esquecida.
A vergonhosa hipocrisia, infâmia e cúmulo que foi atribuírem doutoramentos honoris-causa a aprendizes de enfermeiro, humilhando a memória amarga de quem sabia que se premiava quem oprimia o seu povo, exacerbou o racismo e o ódio ao branco e incentivou à vingança injusta. Morreu muita gente. Gente a quem Portugal virou as costas. Isso jamais poderá ser esquecido.
Portugal é um país maravilhoso, cheio de gente de merda e de governantes ainda piores. E se hoje está mais desenvolvido do que há trinta e quatro anos, muito deve àqueles bons portugueses "retornados".
Duas Notas Finais:
1ª - É óbvio que a independência das ex-colónias portuguesas deveria ter acontecido, pelo menos, antes da guerra ter começado. Em paz e harmonia. Não o tendo sido, o estado português só tem que assumir as suas responsabilidades. Claramente que falta assumi-las perante os antigos colonos portugueses. O mínimo que pode fazer, por todo o mal que lhes causou, é indemnizá-los. Caso contrário esta ferida jamais sarará. Mesmo que morramos todos. Ficará escrita aqui e acolá.
2ª - A revolução do 25 de Abril vai fazer trinta e quatro anos. Trinta e quatro anos de liberdade que têm que ser celebrados condignamente, ano após ano. Só assim os valores que ela nos trouxe não serão esquecidos e poderão ser convenientemente ensinados às novas gerações. Sem eles, eu não poderia estar aqui hoje a escrever.