Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

11/04/08

Biba o Chuchialismo!

Ora aí está! O governo está na firme disposição de igualar os direitos dos funcionários públicos aos da actividade privada. BRAVO! Mas a que privada se referem? Aumento do tempo de trabalho semanal em mais 15 horas ou 3 horas diárias?!? Será que se referem à relacionada com a construção civil ilegal?! Não! Não! Não pode ser. Lemos mal! São os media mais uma vez a manipular a informação. Tratando-se de um governo socialista, que pugna pela defesa de quem trabalha, deduzimos que a ADSE, por exemplo, vai começar a dar as mesmas regalias aos funcionários públicos que o SAMS dá aos bancários. É isso não é? Sendo os descontos semelhantes nos dois sistemas sociais e as regalias dadas pelo SAMS incomensuravelmente maiores, como por exemplo, os seus beneficiários só pagarem 10% da conta da farmácia, independentemente dos medicamentos prescritos, presumimos que o estado vai agora acabar com esta injustiça. Parece que vai finalmente compensar os seus funcionários, pois, afinal, eles têm sido contribuintes líquidos do serviço nacional de saúde (SNS), que na prática depois é usufruído por todos. É que pelo mesmo valor do desconto que os funcionários públicos fazem para a ADSE, os privados têm excelentes seguros de saúde. Além deles usufruírem, podem sempre recorrer às urgências dos hospitais públicos, pois é para aí que vão a correr na hora da verdade.

09/04/08

A Podoa de Alexandre Herculano

Olhava para a podoa que aqui tenho à minha frente, quando me lembrei da história que o meu pai me contou. Também a escreveu no Memorial de Vide:
«O Dr. Joaquim António de Mascarenhas escreve no seu livro “Vide”:
"Alexandre Herculano (um dos nossos maiores historiadores e escritor), agricultor, residente na Quinta de Vale dos Lobos, concelho de Santarém.
Era pároco na sua freguesia, Azóia de Baixo, o padre Francisco Ribeiro Costa Nobre, Tio de Joaquim Ribeiro Costa Nobre, que lhe dirigiu as seguintes palavras:
“Olha rapaz, leva esta podoa para tratares as videiras e as oliveiras”.
O professor Joaquim Ribeiro Costa Nobre veio para a Vide, como professor, em Abril de 1877, indo habitar a casa do seu Tio prior, na Quinta da Venda. A podoa de Alexandre Herculano, continua a trabalhar ainda hoje, nas mãos do seu proprietário, em Vide».
O meu pai herdou-a do tio Joaquim Ribeiro Nobre. Assim, uma podoa igual a tantas outras na forma, tem, no fundo, um valor inestimável. Foi afinal a podoa do agricultor, do "ilustre solitário de Vale de Lobos". Em contraponto com "o historiador da nacionalidade portuguesa e da Inquisição em Portugal, o romancista do Monasticon, o poeta da Harpa do Crente, o profundo pensador, o sábio arqueólogo, o paciente erudito, o crítico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o inimitável mestre". Pois segundo o amigo Ramalho Ortigão, na sua Grande obra "As Farpas", vol. III, "Os que houverem de julgar na história essa poderosa personalidade terão de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na terra, sucedendo-se um ao outro no indivíduo daquele nome (Alexandre Herculano)".
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Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, (28 de março de 1810, em Lisboa — 13 de setembro de 1877, em Vale de Lobos, Santarém), escritor romântico e historiador português. É um dos grandes escritores da geração romântica, desenvolvendo os temas da incompatibilidade do homem com o meio social e experienciando a dimensão ética do escritor face à incompreensão do mundo...
Alguns títulos da sua vasta obra:
A Voz do Profeta (poesia) - 1836; A Harpa do Crente (poesia) - 1838; O Fronteiro de África (teatro) - 1838; Os Infantes em Ceuta (teatro) - 1842; O Bobo (romance histórico) - 1843; Apontamentos para a História dos Bens da Coroa e Forais - 1843/44; Eurico, o Presbítero (romance histórico) - 1844; História de Portugal (4 vols) -1846/1853; O Monge de Cister (romance histórico) - 1848; Poesias - 1850; Lendas e narrativas (novelas) - 1851; História da Origens e Estabelecimento da Inquisição em Portugal - 1854/1859; Estudos sobre o Casamento Civil - 1866; Portugaliae Monumenta Historica - 1856/1873; Opúsculos (10 vols) - 1873...

07/04/08

Aos Rangeis e Tavares Venenosos que por aí Proliferam...

O Tribunal Constitucional declarou inconstitucional o novo ECD, Estatuto da Carreira Doente, perdão, Docente. Na decisão do colectivo de juízes lá está na alínea c) do acórdão Nº 184/2008:
Declarar a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, da norma contida no artigo, 15.º n.º 5, alínea c) do referido Decreto-Lei n.º 15/2007, por violação do nº 2 do artigo 47.º da Constituição.
E agora? Que dirão as más línguas viperinas? Que os árbitros estavam comprados? E os titularíssimos que também já se pavoneavam por aí? Voltam à Terra? E a sinistra? Continua? Que fará o Zézinho no meio de tanta malvadez?
Não percam os próximos episódios de "O Zézinho no País das Bananas Comidas e das Víboras Reluzentes"!

03/04/08

Natureza Naturada

BALADA DA NEVE
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.
Augusto Gil, in Luar de Janeiro (1909)
Uma homenagem do Natureza ao poeta "da sagrada beira" Augusto Gil (1873-1929), de quem ainda tenho a honra de ser primo através da minha avó Preciosa.
Biografia retirada do site do Agrupamento de Escolas Augusto Gil do Porto:

Augusto César Ferreira Gil (1873-1929) nasceu em Lordelo do Ouro, Porto, e faleceu em Lisboa. Estudou inicialmente na Guarda, a "sagrada Beira", de cuja paisagem encontramos reflexos em muitos dos seus poemas e de onde os pais eram oriundos, e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Começou a exercer advocacia em Lisboa, tornando-se mais tarde director-geral das Belas-Artes. Na sua poesia notam-se influências do Parnasianismo e do Simbolismo. Influenciado por Guerra Junqueiro, João de Deus e pelo lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspectiva neo-romântica nacionalista. Obras poéticas: Musa Cérula (1894), Versos (1898), Luar de Janeiro (1909), O Canto da Cigarra (1910), Sombra de Fumo (1915), O Craveiro da Janela (1920), Avena Rústica (1927) e Rosas desta Manhã (1930). Crónicas: Gente de Palmo e Meio (1913).
E quem, como eu, alguma vez teve o prazer de ouvir esta poesia, declamada pelo excelente caricaturista, desenhador e ilustrador que foi Tóssan, teve com certeza o prazer de sentir Aquele Arrepio. Obrigado Tóssan.


Figura retirada do livro "Rã no Pântano" de António de Almeida Santos

02/04/08

Trocos!

imagem retirada do O Pafuncio (a quem peço desculpa pelo abuso, mas não resisti!)
Ora vejam só dois casos exemplares que mostram muito bem como tudo funciona às mil maravilhas em Portugal. Áh, não, bolachas!
As notícias que dão conta da desumanidade das juntas médicas são manifestamente exageradas. Afinal há quem não se queixe das mesmas. Ontem mesmo, em carta enviada ao Público, Paulo Teixeira Pinto indica que passou “à situação de reforma em função de relatório de junta médica”. Certamente ainda mal refeito da forma como foi corrido do BCP e da Opus Dei, este banqueiro de 46 anos foi considerado inapto para o trabalho, apesar de já ter arranjado um cargo numa consultora financeira. Teixeira Pinto nega ter recebido 10 milhões de euros de "indemnização pela rescisão do contrato” com o BCP, garantindo que apenas recebeu a “remuneração total referente ao exercício de 2007”: 9.732 milhões de euros em "compensações" e "remunerações variáveis". Estas juntas médicas são as mesmas que recusam reformas a Professores com Cancro. Mas isto são trocos. Porque para além deles, três anos de trabalho árduo merecem bem os 35.000 euros mensais (repartidos por 15 x num ano?) de reforma que sua excelência usufruirá para toda a vida. Bravo!
Caramba... afinal as juntas médicas até funceminam!
E Portugal está bom e recomenda-se. Pois outro senhor comprou uma propriedade no Algarve, na região de Alvor por 500 mil euros e vendeu-a por cerca de 15 milhões de euros. Ena! Mas o melhor de tudo é que parece que não pagou um tostão furado ao fisco, ao abrigo dos buracos da nossa lei, especialmente abertos para que tão ilustres come(nda)dores se possam alambazar à vontade. Sem espinhas e de forma legal. Ena! Ena! Ainda dizem mal de Portugal? Puxa... aqui sim... aqui ganha-se dinheiro à grande, à francesa e à canzana!
Ora digam lá comigo aquele célebre ditado:
"Em terra de cegos quem tem olho é?...
- Boss do BCP!"
Pois claro!

01/04/08

O Grande Logro (1)

Como todos sabem, a comunicação social impinge-nos, quase diariamente, notícias relacionadas com o aumento do preço do petróleo e com a consequente subida do preço dos combustíveis. Todos nós constatamos que necessitamos cada vez de mais euros, para metermos cada vez menos gasolina. É assim ou não é? Com o gasóleo ainda pior. Até o pão, o alimento por excelência dos pobres, sofre as consequências do aumento do preço do petróleo. Bravo governo socialista! Os industriais da panificação chegam a falar em subidas de 50% no preço do pão, para contrariar o aumento do preço dos cereais devido à subida do preço do petróleo. Para verificar se há razões objectivas para este desvario paranóico no aumento imparável da gasolina, ou se trata de um logro que o governo (mais impostos), as gasolineiras (é preciso sustentar o luxo exuberante dos gestores da Galp - os tais cargos que estão reservados a ex-governantes e aos amigalhaços) e aqueles papalvos (o cartel já foi desmantelado? mesmo?) nos querem impingir e, há boa maneira do chico-espertismo mais saloio, meterem-nos literalmente a mão no bolso.
Então vejamos. Usando dados de fontes insuspeitas, como é o caso da EIA, que é o departamento do governo americano que se dedica à estatística sobre os preços da energia, resolvi verificar a evolução do preço do barril de petróleo ao longo dos últimos anos. Com base no câmbio USD/Euro em datas precisas verifiquei também a evolução desse preço em euros, desde 2001 a esta parte, pois nós compramos petróleo em euros e não em dolares. A figura seguinte mostra os resultados.

Primeiro. De meados de 2001 até finais de 2004 o preço do petróleo, em euros, não variou. Além disso, facilmente verificamos (curva amarela) que afinal o preço do petróleo em Março de 2008 não era muito diferente daquele que se verificava em Novembro de 2005. O que se constata é de facto uma subida exponencial do preço do barril de crude em dólares americanos. Isto deve-se essencialmente à forte desvalorização da moeda americana face ao euro, com reflexo efectivo no preço do barril de petróleo que é tradicionalmente fixado em dólares. A variação percentual, tendo por base o preço do barril em Setembro de 2005, pode ser vista no gráfico seguinte.

O que podemos concluir através deste gráfico é que o preço do barril de petróleo em euros, tirando um pequeno pico ocorrido em meados de 2oo6, desceu continuamente desde o verão de 2005. Repare-se que em finais de 2006, início de 2007, o preço do barril estava cerca de 30% mais barato do que em Setembro de 2005. Alguém constatou esta descida quando ia abastecer o carrito às bombas? Não andaram literalmente a meter-nos a mão no bolso?

É certo que em Março de 2008 o aumento do preço do barril, fixado em dólares, relativamente a Setembro de 2005, foi quase cerca de 70%. No entanto, em euros, esse aumento foi pouco mais de 20%. O que não variou desta forma foi o preço da Super-95. De Setembro de 2005 a Março de 2008 aumentou cerca de 40%, de forma praticamente contínua. Mas mais importante e curioso, é que se constata do gráfico anterior que o preço do petróleo em euros oscilou percentualmente entre cerca de -20% a +20%. Existe instabilidade sim, mas em média não houve praticamente qualquer aumento. Concluindo, fica provado que nos andam a enganar à grande e à francesa. Voltaremos a este assunto num próximo post para desmascararmos um logro ainda maior.

PS: Acabo de ouvir na Euronews que a taxa de inflação em Março de 2008 na zona euro fixou-se em 3,5% (em crescendo devido, dizem eles, ao aumento do preço do petróleo e de outras matérias-primas (fixadas também em USD presumimos)). Valor que provavelmente indicia novos aumentos no valor das taxas de juro. Bravo!

31/03/08

As Lições Irlandesas...

Vale a pena ler a análise de Álvaro Santos Pereira no Blogue Desmitos.

É que ao ler a análise dei por mim a pensar que, efectivamente, em Portugal, parece que fazemos tudo ao contrário. Não sentem isto muitas vezes? Porque temos nós políticos tão fracos? Quantas vezes ouvimos os noticiários e ficamos com a sensação do tipo: mais uma asneira da grossa? E os nossos comentadores, que são sempre os mesmos, que andam em círculos, com uma tapa nas ventas? Não conseguem enxergar além da sua secretária, muitas vezes nem além do próprio umbigo! A nossa cultura científica é quase nula. Parece que só a literatura (A Bola), as artes (futebol), o teatro (futebol), a música (fado) e o cinema (só se houver porrada!) são sinónimo de cultura! E às vezes nem isso! São os rangeis e os tavares com honras de primeira página. Depois há uns "mais cultos". Uns pseudo-intelectualóides de meia-tigela, mais à esquerda ou mais à direita, tipo daqueles que querem tornar o círculo quadrado. Enfim... Coitados... Fecham-nos o Museu Nacional de Ciência nas barbas e parece que está tudo bem. Nem um sussurro? Nem um zum zum? Será possível? Algo vai muito mal em Portugal. Não é a cultura científica importante? Eu até acredito e aceito que aqui e ali haja uma ou outra medida bem tomada! Mas somos de uma inconstância de bradar aos céus! É calinada sim, calinada sim, calinada não... e o país continua na cepa torta. Andam os portugueses há anos a apertar o cinto para quê? Não adianta! Hão-de esmifrar-nos a todos que não há forma de encarreirarmos devido à teimosia. Pior que os burros que são uns lindos animais. Penso que a avaliação dos políticos devia ser diária. Todos os dias! Vá, Zézinho ao quadro... e Milú, já lhe disse para estar quieta com o telélé! Da próxima vai para a rua...

A Confraria do Carolo

A malha do milho na Eira da Regada - foto retirada daqui
Em primeiro lugar, a palavra confraria, segundo o dicionário etimológico português, significa confraria. Noutros dicionários, a confraria identifica-se com misericórdias e com a principal componente, a religiosa e com associações de carácter cultural e social. De qualquer modo, todas as suas componentes integradas nas confrarias estão abençoadas e, consequentemente, convergem para uma benéfica harmonia dentro de comunidades regionais, principalmente por motivos gastronómicos.
Nos últimos tempos, uma onda de confrarias cobriu Portugal de Norte a Sul, mas por uma questão de vizinhança, refiro-me somente a duas: a Confraria da Chanfana e à recente Confraria do Bucho, com a sua "capital” em Arganil.
Como a chanfana, pessoalmente, não é do meu agrado, talvez por não se situar dentro da minha vivência regional, saúdo a Confraria do Bucho porque, no passado, fazia parte dos costumes dos meus familiares em Vide, e era convidado para as festividades do bucho, na Páscoa.
Aliás, como os de Arganil, os enchidos de Vide, tinham também, no passado, uma significativa fama e enchiam, praticamente, todos os fumeiros das aldeias serranas, incluindo os da minha família, pela matança de três porcos engordados pelas lavagens dos cozinhados das cozinhas, com as pias dos animais, debaixo destas. Desaparecidos os costumeiros enchidos de Vide, recorro, pelas suas semelhanças, ao consumo dos enchidos de Arganil, tornando-me assim ingrato por recusar os enchidos com a marca "Nobre”. Devido a esta marca, a minha filha, Maria Teresa, que foi morta na sua juventude, tinha a alcunha de "salsicha», entre os seus colegas estudantes.
Ainda dentro deste contexto, recordo que na localidade do Gondufo, na freguesia de Vide, os seus presuntos eram considerados os melhores de Portugal. E porquê? Justificava-se, devido à chamusca dos porcos ser feita com a carqueja, diferente da que se usava nas restantes aldeias, incluindo Vide. Esta diferença justificativa levou-me a mandar fazer uma análise de amostras das carquejas do Gondufo e das outras, que vegetavam nas encostas e montes circundantes. Resultado, as carquejas do Gondufo tinham uma essência odorífera benéfica para dar melhor qualidade aos presuntos. Seria por vegetar em nichos ecológicos ou microecossistemas mais favoráveis?
E o carolo, que já tarda? Se a chanfana vem da cabra velha (coitada da velhice), o bucho vem do porco engordado, o carolo vem do milho. Mesmo proveniente dum vegetal vulgar, não merece uma confraria? Aqui, hoje, dou-lhe essa honra. Não só pelos seus costumes gastronómicos e com as mesmas bênçãos religiosas, como nas outras confrarias, mas por outros motivos, que estas não têm. Quais? O milho-verde, nas baladas românticas do inesquecível, e meu preferido cantor, Zeca Afonso. Nas desfolhadas, ao luar nas eiras ou nos fundos largos das casas, que provocavam anseias para o aparecimento da massaroca do milho-rei, coroado com grãos vermelhos e homenageado, por rapazes e raparigas, velhos e velhas, com beijocadas quentes para atiçar amores e recordá-los. Já agora, recordo que roubava estas maçarocas para as beijocas dos anos seguintes. O ritmo dos manguais sobre as maçarocas, que agradeciam, pelo seu destino.
O milho com as suas bandeirolas alimentava e engordava os animais de trabalho e o gado miúdo. Os chás de barbas de milho, que aliviavam e curavam doenças renais. Os casulos das maçarocas, o melhor papel higiénico. Os cigarros e charutos, feitos com estas barbas enroladas nos folhelhos mais finos, que eu fumava com os meus colegas de escola, no quintal da senhora Florinda.
Resumindo, o milho, na sua diversidade de cadeia alimentar e romântica, reinava sobre os outros reinos animais. Aliás, o filósofo grego Platão acreditava que o reino vegetal também tinha alma. E com razão. Perante o reino animal racional, de hoje, é a alma mais bela.O carolo nesta sua cadeia alimentar merece a sua confraria, conforme os povos ribeirinhos, nas margens das ribeiras de Alvoco, Loriga e Piódão e que humanizou e valorizou toda a Alta Serra, abençoada por uma Estrela.
O carolo, a farinha mais grosseira da moagem pelas mós dos moinhos e separado dos serrões da farinha mais fina do milho, destinada, especialmente, para a cozedura da broa nos fornos de lenha. O forno de Vide, comunitário, propriedade da minha família, as fornadas eram pagas com poias e comidas com sabor "divino” feitas pelo prestigiado forneiro Manuel do Baiol.O carolo, com a sua riqueza em fibras naturais e não manipuladas como as da actualidade, foi a sobrevivência dos referidos povos serranos e cozinhado por práticas costumeiras que o tornaram no mais alto nível nutricionista.
Neste propósito, a minha mãe deu sobrevivência aos seus catorze filhos, como professora primária e conhecedora destas práticas. Uma “ninhada” de filhos, nascida junto à lareira com o fumo das cavacas, com as suas benéficas dioxinas. E hoje, para ter só um ou pouco mais filhos a algazarra por uma maternidade! Recordo, quando criança, e no início da minha juventude, ia buscar o carolo ao moinho do Salgueiral, ao cuidado dos melhores moleiros, Alberto Amaral e Salvador.

Um moinho em Chão Sobral, parecido com o do Salgueiral na Vide. Foto retirada daqui

As suas sopas de carolo, com toucinho e chouriço, as sopas de papa-Iaberças, com a mistura de nabiças ou partes tenras das couves, os queijos de carolo cobertos com mel. Para não esquecer, apesar de ainda não ter apreciado o bucho de Arganil, talvez com ciúmes pelo bucho de Vide, do passado, mas que oportunamente penso, em breve, fazer a devida comparação.

Deste modo, a Confraria do Carolo, com a sua capital em Vide, embelezada com as cores verdes das suas capas e largos chapéus (cores do milho-verde), já está geminada, por natureza costumeira e religiosa, com a Confraria do Bucho, com a sua capital em Arganil.

Falta só a entronização dos confrades da Confraria do Carolo. Ou melhor, não falta. Os seus melhores confrades, pelos seus direitos próprios e com as suas vestes coloridas, com os melhores valores humanos, são todos esses povos serranos.

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PAPAS DE CAROLO
Ingredientes:
(Para 4 pessoas)

- 3 chávenas de carolo (milho amarelo ou branco partido) ;

- 1 litro de leite ;

- 1 casca de limão (opcional)1 chávena de açúcar (aprox.);

- sal;

- canela.

Confecção:

Para lavar o carolo, este é colocado num alguidar com bastante água fria e agita-se de modo a trazer ao de cima o farelo. Retira-se o farelo e muda-se a água tantas vezes quantas as necessárias para que o carolo fique bem lavado. Quando o carolo estiver limpo de farelo, muda-se a pouco e pouco para outro alguidar com água, para o libertar das areias que se depositam no fundo, operação que se repete as vezes necessárias. Tem-se ao lume uma panela com água temperada com sal (casca de limão e canela). A água deve ser pelo menos três vezes o volume do carolo (para cada chávena de carolo, quatro chávenas de água). Quando a água levantar fervura, introduz-se o carolo e deixa-se cozer, tendo o cuidado de o mexer de vez em quando no princípio e constantemente assim que o preparado se torne mais espesso. Quando o milho estiver a meia cozedura, começa a juntar-se o leite a pouco e pouco, mexendo sempre. Por fim adiciona-se o açúcar, deixa-se cozer um pouco mais e serve-se em travessas ou pratos individuais enfeitados com canela.

C.N.

29/03/08

Ainda, Sempre e para Sempre o MNCT

Caros confrades blogueiros Luís e Álvaro. Muito obrigado a ambos pelos comentários ao “Ainda e Sempre o Museu Nacional da Ciência e da Técnica”. Ambos tocam na ferida. Resumindo os dois, estamos rodeados de ignorantes hipócritas. E a ignorância é um mal que nos acompanha há séculos. Já foi contra ela que o grande marquês de Pombal arregaçou as mangas, como inteligentemente demonstrou Bernardino Machado. Volta Pombal! Pelos vistos não há forma de a subjugarmos completamente. E assim sendo, se a ignorância grassa e é para defender, nem Coimbra, nem Portugal precisam do MNCT. Não é verdade? Conhecendo a sua história de raiz, porque tive a graça de ver o excelente museu (tal como pormenorizadamente descrevi na Carta Aberta aos “Amigos da Cultura”) que um velhinho de 70 anos construiu em pouco mais de meia dúzia de anos com escassos recursos, não consigo compreender, nem aceitar, a incompetência de todos os responsáveis, locais e nacionais, que após anos a fio de desprezo e abandono, têm agora a coragem de desmantelá-lo. Moralmente, o acto de desmantelar um Museu Nacional de Ciência é um tremendo erro, que mostra muito bem o quanto incultos nós somos. Aqui caro Álvaro, terei que lhe dizer que tem toda a razão acerca de Coimbra, mas também tenho que lhe dizer que este museu é (não consigo aceitar o era) um museu nacional. Como tal, deveria estar acima das capelinhas coimbrãs. Infelizmente, nunca o viram assim, por que todos em Portugal têm capelinhas. Uma tristeza que nos engole a todos! O que eu na realidade sei é que seria impensável um cidadão, de um qualquer país evoluído do planeta Terra, aceitar que um seu governo qualquer decidisse pelo desmantelamento do seu Museu Nacional de Ciência. Podemos imaginar o governo britânico mandar desmantelar o Science Museum? Jamais. Só mesmo em Portugal…
Para terminar, caros amigos, gostava de vos dizer que só mesmo a ignorância generalizada pode explicar que somente vinte uma almas, incluindo as nossas três, tenham assinado a petição a favor do MNCT, a bem da cultura, a bem de Portugal. Que mais o pode explicar se, estando há quase um mês on-line e se milhares conhecem a sua existência? Para não falar de outros confrades blogueiros que a divulgaram, aqui ou aqui? E também através de tantos comentários que tenho deixado, como por exemplo aqui ou aqui?

26/03/08

Ainda e Sempre o Museu Nacional da Ciência e da Técnica

Visita do Prof. Veiga Simão ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica aquando da sua inauguração em 1971. Foto tirada num dos salões dedicados ao génio de Leonardo da Vinci.

O Diário de Coimbra publica na sua edição de hoje, 26 de Março de 2008, a carta de indignação que a minha mãe lhes enviou, e cuja cópia eu coloquei no Natureza há alguns dias. Porque a sua ira é muita, tão grande como a minha, e porque a memória da maioria dos nossos concidadãos é muito curta, aqui fica novamente o texto. Eu sei que não adianta, mas não calaremos a nossa voz contra a estupidez, a insensibilidade e a hipocrisia que grassa, hoje, em Portugal . Um dia a História julgar-nos-à a todos:

"Senhor Director:

Ao Senhor Luís Fernandes

Como filha mais velha do Professor Mário Augusto da Silva e que, ao longo destes anos – 30 anos precisamente – tenho vindo a público no Diário de Coimbra lutar, clamar em prol das obras do meu pai, não podia agora ficar calada. Quero primeiro agradecer-lhe o ter tomado posição tão empenhadamente a favor do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT). Também dizer-lhe que foi a primeira vez que um conimbricense, como diz “um cidadão anónimo”, vem à luta pelo Museu. Muito, muito obrigada. A maioria dos nossos conterrâneos esteve, e está, sempre de costas viradas para o Museu. As sua vidinhas são mais importantes que um Museu de Ciência. Como estavam e estão enganados! Embora com muito mais população, Coimbra está em agonia. Era a terceira cidade! E hoje?

As chamadas forças vivas da cidade, ou é melhor chamar-lhes «forças mortas», tudo têm feito para levar ao desaparecimento o MNCT, não o vendo como o que Mário Silva queria fazer, um Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Portugal. Um museu vivo e dinâmico, com pólos em todas as cidades, desde os moinhos, azenhas, lagares de azeite… até às últimas conquistas da ciência. Englobando todos os museus já existentes como pólos independentes mas integrados num grande museu, para proporcionar a quem o visitasse uma visão de todo o passado e as conquistas do futuro. Principalmente as referentes ao engenho português. Veja como Coimbra se poderia efectivamente tornar num pólo de excelência da cultura portuguesa, em vez de termos somente aquela publicidade enganosa na A1.
Fiquei muito magoada quando o próprio ministro Mariano Gago lhe deu o golpe final, quando tinha sido sua Excelência, em 1999, a salvá-lo, criando junto ao MNCT o Instituto da História da Ciência e da Técnica. Como bem referiu na altura, era uma lacuna no nosso ensino superior.
Realmente para quê impor à cidade, às suas forças vivas e à sua população este museu?
O Senhor Presidente da Câmara, o seu pelouro da cultura e os ditos “amigos da cultura” não estão nada interessados. O Senhor Reitor da Universidade achou por bem fazer antes mais um museuzinho de ciência… para juntar aos outros todos que lá tem. Ao menos se já existia com Estatutos legalizados um Museu Nacional da Ciência e da Técnica na cidade, porque não a Universidade reivindicar a sua integração. Penso que os Senhores Professores tiveram medo de tamanha responsabilidade. Repare. A Mário Silva foi-lhe dada a direcção de um Museu assim. Direcção que assumiu com Mestria. Em princípio ficaria em Lisboa, mas amando a sua cidade conseguiu que Coimbra fosse a sua sede. E porque não Coimbra, que já tinha sido a sede da primeira universidade portuguesa. Coimbra mereceu?...
Mas morreu Mário Silva. Sucede-lhe um Professor Catedrático no activo. Veja o resultado. Um descalabro completo. E lá vão vinte anos. Vem novo Professor, só que desta vez alguém que se dedica completamente e trabalha com afinco durante somente cerca de dois anos – Professor Paulo Renato Trincão, com o ministro Mariano Gago. Foi o canto do cisne do museu. Muda novamente o governo. As forças vivas que tinham sido travadas, têm agora via livre novamente. O Museu Nacional tem agora os dias contados. E o novo Senhor Ministro ainda tem a ousadia de lhe por o nome Dr. Mário Silva!!! Como estava certa quando publicamente, aqui mesmo, repudiei esta “honra”. Porque além de diminuir ambos era a maneira de ser mais fácil fechá-lo. Colocam lá outro Professor no activo. A sua direcção é a ruína completa do museu. Aliás tinha à sua espera o novo museuzinho… para quê gastar energias e responsabilidade na direcção do Museu Nacional da Ciência da Técnica, não de Lisboa, do Porto, de Coimbra, e de, e de, e de… mas o Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Portugal.
No seu segundo artigo fala do Dr. Mário Nunes. Vou dizer-lhe pois talvez não se recorde. O Dr. Mário Nunes em 15 de Maio de 1988 no Jornal Domingo, publicou um extenso artigo “Museu Nacional da Ciência e da Técnica muda ou não de local?!” O artigo é encimado pelas fotos das duas casas principais. A da rua Fernandes Tomás (que o director à data Professor Alte da Veiga alienou). A da rua dos Coutinhos, o palácio Sacadura Bote, comprado mais tarde pelo Estado no tempo do Professor Renato Trincão. Em boa hora! Porque estava para ser vendido a um sr. professor… Trás ainda uma outra foto da casa da rua da ilha onde mostra a tecnologia da cerâmica. Nela havia, entre outras coisas, uma sala de armas, composta por uma grande colecção. Engraçado. Senão repare: no Inverno do ano seguinte, 1989, o telhado deste edifício, velho, rompeu e deixou entrar água. Isto num prédio de dois ou três andares. O museu ficava no rés-do-chão. O Sr. director mandou retirar todas as peças (onde estão?) e muito solicitamente comprou o imóvel para si mesmo!!! Mas voltemos ao que interessa. O Dr. Mário Nunes termina-o assim: “que o Museu da Ciência e da Técnica continue a ser nacional e sediado em Coimbra, são os votos que formulamos e a melhor forma de estarmos na e com a urbe mondeguina”.
Que me diz o senhor? Não é para rir? O Sr. Dr. Mário Nunes tem hoje o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Coimbra.
Coimbra, 18 de Março de 2008
Maria Isabel da Silva Nobre"
Recordo que acerca deste assunto publiquei vários "posts" onde chamo à atenção para a petição que está on-line aqui:
PS: Há quase um mês on-line, esta petição foi assinada por somente 18 pessoas. Esta é a prova maior da hipocrisia que por aí reina.