Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

31/03/08

A Confraria do Carolo

A malha do milho na Eira da Regada - foto retirada daqui
Em primeiro lugar, a palavra confraria, segundo o dicionário etimológico português, significa confraria. Noutros dicionários, a confraria identifica-se com misericórdias e com a principal componente, a religiosa e com associações de carácter cultural e social. De qualquer modo, todas as suas componentes integradas nas confrarias estão abençoadas e, consequentemente, convergem para uma benéfica harmonia dentro de comunidades regionais, principalmente por motivos gastronómicos.
Nos últimos tempos, uma onda de confrarias cobriu Portugal de Norte a Sul, mas por uma questão de vizinhança, refiro-me somente a duas: a Confraria da Chanfana e à recente Confraria do Bucho, com a sua "capital” em Arganil.
Como a chanfana, pessoalmente, não é do meu agrado, talvez por não se situar dentro da minha vivência regional, saúdo a Confraria do Bucho porque, no passado, fazia parte dos costumes dos meus familiares em Vide, e era convidado para as festividades do bucho, na Páscoa.
Aliás, como os de Arganil, os enchidos de Vide, tinham também, no passado, uma significativa fama e enchiam, praticamente, todos os fumeiros das aldeias serranas, incluindo os da minha família, pela matança de três porcos engordados pelas lavagens dos cozinhados das cozinhas, com as pias dos animais, debaixo destas. Desaparecidos os costumeiros enchidos de Vide, recorro, pelas suas semelhanças, ao consumo dos enchidos de Arganil, tornando-me assim ingrato por recusar os enchidos com a marca "Nobre”. Devido a esta marca, a minha filha, Maria Teresa, que foi morta na sua juventude, tinha a alcunha de "salsicha», entre os seus colegas estudantes.
Ainda dentro deste contexto, recordo que na localidade do Gondufo, na freguesia de Vide, os seus presuntos eram considerados os melhores de Portugal. E porquê? Justificava-se, devido à chamusca dos porcos ser feita com a carqueja, diferente da que se usava nas restantes aldeias, incluindo Vide. Esta diferença justificativa levou-me a mandar fazer uma análise de amostras das carquejas do Gondufo e das outras, que vegetavam nas encostas e montes circundantes. Resultado, as carquejas do Gondufo tinham uma essência odorífera benéfica para dar melhor qualidade aos presuntos. Seria por vegetar em nichos ecológicos ou microecossistemas mais favoráveis?
E o carolo, que já tarda? Se a chanfana vem da cabra velha (coitada da velhice), o bucho vem do porco engordado, o carolo vem do milho. Mesmo proveniente dum vegetal vulgar, não merece uma confraria? Aqui, hoje, dou-lhe essa honra. Não só pelos seus costumes gastronómicos e com as mesmas bênçãos religiosas, como nas outras confrarias, mas por outros motivos, que estas não têm. Quais? O milho-verde, nas baladas românticas do inesquecível, e meu preferido cantor, Zeca Afonso. Nas desfolhadas, ao luar nas eiras ou nos fundos largos das casas, que provocavam anseias para o aparecimento da massaroca do milho-rei, coroado com grãos vermelhos e homenageado, por rapazes e raparigas, velhos e velhas, com beijocadas quentes para atiçar amores e recordá-los. Já agora, recordo que roubava estas maçarocas para as beijocas dos anos seguintes. O ritmo dos manguais sobre as maçarocas, que agradeciam, pelo seu destino.
O milho com as suas bandeirolas alimentava e engordava os animais de trabalho e o gado miúdo. Os chás de barbas de milho, que aliviavam e curavam doenças renais. Os casulos das maçarocas, o melhor papel higiénico. Os cigarros e charutos, feitos com estas barbas enroladas nos folhelhos mais finos, que eu fumava com os meus colegas de escola, no quintal da senhora Florinda.
Resumindo, o milho, na sua diversidade de cadeia alimentar e romântica, reinava sobre os outros reinos animais. Aliás, o filósofo grego Platão acreditava que o reino vegetal também tinha alma. E com razão. Perante o reino animal racional, de hoje, é a alma mais bela.O carolo nesta sua cadeia alimentar merece a sua confraria, conforme os povos ribeirinhos, nas margens das ribeiras de Alvoco, Loriga e Piódão e que humanizou e valorizou toda a Alta Serra, abençoada por uma Estrela.
O carolo, a farinha mais grosseira da moagem pelas mós dos moinhos e separado dos serrões da farinha mais fina do milho, destinada, especialmente, para a cozedura da broa nos fornos de lenha. O forno de Vide, comunitário, propriedade da minha família, as fornadas eram pagas com poias e comidas com sabor "divino” feitas pelo prestigiado forneiro Manuel do Baiol.O carolo, com a sua riqueza em fibras naturais e não manipuladas como as da actualidade, foi a sobrevivência dos referidos povos serranos e cozinhado por práticas costumeiras que o tornaram no mais alto nível nutricionista.
Neste propósito, a minha mãe deu sobrevivência aos seus catorze filhos, como professora primária e conhecedora destas práticas. Uma “ninhada” de filhos, nascida junto à lareira com o fumo das cavacas, com as suas benéficas dioxinas. E hoje, para ter só um ou pouco mais filhos a algazarra por uma maternidade! Recordo, quando criança, e no início da minha juventude, ia buscar o carolo ao moinho do Salgueiral, ao cuidado dos melhores moleiros, Alberto Amaral e Salvador.

Um moinho em Chão Sobral, parecido com o do Salgueiral na Vide. Foto retirada daqui

As suas sopas de carolo, com toucinho e chouriço, as sopas de papa-Iaberças, com a mistura de nabiças ou partes tenras das couves, os queijos de carolo cobertos com mel. Para não esquecer, apesar de ainda não ter apreciado o bucho de Arganil, talvez com ciúmes pelo bucho de Vide, do passado, mas que oportunamente penso, em breve, fazer a devida comparação.

Deste modo, a Confraria do Carolo, com a sua capital em Vide, embelezada com as cores verdes das suas capas e largos chapéus (cores do milho-verde), já está geminada, por natureza costumeira e religiosa, com a Confraria do Bucho, com a sua capital em Arganil.

Falta só a entronização dos confrades da Confraria do Carolo. Ou melhor, não falta. Os seus melhores confrades, pelos seus direitos próprios e com as suas vestes coloridas, com os melhores valores humanos, são todos esses povos serranos.

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PAPAS DE CAROLO
Ingredientes:
(Para 4 pessoas)

- 3 chávenas de carolo (milho amarelo ou branco partido) ;

- 1 litro de leite ;

- 1 casca de limão (opcional)1 chávena de açúcar (aprox.);

- sal;

- canela.

Confecção:

Para lavar o carolo, este é colocado num alguidar com bastante água fria e agita-se de modo a trazer ao de cima o farelo. Retira-se o farelo e muda-se a água tantas vezes quantas as necessárias para que o carolo fique bem lavado. Quando o carolo estiver limpo de farelo, muda-se a pouco e pouco para outro alguidar com água, para o libertar das areias que se depositam no fundo, operação que se repete as vezes necessárias. Tem-se ao lume uma panela com água temperada com sal (casca de limão e canela). A água deve ser pelo menos três vezes o volume do carolo (para cada chávena de carolo, quatro chávenas de água). Quando a água levantar fervura, introduz-se o carolo e deixa-se cozer, tendo o cuidado de o mexer de vez em quando no princípio e constantemente assim que o preparado se torne mais espesso. Quando o milho estiver a meia cozedura, começa a juntar-se o leite a pouco e pouco, mexendo sempre. Por fim adiciona-se o açúcar, deixa-se cozer um pouco mais e serve-se em travessas ou pratos individuais enfeitados com canela.

C.N.

29/03/08

Ainda, Sempre e para Sempre o MNCT

Caros confrades blogueiros Luís e Álvaro. Muito obrigado a ambos pelos comentários ao “Ainda e Sempre o Museu Nacional da Ciência e da Técnica”. Ambos tocam na ferida. Resumindo os dois, estamos rodeados de ignorantes hipócritas. E a ignorância é um mal que nos acompanha há séculos. Já foi contra ela que o grande marquês de Pombal arregaçou as mangas, como inteligentemente demonstrou Bernardino Machado. Volta Pombal! Pelos vistos não há forma de a subjugarmos completamente. E assim sendo, se a ignorância grassa e é para defender, nem Coimbra, nem Portugal precisam do MNCT. Não é verdade? Conhecendo a sua história de raiz, porque tive a graça de ver o excelente museu (tal como pormenorizadamente descrevi na Carta Aberta aos “Amigos da Cultura”) que um velhinho de 70 anos construiu em pouco mais de meia dúzia de anos com escassos recursos, não consigo compreender, nem aceitar, a incompetência de todos os responsáveis, locais e nacionais, que após anos a fio de desprezo e abandono, têm agora a coragem de desmantelá-lo. Moralmente, o acto de desmantelar um Museu Nacional de Ciência é um tremendo erro, que mostra muito bem o quanto incultos nós somos. Aqui caro Álvaro, terei que lhe dizer que tem toda a razão acerca de Coimbra, mas também tenho que lhe dizer que este museu é (não consigo aceitar o era) um museu nacional. Como tal, deveria estar acima das capelinhas coimbrãs. Infelizmente, nunca o viram assim, por que todos em Portugal têm capelinhas. Uma tristeza que nos engole a todos! O que eu na realidade sei é que seria impensável um cidadão, de um qualquer país evoluído do planeta Terra, aceitar que um seu governo qualquer decidisse pelo desmantelamento do seu Museu Nacional de Ciência. Podemos imaginar o governo britânico mandar desmantelar o Science Museum? Jamais. Só mesmo em Portugal…
Para terminar, caros amigos, gostava de vos dizer que só mesmo a ignorância generalizada pode explicar que somente vinte uma almas, incluindo as nossas três, tenham assinado a petição a favor do MNCT, a bem da cultura, a bem de Portugal. Que mais o pode explicar se, estando há quase um mês on-line e se milhares conhecem a sua existência? Para não falar de outros confrades blogueiros que a divulgaram, aqui ou aqui? E também através de tantos comentários que tenho deixado, como por exemplo aqui ou aqui?

26/03/08

Ainda e Sempre o Museu Nacional da Ciência e da Técnica

Visita do Prof. Veiga Simão ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica aquando da sua inauguração em 1971. Foto tirada num dos salões dedicados ao génio de Leonardo da Vinci.

O Diário de Coimbra publica na sua edição de hoje, 26 de Março de 2008, a carta de indignação que a minha mãe lhes enviou, e cuja cópia eu coloquei no Natureza há alguns dias. Porque a sua ira é muita, tão grande como a minha, e porque a memória da maioria dos nossos concidadãos é muito curta, aqui fica novamente o texto. Eu sei que não adianta, mas não calaremos a nossa voz contra a estupidez, a insensibilidade e a hipocrisia que grassa, hoje, em Portugal . Um dia a História julgar-nos-à a todos:

"Senhor Director:

Ao Senhor Luís Fernandes

Como filha mais velha do Professor Mário Augusto da Silva e que, ao longo destes anos – 30 anos precisamente – tenho vindo a público no Diário de Coimbra lutar, clamar em prol das obras do meu pai, não podia agora ficar calada. Quero primeiro agradecer-lhe o ter tomado posição tão empenhadamente a favor do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT). Também dizer-lhe que foi a primeira vez que um conimbricense, como diz “um cidadão anónimo”, vem à luta pelo Museu. Muito, muito obrigada. A maioria dos nossos conterrâneos esteve, e está, sempre de costas viradas para o Museu. As sua vidinhas são mais importantes que um Museu de Ciência. Como estavam e estão enganados! Embora com muito mais população, Coimbra está em agonia. Era a terceira cidade! E hoje?

As chamadas forças vivas da cidade, ou é melhor chamar-lhes «forças mortas», tudo têm feito para levar ao desaparecimento o MNCT, não o vendo como o que Mário Silva queria fazer, um Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Portugal. Um museu vivo e dinâmico, com pólos em todas as cidades, desde os moinhos, azenhas, lagares de azeite… até às últimas conquistas da ciência. Englobando todos os museus já existentes como pólos independentes mas integrados num grande museu, para proporcionar a quem o visitasse uma visão de todo o passado e as conquistas do futuro. Principalmente as referentes ao engenho português. Veja como Coimbra se poderia efectivamente tornar num pólo de excelência da cultura portuguesa, em vez de termos somente aquela publicidade enganosa na A1.
Fiquei muito magoada quando o próprio ministro Mariano Gago lhe deu o golpe final, quando tinha sido sua Excelência, em 1999, a salvá-lo, criando junto ao MNCT o Instituto da História da Ciência e da Técnica. Como bem referiu na altura, era uma lacuna no nosso ensino superior.
Realmente para quê impor à cidade, às suas forças vivas e à sua população este museu?
O Senhor Presidente da Câmara, o seu pelouro da cultura e os ditos “amigos da cultura” não estão nada interessados. O Senhor Reitor da Universidade achou por bem fazer antes mais um museuzinho de ciência… para juntar aos outros todos que lá tem. Ao menos se já existia com Estatutos legalizados um Museu Nacional da Ciência e da Técnica na cidade, porque não a Universidade reivindicar a sua integração. Penso que os Senhores Professores tiveram medo de tamanha responsabilidade. Repare. A Mário Silva foi-lhe dada a direcção de um Museu assim. Direcção que assumiu com Mestria. Em princípio ficaria em Lisboa, mas amando a sua cidade conseguiu que Coimbra fosse a sua sede. E porque não Coimbra, que já tinha sido a sede da primeira universidade portuguesa. Coimbra mereceu?...
Mas morreu Mário Silva. Sucede-lhe um Professor Catedrático no activo. Veja o resultado. Um descalabro completo. E lá vão vinte anos. Vem novo Professor, só que desta vez alguém que se dedica completamente e trabalha com afinco durante somente cerca de dois anos – Professor Paulo Renato Trincão, com o ministro Mariano Gago. Foi o canto do cisne do museu. Muda novamente o governo. As forças vivas que tinham sido travadas, têm agora via livre novamente. O Museu Nacional tem agora os dias contados. E o novo Senhor Ministro ainda tem a ousadia de lhe por o nome Dr. Mário Silva!!! Como estava certa quando publicamente, aqui mesmo, repudiei esta “honra”. Porque além de diminuir ambos era a maneira de ser mais fácil fechá-lo. Colocam lá outro Professor no activo. A sua direcção é a ruína completa do museu. Aliás tinha à sua espera o novo museuzinho… para quê gastar energias e responsabilidade na direcção do Museu Nacional da Ciência da Técnica, não de Lisboa, do Porto, de Coimbra, e de, e de, e de… mas o Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Portugal.
No seu segundo artigo fala do Dr. Mário Nunes. Vou dizer-lhe pois talvez não se recorde. O Dr. Mário Nunes em 15 de Maio de 1988 no Jornal Domingo, publicou um extenso artigo “Museu Nacional da Ciência e da Técnica muda ou não de local?!” O artigo é encimado pelas fotos das duas casas principais. A da rua Fernandes Tomás (que o director à data Professor Alte da Veiga alienou). A da rua dos Coutinhos, o palácio Sacadura Bote, comprado mais tarde pelo Estado no tempo do Professor Renato Trincão. Em boa hora! Porque estava para ser vendido a um sr. professor… Trás ainda uma outra foto da casa da rua da ilha onde mostra a tecnologia da cerâmica. Nela havia, entre outras coisas, uma sala de armas, composta por uma grande colecção. Engraçado. Senão repare: no Inverno do ano seguinte, 1989, o telhado deste edifício, velho, rompeu e deixou entrar água. Isto num prédio de dois ou três andares. O museu ficava no rés-do-chão. O Sr. director mandou retirar todas as peças (onde estão?) e muito solicitamente comprou o imóvel para si mesmo!!! Mas voltemos ao que interessa. O Dr. Mário Nunes termina-o assim: “que o Museu da Ciência e da Técnica continue a ser nacional e sediado em Coimbra, são os votos que formulamos e a melhor forma de estarmos na e com a urbe mondeguina”.
Que me diz o senhor? Não é para rir? O Sr. Dr. Mário Nunes tem hoje o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Coimbra.
Coimbra, 18 de Março de 2008
Maria Isabel da Silva Nobre"
Recordo que acerca deste assunto publiquei vários "posts" onde chamo à atenção para a petição que está on-line aqui:
PS: Há quase um mês on-line, esta petição foi assinada por somente 18 pessoas. Esta é a prova maior da hipocrisia que por aí reina.

22/03/08

A Virgem e o Menino

Não, não se trata de uma nova pintura de Giotto! É só para vos recomendar um blogue onde podem encontrar fotomontagens sensacionais. Trata-se do blogue, traduzindo para português, "Nós temos caos no jardim". Vale a pena visitar.

A China e o Genocídio no Darfur!

Um campo de refugiados do Darfur

Recebi um email interessante de Colleen Connors, da Save Darfur Coalition, que deixo à vossa consideração. Resumindo em português:

Caro JP, a China não deve virar as suas costas ao genocídio no Darfur. Mais de 80.000 pessoas foram deslocadas só no último mês e o aumento dos combates resultou na morte de milhares de civis (são eliminadas povoações inteiras pela milícia árabe, os janjawid). Tendo a China poder para parar o Genocídio que ali está a ocorrer devemos dizer ao "representante especial chinês para o Darfur" para ajudar a diplomacia dos representantes da UNAMID. A China devia estar a concentrar-se em manter no terreno os representantes da UNAMID. Em vez disso eles parecem estar a monitorar os sistemas informáticos das organizações internacionais pela paz no Darfur. Além do email pessoal dos seus membros, os hackers chineses passaram os computadores pessoais a pente fino!

Para pressionar Liu Guijin, o representante chinês para o Darfur, a usar a sua influência junto do governo sudanês, e assim ajudar a UNAMID a parar o genocídio e evitar mais mortes, click aqui. Note-se que a China sendo membro do Conselho de segurança da ONU tem grande influência na missão de paz. No entanto, em vez de a utilizar para ajudar o Darfur, a China continua a defender os interesses do governo sudanês, expandindo o comércio e ajudando militarmente.
A juntar a isto, o desrespeito e a violação dos direitos do povo tibetano. E vamos nós aos jogos olímpicos de Pequim este ano com um sorriso nos lábios? EU NÃO VOU!

21/03/08

INTOLERÁVEL!


Mas atenção! A culpa, aqui, não é da jovem! Que não venham agora os media, PGR e outros, armados em cães de fila, linchá-los na praça publica. Não! Não os castiguem agora, porque estes meninos prestaram um grande serviço público. É que o crime não é tão grave assim, comparado com o que grassa por aí. Mas foi um alerta precioso. Que isto sirva para que o contexto social no país evolua no sentido da dignificação, da reposição do respeito e da autoridade do professor. Percebam que os verdadeiros culpados, aqui, foram os que, com a maior responsabilidade, deram o exemplo, a ministra e o governo. Há muito que os sucessivos governos em Portugal vêm contribuindo para uma crescente desautorização do professor na sala de aula. O desrespeito pela profissão de professor que este governo, injustamente, passou para a opinião pública só veio agravar a situação, contribuindo para o espectáculo que agora assistimos. Há uma tensão social grave instalada nas escolas. É necessário inverter esta situação, urgentemente. Isso passa por começar a responsabilizar, em primeiro lugar, os governantes, causadores da situação intolerável de libertinagem que hoje se vive na escola. Depois os pequenos selvagens pelos actos intoleráveis que cometerem. A eles e aos respectivos papás que os não educam. Há necessidade de uma política de responsabilização que obrigue os pais, em casa, a terem consciência que o filho que não educam não pode fazer o que quer. Se o faz, tem que ser responsabilizado. Uma vez que o primeiro-ministro se responsabilizou pela sua ministra só lhe resta uma saída honrosa: a demissão! Mas, antes, um pedido de desculpa aos professores também não lhe ficava nada mal!

Agora, nem oito nem oitenta. Mas a diferença com o que se passa lá fora:


É que, provavelmente, em Portugal este professor teria sido linchado na sala de aula. Mas nem um sussurro dos alunos, apesar da atitude reprovável do professor!

Para finalizar, aqui ficam as palavras finais de um post de Paulo de Carvalho (que li hoje 31de Março) e que retratam muito bem o que se vive:

Portanto, queiram fazer o favor de colocar o despertador ao PGR e aos Media, pois o que aconteceu no Carolina Michaelis é mel, comparado com o que grassa por esse país fora. Abram os telejornais com homens a morder em cães e não com cães a morder em homens, pois estes cães existem porque não têm domadores. Se o Ministério da Educação e o Governo não racharem a cabeça ao meio para lá meterem a ideia de que certos cães precisam de chicote para serem domados, continuaremos com uma escola inclusiva sim, mas anti-democrática, onde os pitt-bulls e os rottweillers aporcalham por completo o canil e onde os cocker-speniells, os labradores e os golden-retrievers sentem a sua pureza em risco.

18/03/08

A QUEM DE DIREITO... A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (VII)

Acabo de receber por email a cópia de uma carta que a minha mãe enviou para publicação no jornal Diário de Coimbra. Deixo à vossa consideração:

"Senhor Director:

Ainda e Sempre o
Museu Nacional da Ciência e da Técnica

Ao Senhor Luís Fernandes,

Como filha mais velha do Professor Mário Augusto da Silva e que, ao longo destes anos – 30 anos precisamente – tenho vindo a público no Diário de Coimbra lutar, clamar em prol das obras do meu pai, não podia agora ficar calada. Quero primeiro agradecer-lhe o ter tomado posição tão empenhadamente a favor do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT). Também dizer-lhe que foi a primeira vez que um conimbricense, como diz “um cidadão anónimo”, vem à luta pelo Museu. Muito, muito obrigada. A maioria dos nossos conterrâneos esteve, e está, sempre de costas viradas para o Museu. As sua vidinhas são mais importantes que um Museu de Ciência. Como estavam e estão enganados! Embora com muito mais população, Coimbra está em agonia. Era a terceira cidade! E hoje?

As chamadas forças vivas da cidade, ou é melhor chamar-lhes «forças mortas», tudo têm feito para levar ao desaparecimento o MNCT, não o vendo como o que Mário Silva queria fazer, um Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Portugal. Um museu vivo e dinâmico, com pólos em todas as cidades, desde os moinhos, azenhas, lagares de azeite… até às últimas conquistas da ciência. Englobando todos os museus já existentes como pólos independentes mas integrados num grande museu, para proporcionar a quem o visitasse uma visão de todo o passado e as conquistas do futuro. Principalmente as referentes ao engenho português. Veja como Coimbra se poderia efectivamente tornar num pólo de excelência da cultura portuguesa, em vez de termos somente aquela publicidade enganosa na A1.

Fiquei muito magoada quando o próprio ministro Mariano Gago lhe deu o golpe final, quando tinha sido sua Excelência, em 1999, a salvá-lo, criando junto ao MNCT o Instituto da História da Ciência e da Técnica. Como bem referiu na altura, era uma lacuna no nosso ensino superior.

Realmente para quê impor à cidade, às suas forças vivas e à sua população este museu?

O Senhor Presidente da Câmara, o seu pelouro da cultura e os ditos “amigos da cultura” não estão nada interessados. O Senhor Reitor da Universidade achou por bem fazer antes mais um museuzinho de ciência… para juntar aos outros todos que lá tem. Ao menos se já existia com Estatutos legalizados um Museu Nacional da Ciência e da Técnica na cidade, porque não a Universidade reivindicar a sua integração. Penso que os Senhores Professores tiveram medo de tamanha responsabilidade. Repare. A Mário Silva foi-lhe dada a direcção de um Museu assim. Direcção que assumiu com Mestria. Em princípio ficaria em Lisboa, mas amando a sua cidade conseguiu que Coimbra fosse a sua sede. E porque não Coimbra, que já tinha sido a sede da primeira universidade portuguesa. Coimbra mereceu?...

Mas morreu Mário Silva. Sucede-lhe um Professor Catedrático no activo. Veja o resultado. Um descalabro completo. E lá vão vinte anos. Vem novo Professor, só que desta vez alguém que se dedica completamente e trabalha com afinco durante somente cerca de dois anos – Professor Paulo Renato Trincão, com o ministro Mariano Gago. Foi o canto do cisne do museu. Muda novamente o governo. As forças vivas que tinham sido travadas, têm agora via livre novamente. O Museu Nacional tem agora os dias contados. E o novo Senhor Ministro ainda tem a ousadia de lhe por o nome Dr. Mário Silva!!! Como estava certa quando publicamente, aqui mesmo, repudiei esta “honra”. Porque além de diminuir ambos era a maneira de ser mais fácil fechá-lo. Colocam lá outro Professor no activo. A sua direcção é a ruína completa do museu. Aliás tinha à sua espera o novo museuzinho… para quê gastar energias e responsabilidade na direcção do Museu Nacional da Ciência da Técnica, não de Lisboa, do Porto, de Coimbra, e de, e de, e de… mas o Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Portugal.

No seu segundo artigo fala do Dr. Mário Nunes. Vou dizer-lhe pois talvez não se recorde. O Dr. Mário Nunes em 15 de Maio de 1988 no Jornal Domingo, publicou um extenso artigo “Museu Nacional da Ciência e da Técnica muda ou não de local?!” O artigo é encimado pelas fotos das duas casas principais. A da rua Fernandes Tomás (que o director à data Professor Alte da Veiga alienou). A da rua dos Coutinhos, o palácio Sacadura Bote, comprado mais tarde pelo Estado no tempo do Professor Renato Trincão. Em boa hora! Porque estava para ser vendido a um sr. professor… Trás ainda uma outra foto da casa da rua da ilha onde mostra a tecnologia da cerâmica. Nela havia, entre outras coisas, uma sala de armas, composta por uma grande colecção. Engraçado. Senão repare: no Inverno do ano seguinte, 1989, o telhado deste edifício, velho, rompeu e deixou entrar água. Isto num prédio de dois ou três andares. O museu ficava no rés-do-chão. O Sr. director mandou retirar todas as peças (onde estão?) e muito solicitamente comprou o imóvel para si mesmo!!! Mas voltemos ao que interessa. O Dr. Mário Nunes termina-o assim: “que o Museu da Ciência e da Técnica continue a ser nacional e sediado em Coimbra, são os votos que formulamos e a melhor forma de estarmos na e com a urbe mondeguina”.

Que me diz o senhor? Não é para rir? O Sr. Dr. Mário Nunes tem hoje o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Coimbra.

Coimbra, 18 de Março de 2008

Maria Isabel da Silva Nobre"
Visita do Prof. Veiga Simão ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica aquando da sua inauguração em 1971. Foto tirada num dos salões dedicados ao génio de Leonardo da Vinci.
Recordo que acerca deste assunto publiquei vários "posts" onde chamo à atenção para a petição que está on-line aqui:

http://www.petitiononline.com/muscoimb/petition.html

TIBETE LIVRE JÁ!

Imagem retirada do site estudantes para um Tibete livre
A 29ª edição dos Jogos Olímpicos de Verão realizar-se-á em 2008, entre 8 e 24 de Agosto, na cidade de Pequim, China. Caso não sejam boicotados pelos países ocidentais, incluindo Portugal, se a China não rever as suas posições, estes serão claramente os Jogos Olímpicos da globalização dos interesses e da hipocrisia. Celebrando-se então em Pequim a invasão deste país ao vizinho Tibete, onde os mais elementares direitos do homem têm vindo a ser desrespeitados há muitos anos, e, pior, o apoio incontestado deste país ao genocídio do povo do Darfur (região no Oeste do Sudão). Se assim for, aqui fica a mensagem: hipócritas de todo o mundo não faltem!
Ver últimas notícias aqui.

17/03/08

Requiem pelo Museu Nacional da Ciência e da Técnica

Requiem aeternam dona eis, Domine,
Exaudi orationem meam
Sobre o assunto em epígrafe, constatei que a carta que enviei aos «Amigos da Cultura» foi colocada on-line no blogue do movimento. Muito bem! Mas há qualquer coisa que não bate certo. Afinal o meu primeiro "post" sobre esta petição é do dia 12 de Março e até ao momento aquela petição só foi subscrita por 11 pessoas?! Que se passa? Será que o desmantelamento e o futuro incerto do espólio do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), não são razões mais do que suficientes para assinarem aquela petição? Não é uma forma de mostrarmos que não concordamos com este assassinato cultural? Não devemos tentar deter mais um crime contra a CULTURA PORTUGUESA?
Para que fique na História, para quando ela um dia nos julgar a todos. Quero deixar uma palavra de apreço a dois Professores da Universidade de Coimbra, para os quais este assunto não passou despercebido. Refiro-me aos Professores Sá Furtado (Professor Catedrático Jubilado da FCTUC) e Reis Torgal (Professor Catedrático da FLUC). Obrigado pela vossa lucidez.
Transcrevo um texto do Professor Reis Torgal num fórum universitário, em 2003, altura em que o desacato começou verdadeiramente. O MNCT ficou no limbo, mas não foi desmantelado como parece ir acontecer agora. Naquela altura ainda foi evitado o pior, porque acabou por ser indigitado o Professor Paulo Gama da Mota para director do MNCT, agora com a designação suplementar de Dr. Mário Silva. Imagine-se! Embora naquela altura tenham assassinado o Instituto para a História da Ciência e da Técnica, que tinha sido criado em 1999 junto do MNCT, por intermédio do Professor Mariano Gago, então ministro da tutela. Como o texto continua actual, aqui fica:
"Caros colegas,
Fico impressionado com a indiferença com que os universitários e a academia aceitaram a extinção do MNCT, idealizado pelo Prof. Mário Silva (demitido por Salazar em 1947), museu esse que, na verdade, tem passado por uma vida atribulada e que, apesar de tudo, ultimamente, dava uma certa imagem de dinamismo. Que eu saiba, e independentemente do apoio que cada um, eventualmente, terá dado a um manifesto que por aí correu, só eu (permitam-me a referência), o antigo director, Prof. Paulo Trincão, e o Prof. Sá Furtado viemos a público, de forma mais ou menos polémica, para falar sobre o assunto, no "Diário de Coimbra". O Magnífico Reitor também se referiu ao caso, embora apenas a propósito da possível ligação do MNCT à Universidade, ideia essa que (a meu ver bem) repudiou. Todavia, para além da Universidade, houve algumas vozes dispersas que protestaram. Nestas situações o que impressiona não é a variedade de opiniões, mas o silêncio. É como se o MNCT não nos dissesse respeito, como professores e investigadores, ou como estudantes ou trabalhadores da Universidade. Será assim?
Um abraço para todos
Luís Reis Torgal"

16/03/08

A Mula do Severino Espanhol e o Médico

Um conto do meu pai. Em memória do pai mais sábio do mundo.
Este conto é dedicado ao Carlos Freitas, confrade blogueiro do prosas vadias e à sua mulher. Porque de facto o mundo é pequeno...
O Severino Gonçalves mais conhecido por Severino Espanhol
Naquele tempo, a Vide não tinha acesso fácil aos lugares ou lugarejos da sua freguesia. Não tinha estradas, mesmo de terra batida, mas sim, caminhos, entre urgueiras e barrancos. Por isso, as deslocações humanas, por transportes, eram feitas por mulas ou machos, como se estes animais fossem mula-táxi ou macho-táxi.
O médico Dr. Vasco de Campos, de Avô, médico da minha família e com fortes laços de amizade, visitava, frequentemente, os seus doentes ou quando, por chamadas urgentes, em Vide ou na sua freguesia. Numa entrevista que me concedeu na Ponte das Três Entradas, aliás publicada no jornal “A Comarca de Arganil”, contou-me um episódio numa das suas visitas médicas, a uma aldeia escondida na freguesia de Vide.

- Eu: - Recorde-me, Dr. Vasco, um episódio da sua vida de médico, que ficou bem gravado nas suas recordações, durante as suas caminhadas por terras do Alva e por terras serranas.
- Dr. Vasco: - Por coincidência, conto ao meu bom amigo um episódio, precisamente na freguesia de Vide. Como sabe, estudo e observo com interesse, os comportamentos humanos necessários aos diagnósticos que suportam a minha vida de médico.
Vou contar: fui chamado, com urgência, para acudir a um doente na sua freguesia. O Severino Espanhol era o melhor arreeiro que topei nas minhas andanças, por vezes sem descanso. Parti de Vide, montando a mula do Severino. Percorrido já um longo percurso, aliás muito mau e agreste, o Severino, bruscamente e com um forte esticão, parou a mula. Surpreendido, perguntei-lhe:
- O que se passa?
Justificou:
Sr. Doutor estamos por cima de um barranco fundo e a pique e, por isso, a mula não pode continuar a ser montada. Agora, Sr. Doutor Vasco, daqui para adiante, só passam e andam neste caminho bestas com dois pés. Mas não esteja com essa cara, porque vai beber uma golada de vinho tinto da garrafa que aqui trago. Olhe, a minha mulher não quer que beba vinho branco, porque, diz ela, que faz mijar muito e obriga a ter muitas paragens pelo caminho.
Para me acalmar da situação e ter mais coragem para continuar o caminho a pé, como se fosse a besta do Severino, bebi uma golada de vinho tinto:
Ó Severino, esta palha é da melhor. Foram os agradecimentos da besta.

- Eu: - Dedicado amigo Dr. Vasco, as nossas recordações nunca morrem, eternizam-se.
C.N.
PS: por falar em confrade, o próximo conto será sobre a confraria do carolo.