Razao

ESTE BLOGUE COMBATE TUDO O QUE POSSA POR EM CAUSA A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A SUA LIBERDADE. É, POR ISSO, ANTICAPITALISTA E ANTICOMUNISTA.

15/03/08

Sam Lightnin' Hopkins

Um dos melhores interpretes de Blues de todos os tempos. Para mim claro. É a alma e a pureza dos blues que aqui está. Uma homenagem a Sam Lightnin' Hopkins que faria hoje 96 anos de idade.

Cotton


Nasceu num bairro pobre de Centerville, Texas, no dia 15 de Março de 1912. Cedo, na sua infância, se iniciou nos blues pela mão de outra lenda dos blues, Blind Lemon Jefferson e pela influência do seu primo Texas Alexander. Em 1950 mudou-se para Houston onde tencionava ganhar a vida com a sua música. Na rua e em bares. Após as suas primeiras gravações para uma editora local, é convidado pela Aladdin Records de Los Angeles, onde toca com Wilson Smith. A sua alcunha Lightnin' surgiu naturalmente devido à sua parceria com aquele músico: Wilson "Thunder" Smith. Sam não escrevia as suas músicas: vivia-as. Como costumava dizer: "As pessoas aprendem como dedilhar uma viola, mas não têm alma. A sua música não vem de dentro, do coração. Dói-me. Mato-me a dizer-lhes como é." Sam toca o dia a dia, compondo as canções sobre coisas que conheceu no seu bairro pobre, do sul segregado, do azar no amor e todos os temas típicos dos blues. Mas sempre com naturalidade e humor. Muitas vezes, quando ia para o estúdio gravava aquilo que lhe vinha à cabeça. A música brotava-lhe da alma, tendo um estilo próprio de tocar viola. Tendo voltado para Hounston, de onde raramente saía e onde viveu a maior parte do tempo, a sua carreira teve altos e baixos. Mas durante cinco décadas manteve-se um elemento essencial, influenciando muitos músicos dedicados e inspirando milhares de fãs fiéis. Tocou no Carnegie Hall em 1960. E ficou imortalizado num documentário de Les Blanc, The Blues Accordin' to Lightnin' Hopkins (1969). Foi um dos músicos de blues que mais álbuns gravou e foi considerado um dos 100 homens mais importantes do Texas. Morreu em Houston em 1982.

12/03/08

PELO DIREITO À MEMÓRIA E PELO DEVER DE PRESERVAR UM MUSEU UNIVERSAL DE COIMBRA Petition

PELO DIREITO À MEMÓRIA E PELO DEVER DE PRESERVAR UM MUSEU UNIVERSAL DE COIMBRA Petition
Deparei-me com esta petição na internet. Desconhecendo a sua autoria e achando que o texto poderia ser melhorado, acabei por subscrevê-la, pois, no essencial, concordo com a iniciativa. O governo decidiu desmantelar o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), entregando o destino do seu valioso espólio nas mãos da Universidade de Coimbra. Não é a Universidade de Coimbra que aqui está em causa. Que fique bem claro. É o fim do Museu Nacional de Ciência que me incomoda. Que nos deve incomodar a todos. A Universidade ficará mais rica, com certeza, mas Coimbra e Portugal ficarão infinitamente mais pobres. Parece também que a Universidade se vai desfazer das peças de menor valor. É legítimo que questionemos os critérios que presidirão ao valor, ou falta dele, das milhares de peças do rico acervo deste Museu Nacional. É outra incógnita. É outra preocupação, dados os tristes exemplos que temos do passado. Parece também que o magnífico palacete Sacadura Bote vai servir de residência universitária, quando, justamente, ali deveria ser criada a Casa-Museu Mário Silva. Lamentamos igualmente que, infelizmente, o actual director do MNCT, desde 2002, acumulasse o cargo com o de director do novo Museu de Ciência da Universidade de Coimbra. Sendo também Professor da UC, a incompatibilidade deveria ter funcionado aqui, pois o MNCT saiu tremendamente prejudicado com essa incompatibilidade de funções. É óbvio que não defendeu a Instituição que dirigia. Por outro lado, o governo arranjou uma forma fácil de se livrar "do problema". Porque, infelizmente, para os sucessivos governos desde 1980, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica sempre foi visto como um problema, com o qual nunca quiseram, nem souberam, lidar. Curiosamente, Mariano Gago surge na sua história dos últimos 30 anos associado ao melhor e ao pior momento. No tempo de Guterres criou o Instituto para a História da Ciência e da Técnica (IHCT/MNCT) e, aparentemente, a solução para o MNCT parecia estar encontrada. Criando junto do Museu um Instituto necessário e útil a Portugal. Lamentavelmente, veio Durão e arrasou com todos os Institutos. Bons e maus. Pena que, agora, o ministro não tenha mantido a opinião de então e venha dar o dito por não dito, acedendo aos desejos inconfessados da direita mais retrógrada e saudosista. Se tivesse sido criado em Lisboa, teria este Museu passado por tudo o que passou nos últimos trinta anos? Não creio.

Eu não concordo com o fim do MNCT. Por isso assinei a petição, a Bem da Cultura, a Bem de Portugal!

11/03/08

Gavroche e o Último Garoto...

Um conto do meu pai. Em memória do pai mais sábio do mundo.

Gavroche na pintura de Delacroix “A Liberdade guiando o povo”


PORQUÊ ÚLTIMO GAROTO? (do título do volume II do Memorial de Vide)

Chamo para me ajudar a esclarecer e justificar este porquê, o Gavroche, o garoto revolucionário, que nas barricadas da Revolução Francesa ajudava, na luta pela liberdade do povo francês, a impor a toda a humanidade os mais belos princípios humanos: igualdade, liberdade e fraternidade. Foi um garoto revolucionário pelos melhores ideais. Este garoto, Gavroche, teve os maiores elogios do grande escritor francês Victor Hugo, que o imortalizou na sua obra “Os Miseráveis”, considerando-o uma pérola. No livro “Rã no Pântano” do Dr. António de Almeida Santos, de Vide, é maravilhosamente tratado. Escreveu:

“Meu Gavroche… Vá Gavroche, rouba uma estrela do Céu, quando o Sol fechar os olhos. Tu, rouba a mais bela”.

Citando também Victor Hugo:
“O Gavroche é que tem na alma uma pérola e as pérolas não se dissolvem na lama”.

Por isso, as estrelas roubadas quando o Sol dormia e as pérolas agarradas ao coração dos garotos gavroches, sinto-me culpado dos roubos, desde a idade do Gavroche, eternizado pelo grande Delacroix, até hoje. À espera que a morte me diga, já basta, esperando que me diga também, leva a tua estrela e a tua pérola. Quantos garotos gavroches, que foram meus amigos e companheiros, levaram as suas estrelas e as suas pérolas? Gavroches revolucionários, nas barricadas da vida, revolucionários com os ideais presos às mãos, para as suas estrelas iluminarem a sua defesa pela liberatura, da poesia, da arte, na sua diversidade e dos melhores valores humanos.
Recordá-los? A "A Comarca de Arganil" não mos recusa, por que também os tem, com as idades que já os seus gavroches não têm tempo para os contar. Recordar tantos. Vasco de Campos, Carminé Nobre, Agostinho Antunes, João Castanheira, Mário Silva (cientista), Joaquim Mascarenhas, Nunes Pereira, Silvestre e Alberto (Barril de Alva)...
E os gavroches que canonizaram o Alvarinho Taveira na sua residência na aldeia de Casal de Balaus (Condeixa)? Numa Tertúlia banhada pelo «vinho bispa», o Vasco de Campos, Carminé Nobre, Miguel Torga e Vitorino Nemésio, exclamaram convictos: «Ó Alvarinho tu és amado pelo teu povo. És um santo!!». De imediato o artista plástico e escultor Álvaro de Matos fez-lhe uma estatueta de corpo inteiro, em terracota. E todos em procissão colocaram o Alvarinho num nicho junto ao altar da igreja, com autorização do padre Luciano, que paroquiava na altura a aldeia. Estes gavroches, iluminados pelas suas estrelas, beatificaram o Alvarinho sem prestarem contas, e á revelia das normas canónicas do papado, em Roma. Há santos só com estrelas na alma. O povo aceitou-o como santo e nas procissões das festas religiosas lá ia o Alvarinho num andor rodeado de flores...
E quem foi o Gavroche que lançou as estrelas para o céu, de propósito, para serem apanhadas pelos seus eleitos e companheiros garotos sem idades? Sabem, quem? O Gavroche revolucionário divino Jesus Cristo, que na gravura que se junta está com a sua Mãe na carpintaria do seu Pai José.

Mas nem todos os garotos gavroches foram felizes. Milhares de garotos e raparigas, agruparam-se numa cruzada, conhecida pela Cruzada das Crianças, comandadas por dois garotos com as idades de 10 anos, um francês, Eugénio, e o outro alemão, o Estêvão, para libertarem a Terra Santa dos muçulmanos, em 1212. Transcrevo esta Cruzada da História da Igreja, do autor August Franzen: «Por que Deus exigia que só as virgens e crianças poderiam libertar a Terra Santa. E porque todas as cruzadas tinham sido derrotadas, apesar de cavaleiros sanguinários». E transcrevo o fim desta Cruzada, do mesmo livro da História da Igreja «O empreendimento em nome de Deus, terminou numa terrível tragédia. As raparigas foram vítimas de terríveis abusos no norte de Itália (apesar das bênçãos do papa, em Roma), em Marselha vendidos para escravos e em Alexandria, uma imagem arrepiante». E quantos inocentes gavroches, têm sido aproveitados em nome de Deus, de Cristo e de sua Mãe? Inocentes, só acompanhados pelas luzes das estrelas que lhes ofereceu o seu companheiro gavroche Jesus, têm sido aproveitados, mesmo pelos que se afirmam cristãos-católicos portugueses. E aproveitamento por todo o mundo, que resulta em milhões de crianças massacradas com guerras e mortes com fome. Satisfazem os seus interesses. Mas quando chegar o fim de tantos deles, sem as luzes das estrelas dos gavroches, um negrume eterno os espera. Eu, ainda aqui estou, com a minha estrela roubada. A pérola está com a minha mulher.
E só no patim da igreja de Vide.

Oh pai!... Não estás só... estás nos nossos corações e rodeado de todos os teus Gavroches!

Dois Livros Únicos...

Eis a capa do segundo volume "O Último Garoto" do Memorial de Vide, que ficou incompleto devido ao falecimento do seu autor, meu pai. Farei tudo para o acabar e editar. Edição de autor, claro, como o primeiro volume "Camélias Brancas". Sendo um livro essencial para a história da Freguesia de Vide, Conselho de Seia, sob múltiplos aspectos, históricos, sociais, geográficos, geológicos, costumes, literários, etc , e tendo pedido ajuda para a sua edição à Câmara Municipal de Seia, soube da recusa pela omissão na resposta ao envio de um livro.

Ambas as capas são da minha autoria...

Deixo-vos com duas mensagens. A primeira, a dedicatória do livro "Camélias Brancas":

À minha mãe

Mãe que deu ao mundo catorze filhos, nascidos em Vide, como exemplo de uma mulher heróica, professora e educadora.
Na minha partida para longe do meu lar, recordou-me a melhor oração, na mensagem cristã:
“Se quiseres viver a razão da tua vida, olha os lírios do campo que cantam a Natureza divina e olha as avezinhas no céu azul, que voam felizes e em liberdade."

Por isso esta mensagem influenciou este Memorial, que conta vidas humanas, sem cuidar nas suas diferenças sociais, porque têm a mesma dignidade humana, seja analfabeta ou de formação cultural.

Reafirmando esta mensagem, na página seguinte, em jeito de despedida:

Deixo-vos este meu humilde e incompleto testemunho do Memorial de Vide e da sua Freguesia para que os seus povos, com saudade e orgulho, o trasmitam às suas gerações. Neste Memorial, o presente abraça o passado, sem diferenciar valores sociais e humanos, porque têm as mesmas raízes, na grandeza e dignidade dos seus antepassados. Aliás, este Memorial, confirma a verdade da mensagem que define qualquer povo, sem passado, o presente não pode fazer o futuro.
Não poderia ter tido melhor pai. Bem-hajas, aonde quer que estejas.

Reforma Indignante!

A propósito ainda da manifestação dos professores deparei com o seguinte "post" "A acção colectiva e a sua lógica" publicada no blogue Ladrões de Bicicletas, que também vem publicado aqui. O "post" vem a propósito de uma análise publicada por Vital Moreira. Sendo a perspectiva de Vital Moreira baseada na de Mancur Olson, "inspirador de uma das mais eficazes linhas de ataque neoliberal aos pilares fundamentais do Estado Social", como diz João Rodrigues no seu "post", é de facto razão mais do que suficiente para ficarmos todos preocupados com "a extensão da guinada à direita do «socialismo moderno»", nas palavras do mesmo autor. Também já o tinha dito no meu "indignação!". Agora, é de facto lamentável que Vital Moreira venha diminuir a justeza da luta dos professores contra uma reforma indignante. Vindo de quem vem, só nos pode deixar preocupados. Na realidade, o PS e o seu governo têm intoxicado a opinião pública com slogans demagógicos, tentando que a opinião pública tome o seu partido contra os professores. Por isso, não acredito, como diz Vital Moreira, que "a maioria da população que pode apoiar essas mesmas reformas não tem nem a mesma intensidade de interesses nem a mesma capacidade de mobilização". Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Eu espero que os portugueses contradigam este tipo de opinião e apoiem os professores. Porque ao fazê-lo estão a defender a justiça e a verdade, contra a arbitrariedade. Acredito que o façam e não se deixem enganar por majores e outros. Pois, não é por acaso que numa recente sondagem, mais de 40% dos portugueses elegeram a classe dos professores como a classe em quem mais confiavam, contra somente 6% na classe politica, que ficou em último lugar.

Relativamente ao «socialismo moderno» tenho que dizer o seguinte. Em primeiro lugar não devemos confundir a árvore com a floresta. Continuo a acreditar que os partidos sociais democratas do Norte de Europa ainda não se venderam, como aconteceu com os do Sul, inclusivamente em Portugal. E espero que lá não esqueçam Olof Palm, como acontece aqui. O neoliberalismo vigente, ao qual governantes ditos "socialistas" têm baixado as calças, é imposto directamente pela globalização dos interesses das grandes multinacionais. Os "pseudo-socialistas-democráticos" ou os "pseudo-sociais-democratas", como não conhecem os valores daquilo que dizem defender, são facilmente comprados. E é isso que está a acontecer um pouco por toda a Europa, excepto nos países mais evoluídos, que são os do Norte. A conquista dos direitos de quem trabalha levou muito sangue, suor e lágrimas. A história do sindicalismo também. Engels tinha razão. Como os ciclos da História se renovam, se calhar é necessário voltar às lutas sindicais do início do século passado. A diferença fundamental, contudo, é que naquele tempo foram as classes operárias que vieram para a rua. Agora são as intelectuais que vêm. E, neste contexto, Portugal já está a fazer História.
PS: Foram cerca de 100.000 professores de todo o país que estiveram em Lisboa! Simplesmente impressionante para uma classe tradicionalmente desunida!

10/03/08

Uma Fotobiografia Abafada... A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (VI)


O Instituto de História da Ciência e da Técnica(IHCT)/Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), foi extinto pelo governo de Durão Barroso. Para que a História nos registe, após a morte do seu fundador em 1977, somente durante o governo de António Guterres houve interesse em dignificá-lo como Museu. Pena que Mariano Gago, que foi o responsável na altura pela criação do IHCT, seja agora o responsável pela última machadada no Museu. Museu cujo espólio vai começar, agora, a ser "desbaratado"... Num próximo "post" voltaremos a este importante assunto. Trata-se da cultura científica dos portugueses.
O que agora interessa referir é que acabo de receber um email do antigo director do IHCT/MNCT. O Professor Paulo Trincão, que tanto lutou em prol do IHCT/MNCT, regressou magoado com Coimbra, e com razão, à Universidade de Aveiro, onde está a realizar um trabalho magnífico na área da divulgação da Ciência. Dirige actualmente, com enorme sucesso, A Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro integrada na Rede Nacional de Centros Ciência Viva. Localizado na antiga Companhia Aveirense de Moagens, é uma inciativa da Universidade de Aveiro e gerida pela Fundação João Jacinto de Magalhães. Enquanto esteve em Coimbra à frente do IHCT, Paulo Trincão foi responsável pela criação de uma excelente Fotobiografia de Mário Silva, cuja capa está na foto acima. Eis o que me diz o Professor Paulo Trincão:
«Junto envio um pequeno trabalho realizado por uma aluna do curso de edição de texto da Universidade de Aveiro, que por sua livre iniciativa escolheu entre milhares a Fotobiografia de Mário Silva. Tenho imensa pena que tal como Mário Silva a divulgação desta obra tenha sido "abafada".»
É verdade. Há muito que me interrogava. Porque nunca foi posta à venda? Não foi por acaso, aliás, que a aluna a escolheu. Também para mim, é das melhores fotobiografias feitas em Portugal. Alguém consegue explicar? O Professor Paulo Trincão, a quem aproveito para dar os parabens pelo excelente trabalho, diz-nos que foi "abafada". Mas por quem? Quem são os espíritos maléficos que, ainda hoje, trinta anos após a morte de Mário Silva, o continuam a perseguir. Eis porque o Natureza Naturada faz todo o sentido. Porque daqui ergueremos bem alto a nossa voz contra esses espíritos, sejam eles quem forem!

09/03/08

Indignação!


A indignação saiu à rua. Mais de 80.000 professores, vindos de todo o país, disseram hoje basta a uma ministra, e a um governo, autista e arrogante. Penso que a manifestação dos professores é justíssima. Mostra que realmente há gotas que fazem transbordar copos. Aguentaram até não poder mais. Este governo teve a capacidade incrível de unir uma classe tradicionalmente desunida. Mas após cerca de três anos de afronta contra a dignidade dos professores, chegou o dia de dizer basta. As mentiras que sistematicamente foram lançando para a opinião pública, nomeadamente na questão da avaliação dos professores, a arrogância e a prepotência demonstrada por este governo autista, recorrendo à demagogia e ao populismo barato, tipo Major Loureiro, tinham (ou têm) que ter um fim. As medidas para a educação deste governo, nunca tiveram por fim último a melhoria do sistema de ensino, mas sim a economia de uns milhões. Mas para os irem buscar aos interesses instalados nunca houve coragem! Refiro-me, por exemplo, à especulação bolsista, às mais-valias da banca e das seguradoras, etc.
A Educação portuguesa tem muitos problemas, que têm que ser resolvidos. É certo! Mas as verdadeiras reformas fazem-se com as pessoas e nunca contra elas. E não é só a ministra e a nulidade dos seus secretários de estado que está em causa. É todo o Governo. É, em última análise, o primeiro-ministro. Hoje, através dos professores, Sócrates levou com um cartão quase vermelho. Porque hoje, em Lisboa, foi a indignação de todos os trabalhadores portugueses que desceu à rua pela mão dos professores. Senhor primeiro-ministro: a sua política não se compadece com os valores do socialismo democrático, que diz defender, sendo até antagónicos áqueles. E tenho moral para o dizer. Foi também o meu voto que o elegeu. A governação anti-social, o ataque sistemático aos direitos sociais dos cidadãos, e, pior ainda, a intimidação dos professores, no melhor estilo pidesco, com o envio às escolas de policias à paisana são disso bons exemplos. A desculpa que lá foram por questões de organização do trânsito não pega. É mais uma mentira. Esses episódios trouxeram-me à memória recordações de infância. Quando pelas ruas da baixa de Coimbra passeava com a minha avó e viamos polícias com as mangas arregaçadas, ela dizia-me que quando assim iam era para bater nos estudantes... e eles sabiam-no bem!

08/03/08

Quando os Sinos Dobram...

Os acontecimentos inenarráveis ocorridos durante o funeral de Abel Salazar...

Um Testemunho Histórico de Alda Luís Gomes,

Quando li a carta abaixo, mal queria acreditar. Aparentemente era uma simples carta trocada entre duas amigas. O nome, à primeira, nada me disse. Ao ler a carta com atenção, percebi que se tratava de uma carta de Alda Luís Gomes para a minha avó Maria. Alda Luís Gomes era irmã do ilustre cientista Ruy Luís Gomes. Mas esta carta é um testemunho único, contado na primeira pessoa, da perseguição baixa e mesquinha que o regime salazarista moveu contra aqueles que lhe podiam fazer frente. Cegamente, os alvos da mesquinhez foram sempre os homens mais inteligentes de Portugal. Aqueles a quem o regime nunca enganaria e, muito menos, compraria. Em suma, a nata da ciência portuguesa. Não é à toa que falamos do "atraso" português. São estes testemunhos que o comprovam. Trata-se, enfim, de uma descrição das peripécias incríveis, inenarráveis até, que ocorreram durante o funeral de um grande, grande português. Falamos de Abel Salazar... Desde terem prendido o cadáver, a sepultarem-no às 10 horas da noite, o esbofetear do director da Faculdade de Medicina do Porto da altura, a prisão de Ruy Luís Gomes, nada pareceu faltar naquele trágico funeral. Nem depois de morto...
A carta, datada do dia 9 de Janeiro de 1946, para que fique na História:
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NOTA BEM: 
Hoje, dia 6/6/2012, muitos meses passados após este "post", tenho que dizer o seguinte. Nesta altura, enviei uma cópia digitalizada ao Professor de História, deputado do BE, Fernando Rosas. Infelizmente não recebi qualquer resposta ou interesse neste assunto, apesar de ter pensado que o Prof. Rosas fosse especialista neste período da História de Portugal. Que fique registado. Aliás, passou-se o mesmo com o Dr. Mário Soares, quando lhe enviei um documento idêntico, para a sua Fundação, mas escrito por ele quando estava no exílio. Nem de um, nem do outro, recebi uma palavra que fosse. Nem um simples obrigado, como se exigiria a qualquer pessoa com um mínimo de educação. Enfim... 

06/03/08

Sam Lightnin' Hopkins

Um dos melhores interpretes de Blues de todos os tempos... para mim claro... é a alma dos blues que aqui está. Uma homenagem a Sam Lightnin' Hopkins que faria hoje 96 anos de idade. Parabens Sam aonde quer que estejas!
Cotton


05/03/08

João Brandão e os Cacas

Um conto do meu pai. Em memória do pai mais sábio do mundo.

João Brandão in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Volume 1, Publicações Alfa

A Beira Serra foi assolada por lutas sangrentas, entre os liberais que juraram a Constituição, em 1826, nos períodos monárquicos do Rei D. Pedro IV e da Rainha D. Maria II e os absolutistas ou miguelistas do Rei D. Miguel, que se considerou Rei Absoluto e, como tal, representante de Deus, como se auto denominaram os monarcas absolutistas europeus.

A Beira Serra, especificamente, os concelhos de Oliveira do Hospital e Seia, sofreram com essas lutas e vinganças de morte. De um lado, os liberais, comandados pelas tropas de João Brandão e, do outro, os miguelistas, capitaneados por influentes concelhios. Na freguesia de Vide foram mais sangrentas, entre João Brandão e os cacas, ladrões, salteadores e criminosos, apoiados e armados pelos miguelistas dos referidos concelhos.

A Ponte de pau, no local da Catraia, onde os cacas foram derrotados por João Brandão

Na sua perseguição até ao Sobral Gordo, Sobral Magro e Cebola, João Brandão apreendeu 600 armas na Barriosa. Os cacas eram tão ladrões, que ainda conheci casas na Vide, que tinham duas paredes, para entre elas se esconderem os alimentos.

A propósito, António Figueiredo, do Casal do Rei, conhecido por Tio Teixeira, por ter uma quinta na Teixeira, era um miguelista fanático, e de tal modo, que misturava a fotografia do Rei D. Miguel com os seus santos, no oratório. Conta-se que começou a engordar um boi, para ser comido quando do regresso do Rei D. Miguel, exilado em Viena de Áustria, para recuperar o trono de Portugal. Mas, aconteceu que, passados quatros anos, o boi já gordo, foi roubado, abandonado e morto na Portela da Avoaça, deixando desanimado o padre João Silva, de Vide, conhecido por Padre Rústico, porque ansiava alambazar-se na comedura do boi. Foi um alarido e aos gritos “roubaram o boi do Rei D. Miguel”.

E a propósito final, João Brandão foi injustamente preso e exilado em Angola, aonde teve uma morte trágica, depois de ter sido condenado por defender a justiça e os valores humanos. Por isso, e pela sua lealdade, mereceu um louvor “honroso e patriótico” da Rainha D. Maria II.

Mas mais importante. As vitórias de João Brandão tiveram a melhor aliada, o amor da sua amante, em Baloquinhas, que o avisava da presença dos cacas, com uma fogueira, num dos altos dessa povoação e cujo aviso, era por ele aguardado, na Estalagem. Alguém, do passado, recordou os versos da cantiga do seu amor:

A fogueira que acendo
Leva-te o fogo do meu amor

A minha irmã Ester escreveu sobre João Augusto Brandão, filho de João Brandão:
Conheci um homem verdadeiramente extraordinário, filho de João Brandão – e que se aparentou à minha família pelo seu casamento com a prima Leucádia, do Councedeira. Filósofo, naturalista e curandeiro. Salvando muita gente com a ciência dos seus livros.”

O filho de João Brandão, que foi Presidente da Junta Paroquial de Vide.

Nota final: aqui iniciarei uma série de contos que o meu pai nos deixou. São essencialmente histórias da sua Beira Serra, da terra do bacalhau da Maria, que Torga também perpetuou nos seus contos. São Histórias do Portugal profundo que nos fazem sentir orgulho de sermos portugueses, ainda que no meio da miséria de valores que, hoje, nos cerca e nos esmaga.