É tão lindo ouvi-los contar histórias! Falam... falam... e quase conseguem! Fechamos os olhos e, embalados, pairamos sobre um mundo longínquo, colorido, das mil e uma maravilhas, onde ao longe, muito longe, vislumbramos a casa paga, o carro novo, os filhos formados e as férias em El-Khazneh! De repente acordamos! É 1 euro e 40! Como? Sim, são 14 cêntimos cada carcaça! Hã?! Está bem...
19/02/08
El-Khazneh e o Turista Português

O nosso Presidente está de visita à Jordânia. Ficou maravilhado com a cidade perdida de Petra, principal atracção turística da Jordânia. Edificada na rocha pelo povo nómada nabateu há mais de 2700 anos, Petra abriga o grandioso e imponente templo chamado "O Tesouro" (El-Khazneh) cuja fachada esculpida em pedra rosada tem cerca de 40 metros de altura por 30 de largura. Por ali andaram também em rodagem Indiana Jones e companhia. Cavaco e Silva aconselhou vivamente os portugueses a visitar o local, afirmando que tinha sido um dos locais mais belos que tinha visitado. Porém, não se esquecendo que a nossa bolsa não está de feição para tão altos voos, lá foi dizendo que temos mais dinheiro hoje do que tínhamos há vinte anos atrás. Sem dúvida! Esqueceu-se foi de dizer que, hoje, a sua distribuição é muito pior da que existia naquele tempo.
01/02/08
1947 - A Asfixia do Movimento Científico em Portugal: A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (IV)
O Cientista Mário Augusto da Silva (II)
Originário de uma família republicana, nasceu em Coimbra, na Sé Velha, em 1901. Licenciou-se em Física, com distinção - 19 valores, na Universidade de Coimbra. Colega do Professor António de Oliveira Salazar na mesma Universidade, cedo sentiu a intolerância daqueles que, anos mais tarde, após a revolução de 1926, foram os mentores do Estado Novo. No início dos anos vinte publicou, num jornal de Coimbra, um ensaio sobre a origem da vida. As suas ideias baseavam-se em princípios científicos e não dogmáticos. Primeiro surgiram as respostas, depois a perseguição. Para se ter uma ideia da polémica levantada, refira-se que num outro jornal e durante cerca de três meses, duas vezes por semana, foram publicados artigos de resposta com direito a primeira página.
Eleito por Salazar para encabeçar a lista dos docentes e investigadores afastados das universidades portuguesas, em 1947, foi discípulo e assistente de Madame Curie[1] (Instituto do Rádio de Paris - 1925-1930). Foi admitido no Instituto do Rádio de Paris na mesma altura que Frédéric Joliot. Madame Curie tinha então dois assistentes: Marcel Laporte e Irène Curie, sua filha mais velha. Mário Silva ficou a trabalhar com Marcel Laporte enquanto Frédéric Joliot trabalhou com Irène Curie[2], com quem viria a casar. No Laboratório Curie viveu alguns dos melhores momentos da sua vida, como se deduz das suas palavras: "... Na falta de um lugar no Laboratório, foi na sua Sala de aula que Madame Curie me instalou para a execução dos meus primeiros trabalhos. Assim se explica, em grande parte, a atenção com que os seguiu desde o início, e todo o interesse que por eles tomou. Assim se explica também que eu tivesse ficado em estreita colaboração com a organização do seu curso teórico e que eu tivesse tido a honra de a auxiliar nas demonstrações experimentais das suas lições magistrais. Nunca mais me foi possível esquecer a emoção que senti quando, pela primeira vez, entrei a seu lado na Sala de aula onde, nesse dia, ela ia falar sobre a teoria das transformações radioactivas a um numeroso auditório que a recebeu de pé e, segundo o costume, com uma prolongada salva de palmas. A experiência que eu tinha previamente montado e verificado, era das mais curiosas do curso: demonstração a todo o auditório do ritmo das transformações radioactivas, tornando por assim dizer, audíveis as explosões dos átomos de rádio... Respirei aliviado e quase tive a ilusão, nesse minuto para mim memorável, de que aquelas palmas também se dirigiam ao ignorado português que ali estava, sentindo que acabara de viver um dos momentos mais emocionantes da sua vida de professor".

Foi recebido por Madame Curie no seu segundo dia em Paris. Expôs-lhe o objectivo da sua missão e o seu desejo de preparar uma dissertação de doutoramento. Madame Curie lamentou que a Universidade de Coimbra não tivesse feito o pedido de inscrição na devida altura, pois as inscrições já haviam sido fechadas para o ano escolar que ia precisamente abrir. Mas a sua bondade não permitiria que um jovem português cheio de entusiasmo pela Ciência, tivesse que voltar a Coimbra e aguardar mais um ano. Por isso, e por se tratar de um assistente enviado para Paris pela Universidade de Coimbra «et pour rendre service à l´Université de Coimbra» o admitia no seu próprio laboratório pessoal. E fez-lhe o convite para ajudar o seu assistente, Marcel Laporte, na parte experimental das suas lições. Nesse tempo, Madame Curie fazia o curso de radioactividade para os alunos da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris.
Nos primeiros tempos sentiu a falta de preparação científica, especialmente em Física, para acompanhar o ritmo e o alto nível científico do trabalho no Laboratório. Em 1925, vinte anos após a sua publicação, a Teoria da Relatividade ainda não tinha chegado a Coimbra. Nem uma simples referência lhe havia sido feita durante a sua licenciatura. Pensou, naqueles primeiros tempos, regressar a Coimbra, tal era a sua frustração. Mas resistiu. Passou a frequentar na Sorbonne e no Collège de France cursos de Física e Matemática. Foram seus mestres grandes cientistas. Jean Becquerel, filho do célebre Henri Becquerel, foi seu professor no curso geral de radioactividade, dado no Jardin des Plantes; Paul Langevin em física no Collège de France; Goursat em cálculo diferencial e integral; Borel em cálculo de probabilidades; Hadamart em análise matemática; Louis de Broglie no curso de mecânica ondulatória. Assistiu ainda aos cursos de Madame Curie e de Debierne, subdirector do Laboratório Curie.
Em Janeiro de 1957, num artigo publicado numa edição da «Seara Nova» dedicada à energia nuclear, Mário Silva recordava os trabalhos e o ambiente que então se vivia no Instituto do Rádio de Paris: "Para além da actividade docente, Madame Curie vivia mais intensamente os trabalhos de investigação dos que, como eu, preparavam dissertações de doutoramento. O trabalho era intenso, feito numa atmosfera de entusiasmo e de expectativa. Embora nenhuma descoberta sensacional tivesse sido revelada nesse período pré-atómico de 1925-1930, sentia-se, porém, que «alguma coisa» iria surgir de um momento para o outro. Holweck, depois de ter completado os seus trabalhos sobre os espectros de Raios X moles, atacava a fundo o problema da constância das transformações radioactivas, ao mesmo tempo que obtinha os primeiros resultados positivos de televisão. Ainda me recordo que, à falta de outro motivo mais característico, se servia do nariz adunco e bastante saliente do seu dedicado colaborador, Pierre Chevalier, para mostrar o sucesso do seu primitivo dispositivo de televisão, projectando-o num écran de experiência, por forma que todos imediatamente o identificavam. Apesar destes sucessos, era, porém, o problema do núcleo o que mais interessava Holweck. Entre outros ensaios lembro-me de que se servia de fortíssimas descargas eléctricas que volatilizavam fios metálicos sobre os quais fazia um depósito de material radioactivo. Foram sempre negativos estes ensaios e, assim, Holweck confirmava a opinião de que os núcleos radioactivos se mantinham estranhos a qualquer acção exterior que tentasse modificar o seu ritmo de transformação. Quanto a Debierne, então já investigador célebre pela sua descoberta do actínio nos primeiros tempos da radioactividade, nessa época isolava-se um pouco do movimento geral do Instituto, entregando-se a trabalhos de outra natureza. Embora investigador que raras vezes falava, sabia-se da sua presença no Laboratório pelos silvos estridentes do seu pião giroscópio a que imprimia velocidades de rotação fantásticas com o fim de verificar experimentalmente a variação relativista da massa dos corpos com a velocidade... Havia Frilley, que tinha começado os seus trabalhos sobre espectografia de raios gama, por difracção cristalina; H. Jedrzejowski e Consigny, que efectuavam diversas investigações sobre raios alfa; M.lle Chamié e Madame Sonia Cotelle, em trabalhos de rádio-química; Proca que, não tendo ainda experimentado a sua vocação para a Física Teórica, onde viria mais tarde a ser um Mestre, tentava sem sucesso trabalhos experimentais que, embora executados com excelente técnica, nunca o conduziram a trabalhos dignos de nota. Mas, entre todos, o mais entusiasta, o mais dinâmico, o mais persistente nos seus trabalhos, era Salomon Rosenblum com quem mantive uma camaradagem de uma profunda e sólida amizade. Foi assim, com o seu dinamismo aliado a uma esclarecida imaginação, que ele conseguiu ser o primeiro a publicar descoberta de vulto: a estrutura fina dos raios alfa que abriu clareiras novas sobre a estrutura do núcleo, nesse tempo perfeitamente obscura.".
Naquele período pré-atómico, único período em toda a sua vida em que pôde dedicar-se, de facto, à investigação científica, publicou vários e importantes trabalhos. Em 1926 publicou, em colaboração com Marcel Laporte, a comunicação à Academia das Ciências de Paris «Mobilité de ions négatifs et courants d´ionisation dans l´argon pur»[3]. Por indicação de Madame Curie aplicou aquele método de ionização do argon à determinação do período de vários elementos radioactivos, nomeadamente ao polónio. Verificou que o valor até então referido na literatura não era correcto. O seu valor actual é muito próximo do valor então determinado. Madame Curie, no seu tratado sobre radioactividade, indica para o período do polónio o valor determinado por Mário Silva. Em 1927 publicou duas comunicações: «Sur une nouvelle détermination de la periode du Polonium» e «Sur la déformation de la courbe d´ionisation dans l´argon pur par addition d´oxygène». Em 1928 publicou «Sur l´affinité de l´oxygène pour les électrons» e «Electrons et ions positifs dans l´argon pur» e em 1929 «Recherches espérimentales sur l´électroaffinité des gaz». Foram todos apresentados à Academia das Ciências de Paris por Jean Perrin[4]. Todos estes trabalhos são prova de uma árdua actividade científica. Após o seu doutoramento[5] em 1928, do qual foram júris três eminentes cientistas (três Prémios Nobel!), Madame Curie, Jean Perrin e Debierne e, numa altura em que se iam iniciar importantes trabalhos na área da fissão nuclear, Mário Silva foi obrigado a regressar, apesar dos apelos feitos à Universidade de Coimbra, por Madame Curie, para que continuasse em Paris.
No artigo «Velhas Recordações do Laboratório Curie» publicado na revista «Seara Nova» em 1957 escreveu: "... Obtido o desejado Doctorat d´Etat, ès-sciences, com a apresentação de uma dissertação sobre a electroafinidade dos gases, Salomon Rosenblum aconselhou-me a permanecer em Paris onde começava, na verdade, a sentir-se com perfeita nitidez o desabrochar de uma nova era no estudo dos núcleos atómicos. Com os seus trabalhos, Rosenblum dava os primeiros passos, e o seu entusiasmo multiplicava-se em novos projectos de investigação. Por meu lado, enveredei pelo caminho da técnica das altas tensões que então já se mostrava indispensável para o ataque do núcleo atómico. Procurei reproduzir no Laboratório, por via experimental, o mecanismo da formação das trovoadas onde facilmente a Natureza produz tensões da ordem dos milhões de volts, para o que, entre outros dispositivos, me servia de jactos de finíssimas gotículas de mercúrio electrizadas... Estes ensaios tiveram, a breve trecho de ser interrompidos porque... de Coimbra começaram a exigir, com uma insistência cada vez mais acentuada, mesmo sem atenderem à opinião em contrário de Madame Curie, o meu imediato regresso a Coimbra... e para quê - santo Deus!... para dar aulas na velha Universidade... Conformei-me e parti... tanto mais que de lá, entretanto, chegava uma notícia agradável... a da criação do Instituto do Rádio de Coimbra...".
Os acontecimentos relacionados com o Instituto do Rádio de Coimbra marcariam para sempre Mário Silva. Num artigo, que corajosamente publicou, no Jornal Notícias de Coimbra em 1938, lembrava: "... No meu tempo, o Instituto de Rádio de Paris era um pequeno mundo onde se falavam quase todas as línguas; eu era o único português, mas havia, além de franceses, russos, polacos, sérvios, romenos, eslavos, suíços e japoneses... No dia do exame de doutoramento de um investigador do Laboratório, Madame Curie, à sua custa, dava uma festa em honra do novo doutor, durante a qual era da praxe que ela fizesse um discurso de elogio das investigações e dos resultados obtidos. Todos os investigadores do Laboratório se associavam à festa e a aspiração de cada um era, mais do que o doutoramento, a festa e o elogio de Madame Curie. Foi também essa a minha aspiração durante os quatro anos do meu estágio, aspiração que eu tive a felicidade de ver realizada. Dessa festa conservo, contudo, uma recordação que me entristece hoje (1938)... É que Madame Curie, no final do seu discurso, ao formular alguns votos, não esqueceu a Universidade de Coimbra. Fecho os olhos e ainda a vejo, com a sua taça erguida, saudar o país distante que lhe tinha dado a alegria de fundar um Instituto do Rádio, lembrando mais uma vez que seria com alegria que viria visitar-nos para assistir à sua inauguração. Mal diria eu então, ao agradecer comovido a saudação, que os anos iriam passar uns após outros, vazios e inúteis por deliberada e malévola intenção de responsáveis que a História um dia há-de severamente julgar, que o Instituto do Rádio de Coimbra acabaria por ser esquecido, lamentavelmente, pela própria Universidade, e que nós todos, nesta Coimbra sempre desprezada, neste velho burgo em que nascemos, nunca teríamos o orgulho de receber e festejar aqui essa gentilíssima figura de mulher e genial cientista que foi Madame Curie".
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[1]Marie Curie-Sklodowska, 1867-1934. Prémio Nobel de Física em 1903 (juntamente com H. Becquerel e Pierre Curie) e de Química em 1911.
[2]O casal Joliot-Curie recebeu, em 1935, o Prémio Nobel da Química pela descoberta da radioactividade artificial.
[3]Este trabalho é citado num importante tratado de Madame Curie: Radioactivité, Masson, 1935.
[4]Prémio Nobel da Física em 1926 pelo conjunto da sua obra.
[5]Dissertação com o título Recherches expérimentales sur l´électroaffinité des gaz, publicada, a pedido de Madame Curie, nos Annales de Physique.
REFERÊNCIAS:
O Professor Mário Augusto da Silva (I)
Mário Augusto da Silva (1901-1977), como homem de Ciência, viu a sua carreira de docente e de investigador ser-lhe negada muito cedo. Preso e expulso da Universidade (1947), foi uma referência para várias gerações coimbrãs, na luta pelos ideais da democracia e na resistência contra o regime do Estado Novo. Esquecido pelos da sua geração, ignorado pelas gerações mais jovens, a sua vida é uma referência cultural ímpar e um exemplo, pela defesa dos valores da liberdade, da democracia, mas, sobretudo, pelo conhecimento, pela Ciência, pura e aplicada... Impedido de prosseguir no Instituto do Rádio de Paris (1925-1930), onde foi assistente de Madame Curie, após o seu doutoramento em 1929, regressou a Coimbra, onde, apesar de tudo; vítima de uma perseguição mesquinha e inexplicável que impediu a realização de obras que teriam mudado, desde logo, o rumo da investigação e do ensino e da Física em Portugal; fundou o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), iniciativa que, não sendo inédita na nossa História, foi a primeira do género no Portugal do Século XX.
Museu Nacional que entrou em agonia em 1977, após a morte do seu fundador.
Museu Nacional que foi abandonado por todos. O Estado Português e, principalmente, Coimbra, a sua Câmara e a sua Universidade, viraram-lhe sempre as costas.
Museu Nacional que, para o diminuirem e fecharem posteriormente, em 2002, lhe chamaram, desrespeitosamente, de Doutor Mário Silva. Até se esqueceram, ou talvez não, que Mário Silva foi Professor Catedrático de Física.
Museu Nacional que, em forma de homenagem, precisamente em 2005, no ANO INTERNACIONAL DA FÍSICA, foi enterrado por Decreto-Lei.
27/01/08
Volta Pombal ! O Elogio do Marquês por Bernardino Machado

Marquês de Pombal, segundo Van Lou
A propósito do estado da cultura em Portugal. Consequência, também, de não termos tido mais estadistas do calibre do Marquês de Pombal, decidi incluir aqui um pequeno excerto do discurso de Bernardino Machado, aquando da homenagem prestada ao marquês em 1882, na celebração do primeiro centenário da reforma pombalina (*). Também porque o Estado Novo tentou, subrepticiamente, minorar a sua importância. Existem muitas provas que têm passado ao lado dos historiadores. Se calhar porque muitos destes também são, ou foram, coniventes com aquele regime. Prova-o a ausência de referências à celebração do segundo centenário, a desvalorização da sua reforma, tentando-se desacreditar, por exemplo, homens de valor que, um dia, terão que ser reabilitados pela Universidade de Coimbra. Um dia destes, também, debruçar-me-ei sobre este assunto. Para que me possam entender...
Mais do que reformador, o Professor Bernardino Machado, chama-o criador. Mas acima de tudo, o texto continua actual. Vemos nele o que temos hoje. O que Pombal, ao fim e ao cabo, combateu: a ignorância. Podemos também sentir a eloquência de Bernardino, que também foi politico. Que falta nos fazem politicos assim...
25/01/08
A Censura em Portugal e a Memória de um Homem: A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (III)
A Razão de Ser deste Trabalho (da biografia enviada aos "media" nacionais referidos)
Constitui um grave erro tentar, de alguma forma, mascarar a responsabilidade do regime de Salazar-Cerejeira nos entraves que colocaram ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia em Portugal.
Os arsenais nucleares acumulados pelas grandes potências durante a guerra fria e as iniciativas de alguns países na obtenção de tecnologia nuclear, constituem uma séria ameaça à sobrevivência da Humanidade. Fazer lembrar o terror das explosões nucleares, tal como aconteceu em Hiroxima há 50 anos, é tarefa que compete a cada um de nós. Assim, é de louvar o trabalho do jornal «Público», na sua edição do dia 6 de Agosto de 1995, data que marca o início da era atómica e, infelizmente para a Humanidade, da utilização da energia que faz brilhar as estrelas para fins militares. A data foi lembrada de forma exemplar. Lamentável é que, no plano interno, a História tenha sido deturpada.
Há tempos, em Paris; perguntei a alguns estudantes portugueses, que lá se encontravam a fazer as suas teses de doutoramento, se conheciam o Professor Mário Silva, antigo colaborador de Madame Curie... Todos desconheciam tal pessoa... o mesmo acontecendo com antigos alunos do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, onde o Professor foi Mestre... Conhecendo a vida e a obra do Professor Mário Augusto da Silva, fiquei revoltado. Não compreendo que um homem que tanto dignificou a Ciência Portuguesa, que tanto fez em prol da liberdade e democracia, que tantas obras fez e tentou fazer, sabe Deus com que dificuldades, seja praticamente desconhecido dos portugueses. Por tudo, senti a responsabilidade de escrever alguma coisa, algo que denunciasse toda esta situação, não fosse cometer o mesmo erro de outras pessoas, quiçá com maiores responsabilidades do que eu, com mais valor até, de nada ter feito.
Enviei o artigo biográfico, que senti o dever de escrever, para o jornal «Público». Não obtive resposta. Cerca de um ano depois, aproveitando as comemorações de mais um aniversário do 25 de Abril, resolvi enviar a biografia que tinha feito à revista «Visão». Nada! E, no entanto, um alto magistrado da nação a quem o enviara e que me respondeu prontamente, afirmou: «... merece destacada publicação!». Mas curioso foi quando, primeiro no «Público» (revista) e depois na «Visão», saíram dois artigos intitulados «Os Museus Secretos de Coimbra» e «Os Mecanismos do Génio», respectivamente. Versavam sobre um património valioso, ao qual o nome do Professor Mário Silva está profundamente ligado e diga-se, não fosse a sua perseverança, e este património ter-se-ia perdido irremediavelmente. Estas obras eram evidentemente bem retratadas nos textos que tempos antes tinha enviado àqueles órgãos de comunicação social e, dos quais, não obtive qualquer resposta. Para que todos julguem, como bem entenderem, estas coincidências, transcrevo o último parágrafo do artigo que tinha enviado a estes dois órgãos da comunicação social:
Mas grave, muito grave, é a forma como surgiam, no referido artigo, as palavras da então responsável pelos Museus Nacionais (IPM). Ou terá Teresa Campos deturpado as suas palavras, tal como fez com as do Professor Policarpo e seus colaboradores? Se assim foi, porque não reagiu ao artigo da «Visão»? É que Simoneta Luz Afonso não só foi co-responsável pelo actual estado caótico do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (última obra do Professor, oficializado como Museu Nacional através do Decreto-Lei nº347/76), como surgia no artigo a vangloriar-se de ter "descoberto" o espólio pombalino, quando o Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra existe, pelo menos, imagine-se, desde 1938; mostrando desconhecer um assunto sobre o qual tinha responsabilidades acrescidas devido ao lugar político que ocupava. Recordo que a notoriedade conseguida por Simoneta Luz Afonso ficou a dever-se, em parte, ao êxito da exposição «mecanismos do génio» que, louve-se, foi por sua responsabilidade apresentada em Bruxelas na Europália 91. Bom... sem Mário Silva não haveria mecanismos do génio e sem mecanismos do génio não haveria exposição... Saberia que o referido Museu Pombalino foi, também, obra do Professor Mário Silva? ... Saberia, porventura, os sacrifícios que fez e os obstáculos que teve que vencer para erguer o nosso, digo nosso, Museu Nacional da Ciência e da Técnica, em 1971? Porque razão permitiu a ocupação selvagem das suas preciosas instalações? Até quando permitirá a Universidade de Coimbra que grande parte do valioso espólio deste Museu Nacional, deslocado das suas antigas instalações não se sabe muito bem porquê, ocupe anarquicamente o antigo Colégio das Artes? Trata-se de um Museu Nacional ou será o Museu da Vergonha Nacional?
Como justificará o Dr. António Reis, responsável pela extensa obra «Portugal Contemporâneo», publicada recentemente, que o nome do Professor Mário Augusto da Silva seja confundido, imperdoavelmente, com o do brigadeiro salazarista Mário Silva? É que o Professor Mário Augusto da Silva foi nosso contemporâneo e é, infelizmente para os portugueses, apenas um caso. E os outros? Quantas vezes se repetiram ao longo da nossa História? Que mal terá feito o Professor Mário Silva[2] para ser constantemente omitido, humilhado e roubado? Haverá alguma ligação com as seguintes palavras que, a dado passo, se podem ler no Decreto-Lei que oficializou o Museu Nacional da Ciência e da Técnica: "... Discípulo de Madame Curie, e ele próprio um ilustre professor e cientista, viu-se arredado da profissão docente por um acto de prepotência do anterior regime, que o fez cumprir a pena de quase três décadas de ostracismo por ter cometido o "crime" de ser antifascista...". Não estará o novo regime, dito democrático, a condená-lo a pena perpétua? E por que "crime"? Existirá uma espécie de mafia que, dominando os principais orgãos da comunicação social portuguesa, nos tenta impor a sua "cultura"? Deturpa-se e branqueia-se a nossa História recente e ninguém se indigna? Que referências culturais quereis deixar como herança aos nossos filhos? Que futuro terá um povo que renega a sua História? Assim, Portugal nunca mais se fará! Hipocrisia, muita hipocrisia!...
Faço, pois, um apelo a todos para que, de uma vez por todas, se faça justiça a um homem que tanto fez pelo ensino científico e pela defesa da liberdade. Nada de cerimónias, mas, tão-somente, que não deixem morrer a sua última obra que, pela sua importância, devia ser acarinhada em vez de estar a ser, lentamente, destruída. Porquê? Porque é que depois de cerca de meio século de fascismo, contra o qual orgulhosamente lutou; assistindo, impotente, ao sacrifício e delapidação do nosso património cultural, depois de ter gritado, sem ser ouvido, pela sua preservação; continuaram a persegui-lo, nem que fosse à custa de uma obra tão importante para o ensino da Ciência em Portugal? Pelo facto do Museu Nacional da Ciência e da Técnica ter sido criado por ele em Coimbra ou por ter sido, pura e simplesmente, uma obra sua? Estranho que a primeira instituição pública do género em Portugal e, ainda por cima, com carácter nacional, não se equipare, não diria às suas congéneres europeias (seria pedir muito?...), mas somente a outras que por cá, entretanto, surgiram... Apetece repetir as palavras do Engenheiro Eduardo Caetano acerca da triste história do Instituto do Rádio da Universidade de Coimbra: "porque é que Lisboa pode ter um e Coimbra, que começou muito antes, não? Não há dúvida nenhuma de que o Professor Mário Silva foi maldosamente hostilizado em escalão muito elevado....
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[1]O Professor Policarpo foi, inclusivamente, responsável por uma excelente história sobre a radioactividade em Portugal e onde o trabalho científico do Professor Mário Silva é largamente reconhecido: A.P.L. Policarpo, E.P. Lima e M.A.F. Alves, Detectores de Radiação em Portugal no Século XX, in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal no Século XX, Pub. II Cent. da Academia das Ciências de Lisboa, 1992.
[2]A biografia do Professor Mário Silva pode ser encontrada nalgumas obras da especialidade publicadas no estrangeiro: vd ex a americana World Biography. As principais enciclopédias de língua portuguesa omitem o seu nome (vd ex: Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura).
24/01/08
Carta Aberta aos Amigos da Cultura: A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (II)
Congratulo-me com a vossa iniciativa e desejo solidarizar-me com o vosso manifesto, dando o meu próprio testemunho sobre o estado da cultura em geral e em Coimbra em particular. É de facto urgente que se diga: BASTA!
A curta vida do Museu Nacional da Ciência e da Técnica, que tem uma história longa e conturbada, é um exemplo paradigmático do estado da cultura portuguesa. De Coimbra em particular. Como familiar do Professor Mário Augusto da Silva, seu fundador, tenho o dever moral de dar público conhecimento da sua história, tentando evitar, o mais possível, o seu possível branqueamento, como aliás temos assistido, relativamente a tantos outros assuntos, no passado.
A história, em meu entender, deve ser feita, para que as gerações futuras não cometam os erros do passado. Sem passado, o presente, não pode fazer o futuro de um povo. Por isso quero aqui deixar o meu testemunho relativamente ao MNCT. A minha consciência a isso me obriga. Porque o MNCT que chegou até aos nossos dias nada tem a ver com o que ele nos deixou.
A criação do MNCT foi uma excelente ideia, que poucos ao longo dos anos acarinharam, remando sempre contra a maré. Este Museu Nacional, frise-se bem, Nacional, como o deveria ser, nasceu em 1971 por iniciativa do então Ministro da Educação Nacional, Professor Veiga Simão e pelo seu fundador, o Professor Mário Augusto da Silva. A ideia surgiu, em finais dos anos 60, um pouco como recompensa do então Ministro, que tendo tentado reintegrar o seu antigo Professor na Universidade de Coimbra, e não o tendo conseguido, devido à influência negativa dos “espíritos maléficos”, como Mário Silva apelidava os que na altura nos governavam, lhe perguntou o que desejava efectivamente fazer. Ao que Mário Silva respondeu: criar um Museu da Ciência e da Técnica. Foi de facto uma iniciativa inédita para a época. O marasmo cultural era na altura um pouquinho pior ao que assistimos hoje. Foi então criada uma comissão instaladora, à qual Mário Silva ficou a presidir.
Quis o destino que Mário Silva decidisse localizar o Museu Nacional na cidade de Coimbra. Acto de amor nunca correspondido, ao qual se sobrepuseram os ciúmes doentios de algumas elites alfacinhas, onde pontificaram nomes de alguns pseudo-cientistas muito conhecidos e muito em voga. É a tal guerra de capelinhas que no nosso país parece nunca ter fim. Adiante! Ainda me lembro de em miúdo, pela mão do meu avô, entrar num gabinete do Departamento de Matemática, onde quase não se podia entrar por estar pejado de maquinetas antigas. Andava numa labuta imensa, fazendo quase tudo sozinho, na juventude dos seus setenta anos. Uns anos depois do desafio lançado por Veiga Simão, em 1971, o Museu abria as portas. Em dois/três anos criou, do nada, um autêntico Museu. Lembro-me muito bem da obra que ali foi feita. Não a podem negar. E por isso o meu testemunho, pois dela quase nada resta. Somente o rico espólio, ou parte dele, espalhado, esquecido e abandonado, pelo rés-do-chão do antigo edifício do Colégio das Artes, há já longos anos, pelos responsáveis sucessivos do Museu, incluindo o actual director, pela Universidade, pela Câmara e pela Tutela . Isto é lamentável!


Entrada do lindo palacete Sacadura Bote, na Rua dos Coutinhos, onde deveria ser criada a Casa-Museu Mário Silva (sonho, claro!)
Logo após a morte de Mário Silva, em 1977, foi criado o Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, omitindo-se descaradamente a existência do Museu Nacional em Coimbra, numa atitude dos seus responsáveis a todos os títulos lamentável. A criação deste Museu foi de louvar e obras como estas são fundamentais. Mas a forma como o fizeram foi, pura e simplesmente, vergonhosa. O próprio texto do Decreto-Lei que criou o Museu Nacional foi claramente desrespeitado. Foi o canto do cisne do Museu Nacional, numa agonia de quase trinta anos. Neste período, somente a criação em 1999, junto do Museu, através do Decreto-Lei nº 379/99 de 21 de Setembro, do Instituto para a História da Ciência e da Técnica, tendo como director o Professor Dr. Paulo Trincão, pareceu ser a salvação do Museu. Aliás, esta área constitui uma verdadeira lacuna em Portugal, como bem reconheceu na altura, o então Ministro da tutela, Professor Mariano Gago. O IHCT deixa-nos, contudo, uma excelente foto-biografia do Professor Mário Silva e algumas teses concluídas em História da Ciência. O problema foi que, com os governos seguintes do PSD, muitos dos Institutos criados no tempo de Guterres foram desmantelados. Bons e maus. Neste caso, estando já o Museu a recuperar de forma apreciável, embora sendo uma pálida imagem daquele que nos foi deixado por Mário Silva, o Museu, pelo Decreto-Lei nº 205 de 2002 de 7 de Outubro, passa a designar-se por Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva (sic). Ao contrário do que se possa pensar, que aquela designação poderia ser uma homenagem ao Professor Doutor Mário Augusto da Silva, achamos que aquela designação só teve como intenção diminuir a importância do Museu, para posteriormente ser mais fácil acabar com ele. Assim foi. Em 2005, três anos volvidos, pelo Decreto-Lei nº 10/2005 de 6 de Janeiro, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva é integrado no Museu do Conhecimento. Alguém sabe dizer que Museu era este, intitulado do Conhecimento? Deus nos valha! Se calhar queriam integrar o Pavilhão do Conhecimento no MNCT! Seria isso? Era bom demais para ser verdade! O que queriam na realidade era acabar com o MNCT, não sabendo, contudo, como fazê-lo. Mas de lamentar é que o Presidente Jorge Sampaio promulgou esta Lei, já com o governo de Santana Lopes demissionário. Caricato! Entretanto, neste limbo, chega novamente ao governo o Professor Mariano Gago que, em vez de impor a sua visão anterior, que era excelente, decide, literalmente, atirar o Museu MNCT, agora apelidado de Doutor Mário Silva, pela porta fora, de acordo com o Decreto-Lei nº 39/2006 de 21 de Abril. O MNCT é expulso, por este Decreto Lei, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, não se sabendo sequer onde foi integrado. Ouvimos agora dizer que vai ser extinto, herdando a Universidade de Coimbra o seu espólio. Ao fazer-se o funeral de um Museu Nacional, ainda por cima, dedicado à Ciência e à Técnica, é a Cultura Portuguesa que está de luto. A Universidade de Coimbra ficará a ganhar, mas Coimbra e Portugal ficam, com certeza, mais pobres. O Professor Mário Silva defendia precisamente o contrário. Um Museu Nacional para a coordenação e gestão integrada do património científico e técnico português! Incluindo os Museus das Universidades! É preciso dizer NÃO a mais capelinhas! Por exemplo, o espólio pertencente à Universidade de Coimbra é riquíssimo! Veja-se o caso do Museu Pombalino de Física. Único no mundo. Também ele obra de Mário Silva. Obra que lhe valeu do Estado Novo, em 1942, um louvor público, apesar de ser considerado inimigo público número um de Salazar. A Universidade manteve-o fechado e abandonado durante cerca de cinquenta anos (desde a sua expulsão em 1947 até 1997, provavelmente para apagarem a sua memória e, também, a da reforma pombalina!)! Onde estão os mecanismos do génio desaparecidos entretanto? Como pôde isto acontecer? Quem nos diz que não acontecerá no futuro? É certo que foi criado mais um Museu de Ciência na Universidade de Coimbra, com um cariz diferente do MNCT, complementando-o. Mas dada a riqueza existente, a Universidade, Coimbra e o país tinham obrigação de ter feito muitíssimo mais. Tenho que o dizer: trinta anos após Mário Silva, regredimos! É certo que o novo Espaço de Ciência está engraçado, é divertido, mas não se compara à obra que tinha sido deixada por Mário Silva, que era um verdadeiro Museu de Ciência. Porque pode ser muito educativo ter museus interactivos, onde as pessoas possam aprender ciência, brincando, experimentando. Sem dúvida! Mas estes nunca poderão tirar espaço aos verdadeiros Museus. Espaços que nos deixam boquiabertos com a capacidade criativa do homem. Se dizem o contrário, não sabem o que dizem. Nem nunca entraram num verdadeiro museu de ciência. Experimentem entrar, por exemplo, no Museu de Ciência de Londres (*) e de ter o prazer de, logo ali no seu "hall" de entrada, admirar o trem de aterragem de um Airbus A 340. E o que dizer do salão da energia, das grandes máquinas a vapor? O impacto que este tipo de objectos cria no nosso espirito, é único. Imaginem no das crianças. De facto, os ingleses conseguiram juntar estas duas vertentes num espaço imperdível.
Com os meus melhores cumprimentos,
JP
18/01/08
A Propósito do Museu Nacional da Ciência e da Técnica: A Razão de Ser do Estado Actual da Educação e da Cultura em Portugal (I)
“Anunciam-nos que o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), com sede na cidade de Coimbra, foi oficialmente “enterrado” por Decreto-Lei. Aprovado em Conselho de Ministros em Setembro de 2004 o dito Decreto foi promulgado já com o Governo demissionário. Que linda iniciativa tiveram os nossos tão distintos governantes para comemorar, logo de início, o Ano Internacional da Física. O Professor Mário Augusto da Silva, seu criador, e um dos maiores Físicos portugueses do Século XX, é assim homenageado de forma exemplar. Só mesmo em Portugal.
Mas não espanta! Nada mesmo! Afinal faz todo o sentido! É que segundo relatórios recentes da OCDE sobre o estado da educação nos países da União Europeia, divulgados na semana passada, Portugal ocupa uma posição “honrorosíssima” no ranking divulgado por aquela Instituição. Há, portanto, que tudo fazer para manter a posição na tabela classificativa. Em contratar novos “avançados”, como se diz na giria do nosso quase tudo. E para isso, faz todo o sentido encerrarem-se instituições como o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT) e enterrarem-se milhões no “OVNI” estacionado em S. José. Parece agora que o novo governo se prepara para vender o património e, já agora, o espólio. Que é riquíssimo. Ao contrário do que pensam dele os iluminados dos nossos responsáveis. A maior parte encontra-se abandonado pelos corredores e salas infindáveis do rés-do-chão do Antigo Colégio das Artes. Pois então, como bons portugueses, montem a tenda nos jardins do Palácio Sacadura Bote ou no pátio do Colégio, chamem o Zé da feira dos 23, que vende atoalhados como ninguém, convidem os ex-residentes da Quinta das Celebridades e do “Big-Brother”, e afins, e façam o leilão mais espalhafatoso do século!
Há uma falta de visão estratégica, de aposta na educação das futuras gerações, que é, simplesmente, confrangedora. Como queremos mudar o estado da educação em Portugal? Especialmente o relacionado com o ensino da Física e da Matemática? Fechando Museus que podiam ser o “click” para que muitos jovens adquirissem o “bichinho” por aquelas ciências fundamentais? E para quê? Para que, como bons merceeiros e comerciantes que somos, pouparmos, no imediato, uns euritos? Sim! Uns euritos!!! Sacrificando milhões que poderiam ser ganhos, de forma indirecta, no futuro? E, ao mesmo tempo, privar os nossos jovens de ter acesso à verdadeira educação e cultura que mereciam ter? Quem queremos formar? Físicos, matemáticos, engenheiros e bons politicos, ou fadistas, toureiros, futebolistas e palhaços?
Mas não devemos ter só em consideração o bem fazer educação e cultura. Temos também que falar em economia, neste caso, em Turismo. E Coimbra, neste contexto, terá muito a perder se deixar que o tal leilão aconteça. Coimbra, tem, felizmente, todas as condições para oferecer um turismo cultural de elevada qualidade. É provavelmente a cidade portuguesa que melhores condições oferece nesta área. O que falta é governantes autárquicos com mais visão, que possam exigir, ou melhor, que saibam exigir dos lobbies alfacinhas aquilo a que a cidade por direito tem, e que sempre lhe quiseram roubar. Que apostem na requalificação de instituições como o Museu Nacional da Ciência e da Técnica. Que ali ponham cientistas e técnicos, competentes e capazes, que façam dele o que o seu criador dele esperava. E isto nem sequer requer grande despesa. Requereria somente bom senso, visão e competência. Bastava, pelo que tenho visto, o dinheiro gasto nos panfletos da campanha autárquica que se avizinha para que se sustentasse o Museu durante muitos meses, se calhar anos. E a Universidade de Coimbra também teria que dar o seu contributo. Por exemplo, cedendo a título definitivo o espaço onde o espólio do actual Museu se encontra abandonado. São instalações onde se poderia criar um magnífico Museu. Refiro-me ao Antigo Colégio das Artes. Mas, uma coisa é certa. A cidade de Coimbra não pode deixar que lhe tirem o espólio e o património que é o MNCT. Que espaço museológico único não se poderia criar ali naquela zona, onde o futuro Museu da Universidade, a ser criado (obras de Santa Engrácia...), no Antigo Chimico, teria como vizinhos o Museu Pombalino de Física em frente (esperemos que as autoridades competentes não desfiram nova machadada no nosso património, retirando este Museu do espaço que, por direito próprio, ocupa actualmente), juntamente com o Museu de Zoologia e Mineralogia, e o Museu Nacional da Ciência e da Técnica ao lado. E diria mesmo mais. Que fantástico Museu da Ciência e da Técnica poderia ser criado em toda aquela zona, se exitissem responsáveis competentes e com visão que esquecessem as suas capelinhas, pequenininhas. Volta Pombal!”
E assim, hoje, dois anos volvidos, continuamos à espera de uma resolução, solução, enterro… qualquer coisinha, enfim! Há uns anos atrás dizia que o Museu, já naquela altura, pálida imagem do que nos foi deixado pelo Prof. Mário Augusto da Silva, falecido em 1977, deveria ter mudado de nome para Museu da Vergonha Nacional. Que diferença com o que se passa lá fora! Por curiosidade veja-se, por exemplo, O Museu de Ciência de Londres ou a Cidade das Ciências e da Indústria, em La Villette. Agora experimente visitar a página oficial do MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA , que encontraria após pesquisa no Google. QUE VERGONHA!
12/01/08
Estado de Espírito dos Professores Portugueses. Livre-nos Deus dos incultos que chegam ao poder. Platão nunca teve tanta razão!
O email que aqui transcrevo, recebido pela minha mulher que também é professora, é elucidativo:
"Quem não partilha da opinião desta Colega? Aqui vai a 'prosa' de uma colega nossa, que espelha o pensamento de cada um de nós. Por favor, passem ao maior número de pessoas possíveis. A esperança de que as coisas mudem, deve ser a última coisa a morrer...
Exma. Senhora Ministra da Educação (Maria de Lurdes Rodrigues)
Um dia destes colocaram, no placar da Sala dos Professores, uma lista dos nossos nomes com a nova posição na Carreira Docente. Fiquei a saber, Sr.ª Ministra, que para além de um novo escalão que inventou, sou, ao final de quinze anos de serviço, PROFESSORA! Sim, a minha nova categoria, Professora!
Que Querida! Obrigada!
E o que é que fui até agora? Quando, no meu quinto ano de escolaridade, comecei a ter Educação Física, escolhi o meu futuro. Queria ser aquela professora, era aquilo que eu queria fazer o resto da minha vida. Ensinar a brincar, impor regras com jogos, fazer entender que quando vestimos o colete da mesma cor lutamos pelos mesmos objectivos, independentemente de sermos ou não amigos, ciganos, pretos, más companhias, bons ou maus alunos. Compreender que ganhar ou perder é secundário desde que nos tenhamos esforçado por dar o nosso melhor. Aplicar tudo isto na vida quotidiana. Foi a suar que eu aprendi, tinha a certeza de que era assim que eu queria ensinar! Era nova, tinha sonhos...
O meu irmão, seis anos mais novo, fez o Mestrado e na folha de Agradecimentos da sua Tese escreve o facto de ter sido eu a encaminhá-lo para o ensino da Educação Física. Na altura fiquei orgulhosa! Agora, peço-te desculpa Mano, como me arrependo de te ter metido nisto, estou envergonhada! Há catorze anos, enquanto, segundo a Senhora D. Lurdes Rodrigues, ainda não era professora, participava em visitas de estudo, promovia acampamentos, fazia questão de ter equipas a treinar aos fins-de-semana, entre muitas outras coisas. Os alunos respeitavam-me, os meus colegas admiravam-me, os pais consultavam-me. E eu era feliz. Saía de casa para trabalhar onde gostava, para fazer o que sempre sonhara, para ensinar como tinha aprendido!
Agora, Sr.ª Ministra, agora que sou PROFESSORA, que sou obrigada a cumprir 35 horas de trabalho, agora que não tenho tempo nem dinheiro para educar os meus filhos. Agora, porque a Senhora resolveu mudar as regras a meio (Coisa que não se faz, nem aos alunos crianças!), estou a adaptar-me, não tenho outro remédio: Entrego os meus filhos a trabalhadores revoltados na esperança que façam com eles o que eu tento fazer com os deles. Agora que me intitula PROFESSORA eu não ensino a lançar ao cesto ou a rematar com precisão à baliza, não chego, sequer a vestir-lhes os coletes. Passo aulas inteiras a tentar que formem fila ou uma roda, a ensinar que enquanto um 'burro' mais velho fala os outros devem, pelo menos, nessa altura, estar calados. Passo o tempo útil de uma aula prática a mandar deitar as pastilhas elásticas fora (o que não deixa> de ser prática) e a explicar-lhes que quando eu queria dizer por deitar fora a pastilha não era para a cuspirem no chão do Pavilhão. E aqueles que se recusam a deitá-la fora porque ainda não perdeu o sabor? (Coitados, afinal acabaram de gastar o dinheiro no bar que fica em frente à Escola para tirarem o cheiro do cigarro que o mesmo bar lhes vendeu e nunca ninguém lhes explicou o perigo que há ao mascar uma pastilha enquanto praticam exercício físico). E os que não tomam banho? E os que roubam ou agridem os colegas no balneário? Falta disciplinar? Desculpe, não marco ! O aluno faz a asneira, e eu é que sou castigada? Tenho que escrever a participação ao Director de Turma, tenho que reunir depois das aulas (e quem fica com os meus filhos?). Já percebeu a burocracia a que nos obriga? Já viu o tempo que demora a dar o castigo ao aluno? No seu tempo não lhe fez bem o estalo na hora certa? Desculpe mas não me parece! Pois eu agradeço todos os que levei! Mas isto é apenas um desabafo, gosto de falar, discutir, argumentar com quem está no terreno e percebe, minimamente do que se fala, o que não é, com toda a certeza, o seu caso. Bastava-lhe uma hora com o meu 5ºC. Uma hora! E eu não precisava de ter escrito tanto! E a minha Ministra (Não votei mas deram-ma. Como a médica de família, que detesto, mas que, também, me saiu na rifa e à qual devo estar agradecida porque há quem nem médico de família tenha - outro assunto) entendia porque não conseguirei trabalhar até aos 65 anos, porque é injusto o que ganho e o que congelou, porque pode sair a sexta e até a sétima versão do ECD que eu nunca fui nem serei tão boa professora como era antes de mo chamar!
Lamento profundamente a verdade!
ALP
Viana do Castelo"











