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27/01/08

Volta Pombal ! O Elogio do Marquês por Bernardino Machado


Marquês de Pombal, segundo Van Lou

A propósito do estado da cultura em Portugal. Consequência, também, de não termos tido mais estadistas do calibre do Marquês de Pombal, decidi incluir aqui um pequeno excerto do discurso de Bernardino Machado, aquando da homenagem prestada ao marquês em 1882, na celebração do primeiro centenário da reforma pombalina (*). Também porque o Estado Novo tentou, subrepticiamente, minorar a sua importância. Existem muitas provas que têm passado ao lado dos historiadores. Se calhar porque muitos destes também são, ou foram, coniventes com aquele regime. Prova-o a ausência de referências à celebração do segundo centenário, a desvalorização da sua reforma, tentando-se desacreditar, por exemplo, homens de valor que, um dia, terão que ser reabilitados pela Universidade de Coimbra. Um dia destes, também, debruçar-me-ei sobre este assunto. Para que me possam entender...

Mais do que reformador, o Professor Bernardino Machado, chama-o criador. Mas acima de tudo, o texto continua actual. Vemos nele o que temos hoje. O que Pombal, ao fim e ao cabo, combateu: a ignorância. Podemos também sentir a eloquência de Bernardino, que também foi politico. Que falta nos fazem politicos assim...

"O marquês de Pombal, meus Senhores, sabia de cór a historia da nossa decadencia e ruina; sabia que só pela sciencia nos tinhamos enaltecido, e que tombaramos de chofre, mal se nos consumiu a razão inflammada pelas irradiações do oiro e pedrarias. O seu programma foi portanto este: arrancar do paiz a inextricavel vegetação parasitaria que o sugava, a ignorancia; e, depois delle bem revolvido, semeá-lo de saber.
A ignorancia tinha um sarcedote, um paladino, um consocio, o jesuita: expulsou-o. Era a ignorancia fanatica: quebrou-lhe as armas na Inquisição, e impossibilitou-lhe as victimas, os christãos novos. Era deshumana: aboliu a escravatura na metropole e emancipou os indios no Brazil. Era immoral: comminou severamente os concubinatos publicos. Era arrogante, odienta, cruel: abafou no cadafalso a conspiração dos nobres. Era vã, perdularia: mandou arrazar os vinhedos dos campos do Tejo, Mondego e Vouga, e denunciou o tractado de Methwen. Era a ignorancia doutorada: demoliu o velho ensino. Em summa, atacou-a de todos os lados e subjugou-a sempre!...
... A velha sociedade, Senhores, estava constituida em tres ordens, e estas divisoes impunham grandes linhas a quem tentasse a sua reformação. Escusado será accrescentar que ellas entraram no plano do marquês de Pombal. Para trabalhar para todo o paiz, elle trabalhou pelo clero, pela nobreza e pelo povo....
... Sim, Senhores, só um homem extraordinario pôde trazer para dentro da nossa instrucção superior os derradeiros dois seculos, em que a sciencia parecia havê-la desertado; só forças descommunaes poderam amplificá-la tanto, que nella viessem a caber Bacon e Descartes, Newton e Leibniz.
Imaginem! Multiplicara-se a mathematica, chegava-se à mechanica celeste, quer dizer, a Laplace; a physica progredia com um Franklin, por exemplo, o domador do raio e da tyrannia; já Buffon escrevera a história natural do homem, houvera Rousseau, - estava até para explodir a revolução de 89 -; tinha nascido Hegel: e nós marcavamos o passo na doutrina aristotelica!...
... Meus Senhores! Tirem-se as consequências a essa obra, e a nossa grandeza evidenciará a todos os olhos a do estadista que a concebeu. Tirem-nas todos! Tire-as a Universidade! A ella direi em signal dos affectos que lhe voto: a soberba construcção do marquês de Pombal precisa quea habite uma alma feita de verdade e de justiça; inspirae-lh'a e resuscitareis o nosso genio nacional!"

Bernardino Luís Machado Guimarães (1851-1944)
(*) - Bernardino Machado, A Universidade de Coimbra, Typ. F. França Amado, 1905.
Para ver também: Presidente da República (10-1915 a 12-1917), Bernardino Machado foi também um cientista e Professor de Antropologia, da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra.

25/01/08

A Censura em Portugal e a Memória de um Homem: A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (III)

Deixai-me em primeiro lugar dizer: viva a liberdade!


Mário Silva, por Eduardo Gageiro


Sempre existiu censura em Portugal. Como todos devem saber. Durante o Estado Novo, de forma aberta e bem conhecida. Depois do 25 de Abril de forma escondida e encapotada. O que coloco neste "post", à vossa consideração, é o meu testemunho pessoal sobre isso mesmo: a censura em Portugal no pós-25 de Abril. O texto é longo, eu sei, mas vale a pena conhecer.

No início dos anos 90, quando nos discursos dos políticos apareceram novamente os sloganes do Deus, Pátria e Família, que foram secundados por debates televisivos, nomeadamente na SIC, onde víamos defender, pelos seus responsáveis, energicamente, o regime fascista, houve, naquela altura, uma tentativa descarada de branquear a nossa História. Tentativa que surtiu efeito, pois até historiadores ligados aos partidos de esquerda parecem ter sido fortemente influenciados. Uma boa razão para não nos calarmos! Se também eles!!!... Esta onda acabou por se reflectir na edição dos jornais portugueses quando, no dia 6 de Agosto de 1995, celebraram nas suas edições, com várias páginas, o cinquentenário do lançamento das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasaki. Para mim, o que li, foi a gota de água num copo que há muito vinha enchendo e nesse dia transbordou. Senti um vazio profundo.


Aí começou a minha luta contra o esquecimento a que tentaram votar o Professor de Física Mário Augusto da Silva. E, pior, as suas obras. Naquele dia, o jornal Público, por exemplo, publicou diversas páginas sobre o acontecimento, quer do ponto de vista nacional, quer internacional. E nem uma palavra sobre um dos Físicos portugueses mais importantes naquele tempo? Nem uma? Que inclusivamente explicou o funcionamento das bombas, logo após o seu lançamento, em diversos jornais da época, incluindo jornais de grande tiragem na altura, como o Primeiro de Janeiro ou O Século? Como é possível? Que raio de investigação jornalística era feita? Terá sido somente ignorância pura? É que Mário Silva é, para a generalidade da população portuguesa, incluindo a intelectual, como iremos ver, um eterno desconhecido. No entanto, além de figura maior da Ciência Portuguesa, foi um dos mais acérrimos opositores ao regime salazarista. É por este motivo que ele encabeça a célebre lista dos docentes expulsos das Universidades portuguesas no ano de 1947, publicada em forma de Decreto-Lei! O que acabo de expor pode, muito facilmente, ser confirmado. Façam o vosso trabalho! Indignei-me. E escrevi. Nada. Nem resposta obtive aos textos que lhes enviei. Estes textos incluíam uma pequena biografia do Professor Mário Silva. Aqui vão os factos censurados, as ideias e os pensamentos que me assaltaram após Agosto de 1995.
 
Mário Silva entrevistado por Fialho Gouveia no antigo programa TV7 da RTP


A Razão de Ser deste Trabalho (da biografia enviada aos "media" nacionais referidos)
 

Constitui um grave erro tentar, de alguma forma, mascarar a responsabilidade do regime de Salazar-Cerejeira nos entraves que colocaram ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia em Portugal.
(São os principais responsáveis, portanto, pelo atraso português de décadas nesta área e, consequentemente, da nossa sociedade. É uma tese que defenderei perante seja quem for! Ironicamente, acabámos, há bem pouco tempo, de ver nomeado Oliveira Salazar como o Maior Português de Todos os Tempos!


Estes homens, infelizmente, consideravam que a ignorância generalizada da população portuguesa constituía o principal meio para imporem as suas ideologias. São de Oliveira Salazar as seguintes citações: "um povo instruído é um povo infeliz..." e "o povo português não é um povo muito inteligente...". Ao abrigo dos seus ideais foi sacrificado o progresso do país e, dessa forma, o bem estar dos portugueses.


O Estado Novo não perseguiu alguns intelectuais e cientistas portugueses, perseguiu, isso sim, os melhores. Basta recordar nomes como A. Quintanilha, Mário Silva, Manuel Valadares, Ruy Luís Gomes, Abel Salazar, Pulido Valente, Azevedo Gomes, Bento Caraça, Egas Moniz (Nobel de Medicina) e tantos outros. Curioso é o facto de ter sido, ironicamente, o afastamento de Egas Moniz da vida política activa, em 1926, que o levou à investigação científica e posteriormente ao Prémio Nobel. Na Era da Informação, como justificais que nos principais orgãos da comunicação social portugueses se omitam estes nomes, nomeadamente nas obras a que estiveram ligados? As suas biografias não deveriam ser amplamente divulgadas? Porque é que nunca se reabilitaram, convenientemente, as grandes referências da Ciência e da Cultura portuguesas deste século (passado)? Mais, porque é que vós, homens de boa-vontade, assistis, sem pestanejar, à reabilitação dos seus carrascos? (havia muitas razões para o dizer na altura).

Os arsenais nucleares acumulados pelas grandes potências durante a guerra fria e as iniciativas de alguns países na obtenção de tecnologia nuclear, constituem uma séria ameaça à sobrevivência da Humanidade. Fazer lembrar o terror das explosões nucleares, tal como aconteceu em Hiroxima há 50 anos, é tarefa que compete a cada um de nós. Assim, é de louvar o trabalho do jornal «Público», na sua edição do dia 6 de Agosto de 1995, data que marca o início da era atómica e, infelizmente para a Humanidade, da utilização da energia que faz brilhar as estrelas para fins militares. A data foi lembrada de forma exemplar. Lamentável é que, no plano interno, a História tenha sido deturpada.


O artigo publicado nessa edição do «Público», na secção sobre Política, «Curiosidade e Alívio em Portugal», era no mínimo faccioso e o seu autor demonstrava um total desconhecimento da História da Ciência Portuguesa deste século. A afirmação "...Na oposição, apenas Ruy Luís Gomes sabia, pelas suas ligações à Sorbonne e ao Instituto do Rádio o que estava em causa..." é falsa. Não por Ruy Luís Gomes, indiscutivelmente, mas porque naquele tempo existiam vários físicos portugueses que sabiam muito bem o que se passava. O problema foi que Salazar os impediu de trabalharem em Portugal, facto que o referido artigo esconde. Aliás, basta ler o artigo da secção sobre Ciência «A fissão nuclear vista de cá», publicado nessa edição do «Público», para se constatar a falsidade da afirmação. Porém, o Professor Mário Silva, numa área em que era especialista, e que tanto contribuiu para a História da Ciência, foi completamente esquecido. Ignorado? Para avivar a memória recordo a entrevista concedida pelo Professor Mário Silva e publicada na edição do jornal «Primeiro de Janeiro» no dia 9 de Agosto de 1945, três dias após o lançamento da bomba sobre Hiroxima, quando eram ainda desconhecidos os relatórios oficiais e onde o Professor, no final da entrevista, profetizou: "... Devo referir-me também às experiências efectuadas pelo físico francês Frédéric Joliot-Curie (Nobel de Química em 1935) e que durante a guerra se notabilizou como chefe do Movimento de Resistência Francês. Joliot e os seus colaboradores descobriram que a ruptura explosiva do Urânio é acompanhada por uma emissão de neutrões - o que permite provocar as chamadas reacções nucleares em cadeia. Suponho que foram reacções deste tipo as utilizadas agora pelos investigadores que construíram a bomba atómica...". E foram mesmo!

Há tempos, em Paris; perguntei a alguns estudantes portugueses, que lá se encontravam a fazer as suas teses de doutoramento, se conheciam o Professor Mário Silva, antigo colaborador de Madame Curie... Todos desconheciam tal pessoa... o mesmo acontecendo com antigos alunos do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, onde o Professor foi Mestre... Conhecendo a vida e a obra do Professor Mário Augusto da Silva, fiquei revoltado. Não compreendo que um homem que tanto dignificou a Ciência Portuguesa, que tanto fez em prol da liberdade e democracia, que tantas obras fez e tentou fazer, sabe Deus com que dificuldades, seja praticamente desconhecido dos portugueses. Por tudo, senti a responsabilidade de escrever alguma coisa, algo que denunciasse toda esta situação, não fosse cometer o mesmo erro de outras pessoas, quiçá com maiores responsabilidades do que eu, com mais valor até, de nada ter feito.


Enviei o artigo biográfico, que senti o dever de escrever, para o jornal «Público». Não obtive resposta. Cerca de um ano depois, aproveitando as comemorações de mais um aniversário do 25 de Abril, resolvi enviar a biografia que tinha feito à revista «Visão». Nada! E, no entanto, um alto magistrado da nação a quem o enviara e que me respondeu prontamente, afirmou: «... merece destacada publicação!». Mas curioso foi quando, primeiro no «Público» (revista) e depois na «Visão», saíram dois artigos intitulados «Os Museus Secretos de Coimbra» e «Os Mecanismos do Génio», respectivamente. Versavam sobre um património valioso, ao qual o nome do Professor Mário Silva está profundamente ligado e diga-se, não fosse a sua perseverança, e este património ter-se-ia perdido irremediavelmente. Estas obras eram evidentemente bem retratadas nos textos que tempos antes tinha enviado àqueles órgãos de comunicação social e, dos quais, não obtive qualquer resposta. Para que todos julguem, como bem entenderem, estas coincidências, transcrevo o último parágrafo do artigo que tinha enviado a estes dois órgãos da comunicação social:


"... Coimbra tem condições para criar um espaço museológico único no mundo, apesar de todos os revezes que o seu património tem sofrido. Este espaço engrandeceria o país e traria, particularmente para Coimbra, vantagens sem paralelo. É preciso que as autoridades acordem antes que seja tarde. Será que o artigo sobre Ciência, publicado naquela edição do «Público», não criou sentimentos de ira em mais ninguém da Universidade de Coimbra, visto que, em lado algum, ela é citada? O seu prestígio não foi posto em causa? E pergunto: porque é que o Cardeal Cerejeira foi, depois do 25 de Abril, por ela homenageado e Mário Silva que tanto fez por ela esquecido? Das palavras aos actos vai uma grande diferença... Contudo, a melhor homenagem que lhe poderia ser prestada seria a continuação da sua obra e, nunca, a sua destruição."
Contudo, no artigo «Os Mecanismos do Génio» (Visão nº165/96) roubavam-lhe a memória. A jornalista Teresa Campos omitiu o nome do autor da obra sobre a qual o seu artigo versava (!?). Não tendo sido por ignorância, acho estranho, muito estranho! O Professor Armando Policarpo[1], Presidente do Conselho do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, cumprindo o seu dever e as obrigações que o seu alto cargo exige, tornou pública a posição do seu Departamento face à indignação que o referido artigo provocou na família do Professor. Naquela qualidade testemunhou, na carta que mandou publicar no jornal «Diário de Coimbra» do dia 29 de Maio de 1996, que na entrevista que concedeu à autora do artigo lhe foi referida a importância do trabalho do Professor Mário Silva, e, mais grave ainda, que inclusivamente lhe foram dados, sobre o assunto que inesperadamente a trouxe a Coimbra, trabalhos da autoria do próprio Professor Mário Silva. Portanto, não foi por ignorância que a autora do artigo em questão adulterou a verdade histórica. Porque terá sido?

Mas grave, muito grave, é a forma como surgiam, no referido artigo, as palavras da então responsável pelos Museus Nacionais (IPM). Ou terá Teresa Campos deturpado as suas palavras, tal como fez com as do Professor Policarpo e seus colaboradores? Se assim foi, porque não reagiu ao artigo da «Visão»? É que Simoneta Luz Afonso não só foi co-responsável pelo actual estado caótico do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (última obra do Professor, oficializado como Museu Nacional através do Decreto-Lei nº347/76), como surgia no artigo a vangloriar-se de ter "descoberto" o espólio pombalino, quando o Museu Pombalino de Física da Universidade de Coimbra existe, pelo menos, imagine-se, desde 1938; mostrando desconhecer um assunto sobre o qual tinha responsabilidades acrescidas devido ao lugar político que ocupava. Recordo que a notoriedade conseguida por Simoneta Luz Afonso ficou a dever-se, em parte, ao êxito da exposição «mecanismos do génio» que, louve-se, foi por sua responsabilidade apresentada em Bruxelas na Europália 91. Bom... sem Mário Silva não haveria mecanismos do génio e sem mecanismos do génio não haveria exposição... Saberia que o referido Museu Pombalino foi, também, obra do Professor Mário Silva? ... Saberia, porventura, os sacrifícios que fez e os obstáculos que teve que vencer para erguer o nosso, digo nosso, Museu Nacional da Ciência e da Técnica, em 1971? Porque razão permitiu a ocupação selvagem das suas preciosas instalações? Até quando permitirá a Universidade de Coimbra que grande parte do valioso espólio deste Museu Nacional, deslocado das suas antigas instalações não se sabe muito bem porquê, ocupe anarquicamente o antigo Colégio das Artes? Trata-se de um Museu Nacional ou será o Museu da Vergonha Nacional?

Como justificará o Dr. António Reis, responsável pela extensa obra «Portugal Contemporâneo», publicada recentemente, que o nome do Professor Mário Augusto da Silva seja confundido, imperdoavelmente, com o do brigadeiro salazarista Mário Silva? É que o Professor Mário Augusto da Silva foi nosso contemporâneo e é, infelizmente para os portugueses, apenas um caso. E os outros? Quantas vezes se repetiram ao longo da nossa História? Que mal terá feito o Professor Mário Silva
[2] para ser constantemente omitido, humilhado e roubado? Haverá alguma ligação com as seguintes palavras que, a dado passo, se podem ler no Decreto-Lei que oficializou o Museu Nacional da Ciência e da Técnica: "... Discípulo de Madame Curie, e ele próprio um ilustre professor e cientista, viu-se arredado da profissão docente por um acto de prepotência do anterior regime, que o fez cumprir a pena de quase três décadas de ostracismo por ter cometido o "crime" de ser antifascista...". Não estará o novo regime, dito democrático, a condená-lo a pena perpétua? E por que "crime"? Existirá uma espécie de mafia que, dominando os principais orgãos da comunicação social portuguesa, nos tenta impor a sua "cultura"? Deturpa-se e branqueia-se a nossa História recente e ninguém se indigna? Que referências culturais quereis deixar como herança aos nossos filhos? Que futuro terá um povo que renega a sua História? Assim, Portugal nunca mais se fará! Hipocrisia, muita hipocrisia!...

Faço, pois, um apelo a todos para que, de uma vez por todas, se faça justiça a um homem que tanto fez pelo ensino científico e pela defesa da liberdade. Nada de cerimónias, mas, tão-somente, que não deixem morrer a sua última obra que, pela sua importância, devia ser acarinhada em vez de estar a ser, lentamente, destruída. Porquê? Porque é que depois de cerca de meio século de fascismo, contra o qual orgulhosamente lutou; assistindo, impotente, ao sacrifício e delapidação do nosso património cultural, depois de ter gritado, sem ser ouvido, pela sua preservação; continuaram a persegui-lo, nem que fosse à custa de uma obra tão importante para o ensino da Ciência em Portugal? Pelo facto do Museu Nacional da Ciência e da Técnica ter sido criado por ele em Coimbra ou por ter sido, pura e simplesmente, uma obra sua? Estranho que a primeira instituição pública do género em Portugal e, ainda por cima, com carácter nacional, não se equipare, não diria às suas congéneres europeias (seria pedir muito?...), mas somente a outras que por cá, entretanto, surgiram... Apetece repetir as palavras do Engenheiro Eduardo Caetano acerca da triste história do Instituto do Rádio da Universidade de Coimbra: "porque é que Lisboa pode ter um e Coimbra, que começou muito antes, não? Não há dúvida nenhuma de que o Professor Mário Silva foi maldosamente hostilizado em escalão muito elevado....

(E Coimbra também! Depois de muita luta para reabilitar o nome do Professor Mário Silva que inicialmente, pasme-se, nem sequer era mencionado no site oficial do Museu Pombalino de Física, as coisas mudaram um pouco. Mas só consegui fazer ouvir um pouco a minha voz a nível regional, através do jornal Diário de Coimbra e pelos emails que enviei aos autores do site. Relativamente aos media nacionais, uma palavra: SILÊNCIO. Como se nem sequer existisse. Ainda tentei fazer alguma coisa para que no célebre programa O Século XX Português, programa produzido pela SIC, Mário Silva não fosse esquecido. Em resposta à biografia que lhes enviei, no dia 16 de Abril de 1998, obtive, mais uma vez, silêncio. Evidentemente que Mário Silva não poderia ter entrado naquele programa...).

Felizmente nem todos o esqueceram. Coimbra não o esqueceu. A Universidade de Coimbra parece finalmente reconhecer o Professor Mário Silva como um dos seus mais ilustres filhos. Esta vontade ficou expressa na reabertura do Museu de Física da Universidade de Coimbra. Para isso muito tem contribuído o Professor Providência e Costa, que tem feito um trabalho notável desde que assumiu a direcção do Museu de Física. Outras pessoas da Universidade de Coimbra estão cientes da importância da reabilitação do nome do Professor Mário Silva, desde os funcionários que nunca o esqueceram, passando por muitos e ilustres antigos alunos do professor, pelo actual Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Professor Sá Furtado, grande amigo do Professor, até ao actual Reitor da Universidade de Coimbra, Professor Rui de Alarcão. A História isso nos exige.

Depois da reabertura do Museu Pombalino de Física, em 1997, a Universidade de Coimbra prestou homenagem pública ao Professor Mário Silva. As coisas mudaram um pouco, tendo o seu nome sido sugerido, inclusivamente, para nome de Prémio Nacional de trabalhos de Física para alunos do secundário, promovido pela Sociedade Portuguesa de Física, Gradiva e jornal Público. Para esta iniciativa muito contribuiu o empenho do Professor Carlos Fiolhais. Assim, parece que o que escrevi não foi, de todo, em vão (Diário de Coimbra).
Professor Veiga Simão (antigo aluno do Professor Mário Silva) e Professor Mariano Gago, na cerimónia pública de homenagem prestada pelo Departamento de Física da Universidade de Coimbra ao Professor Mário Augusto da Silva. À direita vêem-se ainda o Reitor da UC, na altura, Professor Fernando Rebelo e o Professor Dias Urbano.
 
Continuaremos a lutar pelo reconhecimento público espontâneo, genuíno e, acima de tudo, o reconhecimento e a não destruição da obra do Professor Mário Augusto da Silva (vd post anterior). Por isso continuaremos a divulgar a vida e obra deste ilustre português. É um exemplo ímpar que a Cultura Portuguesa não se pode dar ao luxo de omitir. Em próximos "posts" deixarei aqui a sua biografia.
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[1]O Professor Policarpo foi, inclusivamente, responsável por uma excelente história sobre a radioactividade em Portugal e onde o trabalho científico do Professor Mário Silva é largamente reconhecido: A.P.L. Policarpo, E.P. Lima e M.A.F. Alves, Detectores de Radiação em Portugal no Século XX, in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal no Século XX, Pub. II Cent. da Academia das Ciências de Lisboa, 1992.


[2]A biografia do Professor Mário Silva pode ser encontrada nalgumas obras da especialidade publicadas no estrangeiro: vd ex a americana World Biography. As principais enciclopédias de língua portuguesa omitem o seu nome (vd ex: Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura).

24/01/08

Carta Aberta aos Amigos da Cultura: A Razão de Ser do Estado da Cultura em Portugal (II)

Carta aberta aos Amigos da Cultura,

Congratulo-me com a vossa iniciativa e desejo solidarizar-me com o vosso manifesto, dando o meu próprio testemunho sobre o estado da cultura em geral e em Coimbra em particular. É de facto urgente que se diga: BASTA!

A curta vida do Museu Nacional da Ciência e da Técnica, que tem uma história longa e conturbada, é um exemplo paradigmático do estado da cultura portuguesa. De Coimbra em particular. Como familiar do Professor Mário Augusto da Silva, seu fundador, tenho o dever moral de dar público conhecimento da sua história, tentando evitar, o mais possível, o seu possível branqueamento, como aliás temos assistido, relativamente a tantos outros assuntos, no passado.

A história, em meu entender, deve ser feita, para que as gerações futuras não cometam os erros do passado. Sem passado, o presente, não pode fazer o futuro de um povo. Por isso quero aqui deixar o meu testemunho relativamente ao MNCT. A minha consciência a isso me obriga. Porque o MNCT que chegou até aos nossos dias nada tem a ver com o que ele nos deixou.

A criação do MNCT foi uma excelente ideia, que poucos ao longo dos anos acarinharam, remando sempre contra a maré. Este Museu Nacional, frise-se bem, Nacional, como o deveria ser, nasceu em 1971 por iniciativa do então Ministro da Educação Nacional, Professor Veiga Simão e pelo seu fundador, o Professor Mário Augusto da Silva. A ideia surgiu, em finais dos anos 60, um pouco como recompensa do então Ministro, que tendo tentado reintegrar o seu antigo Professor na Universidade de Coimbra, e não o tendo conseguido, devido à influência negativa dos “espíritos maléficos”, como Mário Silva apelidava os que na altura nos governavam, lhe perguntou o que desejava efectivamente fazer. Ao que Mário Silva respondeu: criar um Museu da Ciência e da Técnica. Foi de facto uma iniciativa inédita para a época. O marasmo cultural era na altura um pouquinho pior ao que assistimos hoje. Foi então criada uma comissão instaladora, à qual Mário Silva ficou a presidir.

Quis o destino que Mário Silva decidisse localizar o Museu Nacional na cidade de Coimbra. Acto de amor nunca correspondido, ao qual se sobrepuseram os ciúmes doentios de algumas elites alfacinhas, onde pontificaram nomes de alguns pseudo-cientistas muito conhecidos e muito em voga. É a tal guerra de capelinhas que no nosso país parece nunca ter fim. Adiante! Ainda me lembro de em miúdo, pela mão do meu avô, entrar num gabinete do Departamento de Matemática, onde quase não se podia entrar por estar pejado de maquinetas antigas. Andava numa labuta imensa, fazendo quase tudo sozinho, na juventude dos seus setenta anos. Uns anos depois do desafio lançado por Veiga Simão, em 1971, o Museu abria as portas. Em dois/três anos criou, do nada, um autêntico Museu. Lembro-me muito bem da obra que ali foi feita. Não a podem negar. E por isso o meu testemunho, pois dela quase nada resta. Somente o rico espólio, ou parte dele, espalhado, esquecido e abandonado, pelo rés-do-chão do antigo edifício do Colégio das Artes, há já longos anos, pelos responsáveis sucessivos do Museu, incluindo o actual director, pela Universidade, pela Câmara e pela Tutela . Isto é lamentável!

Claustros do fabuloso edifício do Colégio das Artes, nos antigos HUC. O que resta do MNCT encontra-se espalhado pelas salas infindáveis do seu rés-do-chão. Que museu magnífico poderia aqui ser criado!

Em 1977, o Museu era constituído por diversos edifícios espalhados pela Alta de Coimbra, pelo Museu dos Transportes, no Carquejo, e pela Casa-Museu Egas Moniz. A sede, no Palacete Sacadura Bote, à Rua dos Coutinhos, albergava várias exposições permanentes. Nos jardins do Museu, uma estátua magnífica de Luís de Camões, da autoria do escultor Fernandes de Sá, olha uma mini linha férrea, que uma pequena locomotiva a vapor percorria, fazendo as delícias dos miúdos que, como eu, adoravam brincar naquele espaço. Que maravilha, para miúdos e graúdos, aprender de forma tão clara os princípios da Termodinâmica. Lembro que se tratou de uma oferta ao Príncipe D. Luís. Foi reconstruída nas oficinas do Museu. Aonde parará agora? Ao entrar no Museu, os visitantes podiam admirar a conquista do Homem do fundo dos oceanos e conhecer a história do batiscafo Trieste dos irmãos Auguste e Jacques Piccard. No corredor de acesso à escadaria, éramos surpreendidos com um enorme pêndulo de Foucault pendurado no tecto da escadaria de acesso aos 3 andares do edifício. Nas paredes, forradas com grandes e bem iluminados “posters”, era possível percorrer, por ordem cronológica, os passos do homem na conquista do espaço, desde a Sputnik até às missões Apolo, que tiveram o seu apogeu na ida do Homem à Lua, em 1969. As missões Apolo ainda decorriam quando o Museu abriu as portas. Ali estava também todo o génio de von Braun. À esquerda, na grande sala, podíamos observar velhos telescópios e espectrógrafos que nos mostravam um pouco os primórdios da Astronomia, bem como outros instrumentos ópticos antigos, tal como uma riquíssima colecção de microscópios. No centro, salvo erro, pontuava um interferômetro, do género daquele que foi utilizado por Michelson e Morley para demonstrar a constância da velocidade da luz. Depois, duas enormes salas dedicadas ao génio que foi Leonardo da Vinci. Além de importantes documentos e livros, as salas expunham diversas maquetas de engenhos criados por da Vinci. Todas podiam ser vistas a funcionar. Foi uma importante colecção oferecida pela IBM ao Museu, à qual se juntaram outras construídas nas oficinas do Museu, que funcionavam na cave do edifício, sob a direcção de Mário Silva. Aí foram recuperados e restaurados muitos equipamentos e máquinas que ao longo dos anos foi conseguindo obter para o Museu. Aquele velhinho de 70 anos fez questão de pôr uma oficina de metalomecânica a funcionar na cave do edifício Sacadura Bote!


Entrada do lindo palacete Sacadura Bote, na Rua dos Coutinhos, onde deveria ser criada a Casa-Museu Mário Silva (sonho, claro!)


Subindo ao primeiro andar, rodeados de rostos que marcaram a História da Ciência, desde Bruno e Galileu até Einstein, deparávamo-nos com uma sala dedicada à radioactividade. Esta sala era também uma homenagem sentida à família Curie, em especial a Madame Curie, com quem Mário Silva teve o privilégio de trabalhar, durante os anos 20. Havia correspondência trocada entre ambos. Havia as memórias passadas no Instituto do Rádio de Paris. Havia também um projector de slides, que Mário Silva utilizava e se deliciava a explicar a estrutura da matéria, a constituição dos átomos e os benefícios da radioactividade. Eram autênticas lições de Fisico-Química abertas ao mais comum dos leigos. Miúdos e graúdos ouviam matérias ditas difíceis serem expostas de forma clara, simples e entendível  Para muitos, como eu, provavelmente foi aí que ouviram pela primeira vez falar de átomos, electrões, protões e neutrões. Havia sempre visitas de alunos das escolas secundárias.

Subindo mais um lance de escadas, sempre acompanhados por um pouco de História da Ciência, chegávamos ao segundo piso. A primeira sala, à esquerda, era dedicada à vida e obra de Egas Moniz. Egas Moniz ganhou o Prémio Nobel da Medicina pelo seu contributo para a compreensão do funcionamento do cérebro humano. Nunca o estado português o homenageou condignamente. Pelo contrário, também ele perseguido pelo Estado Novo, a Egas Moniz foi atribuído o epíteto de “senhor meio prémio”, por ter recebido o prémio "ex aequo" com outro cientista. A melhor homenagem, foi-lhe prestada por Mário Silva, ao conseguir fazer da casa em Avanca, onde viveu, uma verdadeira Casa-Museu, oficialmente integrada no MNCT. Na altura do centenário do nascimento, uma das publicações do Museu foi-lhe inteiramente dedicada. Aliás, nessa publicação, podemo-nos aperceber da sua frustração ao não conseguir que uma homenagem nacional justa lhe fosse concedida. Se fosse fadista ou futebolista... Passando à sala da frente, baptizada como sala dos inventos, podíamos admirar a evolução de muitos instrumentos. Do fonógrafo de Edison aos equipamentos hi-fi modernos, passando pela evolução das lâmpadas, da máquina de escrever, etc. Lá poderíamos conhecer os principais inventores da época moderna, como Edison, Bell, Marconi, etc. Neste andar, podíamos ainda encontrar a biblioteca do Museu contendo somente obras relacionadas com ciência e tecnologia, e onde se podiam encontrar algumas publicações raras. Faço também um apelo para que, com a máxima urgência, se faça um levantamento da biblioteca do Museu. Há uns anos, quando lá fui, vi que os seus livros andavam pelo meio do chão, completamente abandonados. Um autêntico crime! Aliás um pouco a par do abandono a que o próprio espólio do museu tem sido votado.

Finalmente, o último piso, no sótão, era dedicado aos têxteis  cuja indústria sempre foi importante no nosso país. Havia dois teares de Almalaguês, onde se podiam ver as tecedeiras a trabalhar. Todas as tapeçarias do Museu foram ali feitas. Eram magníficas as colchas e tapeçarias que estavam expostas e lembro-me também que toda a escadaria era coberta com um tapete vermelho, onde pontuava aqui e ali o símbolo do Museu. Tudo ali feito. Existia ali também uma sala de som, completamente equipada e isolada. Aonde está isto tudo?

O Museu tinha um espólio vastíssimo, que ia desde os primeiros equipamentos de raios-X de diagnóstico e de radioterapia que vieram dos HUC (haveria também que saber aonde pára o equipamento que, na mesma altura da criação do Instituto do Rádio de Coimbra (1930), veio para servir na secção de radioactividade do Instituto. Pelo escritos de Mário Silva, sei que ficou na FCTUC), passando por antigas locomotivas a vapor, antigos carros de bombeiros, antigas alfaias agrícolas, etc. Mário Silva recolhia tudo o que achava pertinente, de todas as áreas da actividade humana. Tinha especial atenção quando se tratava de coisas relacionadas com o engenho português. O problema foi, desde a primeira hora, encontrar um espaço com dimensões suficientes para albergar todo o espólio recolhido. Foi conseguindo edifícios aqui e acolá onde foi albergando o espólio. À Sé Velha, no lindíssimo edifício medieval da Rua da Ilha, com as suas belas arcadas em pedra, albergou uma importante colecção de armas. Havia uma réplica da espada de D. Nuno Álvares Pereira, que impressionava pelo tamanho e peso, e pela força necessária para a manejar. Havia armas antigas para todos os gostos e feitios. Onde está esta colecção? E porque perdeu o Museu este espaço? Mas havia mais, à Rua Fernandes Tomás, todo o edifício que pertenceu à Legião Portuguesa. Aí começou a organizar um espaço dedicado à agricultura portuguesa e aos problemas ambientais e ecológicos. Estávamos nos anos setenta e os problemas relacionados com a poluição ambiental, o efeito de estufa e o buraco de ozono eram já ali discutidos e debatidos. A secção de Ecologia e Meio Ambiente era de facto uma ideia inédita naquele tempo! Estávamos em 1977! Existia ainda o antigo edifício da Mala Posta, no Carquejo, onde Mário Silva queria instalar um Museu dos Transportes. Conseguiu adquirir para o Museu duas locomotivas a vapor do Pejão, que estavam para embarcar para Inglaterra nessa altura. Onde estão? Havia ainda um espaço na Alameda Afonso Henriques onde eram impressas as publicações do Museu.

Que foi feito de tudo isto? Porque foi mais ou menos isto, de forma muito resumida, que o Professor Mário Augusto da Silva nos deixou, em 1977, aquando da sua morte. Não haja dúvida que realizou um trabalho extraordinário em pouco mais de meia dúzia de anos. Apesar de todo o trabalho desenvolvido o Museu não foi oficializado. As dificuldades financeiras foram imensas. Bem maiores do que aquelas que poderão existir hoje em dia. No entanto a obra foi feita. Quando ocorreu o 25 de Abril, o Professor Mário Silva tinha uma dívida acumulada, em seu nome, no valor de cinco mil contos. Felizmente, após o 25 de Abril, surgiram homens como o Dr. António de Almeida Santos (a quem a Universidade de Coimbra, e muito bem, atribuiu recentemente o título de doutor "honoris causa") e o Major Victor Alves que, em boa-hora, vieram em auxílio do Professor Mário Silva e oficializaram o Museu Nacional em 1976, um ano antes da sua morte, através do Decreto-Lei nº347/76. Foram também necessários dois anos para que tivesse sido reintegrado e, ao mesmo tempo aposentado, como Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra. Morreu com a ilusão de que a sua obra estava abrigada. A este respeito escreveu o Engenheiro Eduardo Caetano, na nota final da biografia sobre Mário Silva: “… ao leme desta barca ainda frágil desejavam os seus amigos vê-lo mais alguns anos, para a conduzir a um porto onde ficasse em segurança, abrigada das traiçoeiras rochas invisíveis e dos perigosos golpes de vento intempestivos. Mas a morte veio buscá-lo a 13 de Julho de 1977, quando o Museu tanto precisava do seu amparo. Oxalá que a barca não se afunde…”. Profético! Afundou-se mesmo!

Ficou o efeito em mim. Porque em muito lhe devo a decisão pelo curso de Engenharia Mecânica. Quantos mais futuros engenheiros, físicos, matemáticos, etc, em suma, cientistas, esta obra poderia ter ajudado a criar se tivesse sido devidamente acarinhada?

Logo após a morte de Mário Silva, em 1977, foi criado o
Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, omitindo-se descaradamente a existência do Museu Nacional em Coimbra, numa atitude dos seus responsáveis a todos os títulos lamentável. A criação deste Museu foi de louvar e obras como estas são fundamentais. Mas a forma como o fizeram foi, pura e simplesmente, vergonhosa. O próprio texto do Decreto-Lei que criou o Museu Nacional foi claramente desrespeitado. Foi o canto do cisne do Museu Nacional, numa agonia de quase trinta anos. Neste período, somente a criação em 1999, junto do Museu, através do Decreto-Lei nº 379/99 de 21 de Setembro, do Instituto para a História da Ciência e da Técnica, tendo como director o Professor Dr. Paulo Trincão, pareceu ser a salvação do Museu. Aliás, esta área constitui uma verdadeira lacuna em Portugal, como bem reconheceu na altura, o então Ministro da tutela, Professor Mariano Gago. O IHCT deixa-nos, contudo, uma excelente foto-biografia do Professor Mário Silva e algumas teses concluídas em História da Ciência. O problema foi que, com os governos seguintes do PSD, muitos dos Institutos criados no tempo de Guterres foram desmantelados. Bons e maus. Neste caso, estando já o Museu a recuperar de forma apreciável, embora sendo uma pálida imagem daquele que nos foi deixado por Mário Silva, o Museu, pelo Decreto-Lei nº 205 de 2002 de 7 de Outubro, passa a designar-se por Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva (sic). Ao contrário do que se possa pensar, que aquela designação poderia ser uma homenagem ao Professor Doutor Mário Augusto da Silva, achamos que aquela designação só teve como intenção diminuir a importância do Museu, para posteriormente ser mais fácil acabar com ele. Assim foi. Em 2005, três anos volvidos, pelo Decreto-Lei nº 10/2005 de 6 de Janeiro, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica Doutor Mário Silva é integrado no Museu do Conhecimento. Alguém sabe dizer que Museu era este, intitulado do Conhecimento? Deus nos valha! Se calhar queriam integrar o Pavilhão do Conhecimento no MNCT! Seria isso? Era bom demais para ser verdade! O que queriam na realidade era acabar com o MNCT, não sabendo, contudo, como fazê-lo. Mas de lamentar é que o Presidente Jorge Sampaio promulgou esta Lei, já com o governo de Santana Lopes demissionário. Caricato! Entretanto, neste limbo, chega novamente ao governo o Professor Mariano Gago que, em vez de impor a sua visão anterior, que era excelente, decide, literalmente, atirar o Museu MNCT, agora apelidado de Doutor Mário Silva, pela porta fora, de acordo com o Decreto-Lei nº 39/2006 de 21 de Abril. O MNCT é expulso, por este Decreto Lei, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, não se sabendo sequer onde foi integrado. Ouvimos agora dizer que vai ser extinto, herdando a Universidade de Coimbra o seu espólio. Ao fazer-se o funeral de um Museu Nacional, ainda por cima, dedicado à Ciência e à Técnica, é a Cultura Portuguesa que está de luto. A Universidade de Coimbra ficará a ganhar, mas Coimbra e Portugal ficam, com certeza, mais pobres. O Professor Mário Silva defendia precisamente o contrário. Um Museu Nacional para a coordenação e gestão integrada do património científico e técnico português! Incluindo os Museus das Universidades! É preciso dizer NÃO a mais capelinhas! Por exemplo, o espólio pertencente à Universidade de Coimbra é riquíssimo! Veja-se o caso do Museu Pombalino de Física. Único no mundo. Também ele obra de Mário Silva. Obra que lhe valeu do Estado Novo, em 1942, um louvor público, apesar de ser considerado inimigo público número um de Salazar. A Universidade manteve-o fechado e abandonado durante cerca de cinquenta anos (desde a sua expulsão em 1947 até 1997, provavelmente para apagarem a sua memória e, também, a da reforma pombalina!)! Onde estão os mecanismos do génio desaparecidos entretanto? Como pôde isto acontecer? Quem nos diz que não acontecerá no futuro? É certo que foi criado mais um Museu de Ciência na Universidade de Coimbra, com um cariz diferente do MNCT, complementando-o. Mas dada a riqueza existente, a Universidade, Coimbra e o país tinham obrigação de ter feito muitíssimo mais. Tenho que o dizer: trinta anos após Mário Silva, regredimos! É certo que o novo Espaço de Ciência está engraçado, é divertido, mas não se compara à obra que tinha sido deixada por Mário Silva, que era um verdadeiro Museu de Ciência. Porque pode ser muito educativo ter museus interactivos, onde as pessoas possam aprender ciência, brincando, experimentando. Sem dúvida! Mas estes nunca poderão tirar espaço aos verdadeiros Museus. Espaços que nos deixam boquiabertos com a capacidade criativa do homem. Se dizem o contrário, não sabem o que dizem. Nem nunca entraram num verdadeiro museu de ciência. Experimentem entrar, por exemplo, no Museu de Ciência de Londres (*) e de ter o prazer de, logo ali no seu "hall" de entrada, admirar o trem de aterragem de um Airbus A 340. E o que dizer do salão da energia, das grandes máquinas a vapor? O impacto que este tipo de objectos cria no nosso espirito, é único. Imaginem no das crianças. De facto, os ingleses conseguiram juntar estas duas vertentes num espaço imperdível.

O MNCT constitui um património de excelência que sempre foi desprezado por Coimbra. Por todos. Nunca souberam dar valor ao seu extenso e valioso espólio. Nunca souberam avaliar o MNCT porque, culturalmente, nunca tiveram capacidade para isso. Porque se tivessem, teriam querido continuar a excelente obra deixada por um velhinho de 76 anos, que ele próprio ergueu, com poucos recursos, em tempo recorde. É precisamente aqui que reside o problema português. O problema da mentalidade portuguesa. De quem nos governa e decide, ao nível local e nacional. Incapazes de ver além, de perceber o interesse e a importância deste tipo de bens para o ensino, para a educação e a cultura dos povos. Que visão bem diferente têm os decisores dos países nossos vizinhos. Ainda se dissessem que não havia de todo recursos para o fazer. Mas há! O problema é que por pura incompetência nunca souberam utilizá-los. Com tantos projectos europeus, com tantos recursos disponíveis! Ao não saber fazer, junta-se o não querer fazer. Veja-se o caso da França, por exemplo, que além do excelente Museu de Ciência em Paris, criaram ao norte uma verdadeira Cidade das Ciências, um hino à Ciência e à Industria. E o que dizer do Museu de Ciência de Londres? Porque não pode existir um Museu assim em Portugal, com sede na cidade de Coimbra? Se foi Coimbra a sede da primeira Universidade portuguesa? Estamos de facto nos antípodas. Somos de facto um povo atrasado e mesquinho que, a continuar a trilhar este caminho, jamais atingirá o nível dos países do centro e norte da Europa.
Bem-Hajam.

Com os meus melhores cumprimentos,
JP
_______________________________
NOTA FINAL: Este texto, tal como o anterior, são apenas um testemunho pessoal sobre uma instituição que, se tivesse sido acarinhada como merecia, poderia ter feito muito pela cultura científica em Portugal que, como sabemos, é muito pobre. É também a expressão de um sentimento de revolta pela incoerência das politicas. Não há um planeamento sério. Não há estratégia que ultrapasse uma legislatura. Para estudos mais aprofundados sobre este tema, nomeadamente sobre a história dos museus de ciência em Portugal, aconselho, por exemplo, o excelente trabalho de Ana Delicado intitulado "OS MUSEUS E A PROMOÇÃO DA CULTURA CIENTÍFICA EM PORTUGAL" in SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 51, 2006, pp. 53-72.
PS: Ambas as fotos foram retiradas do blogue centelha. Aqui ficam os nossos agradecimentos ao autor do blogue, Sérgio Namorado.

18/01/08

A Propósito do Museu Nacional da Ciência e da Técnica: A Razão de Ser do Estado Actual da Educação e da Cultura em Portugal (I)

Entrada do palacete Sacadura Bote, à rua dos Coutinhos, sede do MNCT. Onde deveria ser criada a Casa-Museu Mário Augusto da Silva.

Coisas que escrevi e aqui transcrevo. O texto que se segue foi escrito em Setembro de 2005. No entanto continua actual, razão porque decidi incluí-lo neste blogue. Ninguém sabe ainda o fim desta história… espero que melhor da que estava prevista na altura em que o texto foi escrito:

“Anunciam-nos que o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), com sede na cidade de Coimbra, foi oficialmente “enterrado” por Decreto-Lei. Aprovado em Conselho de Ministros em Setembro de 2004 o dito Decreto foi promulgado já com o Governo demissionário. Que linda iniciativa tiveram os nossos tão distintos governantes para comemorar, logo de início, o Ano Internacional da Física. O Professor Mário Augusto da Silva, seu criador, e um dos maiores Físicos portugueses do Século XX, é assim homenageado de forma exemplar. Só mesmo em Portugal.

Mas não espanta! Nada mesmo! Afinal faz todo o sentido! É que segundo relatórios recentes da OCDE sobre o estado da educação nos países da União Europeia, divulgados na semana passada, Portugal ocupa uma posição “honrorosíssima” no ranking divulgado por aquela Instituição. Há, portanto, que tudo fazer para manter a posição na tabela classificativa. Em contratar novos “avançados”, como se diz na giria do nosso quase tudo. E para isso, faz todo o sentido encerrarem-se instituições como o Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT) e enterrarem-se milhões no “OVNI” estacionado em S. José. Parece agora que o novo governo se prepara para vender o património e, já agora, o espólio. Que é riquíssimo. Ao contrário do que pensam dele os iluminados dos nossos responsáveis. A maior parte encontra-se abandonado pelos corredores e salas infindáveis do rés-do-chão do Antigo Colégio das Artes. Pois então, como bons portugueses, montem a tenda nos jardins do Palácio Sacadura Bote ou no pátio do Colégio, chamem o Zé da feira dos 23, que vende atoalhados como ninguém, convidem os ex-residentes da Quinta das Celebridades e do “Big-Brother”, e afins, e façam o leilão mais espalhafatoso do século!

Há uma falta de visão estratégica, de aposta na educação das futuras gerações, que é, simplesmente, confrangedora. Como queremos mudar o estado da educação em Portugal? Especialmente o relacionado com o ensino da Física e da Matemática? Fechando Museus que podiam ser o “click” para que muitos jovens adquirissem o “bichinho” por aquelas ciências fundamentais? E para quê? Para que, como bons merceeiros e comerciantes que somos, pouparmos, no imediato, uns euritos? Sim! Uns euritos!!! Sacrificando milhões que poderiam ser ganhos, de forma indirecta, no futuro? E, ao mesmo tempo, privar os nossos jovens de ter acesso à verdadeira educação e cultura que mereciam ter? Quem queremos formar? Físicos, matemáticos, engenheiros e bons politicos, ou fadistas, toureiros, futebolistas e palhaços?

Mas não devemos ter só em consideração o bem fazer educação e cultura. Temos também que falar em economia, neste caso, em Turismo. E Coimbra, neste contexto, terá muito a perder se deixar que o tal leilão aconteça. Coimbra, tem, felizmente, todas as condições para oferecer um turismo cultural de elevada qualidade. É provavelmente a cidade portuguesa que melhores condições oferece nesta área. O que falta é governantes autárquicos com mais visão, que possam exigir, ou melhor, que saibam exigir dos lobbies alfacinhas aquilo a que a cidade por direito tem, e que sempre lhe quiseram roubar. Que apostem na requalificação de instituições como o Museu Nacional da Ciência e da Técnica. Que ali ponham cientistas e técnicos, competentes e capazes, que façam dele o que o seu criador dele esperava. E isto nem sequer requer grande despesa. Requereria somente bom senso, visão e competência. Bastava, pelo que tenho visto, o dinheiro gasto nos panfletos da campanha autárquica que se avizinha para que se sustentasse o Museu durante muitos meses, se calhar anos. E a Universidade de Coimbra também teria que dar o seu contributo. Por exemplo, cedendo a título definitivo o espaço onde o espólio do actual Museu se encontra abandonado. São instalações onde se poderia criar um magnífico Museu. Refiro-me ao Antigo Colégio das Artes. Mas, uma coisa é certa. A cidade de Coimbra não pode deixar que lhe tirem o espólio e o património que é o MNCT. Que espaço museológico único não se poderia criar ali naquela zona, onde o futuro Museu da Universidade, a ser criado (obras de Santa Engrácia...), no Antigo Chimico, teria como vizinhos o Museu Pombalino de Física em frente (esperemos que as autoridades competentes não desfiram nova machadada no nosso património, retirando este Museu do espaço que, por direito próprio, ocupa actualmente), juntamente com o Museu de Zoologia e Mineralogia, e o Museu Nacional da Ciência e da Técnica ao lado. E diria mesmo mais. Que fantástico Museu da Ciência e da Técnica poderia ser criado em toda aquela zona, se exitissem responsáveis competentes e com visão que esquecessem as suas capelinhas, pequenininhas. Volta Pombal!

E assim, hoje, dois anos volvidos, continuamos à espera de uma resolução, solução, enterro… qualquer coisinha, enfim! Há uns anos atrás dizia que o Museu, já naquela altura, pálida imagem do que nos foi deixado pelo Prof. Mário Augusto da Silva, falecido em 1977, deveria ter mudado de nome para Museu da Vergonha Nacional. Que diferença com o que se passa lá fora! Por curiosidade veja-se, por exemplo,
O Museu de Ciência de Londres ou a Cidade das Ciências e da Indústria, em La Villette. Agora experimente visitar a página oficial do MUSEU NACIONAL DA CIÊNCIA E DA TÉCNICA , que encontraria após pesquisa no Google. QUE VERGONHA!


Mas a História far-se-á! E este blogue tentará contribuir para que a não branqueiem!

12/01/08

Estado de Espírito dos Professores Portugueses. Livre-nos Deus dos incultos que chegam ao poder. Platão nunca teve tanta razão!


À esquerda, alguém do Ministério da Educação e, à direita, alguém do mesmo ministério

O email que aqui transcrevo, recebido pela minha mulher que também é professora, é elucidativo:

"Quem não partilha da opinião desta Colega? Aqui vai a 'prosa' de uma colega nossa, que espelha o pensamento de cada um de nós. Por favor, passem ao maior número de pessoas possíveis. A esperança de que as coisas mudem, deve ser a última coisa a morrer...

Exma. Senhora Ministra da Educação (Maria de Lurdes Rodrigues)

Um dia destes colocaram, no placar da Sala dos Professores, uma lista dos nossos nomes com a nova posição na Carreira Docente. Fiquei a saber, Sr.ª Ministra, que para além de um novo escalão que inventou, sou, ao final de quinze anos de serviço, PROFESSORA! Sim, a minha nova categoria, Professora!

Que Querida! Obrigada!

E o que é que fui até agora? Quando, no meu quinto ano de escolaridade, comecei a ter Educação Física, escolhi o meu futuro. Queria ser aquela professora, era aquilo que eu queria fazer o resto da minha vida. Ensinar a brincar, impor regras com jogos, fazer entender que quando vestimos o colete da mesma cor lutamos pelos mesmos objectivos, independentemente de sermos ou não amigos, ciganos, pretos, más companhias, bons ou maus alunos. Compreender que ganhar ou perder é secundário desde que nos tenhamos esforçado por dar o nosso melhor. Aplicar tudo isto na vida quotidiana. Foi a suar que eu aprendi, tinha a certeza de que era assim que eu queria ensinar! Era nova, tinha sonhos...

O meu irmão, seis anos mais novo, fez o Mestrado e na folha de Agradecimentos da sua Tese escreve o facto de ter sido eu a encaminhá-lo para o ensino da Educação Física. Na altura fiquei orgulhosa! Agora, peço-te desculpa Mano, como me arrependo de te ter metido nisto, estou envergonhada! Há catorze anos, enquanto, segundo a Senhora D. Lurdes Rodrigues, ainda não era professora, participava em visitas de estudo, promovia acampamentos, fazia questão de ter equipas a treinar aos fins-de-semana, entre muitas outras coisas. Os alunos respeitavam-me, os meus colegas admiravam-me, os pais consultavam-me. E eu era feliz. Saía de casa para trabalhar onde gostava, para fazer o que sempre sonhara, para ensinar como tinha aprendido!

Agora, Sr.ª Ministra, agora que sou PROFESSORA, que sou obrigada a cumprir 35 horas de trabalho, agora que não tenho tempo nem dinheiro para educar os meus filhos. Agora, porque a Senhora resolveu mudar as regras a meio (Coisa que não se faz, nem aos alunos crianças!), estou a adaptar-me, não tenho outro remédio: Entrego os meus filhos a trabalhadores revoltados na esperança que façam com eles o que eu tento fazer com os deles. Agora que me intitula PROFESSORA eu não ensino a lançar ao cesto ou a rematar com precisão à baliza, não chego, sequer a vestir-lhes os coletes. Passo aulas inteiras a tentar que formem fila ou uma roda, a ensinar que enquanto um 'burro' mais velho fala os outros devem, pelo menos, nessa altura, estar calados. Passo o tempo útil de uma aula prática a mandar deitar as pastilhas elásticas fora (o que não deixa> de ser prática) e a explicar-lhes que quando eu queria dizer por deitar fora a pastilha não era para a cuspirem no chão do Pavilhão. E aqueles que se recusam a deitá-la fora porque ainda não perdeu o sabor? (Coitados, afinal acabaram de gastar o dinheiro no bar que fica em frente à Escola para tirarem o cheiro do cigarro que o mesmo bar lhes vendeu e nunca ninguém lhes explicou o perigo que há ao mascar uma pastilha enquanto praticam exercício físico). E os que não tomam banho? E os que roubam ou agridem os colegas no balneário? Falta disciplinar? Desculpe, não marco ! O aluno faz a asneira, e eu é que sou castigada? Tenho que escrever a participação ao Director de Turma, tenho que reunir depois das aulas (e quem fica com os meus filhos?). Já percebeu a burocracia a que nos obriga? Já viu o tempo que demora a dar o castigo ao aluno? No seu tempo não lhe fez bem o estalo na hora certa? Desculpe mas não me parece! Pois eu agradeço todos os que levei! Mas isto é apenas um desabafo, gosto de falar, discutir, argumentar com quem está no terreno e percebe, minimamente do que se fala, o que não é, com toda a certeza, o seu caso. Bastava-lhe uma hora com o meu 5ºC. Uma hora! E eu não precisava de ter escrito tanto! E a minha Ministra (Não votei mas deram-ma. Como a médica de família, que detesto, mas que, também, me saiu na rifa e à qual devo estar agradecida porque há quem nem médico de família tenha - outro assunto) entendia porque não conseguirei trabalhar até aos 65 anos, porque é injusto o que ganho e o que congelou, porque pode sair a sexta e até a sétima versão do ECD que eu nunca fui nem serei tão boa professora como era antes de mo chamar!

Lamento profundamente a verdade!

ALP
Viana do Castelo"
É por estas e por outras que eu resolvi criar este blogue. Leia a minha primeira mensagem.
JP

Momento Social Actual - Janeiro de 2008


Primeiro desabafo, à procura da felicidade...
Um dia destes falarei um pouco sobre Natureza naturada e naturante, claro, e na procura da felicidade, como fez Espinosa. Como engenheiro que sou de formação, tem tudo a ver. Hoje, neste primeiro “post”, só quero deixar-vos o leitmotiv deste blogue. Será essencialmente de intervenção e falaremos de tudo o que a nossa realidade apercebe.

O natureza naturada pretende ser um espaço de discussão aberto a todos os inconformados com o status quo da sociedade actual. Vivemos num mundo complexo, onde a necessidade de lutar contra o Big Brother é cada vez mais importante e necessária.

Irmãos! Acordem! Não desistam! Não se acomodem! Ergam as vossas vozes bem alto e digam: BASTA! Basta de mentiras! Basta de hipocrisias!

Não enterrem os ideais pelos quais os nossos antepassados tão arduamente lutaram. Não acreditem no Fim da História, como se a pseudo-democracia, vivida na nossa Civilização Ocidental fosse o ideal político final. Não é. Há-de certamente progredir. À Civilização Ocidental seguir-se-ão outras, provavelmente a Civilização Chinesa, tal como à Grega se seguiu a Romana e assim sucessivamente. A dialética não morreu, não senhor!

Quem pensam que são os nossos politiqueiros actuais? Que ideais podem comandar homens que, dizendo-se defensores da social-democracia ou do socialismo democrático, nos impingem as regras mais aberrantes do capitalismo mais selvagem? Fazendo corar o mais liberal dos capitalistas, o mais fanático dos especuladores financeiros. Em nome de uma globalização sem rosto, de uma globalização que só interessa a multinacionais gananciosas e a políticos corruptos. Que tendo o poder do dinheiro, tudo têm corrompido. Destroem o planeta, sugam-lhe sangue em busca do lucro pelo lucro. Dinheiro pelo dinheiro. Estão acima de tudo. Não têm rosto. Manipulam tudo. Em nome de quê se fecham escolas e maternidades? Em nome de quê se amordaça a educação, se humilham professores, ditando regras que nem no tempo do Deus, Pátria e Família existiam? Que justiça é esta onde o comum dos cidadãos a ela não tem direito? Que só serve para prender criminosos pobres, sejam eles de que tipo for, para salvaguardar os interesses dos criminosos ricos? E a única coisa que estes senhores sabem dizer é que o deficit está alto e que é preciso reduzi-lo? À custa do funcionário comum a quem pagam salários miseráveis? À custa do agricultor esmagado pelos preços de miséria pagos pelos distribuidores, que enriquecem cada vez mais à custa deles? Nunca houve tanto dinheiro e tanto ladrão ao mesmo tempo. Os bancos e as seguradoras estão mais gordos do que nunca. Têm lucros astronómicos. Pagam taxas sobre mais-valias ridículas. Vergonhosas até. E os piores exemplos vêm precisamente dos que se dizem ser públicos. Público? Só se for púbico. Ou não será de uma corja de administradores e dirigentes lá colocados para pagamento de favores políticos? Só fazendo créditos e favores aos amigalhaços. E as multas e os impostos que hoje sufocam o cidadão comum? Calculam-se as coimas com base nas luvas chorudas que os políticos corruptos recebem? As finanças só perseguem os cidadãos honestos que normalmente pagam os seus impostos? Trata-se por senhor doutor o larápio que mais deve ao estado? Olha-se de lado o funcionário honesto por conta de outrem, que já não sabe como pagar as suas contas e faz das tripas coração para sustentar a família, quando desesperado se endivida cada vez mais junto da banca ladra? E as taxas de IMI? Quem pode ter casa? Quem pode pagar os valores que estão a ser impostos? Que fazem estes senhores com tanto dinheiro, dizendo sempre que não há dinheiro? Na minha casa ainda não passa saneamento básico e tenho que pagar taxas como se passasse? E como posso eu pagar quase 100 euros por mês de IMI? Afinal, de quem é a minha casa? Isto tudo para financiar campanhas de autarcas que só para lá vão para se servirem do estado? Facilitando licenças de construção e manipulando planos directores, manobrando os terrenos urbanos e rurais a seu belo prazer? E continuamos a ter que gramar com o caos urbanístico imposto por estes senhores? E para que pagamos afinal os impostos? Se depois temos que pagar a educação e a saúde, não tendo sequer hipóteses de entrar num tribunal? E para quê entrar lá se as leis estão feitas para enriquecer os doutores ladrões e os advogados e juízes corruptos? E os incêndios no verão, postos, para que com eles se façam negociatas? Meu Deus, para aonde vamos?

Podíamos continuar o rol de queixas. São tantas. Intermináveis. Por isso o meu e, provavelmente, o vosso desespero. Íamo-nos rindo com os gato fedorento. Pedrada no charco, não era? Que mais fazer não é? Mas a questão é muito séria. Já alguma vez se perguntaram porque caíu afinal a I República? Não fosse a UE e não sei o que seria de nós...

Só podemos concluir que a nossa classe política está, salvo raras excepções, corrompida. Da esquerda à direita. Nada parece aproveitar-se. Estão todos gordos. Bem na vida. Para quê chatearem-se? É mais fácil fechar os olhos! Onde estão os sindicatos? Que fazem eles? Como podem suportar tudo e calarem-se? Com um silêncio ensurdecedor! Que vergonha! Temos que dar os parabéns aos argumentistas americanos que iniciaram a greve nos Estados Unidos! Sim Senhor! Há já 2 meses? Porque não são assim unidos os nossos professores?

REAJAM!

Eu não me conformo!
Em baixo a corrupção que nos assola nos dias de hoje na perspectiva dos Gato Fedorento. Tratam-se das considerações do "major" Ezequiel Valadas, presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova da Rabona. Há muito que não se via humorismo de intervenção de qualidade em Portugal. 5 estrelas: